domingo, 5 de julho de 2015

“ESTE HOMEM NÃO É O CARPINTEIRO, FILHO DE MARIA?” (Mc 6,3).


XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

“ESTE HOMEM NÃO É O CARPINTEIRO, FILHO DE MARIA?” (Mc 6,3).



Diácono Milton Restivo

Como Jesus era humano e tinha sentimentos, e sentia saudade dos locais onde passara sua infância e adolescência, um dia bateu a saudade de casa: saudade da mãe, dos irmãos, dos parentes, dos amigos, das ruelas de sua cidade. Sentiu forte desejo e necessidade de voltar para rever os lugares onde havia passado, despreocupadamente, a sua infância, adolescência, puberdade e o início da vida adulta.
E Lucas irá dizer: “Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se havia criado.” (Lc 4,16). E voltou para a sua cidade, e para lá levou consigo os amigos e os discípulos que angariara no início de sua vida missionária. Queria que todos conhecessem sua família e a cidade de onde viera. 
Quem não sente saudade dos tempos felizes da infância, da adolescência, dos amiguinhos, dos primeiros professores e professoras, dos e das catequistas, dos lugares que marcaram sua vida, e não sente vontade, alegria e orgulho de voltar e mostrar isso para seus novos amigos? Todos somos assim!  Com Jesus não foi diferente.  E Jesus voltou... 
       Assim como Jesus estava anunciando uma Boa Nova às outras cidades e regiões por onde passava: ‘Convertam-se, porque o Reino de Deus está próximo’, com certeza, quis, também, que os seus conhecidos da sua cidade conhecessem e aderissem à Boa Nova do Reino de Deus que estava chegando.
Como Jesus fazia quando morava em Nazaré, no sábado Jesus foi cumprir o preceito religioso judeu de ouvir a palavra de Deus na sinagoga da cidade, mas Jesus não se contentou somente em ouvir; começou a ensinar: “Quando chegou o sábado, Jesus começou a ensinar na sinagoga.” (Mc 6,2a). Marcos não especifica o que Jesus se propôs a ensinar. Mas, se ele estava anunciando, em outras localidades, a chegada da Boa Nova e convidando o povo a converter-se porque o Reino de Deus estava próximo, com certeza, era sobre isso que Jesus falava.
A princípio houve um impacto nos ouvintes. Começaram por não acreditar no que estavam vendo e ouvindo.
O carpinteiro, filho de José e Maria, que estudara na mesma escola que todos frequentaram, mudara-se para outra cidade, ficara um tempo fora, e é sabido que não estudara nada além que já havia estudado nas escassas e limitadas escola e sinagoga de Nazaré e nem havia frequentado em outros lugares escolas superiores ou faculdades, começa a ensinar como quem tem autoridade: “As pessoas ficavam admiradas com o seu ensinamento, porque Jesus ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da Lei.” (Mc 1,22).
E mais: além dos ensinamentos, Jesus passara a fazer prodígios e até milagres, começando a despertar nos ouvintes admiração passando, da admiração, para a desconfiança: “Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: ‘De onde vem tudo isso? E esses milagres que são realizados pelas mãos dele?” (Mc 6,2b). E brota logo perguntas na cabeça de cada um: “Quem ele pensa que é? Será que ele pensa que é melhor que nós? Afinal das contas, nós o conhecemos, estudamos a mesma escola, frequentamos a mesma sinagoga”.
Iniciando-se pela admiração, passando para a desconfiança, dai para a descrença e desta para a inveja chegando-se ao escândalo e ao ceticismo: “Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco? ’ E ficaram escandalizados por causa de Jesus.” (Mc 6,3).
Também alimentamos discriminações a respeito de Jesus: é fácil aceitá-lo, nos nossos dias, como Deus que é, mas como é difícil acreditar que ele foi homem, teve família, pai, mãe, irmãos... E se ele teve família, é tão igual a nós como todos o são, então, quem ele pensa que é? Afinal de contas, ele não passava de um carpinteiro que, possivelmente, tivesse deixado a sua cidade para tentar uma vida melhor em outras localidades.
Está patente a discriminação, porque, para falar das coisas de Deus, existiam os doutores da Lei que eram versados nisso e somente eles tinham respostas para todas as indagações do povo, e o que entenderia um carpinteiro a respeito disso? 
Rotulamos as pessoas de acordo com a sua profissão, aparência e a nossa maneira de pensar, agir e julgar, com a nossa ideologia e com a parca capacidade de entendermos o que Deus quer de cada um de nós, e ignoramos que Deus “não faz diferença entre as pessoas” (At 10,34; 1Pd 1,17).
O Espírito Santo, conforme disse Jesus no Evangelho segundo João, é como o vento: assim ouve-se o vento, mas não se pode dizer de onde ele vem ou para onde vai depois. Assim é com o Espírito Santo.  O vento sopra. Não podemos vê-lo. Vem de algum lugar, embora não saibamos de onde e vai para outro lugar qualquer, embora também não saibamos para onde. E Jesus finaliza: “Acontece a mesma coisa com quem nasceu do Espírito.” (Jo 3,8).
