sábado, 30 de setembro de 2017

“OS COBRADORES DE IMPOSTOS E AS PROSTITUTAS VÃO ENTRAR ANTES DE VOCÊS NO REINO DOS CÉUS”. (Mt 21,31).

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM

“OS COBRADORES DE IMPOSTOS E AS PROSTITUTAS VÃO ENTRAR ANTES DE VOCÊS NO REINO DOS CÉUS”. (Mt 21,31).

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Diácono Milton Restivo

A primeira leitura da liturgia de hoje traz o profeta Ezequiel.
Ezequiel era de família sacerdotal, filho de Buzi, o sacerdote. Ezequiel mesmo foi sacerdote.
Os sacerdotes iniciavam seu serviço no templo aos trinta anos. Mas, no ano em que Ezequiel fez trinta anos se encontrava no cativeiro babilônico (Ez 1,1), a cerca de 1100 quilômetros distante do templo de Jerusalém.
O profeta viveu entre os exilados. Sua profecia foi formulada em meio às pessoas deportadas para as terras estranhas da Babilônia.
Pouco se sabe de sua vida antes do chamado para o ministério profético. Seu nome significa “Deus fortalece”, o que lembra sua obra de conforto e incentivo aos exilados.
Ezequiel era casado, mas sua esposa morreu durante o cativeiro (Ez 24,15-18).
Como Ezequiel contém mais datas que qualquer outro livro profético do Antigo Testamento, suas profecias podem ser datadas com considerável precisão.
Seu período de atividade coincide com o momento tenebroso de Jerusalém e antecede em sete anos a sua destruição, em 586 aC, continuando por mais quinze anos após essa data.
O profeta se identificava com sua mensagem: ele sofreu no próprio corpo as consequências de representar Deus diante do seu povo, e de representar a nação sob o julgamento de Deus. Em seu livro Ezequiel faz uso de muitas parábolas. O Senhor chamou Ezequiel pelo título de “Filho do Homem”, que Jesus iria designar-se a si próprio com esse título. Yahweh chama Ezequiel de “Filho do Homem” umas noventa vezes no seu livro.
      Só há uma ocorrência dessa expressão em outro livro do Antigo Testamento, que é em Daniel (Dn 8,17). Esse título é empregado para enfatizar a humanidade do mensageiro comparado a origem divina da mensagem. A última data registrada no livro (26 de abril de 571 aC, em Ez 29,17) demonstra que o ministério de Ezequiel compreendeu pelo menos vinte e três anos. As circunstâncias de sua morte são desconhecidas.
Na oportunidade da leitura desta liturgia, Ezequiel dirige-se ao grupo de israelitas que está exilado na Babilônia. O capítulo 18 todo é uma exortação de Ezequiel a esse grupo.
No entender dos israelitas exilados, o castigo que eles estavam sendo submetidos era consequência dos erros dos seus pais ou das gerações anteriores. Segundo o rodapé da Bíblia Edição Pastoral, Ezequiel, a princípio, não aceita essa concepção e procura demonstrar o seguinte: cada pessoa e cada geração são responsáveis por sua conduta, tanto em nível individual como em nível coletivo. Cada pessoa e cada geração têm a possibilidade de se converter, mudando completamente a orientação da própria vida. Embora a culpa seja das gerações anteriores, aquela que sofre as consequências deverá tomar posição e mudar o rumo dos acontecimentos.
Na passagem da leitura desta liturgia, Ezequiel mostra que o povo não aceitava o castigo que lhe era imposto, e esse povo contesta: “A maneira do Senhor agir não é justa” (Ex 18,25) e Ezequiel convoca o povo à conversão: “Quando o injusto renuncia à sua injustiça e começa a praticar o direito e a justiça, ele está salvando a própria vida. Se ele perceber todo mal que vinha praticando, viverá e não morrerá” (Ez 18,27-28).    
O Salmo 24 é atribuído a Davi. Este Salmo era um cântico que deveria ser entoado pelos judeus e rezado nos primeiros dias da semana (para nós, o domingo). É um cântico de extrema confiança em Yahweh para que o fiel fosse livre dos inimigos e que seus inimigos fossem envergonhados. É uma entrega nas mãos de Yahweh pedindo luz e segurança na sua caminhada: “Mostra-me os teus caminhos, Yahweh, ensina-me as tuas veredas. Guia-me com tua verdade. Ensina-me, pois tu és o meu Deus salvador, e em ti espero o dia todo” (Sl 24,4-5). Mais tarde Yahweh responderia a essa súplica na pessoa de Jesus, que se autodenominou o caminho, a verdade e a vida: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).
