sábado, 14 de outubro de 2017

“MUITOS SÃO CHAMADOS, E POUCOS SÃO ESCOLHIDOS”. (Mt 22,14).

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

“MUITOS SÃO CHAMADOS, E POUCOS SÃO ESCOLHIDOS”. (Mt 22,14).

Resultado de imagem para PARÁBOLA DO CASAMENTO DO FILHO DO REI

Diácono Milton Restivo.

As leituras das liturgias dominicais anteriores falavam da vinha do Senhor.
Depois de três domingos consecutivos falando dos cuidados de Yahweh para com a sua vinha, símbolo do seu povo, a liturgia de hoje convida a todos para o banquete que ele oferece.
A primeira leitura fala do banquete oferecido por Yahweh a todos os povos e, no Evangelho, o Pai convida para o banquete da festa de casamento de seu filho. Não é um casamento que todos estão acostumados a participar. É um casamento importante: o casamento do filho do rei, para o qual o Rei convida todos os povos. De trabalhadores da vinha, de simples operários, o Senhor, torna todos seus convivas, e convida a todos para o banquete do casamento do seu Filho.
Na primeira leitura o profeta Isaias projeta-se para o futuro com uma linguagem apocalíptica e descreve um banquete de raras iguarias que Yahweh promoverá para todos os povos: “Yahweh dos exércitos vai preparar no alto deste monte, para todos os povos do mundo, um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos finos, de carnes suculentas, de vinhos refinados.” (Is 25,6).
O profeta Isaías é exímio em tirar partido dos sinais dos tempos. É um dos maiores teólogos da história. Fala através de símbolos e metáforas com uma carga emotiva e apela­tiva muito profunda. O estilo é clássico e nobre. O povo israelita encontrava-se exilado e escravizado nas terras de Babilônia. Através da literatura apocalíptica, Isaias tenta restabelecer a debilitada auto-estima do povo e a confiança de todos em Yahweh. 
     A literatura apocalíptica, tanto do Antigo como do Novo Testamento, é sempre uma mensagem de esperança, como é visto no próprio livro do Apocalipse: “Aquele que está sentado no trono, declarou: ‘Eis que faço nova todas as coisas. [...]  Para quem tiver sede, eu darei de graça a fonte da água viva. O vencedor receberá esta herança: eu serei o Deus dele, e ele será meu filho.” (Apo 21,5.6-7), coisa que Yahweh falara por Isaias há mais de setecentos anos antes: “Não fiquem lembrando o passado, não pensem nas coisas antigas; vejam que estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora, e vocês não percebem? Abrirei um caminho no deserto, rios em lugar seco. As feras me glorificarão, como os lobos e avestruzes, porque eu oferecerei água no deserto e rios na terra seca para matar a sede do meu povo, do meu escolhido, o povo que eu formei para mim, para que proclame o meu louvor.” (Is 43,18-19).
Da mesma maneira que o povo israelita, no Antigo Testamento, estava sendo escravizado pelos babilônios no tempo de Isaias, quando foi escrito o Apocalipse, no Novo Testamento, o povo judeu estava sendo subjugado pelos romanos. Em ambas as situações a mensagem é de esperança porque, todas as mensagens apocalípticas são de esperança.
Paulo, aos corintios, escreveu: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; eis que uma realidade nova apareceu.” (2Cor 5,17). É esta a mensagem que o profeta Isaias quer deixar clara para todos, no século XXI, que têm a experiência do Antigo Testamento e a adesão total ao Novo Testamento.
Isaias continua na sua visão apocalíptica: “Neste monte, Yahweh arrancará o véu que cobre todos os povos, a cortina que esconde todas as nações; ele destruirá para sempre a morte. O Senhor Yahweh enxugará as lágrimas de todas as faces, e eliminará da terra inteira a vergonha de seu povo – porque foi Yahweh quem falou.” (Is 25,7-8). “No dia em que Yahweh enfaixar as feridas do seu povo e lhe curar as chagas, a lua vai brilhar como o sol, e o brilho do sol será sete vezes maior, como o brilho de sete dias reunidos.” (Is 30,26).
