sábado, 6 de outubro de 2012

“O QUE DEUS UNIU, O HOMEM NÃO SEPARE.” - (Mc 10,2-16).


XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM
Ano – B; Cor – Verde; Leituras: Gn 2,18-24; Sl 127; Hb 2,9-11; Mc 10,2-16

“O QUE DEUS UNIU, O HOMEM NÃO SEPARE.” - (Mc 10,2-16).

Diácono Milton Restivo

Desta feita, o campo de batalha escolhido pelos fariseus para tentar Jesus foi o debate sobre o divórcio que, entre os judeus e na Lei de Moisés facultava ao homem dispensar a sua mulher pelo motivo mais insignificante que fosse e por aquilo que o homem julgasse conveniente, como, por exemplo, chegar à conclusão que não gostava mais dela.

O texto de referência, para eles, estava no livro do Deuteronômio, onde não se trata da legitimidade do divórcio, mas dos critérios para que possa acontecer: “Quando um homem se casa com uma mulher e consuma o matrimônio, se depois ele não gostar mais dela, por ter visto nela alguma coisa inconveniente, escreva para ela um documento de divórcio e o entregue a ela, deixando-a sair em liberdade” (Dt 24,1).
Essa “coisa inconveniente” seria as causas prováveis de divórcio como: se uma mulher saísse à rua sem cobrir a cabeça ofendia de tal modo os bons costumes que o marido tinha o direito, inclusive o dever religioso de expulsá-la de casa e divorciar-se dela, sem estar obrigado a pagar-lhe a soma combinada no contrato matrimonial; se a mulher perdesse seu tempo na rua, falando com outras mulheres (porque a mulher não podia conversar com homens que não fosse seu marido ou seus familiares), ou que se punha a fiar na porta de sua casa, podia ser repudiada por seu marido sem qualquer compensação econômica. Segundo o rabi Hille, “inclusive quando a esposa tivesse deixado a comida se queimar”, podia ser repudiada pelo marido com o divórcio.
No tempo de Jesus a mulher judia era considerada em tudo inferior ao homem.
Há uma expressão, uma espécie de fórmula, que se repete com frequência e expressa o descaso e desapreço com que a mulher era tida: mulheres, escravos, crianças. Como o escravo não judeu e o filho menor de idade, a mulher era propriedade e pertencia completamente ao seu dono: ao pai, se fosse solteira. O pai, em caso de dificuldade financeira, podia vender sua filha como escrava quando ela tivesse entre seis e doze anos e meio de idade, Ex 21,7. Ao marido, se fosse casada; ao cunhado solteiro, se fosse viúva sem filhos, Dt 25,5-10; cf Mc 12,18-27. 
Os fariseus, aqueles que se julgavam os donos da verdade, os doutores da lei e conhecedores incontestáveis da Lei de Moisés, não perderam a oportunidade de tentar Jesus, então, se aproximaram de Jesus. Queriam tentá-lo e perguntaram se a Lei permitia um homem se divorciar de sua mulher.” (Mc 10,2). Mateus, em 19,1-9, esclarece melhor que Marcos o sentido do debate.
O pano de fundo dessa discussão era os critérios necessários para que um homem pudesse divorciar de sua mulher. Nem se cogitava na Lei judaica que a mulher pudesse, por sua iniciativa, divorciar-se do marido, pois a mulher era considerada objeto e propriedade ao homem!
Nesses dois evangelhos Jesus recusa-se a entrar no debate legalista que cercava a questão, e limitou-se apenas em reafirmar o projeto inicial do Pai para o casamento: “Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar”. (Mc 10,9).
O evangelho ressalta o valor perene da família, como dom de Deus. Jesus, partindo do projeto original do Criador, mostra o sentido do matrimônio, que se expressa na igualdade e entrega total e duradoura, conforme afirmativa de Deus na criação do homem e da mulher: “Iahweh disse: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra.” Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou. Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que sobre a terra.” (Gn 1,26-28); “Por isso, um homem deixa seu pai e sua mãe, e se une à sua mulher, e eles dois se tornem uma só carne”, (Gn 2,24).
Na fonte originária do amor, no gesto criador de Deus, o homem e a mulher encontram a motivação para se realizarem no amor recíproco, na ajuda mútua. O homem e a mulher são chamados a formar “uma só carne”, vivendo uma relação humana segundo a vontade de Deus.
A união conjugal não é um simples contrato legal, mas uma aliança estável semelhante àquela que o mesmo Deus firmou com seu povo.