Em situação de extrema solidão e sentimento de abandono deplorável, o fiel clama por libertação: “Volta-te para mim, tem piedade de mim, pois estou solitário e infeliz. Alivia as angústias do meu coração, tira-me das minhas aflições. Olha a minha fadiga e miséria, e perdoa os meus pecados todos” (Sl 24,16-18) e Yahweh responde na pessoa de Jesus: “Venham para mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso. Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas vidas. Porque a minha carga é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,28-30).
Na segunda leitura Paulo escreve aos filipenses exortando para que essa comunidade evite as divisões causadas pelo espírito de competição, pela busca de elogios por terem feito apenas as suas obrigações e pelo desejo de realizarem os seus próprios interesses em detrimento ao interesse da comunidade e que procurem seguir os ensinamentos e atitudes de Jesus Cristo: “Não façam nada por competição ou por desejo de receber elogios, mas opor humildade, cada um considerando os outros superiores a si mesmo. Que cada um procure, não o próprio interesse, mas o interesse dos outros. Tenham em vocês mesmos sentimentos que haviam em Jesus Cristo” (Fl 2,3-5).
Na sequência Paulo cita um hino de louvor e reconhecimento da atitude e da missão de Jesus Cristo, mostrando qual é o verdadeiro Evangelho que deve ser seguido: o Evangelho da Cruz, porque nesse Evangelho Jesus é o modelo da humildade: “Assim apresentou-se como um simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 27b-8).
Paulo insiste que Jesus serviu até o fim como servo sem abdicar sua condição divina, morreu na cruz como se fosse um criminoso: “Ele tinha a condição divina, mas não se apegou a sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,6-7). Por isso Deus o ressuscitou dos mortos e o colocou no posto mais elevado que possa existir, como Senhor do universo e da história: “Por isso, Deus o exaltou grandemente, e lhe deu o Nome que está acima de qualquer outro nome” (Fl 2,9).
Finalizando, Paulo convida a todos a reconhecer a ação salvadora de Jesus e seu sacrifício supremo, acreditando fielmente que Jesus é o Senhor: “Para que ao nome de Jesus, se dobre todo joelho no céu, na terra e sob a terra; e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fl 2,10-11).
No Evangelho da liturgia do domingo passado Jesus contou a parábola do patrão que saiu para contratar empregados para trabalhar em sua vinha (Mt 20,1-16) e terminou dizendo que: “Os últimos serão os primeiros e os primeiros os últimos”. (Mt 20,16).
Na liturgia deste domingo Jesus conta uma nova parábola, a dos dois filhos, o que aparenta ser obediente e cumpridor das leis da casa, mas que, quando solicitado pelo pai para algum compromisso, diz que vai, mas não vai, e o que não é tão obediente ao pai e cumpridor das leis da casa e quando é convocado para um compromisso, diz que não faz, mas faz. E Jesus faz uma afirmativa surpreendente e até contestadora, dizendo que os considerados como sendo os maiores pecadores e não cumpridores da lei entre os judeus, os cobradores de impostos e prostitutas, aqueles que não são tão afetos a serem cumpridores de leis, normas e exigências da sociedade, teriam precedência no céu e lá entrariam antes que aqueles que se julgavam santos e cumpridores da lei, os intocáveis: “Os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu” (Mt 21,32b). Realmente, Jesus veio para inverter conceitos de moralidade e destruir preconceitos daqueles que queriam impor a Deus quem deveria ser salvo e quem não.
Em ambas as parábolas, Jesus estava em discussão com as autoridades judias e em ambas as parábolas Jesus deixa claro que Deus não se deixa levar por aqueles que julgam que, apenas cumprindo a Lei já haviam comprado a passagem para o céu. Nesta oportunidade “enquanto Jesus ensinava (o povo), os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram e perguntaram: ‘Com que autoridade fazes estas coisas? Quem foi que te deu esta autoridade?’” (Mt 21,23).