Jesus havia nascido do Espírito e por isso estava pleno do Espírito, conforme disse o Anjo a Maria por ocasião da anunciação: “O Espírito virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus.” (Lc 1,35).
O homem quer impor a sua religiosidade popular e a sua ideologia em contraste aos dons e poder do Espírito Santo. Se não entende, não aceita, e ponto final. Se não entende de onde vem tanta sabedoria no jovem carpinteiro, o melhor a fazer é desacreditá-lo, é ridicularizá-lo diante de todos e, se possível, colocá-lo para fora da sinagoga, da cidade, da vida.
Jesus, como homem, foi discriminado e se escandalizaram com ele, embora jamais homem algum fosse cheio da plenitude do Espírito Santo como ele foi possuidor. Não aceitamos que a sabedoria de Deus se manifeste no outro se esse outro não se enquadrar no modelo da ideologia e religiosidade popular que projetamos para que Deus manifeste sua sabedoria.
O homem é tão ridículo que impõe normas até para que a sabedoria de Deus se manifeste.
Nesta mesma passagem narrada por Marcos, Lucas complementa dizendo que, na sinagoga, foi dado a Jesus o livro do profeta Isaias, e Jesus, abrindo o livro, encontrou a passagem onde anunciava a realização da plenitude dos tempos, e aquilo que estava reservado para a sua missão desde todos os tempos: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor.” (Lc 4,18-19).
E Jesus complementa, dizendo: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.” (Lc 4,21). 
Afinal de contas, quem era Jesus para dizer isso, se não passava de um simples carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Tadeu e Simão, e de outras irmãs não citadas nominalmente mas que todos da cidade conheciam? 
Mas queiram ou não, escandalizando-se ou não, acreditem ou não, o Espírito do Senhor está sobre ele, e o Espírito Santo age até contrariando frontalmente a maneira de pensar do homem. Não há nada que se possa fazer a respeito do vento. Não há como coibir ou proibir. Não há como decretar uma lei proibindo o vento de soprar. Não há autoridade que diga: “Aqui o vento não sopra”, porque o vento sopra aonde quer soprar! Assim é o Espírito Santo.  
Ao tomar conhecimento da sabedoria de Jesus, o povo demonstrou todo o seu ceticismo: “De onde ele recebeu tudo isso? De onde vem tanta sabedoria?” (Mc 6,2).
Começa ai a rejeição de Jesus como Messias. Começa a incredulidade sobre o mistério da Encarnação, como disse Agostinho de Hipona: “Um Deus que se fez homem para que todos os homens se tornassem filhos de Deus”. Começa-se a colocar em dúvida a concepção de um Deus no ventre de uma mulher; um Deus, de natureza divina que assume a natureza humana e se torna o “Emanuel”, o Deus conosco, o Deus que vem morar no nosso meio, o Deus que instalou a sua tenda entre nós e promete que “estará conosco todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt 28,20),
Se não entendermos Jesus como homem, jamais o entenderemos como Deus.
Se não aceitarmos Jesus como homem, jamais o aceitaremos como Deus porque, como Deus, ele se identifica no homem e toma para si o que se faz a um irmão pequenino: “Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão e vocês foram me visitar. [...] Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.” (Mt 26,35-36.40). 
Se não vermos Jesus como o homem de Nazaré, jamais o reconheceremos na pessoa do irmão, porque no irmão o vemos como o homem que ele foi.
Que decepção a recepção que Jesus teve em sua cidade.
Com certeza, Jesus não esperasse isso; esperava, com certeza, mais calor, mas amizade, mais receptividade, mais aconchego. Mas Jesus chegou à triste conclusão que “um profeta só não é estimado em sua própria pátria, entre os seus parentes e em sua família. [...] E Jesus ficou admirado com a falta de fé deles.” (Mc 6,4.6).
Sobre esta passagem, no seu Evangelho, Lucas vai além e narra uma discussão entre Jesus e o povo que acaba tendo um fim lamentável e dramático, quase trágico: “Quando ouviram essas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se, e expulsaram Jesus da cidade. E o levaram até o alto de um monte, sobre o qual a cidade estava construída, com intenção de lançá-lo no precipício. Mas Jesus, passando apelo meio deles, continuou seu caminho” (Lc 4,28-30).
A rejeição a respeito de Jesus apenas começa ai: rejeitado em Nazaré: “Ninguém é profeta na sua terra.” (Lc 4, 24), e vai se estender por toda a sua vida até culminar no Calvário.
Mais tarde Jesus diria: “Felizes vocês que forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim. Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.” (Mt 5,11-12).
Tenhamos diante dos olhos o ensinamento de Jesus: “Se o mundo odiar vocês, saibam que odiou primeiro a mim. [...] Se perseguiram a mim, vão perseguir vocês também; se guardaram a minha palavra, vão guardar também a palavra de vocês. Farão isso a vocês por causa do meu nome, pois não reconhecem aquele que me enviou.” (Jo 15,18.20-21). 

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