domingo, 21 de janeiro de 2018

“SIGAM-ME E EU FAREI DE VOCÊS PESCADORES DE HOMENS”. (Mc 1,17).

 TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM
Ano – B; Cor – Verde; Jn 3,1-5.10; Sl 24 (25); 1Cor 7,29-31; Mc 1,14-20)

“SIGAM-ME E EU FAREI DE VOCÊS PESCADORES DE HOMENS”. (Mc 1,17).

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Diácono Milton Restivo

Não podemos perder a oportunidade de conhecer os profetas do Antigo Testamento que, costumeiramente, dão suas mensagens, expõem seu estilo de vida e fortalecem a nossa fé nos exemplos positivos e, muitas vezes, até negativos de suas vidas.
A liturgia de hoje apresenta-nos o profeta Jonas. Jonas foi um profeta polêmico e, como muitos de nós, tentou ludibriar a vocação a que fora chamado: a mensagem de salvação que Yahweh lhe ordenara levar aos habitantes de Nínive, uma cidade da Assíria que não praticava a religião judaica.
Jonas fora chamado, mas, a princípio fugiu, como se fosse possível fugir da presença de Deus.
O livro do profeta Jonas tem o seu início com um imperativo chamamento de Yahweh a Jonas e uma ordem expressa para ser missionário e levar a Palavra de Yahweh à cidade de Nínive:
·         “Levante-se e vá à Nínive, a grande cidade, e anuncie ai que a maldade dela chegou até mim”. (Jn 1,2).
Jonas ignorou ao chamamento de Yahweh e buscou caminhos diversos à Nínive, como nós buscamos caminhos diferentes em nossas vidas tentando ludibriar o chamamento de Deus. 