Os chefes dos sacerdotes eram os saduceus, que eram os latifundiários, a classe rica entre os judeus, e os anciãos do povo eram os fariseus, aqueles que julgavam que sabiam tudo de Deus e da Lei de Moisés e recriminavam o povo por não ser “tão santos” como eles se julgavam ser, e foram eles que receberam essa dura reprimenda por parte de Jesus: “Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês fecham o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram nem deixam entrar aqueles que desejam. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês exploram as viúvas, e roubam suas casas e, para disfarçar, fazem longas orações! Por isso vocês vão receber um a condenação mais severa. [...] Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas. Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão. Assim também vocês: Por fora parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça. [...] Serpentes, raça de cobras venenosas! Como é que vocês poderiam escapar da condenação do inferno?” (Mt 23,13-14.27-28.33).
Existiriam pessoas assim na Igreja de Jesus Cristo hoje? Infelizmente sim, existem. E conhecemos tantas. São os filhos que se dizem bons, que se julgam santos, que fazem de conta que cumprem à risca todos os mandamentos e imposições da lei, e isso a título apenas de desencargo de consciência, mas quando são chamados para uma missão a mando do Pai, dizem que irão fazer, fingem que fazem, enganam os outros e a si próprios, como disse Jesus aos fariseus e doutores da Lei: “Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão. Assim também vocês: Por fora parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e injustiça”. Foi isso que aconteceu ao jovem rico, que era cumpridor ferrenho da Lei e dos Mandamentos, mas quando chamado por Jesus para uma vocação radical, “o jovem foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico” (Mt 19,22).
Pessoas das missas domingueiras, da Eucaristia a cada missa que participam, dos louvores e palmas nos grupos de orações, mas quando são solicitados pelo Pai para ajudá-lo a cuidar a messe, dizem que vão, mas se omitem... Esses são aqueles de quem Jesus disse: “Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: ‘Nunca os vi. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal’” (Mt 7,22-23).  São os fariseus dos nossos dias...
Em compensação, muitos que vivem discriminados porque não vivem como nós vivemos ou como gostaríamos que vivessem, que aos nossos olhos jamais alcançariam a misericórdia do Pai, como era considerado o povo pelos fariseus no tempo de Jesus, que diziam a respeito do povo: “Esse povinho que não conhece a Lei, é maldito” (Jo 7,49), como dizemos nós, hoje de quem não vive a vida que vivemos ou não frequenta a nossa igreja. A esses, que são os filhos a quem o Pai chama para um compromisso, que a princípio dizem não, mas que reconsideram, e vão, a esses Jesus dá a esperança da misericórdia do Pai, enquanto aos que se julgam santos e cumpridores da Lei, Jesus dirá: “Nunca os vi. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal”.
Quantos vivem cumprindo a Lei, mas não vivem o amor. Exemplo disso temos nas nossas cidades, onde casas e mansões são cercadas de muros altos, grades intransponíveis, sistema de segurança infalível; pessoas que têm tudo, todos os bens materiais e vivem num conforto invejável a reis e rainhas, mas que estão isolados do mundo e sem contato com o irmão e são pobres em afeto, calor humano e colaboração fraterna, enquanto que, nas casas de periferia os muros não são tão altos e nas favelas nem muro tem e as pessoas vivem numa fraternidade de dar inveja aos grandes santos, socorrendo-se mutuamente e dividindo tudo o que tem.
A esses Jesus dirá um dia: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram. [...] O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram'.” (Mt 25,34-37.40). Para aqueles outros, Jesus dirá: '”Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Pois eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber; fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram'. Eles também responderão: 'Senhor, quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou enfermo ou preso, e não te ajudamos?' Ele responderá: 'Digo a verdade: O que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo'. "E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna". (Mt 25,41-46).
Será que entendemos porque Jesus disse: “Os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino dos Céus?” 

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