O livro do Apocalipse também conforta o povo perseguido, seguindo a linha de Isaias: “Ele vai enxugar toda lágrima dos olhos deles, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem grito de dor. Sim, as coisas antigas desapareceram.” (Apo 21,4).
A humilhação, a morte, a escravidão, o sofrimento, as lágrimas, são coisas do passado. O Reino de Yahweh vai se realizando, paulatinamente, a caminho do Reino definitivo. O povo, que tem Yahweh como seu rei, é feliz, conforme diz o salmista: “Feliz a nação cujo Deus é Yahweh, o povo que ele escolheu como herança.” (Sl 33 (32),12). Esse povo irá livrar-se, gradualmente, da opressão que o aflige e da tristeza que o abate: “... ele destruirá para sempre a morte. O Senhor Yahweh enxugará as lágrimas de todas as faces, e eliminará da terra inteira a vergonha de seu povo...” (Is 25,7-8); “Povo de Sião que mora em Jerusalém, você não terá mais que chorar, pois ele vai se compadecer do clamor da sua súplica.” (Is 30,19).
O interessante é que, no livro do Apocalipse, os versículos 7 e 8 do capítulo 21 apresentam um contraste entre si: o vencedor receberá a herança, os infiéis o lago ardente de fogo e enxofre: “O vencedor receberá esta herança: eu serei o Deus dele, e ele será meu filho. Quanto aos covardes, infiéis, corruptos, assassinos, imorais, feiticeiros, idólatras, e todos os mentirosos, o lugar deles é o lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte. ” (Apo 21,7-8).
Da mesma forma, no último capítulo e últimos versículos do livro de Isaias, são destacados os destinos de cada um: dos bons que aderiram a Yahweh, que aceitaram participar do seu banquete, e dos maus, que o ignoraram: “Da mesma forma como durarão para sempre diante de mim os novos céus e a nova terra, que criei – oráculo de Yahweh -, assim também durarão o povo e o nome de vocês. Cada lua nova e cada sábado, todo mundo virá prostrar-se na minha presença, diz Yahweh. Ao sair eles verão os cadáveres daqueles que se revoltaram contra mim, porque o verme que os corroi não morre jamais e o fogo que os consome jamais se apaga. Eles serão um horror para o mundo inteiro.” (Is 66,22-24).
O Salmo desta liturgia transmite o cuidado e o amor que Yahweh tem para com o seu povo e o salmista, manifestando os anseios de toda a humanidade, chama a Yahweh de seu pastor, colocando nele toda a sua confiança e segurança: “Yahweh é meu pastor. Nada me falta. [...] Ele me guia por bons caminhos, por causa do seu nome.” (Sl 22,1.3).
O título de pastor, nas Sagradas Escrituras, é dado a todos aqueles que representam Deus no meio do povo e que deveriam levar o povo ao banquete oferecido pelo Senhor: reis, sacerdotes, mandatários governamentais, etc. Mas, muitos usam mal essa prerrogativa e fazem de sua missão divina de pastor, motivo de opressão, corrupção e descaminho para o povo de Deus. O que deveria ser imagem de proteção e segurança, muitas vezes transforma-se em exploração e opressão, e ai a figura do mau pastor se destaca, passando a ser ladrão, assaltante e mercenário (cf Jo 10,12-13) isto é, fazem da missão sagrada de pastor um meio de sobrevivência e proveito próprio.
A figura de banquete, almoços e jantares nos Evangelhos é muito frequente, e Jesus jamais se fez de rogado para participar quando era convidado. Assim aconteceu na casa de Mateus (Mt 9,9-18; Mc 2,13-14; Lc 5,27-32), na casa de Zaqueu (Lc 19,1-10), na casa dos irmãos Marta, Lázaro e Maria (Lc 10,38-42; Jo 12,1-8); na casa de Simão, o leproso (Lc 7,36-50); na ceia com os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35).
Para mostrar o grande amor que o Pai tem por seus filhos, as Sagradas Escrituras o mostram como aquele que oferece banquetes aos seus filhos amados. Só são convidadas para um banquete ou para um casamento pessoas do próprio relacionamento, pessoas íntimas, pessoas amadas.
Jesus usa, de maneira escatológica, a imagem de casamentos, como o caso desta parábola de Mateus 22,2-14 e Lucas 14,7-14 e banquetes, também, como no caso de Lucas 14,16-24 e 16,19-31.