A primeira leitura diz que “Iahweh Deus modelou, então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu e as conduziu ao homem para ver como ele as chamaria: cada qual devia levar o nome que o homem lhe desse. O homem deu nome a todos os animais, às aves do céu e a todas as feras selvagens, mas, para o homem, não encontrou a auxiliar que lhe correspondesse.” (Gn 2,19-20). Interessante! Dentre todas as criaturas criadas depois do homem, nenhuma se encaixou como “a auxiliar que lhe correspondesse.” “Iahweh Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda”. ... Então Iahweh Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou uma de suas costelas e fez crescer carne em seu lugar. Depois, da costela que tirara do homem, Iahweh Deus  modelou uma mulher e a trouxe ao homem. Então o homem exclamou: “Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela se chamará mulher’, porque foi tirada do homem. Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne” Gn 2, 21-24).
A palavra original nos textos bíblicos que para nós foi traduzida como “auxiliar” é traduzida também como “companheira”, que seria o termo mais correto, considerando que “auxiliar” sugere subordinação, que não é o caso, e “companheira” é alguém que divide com o homem as suas responsabilidades e tem  tantas obrigações e direitos quanto o homem.
Na criação do homem Deus sentiu a necessidade de lhe fazer uma companheira que, como ele, fosse superior a todas as demais criaturas já criadas, que se igualasse ao homem em dignidade e que, com o homem, fosse dividida a responsabilidade de zelar das coisas que o Senhor havia criado e dado direitos e obrigações de delas cuidar. Primeiro Deus “... modelou, então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu... ...mas, para o homem não encontrou a auxiliar (companheira) que lhe correspondesse.” (Gn, 2, 19-20).  
Em sua sabedoria infinita, Iahweh chegou à conclusão que não poderia dar ao homem, como companheira, um ser inferior e irracional, por isso, tirou do próprio homem, do humano, do seu próprio corpo, mais precisamente de uma costela, do lado do seu coração, um pedaço para modelar a mulher, aquela que seria a sua companheira por toda a vida e, “Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne.” (Gn 2, 24; Mc 10,7-8).
O escritor do primeiro livro das Sagradas Escrituras deixa transparecer uma sensibilidade que motiva a reflexão sobre como a mulher começou a existir. O interesse do autor bíblico seria precisamente resgatar a mulher que, na sociedade primitiva, patriarcal e machista, era totalmente ofuscada, dominada, colocada sempre em plano secundário e considerada objeto e propriedade do homem, como vimos acima.
A mulher não foi feita do barro, da lama, como o homem; a sua matéria prima foi algo mais nobre e digna: um pedaço do próprio homem. E esse pedaço do homem não foi tirado do pé, para que se dissesse que o homem dominaria sobre a mulher ou pisaria na mulher; também não foi tirada da cabeça, para que se pudesse entender que a mulher seria algo mais importante e superior ao homem, e que mandasse no homem. As Escrituras narram que a mulher foi tirada da costela do homem, do peito do homem, do lado do coração do homem, para que ambos fossem tocados pelos mesmos sentimentos, ideais, objetivos e realizações: “Então Iahweh Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou uma de suas costelas e fez crescer carne em seu lugar. Depois, da costela que tirara do homem, Iahweh Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem”. (Gn 2, 21).
Costela significa “vizinho ao coração”. De onde ser a mulher “um ser igual, mas distinto do homem”. O termo costela conduz ainda à idéia de reciprocidade. A mulher é aquela que está ao lado e não detrás do homem. Um está ao lado do outro.
Convém repetir e salientar ainda que ambos, homem e mulher, são criados por Deus. O homem é criado da terra, e a mulher do humano, do homem que já se encontra formado pelas mãos do próprio Deus. O homem não cria a mulher e a mulher não veio do barro. Deus é quem faz a mulher a partir do homem, do humano. “Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que sobre a terra.” (Gn 1, 28).
Tanto o homem quanto a mulher recebem uma mesma ordem de Deus - a de dominar - porque têm uma mesma identidade, e esta identidade é a de terem sido criados à imagem e semelhança do seu Criador. A mulher, do seu jeito, é, juntamente com o homem, imagem e semelhança de Deus. É isto que constitui a humanidade no mundo.