A fuga de Jonas não é diferente da atitude de muitos de hoje. Repito: como é possível alguém fugir da presença de Deus?
·         “Não existe criatura que possa esconder-se de Deus; tudo fica nu e descoberto aos olhos dele; e a ele devemos prestar contas”. (Hb 4,13).
A atitude dos que ignoram o chamamento de Deus não fica impune, como aconteceu com Jonas; ao tentar fugir de navio, causou desespero aos marinheiros (cf Jn 1,4-11); provocou uma situação suicida (cf Jn 1,12-16) e ainda ocasionou o inusitado acontecimento do grande peixe (cf Jn 1,17). Quem desobedece a Deus não cria problemas só para si, mas envolve todos os que o cercam e coloca outras pessoas também em dificuldades. Quem está em fuga de Deus leva problemas consigo e para onde vai. Disse Jesus:
·         “Vocês são o sal da terra” (Mt 5,13).
Mas, como tantos cristãos dos nossos dias, Jonas era o sal que não queria salgar. Foram os preconceitos de Jonas que o levaram a fugir da missão que Deus lhe havia ordenado.
Quais seriam esses preconceitos?
Preconceitos políticos: pois os ninivitas eram velhos inimigos de seu povo.
Preconceitos raciais: os ninivitas eram gentios e não pertenciam ao povo escolhido.
Preconceitos religiosos: um povo tão perverso, tão mau, tão grosseiro, não podia nem devia ser perdoado. Mas, os pensamentos dos homens não são os pensamentos de Deus:
·         “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor”. (Is 55,8).
Foi necessária a intervenção divina para que Jonas se arrependesse de sua recusa e, forçado pelas consequências dos seus atos, retornou ao caminho da obediência.
A leitura de hoje narra a segunda vez em que Yahweh dirige a Jonas sua palavra para que ele tomasse a iniciativa do caminho certo:
·         “A palavra de Yahweh foi dirigida a Jonas pela segunda vez, ordenando: ‘Levante-se, e vá a Nínive, a grande cidade, e anuncie o que eu vou dizer a você.” (Jn 3,1-2).
No cancioneiro religioso popular existe uma música que era muito cantada nos cultos e reuniões e tem um verso que diz:
·         “Quando Jesus passar eu quero estar no meu lugar...”.
Jesus passa constantemente em nossa vida e, cada vez que isso acontece, convida-nos a segui-lo. Como aconteceu quando Jesus entrou na cidade de Jericó e deparou-se com um homem, Zaqueu, que estava sobre uma árvore para ver Jesus mais de perto, considerando que Zaqueu era um homem de baixa estatura. Ao vê-lo, Jesus dirige-lhe a palavra, dizendo:
·         “Zaqueu, desce depressa, porque convém que eu fique hoje em sua casa.” (Lc 19,1-5).
E a esse chamamento de Jesus Zaqueu mudou de vida e mentalidade, havendo nele uma conversão radical (cf Lc 19,8-10).
Quando Jesus, caminhando, passava pelas estradas ensolaradas e poeirentas da Palestina, o povo se postava ao longo dos caminhos trazendo os seus doentes, esperando um olhar de Jesus, uma palavra, buscando tocar em Jesus ainda que fosse na borda de seu manto ou que sua sombra os cobrisse para que todos os seus males, tanto do corpo como da alma, lhes fossem curados. 
Centenas e milhares de pessoas, de uma maneira ou de outra, tiveram contato com Jesus, mas foram para poucos que Jesus dirigiu a palavra convidando-os para que o seguissem ou dizendo que ficaria em sua casa, como fez com Zaqueu.          
Jesus está constantemente passando por nossa vida; e foi assim com os apóstolos. A cada um Jesus faz um chamamento imperativo:
·         “Segue-me”.
Seguir a Jesus e crescer espiritualmente é diretamente proporcional ao auto de negação da auto-suficiência, do poder e da glória passageira. Na pessoa que recebe esse chamamento e adere ao seguimento de Jesus, deve morrer a sua própria vontade para poder viver a vida e a vontade de Jesus em suas vidas.
Atender a esse chamamento de Jesus significa amar ao Senhor de toda a alma, acima de tudo e acima de todos (cf Dt 6,5; Mt 22,37; Mc 12,29; Lc 10,26). Significa servir ao Senhor de todo o coração e com entendimento.
Os primeiros a quem Jesus chamou foram João e seu irmão Tiago e André e seu irmão Simão, a quem mais tarde Jesus chamaria de Pedro e todos chamados de apóstolos.
Vemos ai Jesus passar na vida de seus primeiros discípulos e chamá-los para seguí-lo por toda a vida, tornando-se, por isso, os primeiros apóstolos.
Jesus fez esse chamamento imperativo “segue-me” a Felipe e Natanael, que aceitaram o convite de Jesus sem relutância e, a partir dai, não mais se afastaram do Divino Mestre.
Com o apóstolo e evangelista Mateus não foi diferente:
·         “Partindo Jesus dali, viu um homem que estava sentado na coletoria, chamado Mateus, e disse-lhe: Segue-me. Ele, levantando-se, o seguiu.” (Mt 9,9).
Ao chamamento de Jesus os apóstolos não relutaram:
·         “Eles, imediatamente, deixaram as redes e o seguiram." e “Eles imediatamente, deixando a barca e o pai, o seguiram.” (Mt 4,22).
Deixaram tudo o que tinham: suas redes, seus barcos, seus utensílios e ferramentas de pesca, suas famílias, seus amigos e seguiram a Jesus, sem perguntar para que finalidade, ou o que deveria ser feito, ou o quanto ou o que receberiam para seguir o Mestre, ou ainda, para onde o Mestre os levaria.
Por muitas vezes os Santos Evangelhos deixam claro que Jesus passou na vida de muitas pessoas e muitos atenderam imediatamente ao seu apelo e o seguiram. E a todos os que se propuseram seguí-lo, Jesus não deixou nenhum mal-entendido ou equívoco; a todos foi dito que, neste vale de lágrimas, passariam pelo que o Mestre passou, porque:
·         “nenhum discípulo é maior que o Mestre” (Lc 6,40),
E disse alto e em bom som:
·         “Se alguém me serve, siga-me; e onde eu estou, estará ali também o que me serve.” (Jo 12,26);
·         “... eis que eu os envio como cordeiro entre lobos.” (Lc 10,3):
·         "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida a perderá; e quem perder a sua vida por causa de mim, salva-la-á.” (Lc 9,23-24).
Jesus nunca disse que a caminhada seria fácil, mas prometeu que a chegada seria recompensadora.
À primeira vista não é nada animador seguir Jesus; mas, para os que o seguem, Jesus tem também palavras de ânimo, de conforto e orientadoras:
·         “Eu sou o Caminho, a verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim.” (Jo 14,6); “Quem perseverar até o fim, será salvo.” (Mt 24,13);
·         “Não se turbe o seu coração. Creia em Deus, creia também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu teria dito a vocês. Vou preparar o lugar para vocês. Depois que eu tiver ido e lhes tiver preparado o lugar, virei novamente  e tomarei vocês comigo para que, onde eu estou, vocês estejam também.  E vocês conhecem o caminho para onde eu vou.” (Jo 14,1-4).
Muitos levaram a sério o convite de Jesus e o seguiram.
Mas, em contrapartida, os Santos Evangelhos narram-nos tristes episódios de pessoas que, quando Jesus passava e as convidava a seguí-lo, não atenderam ao chamado do Divino Mestre.
Essas pessoas preferiram permanecer com as suas riquezas, o seu comodismo, a sua mesquinhez, o seu conforto, os seus prazeres e se entristeciam com o convite de Jesus: viravam as costas e simplesmente se retiravam.
Conhecemos o episódio em que um jovem rico se aproximou de Jesus e disse-lhe:
·         Mestre, que hei de eu fazer de bom para alcançar a vida eterna? Jesus respondeu-lhe: Porque me interrogas acerca do que é bom? Um só é o bom. Porém, se queres entrar na vida, guarda os mandamentos. ‘Quais’? Perguntou ele. E Jesus disse: ‘Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não dirás falso testemunho. Honra teu pai e tua mãe, e ama o teu próximo como a ti mesmo’.” (Mt l9,16-19).
Ao ouvir isso, com toda a certeza, o jovem rico deve ter ficado satisfeito consigo mesmo e, cheio de orgulho encheu o peito e até com uma falsa modéstia, respondeu a Jesus:
·         “Tenho observado tudo isso desde a minha mocidade. Que me falta ainda?” (Mt 19,20).
O Evangelista Marcos, nesta cena, entrou no íntimo de Jesus, analisou os sentimentos do Mestre, e assim escreve: “Fitando-o, Jesus o amou e disse: ‘Uma só coisa te falta: vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu’.” (Mc 10,21).
E, depois de Jesus te-lo fitado profundamente e o amado de coração, e ter-lhe dito o que faltava para realmente “alcançar a vida eterna”, faz-lhe o convite que até então fora feito para todos os escolhidos a dedo: “depois vem e segue-me”. (Mc 10,21).
Esta passagem do jovem rico mostra-nos como é dificultoso atender a esse chamado do Divino Mestre. Como é difícil aceitar esse convite e como o jovem rico se portou após ser escolhido por Jesus para seguí-lo: “mas ele (o jovem rico), entristecido por esta palavra, retirou-se desgostoso, porque tinha muitos bens.” (Mc 10,22). Que pena. Não teria Jesus escolhido esse jovem rico, caso ele aceitasse a sua proposta de vida eterna, para ser seu apóstolo? Se o jovem rico tivesse aceitado a proposta e as condições de Jesus, possivelmente teríamos treze, e não doze apóstolos. Mas ele não aceitou e, bem por isso, nem o seu nome foi gravado na história: é um jovem rico, mas anônimo.