E Jesus volta a falar, incriminando as autoridades religiosas dos judeus através de parábolas.
Depois de contar várias parábolas sobre vinha, que se referia ao povo de Israel e que as autoridades religiosas judaicas eram omissas nos cuidados dessa vinha, Jesus novamente se dirige a eles, dizendo de maneira metafórica, como já havia dito antes que “Por isso eu digo a vocês: o Reino de Deus será tirado de vocês e entregue a um povo que produzirá frutos.” (Mt 21,43).
Jesus inicia a parábola dizendo: “O Reino do Céu é como um rei que preparou a festa de casamento do seu filho.” (Mt 22,2).
Jesus viera propagar o Reino do Céu, e começa sua vida pública, dizendo: “Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo”. (Mt 3,2; Mc 1,15).
O Rei deste Reino é o Pai; o filho do Rei e noivo do casamento é Jesus Cristo. A noiva é a Igreja, a vinha que será tirada dos judeus e “entregue a um povo que produzirá frutos”. Os empregados são os apóstolos e discípulos fiéis ao noivo. Os convidados são todos os demais que o Pai ama: “Falem aos convidados que eu já preparei o banquete, os bois e animais gordos já foram abatidos, e tudo está pronto. Que venham para a festa.” (Mt 22,4).
Este convite foi feito, em primeira instância, ao povo do Antigo Testamento. Hoje é feito para o povo do Novo Testamento. Mas, os convidados do Antigo Testamento “não deram a menor atenção; um foi para o seu campo, outro foi fazer os seus negócios, e outros agarraram os empregados, bateram neles, e os mataram.” (Mt 22,5).
Os profetas do Antigo Testamento foram perseguidos, agredidos e mortos por levar o convite desse banquete ao povo. E o que aconteceu com os apóstolos e muitos dos demais empregados do Novo Testamento que tentaram e tentam levar o convite do Rei para participar do seu banquete?
Aqui está um testemunho do próprio Apóstolo Paulo a respeito do que aconteceu com ele por tentar levar o convite do Rei aos convidados: “São ministros de Cristo? Falo como louco: eu o sou muito mais. Muito mais pelas fadigas; muito mais pelas prisões; infinitamente mais pelos açoites; frequentemente em perigo de morte; dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um. Fui flagelado três vezes; uma vez fui apedrejado; três vezes naufraguei; passei um dia e uma noite em alto mar. Fiz muitas viagens. Sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladrões, perigos por parte de meus irmãos de raça, perigo por parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos por parte dos falsos irmãos.” (2Cor 11,22-26).
E qual foi o fim de Paulo? Perdeu a cabeça, literalmente; foi decapitado por convidar a todos para participar do banquete que o Rei oferecia. E o fim de Pedro? Crucificado, e de cabeça para baixo por ser o mensageiro do convite do Pai para o grande banquete. E o fim dos demais apóstolos? E o fim da irmã Dóroty lá na Amazônia?
O Pai é generoso e amigo. O banquete está à mesa. A festa de casamento está acontecendo. O noivo aguarda a presença e a manifestação de amizade de todos os convidados.
Mas, “são muitos os chamados, mas poucos os escolhidos”. (Mt 22,14). Cada um tem o seu afazer: uns foram para o seu campo, outro foi fazer o seu negócio” (Mt 22,5b), outros não podem perder a novela ou o jogo de futebol, outros tem que pescar, outros têm que desfrutar do carro novo.
Motivos para não participar do banquete têm muitos e muitas vezes nem precisam ser procurados. Mas os convidados não aparecem para o banquete que o rei oferece. Muito pelo contrário: irritados com a insistência dos mensageiros do rei, “agarraram os empregados, bateram neles, e os mataram.” (Mt 22,5).
Lucas, no seu Evangelho, ao narrar esse fato é mais detalhista e apresenta assim as desculpas de não participar do banquete de casamento: “O primeiro disse: ‘comprei um campo e preciso vê-lo. Peço-lhe que aceite minhas desculpas’. Outro disse: ‘Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-las. Peço-lhe que aceite minhas desculpas’. Um terceiro disse: ‘Acabo de me casar e, por isso, não posso ir’.” (Lc 14, 18-20).