A mulher não é complemento do homem, ou o homem complemento ou superior à mulher; cada um é uma totalidade, com características próprias e específicas.
O primeiro relato da criação humana indica a igualdade entre homem e mulher, visto que estes são imagem e semelhança de Deus. A afirmativa de Jesus: “O que Deus uniu o homem não separe”, está alicerçada na criação do primeiro casal: homem e mulher. O homem necessitava de uma companheira e essa companheira foi tirada e criada do próprio ser do homem, portanto, o homem não tem poder e nem autoridade de desautorizar uma atitude de amor de Deus. 
A união conjugal surgiu com a criação do primeiro casal como instituição necessária para a preservação do gênero humano. Se a mulher foi tirada do homem, são, portanto, homem e mulher que se unem em matrimônio, uma só carne e, “O que Deus uniu o homem não separe”.
No Antigo Testamento o casamento, muitas vezes, era uma imposição dos pais para os filhos, sendo que os jovens se casavam sem mesmo se conhecerem, como aconteceu com Isaac, conforme determinou Abraão “... ao servo mais velho de sua casa, que governava todos os seus bens: ... ‘Mas irás à minha terra, à minha parentela, e escolherás uma mulher para meu filho Isaac.” (Gn, 24,2ss.); mas, também, havia casamento por amor, como aconteceu com Rute e Booz: “Assim Booz desposou Rute, que se tornou sua esposa. Uniu-se a ela, e Iahweh deu a Rute a graça de conceber e ela deu à luz um filho”. (Rt 4, 13).
No Antigo Testamento, e, pela Lei de Moisés, o casamento não era uma instituição indissolúvel. No Novo Testamento, como não poderia deixar de ser, os escribas e fariseus, preocupados com os ensinamentos e a doutrina de Jesus Cristo sobre o amor verdadeiro, não com o intuito de aprender mais, pois julgavam que já sabiam tudo e eram os donos da verdade, mas para tentar fazer Jesus entrar em contradição sobre o que ensinava. O repúdio ou divórcio significava que o homem podia dispensar sua mulher por qualquer motivo, sem mais explicações. Expressava a superioridade do homem e seu domínio sobre a mulher e refletia, na esfera doméstica, a opressão exercida sobre a mulher em todos os níveis da sociedade judaica.
Quando os fariseus citam Moisés para justificar sua atitude ignóbil, Jesus não se intimida: declara-lhes abertamente que, Moisés, ao dar esse preceito para agradar aos homens e cedendo à obstinação e dureza de coração do povo, Moisés foi infiel a Deus e frustrou o designo divino.
Contra toda a mentalidade e modo de ser da cultura judaica, Jesus afirma claramente a igualdade entre homem e mulher. Não valem leis humanas que destruam essa igualdade querida por Deus. Os discípulos de Jesus que presenciaram a discussão de Jesus com os fariseus e que tinham a mesma mentalidade dos fariseus, quando chegaram em casa interrogaram Jesus a respeito, como vemos em Marcos: “E, em casa os discípulos voltaram a interrogá-lo sobre esse ponto. E ele disse: “Todo aquele que repudiar a sua mulher e desposar outra, comete adultério contra a primeira; e se essa repudiar o seu marido e desposar outro, comete adultério.” (Mc 10, 10-12). No Evangelho de Mateus, os discípulos retrucam: “Os discípulos disseram-lhe: “Se é assim a condição do homem em relação à mulher, não vale a pena casar-se.” Ele acrescentou: “Nem todos são capazes de compreender essa palavra, mas só aqueles a quem foi concedido.” (Mt 19,10-11).
No Evangelho de Lucas Jesus insiste na indissolubilidade do matrimônio, dizendo: “Todo aquele que repudiar sua mulher e desposar outra comete adultério, e quem desposar uma repudiada por seu marido comete adultério.” (Lc 18,18).
Paulo, imbuído de amor pelos ensinamentos de Jesus, ensina: “Quanto àqueles que estão casados, ordeno não eu, mas o Senhor: a mulher não se separe do marido; se, porém, se separar não se case de novo ou reconcilie-se com o marido, e o marido não repudie a sua esposa!” (1Cor 7,10-11).
Jesus não somente defendeu e pregou sobre a união, a indissolubilidade e a felicidade no casamento como também, para divinizá-lo e torná-lo um sacramento, participou de um casamento (cf Jo 2,1-12), e com certeza, com as amizades que tinha desde a infância, participou de mais de um casamento; mas as Sagradas Escrituras só notificam um, talvez, pelas maravilhas ali realizadas. 

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