Depois de Jesus ter fitado e amado o jovem, obviamente se entristecido com sua atitude de recusa, não perde a oportunidade de orientar e chamar a atenção de seus apóstolos e discípulos e, então
·         “Jesus, olhando em roda, disse a seus discípulos: Quanto é difícil que entrem no reino de Deus os que tem riquezas!” (Mc 10,23).
Jesus, depois de repetir a afirmativa acima, vai mais além, e faz essa comparação que chega às raias do absurdo:
·         “Meus filhos, quanto é difícil entrarem no reino de Deus os que confiam nas riquezas! Mais fácil é passar um camelo pelo orifício de uma agulha, do que um rico entrar no reino de Deus.” (Mc 10,24-25).
Quantas vezes, quando Jesus passa por nossa vida e nos chama para seguí-lo, não somos diferentes desse jovem rico; não queremos deixar a nossa vaidade, a nossa soberba, o nosso orgulho, o nosso egoísmo, a nossa indiferença, o nosso comodismo.
Não queremos deixar os nossos prazeres e veleidades, os nossos orgulhos e avarezas. Somos por demais ricos de tudo isso, e é também para nós, que relutamos em deixar isso tudo para seguir o convite do Mestre, a ameaça feita por ele próprio:
·         “... quanto é difícil entrarem no reino de Deus os que confiam nas riquezas! Mais fácil é passar um camelo pelo orifício de uma agulha, do que um rico entrar no reino de Deus.” (Mc 10,24-25).
Em outra ocasião Jesus chega a um outro homem e lhe faz este convite, dizendo:
·         “... ‘segue-me’. Mas ele disse: ‘Senhor, permite que eu vá primeiro sepultar meu pai’.” (Lc 9,59). “Outro disse-lhe: ‘Eu, Senhor, seguir-te-ei, mas permite que eu vá primeiro dizer adeus aos de minha casa’." (Lc 9,61).
Essas pessoas a quem Jesus chamara para o seu serviço não entenderam que, para aceitar o convite de Jesus não existem condições ou tempo de espera; tem que deixar tudo ao receber o convite. Não foi assim que aconteceu com André, Pedro, Tiago, João, Felipe, Natanael, Mateus, os primeiros escolhidos, e a tantos outros que atenderam ao chamado de “segue-me” feito pelo Mestre? Não abandonaram tudo e seguiram incontinente e incondicionalmente a Jesus?
Para aqueles que querem impor condições ao chamamento de Jesus, ele tem uma resposta dura:
·         “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino de Deus.” (Lc 9,62).
·         Para todos aqueles que seguiram incontinentemente a Jesus e perseveraram até o fim, Jesus faz essa promessa e dá esse conforto: E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e terá como herança a vida eterna.” (Mt 19,29).
Repito: Jesus nunca disse que a caminhada seria fácil, mas prometeu que a chegada seria recompensadora.
Jesus continua passando na nossa vida e a música do cancioneiro popular religioso continua dizendo:
·         “Quando Jesus passar eu quero estar no meu lugar...”.
Jesus, todos os dias, continua passando, continua convidando-nos, continua amando-nos, continua olhando bem profundamente nos nossos olhos repetindo o convite que fez a todos aqueles que aguardavam a sua passagem.
Jesus continua a repetir-nos todos os dias, como já fez a centenas e milhares de pessoas:
·         “... vem e segue-me.” (Mc 10,21).
Algumas vezes fazemos igual aos apóstolos; deixamos, pelo menos, momentaneamente, os nossos afazeres e, por um determinado tempo seguimos Jesus, ou, quem sabe, o seguimos a vida inteira.
Outras vezes somos iguais ao jovem rico; fazemos tudo bem, tudo perfeito, cumprimos e obedecemos todas as leis, mas, quando Jesus nos convida a seguí-lo, entristecemos-nos, viramos as costas e recusamos o convite do Divino Mestre porque teríamos que nos despojar de todos os nossos bens, de todos os nossos vícios, de toda a nossa vaidade, de todo o nosso orgulho, de toda a nossa soberba, de todo o nosso amor próprio, da nossa cobiça e não seguimos a Jesus porque preferimos continuar na ilusão de que é isso tudo que nos dá a felicidade, esquecendo-nos que esta felicidade é como fogo de palha, é passageira e se apaga ao mais leve sopro da brisa de um contratempo.
Muitas vezes Jesus chama-nos e lhe respondemos, como já fizeram tantos:
·         “Espera, Senhor, primeiro vou cuidar de alguns problemas pendentes, e depois lhe seguirei...”  
Esse “depois” pode não permitir que nos dediquemos ao serviço do Mestre e, se assim não for, teremos frustrada a nossa “morada no céu”.
O Senhor Jesus já passou tantas vezes na nossa vida e em todas elas ele nos fez o convite:
·         “... vem e segue-me”. (Mc 10,21).
Talvez Jesus não passe outra vez em nossa vida...

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