O rei sente na alma a recusa dos primeiros convidados, mas não desiste. Sente que “a festa do casamento está pronta, mas os convidados não a mereceram”. (Mt 22,8). Mas o banquete não pode ser suspenso, tem que acontecer.
No Evangelho de Lucas o banquete é estendido, de modo especial, para “os pobres, aleijados, os cegos e os mancos”. (Lc 14,11); o rei manda vir para o seu banquete os marginalizados, os descamisados, os descalços, os discriminados, aqueles que ninguém gostaria de ter como companhia num banquete, numa festa de casamento, ou na sua casa: é o povo das bem aventuranças. O povo do Antigo Testamento rejeitou o banquete do rei, mas o rei busca no povo das bem aventuranças seus novos convidados, mas, para pertencer ao povo das bem aventuranças, há a necessidade de estar vestido com o traje de festa (cf Mt 22,11). São exigências indispensáveis, para participar deste banquete “deixar de viver como viviam antes, como homem velho que se corrompe com paixões enganadoras. É preciso que se renovem pela transformação espiritual da inteligência, e se revistam do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade que vêm da verdade.” (Ef 4,22-24). Fica claro que a roupa de festa exigida pelo anfitrião, por Deus, é a roupa da graça, a roupa da justiça, a roupa do amor, a roupa da fraternidade, a roupa “do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade que vêm da verdade.”
A veste de festa, a veste nupcial, é o próprio Cristo: “Mas vistam-se do Senhor Jesus Cristo, e não sigam os desejos dos instintos egoístas.” (Rm 13,14). “A finalidade desta ordem é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem hipocrisia.” (1Tm 1,5).
Acontece que, “quando o rei entrou para ver os convidados, viu aí um homem que não usava roupa de festa.” (Mt 22,11). O rei mostra-se indignado pelo convidado ter desprezado a roupa que ele mesmo lhe oferecera e facilitara para participar do seu banquete, e pergunta-lhe: “Amigo, como você entrou aqui sem a roupa de festa?” (Mt 22,12a). O convidado foi surpreendido e ficou surpreso, porque julgava que poderia viver a vida que quisesse e usar a vestimenta que julgasse fosse do seu gosto e não da aceitação do dono da festa: a roupa do descompromisso, a roupa da ausência da justiça, do amor, da fraternidade, a roupa suja do pecado. Com a reprimenda do rei, o anfitrião, o convidado “ficou mudo”, porque, quem não vive a vida de Deus não tem argumento para refutar a exigência do rei que exige vida digna para os seus convidados.
“Então o rei ordenou aos que serviam: ‘Amarrem as mãos e os pés dele, e o atirem fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes.” (Mt 22,13).
O Pai continua a oferecer o banquete através da Eucaristia... Para participarmos do banquete da Eucaristia que o rei nos oferece, há necessidade de estarmos vestidos à caráter para a ocasião: precisamos estar vestidos com a roupa da graça, a roupa da justiça, a roupa do amor, a roupa da fraternidade...
Muitas vezes, para participar da Eucaristia, da Missa, que é o banquete por excelência que o Pai oferece, sempre aparece aquela visita, aquele trabalho a ser acabado, preparar a comida, afinal das contas, o banquete do Pai pode esperar, os afazeres e diversões não...
Essa é a grande verdade: passa-se a vida preocupado com os mil pequenos afazeres que devem ser feitos e não se encontra tempo para as coisas que enaltecem, enobrecem, divinizam o homem: a participação no banquete que o Pai oferece... a Eucaristia...
Como podemos trocar de roupa e colocar a veste para participar dignamente do banquete? Vistamos a roupa da graça, do amor, da fraternidade, do perdão, da humildade...
A frase final da parábola deixa claro as consequências dos que rejeitam o banquete do Pai ou que não vestem os trajes de festa: “Amarrem os pés e as mãos desse homem, e o joguem fora na escuridão. Ai haverá choro e ranger de dentes.” (Mt 22,13).

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