segunda-feira, 9 de novembro de 2020

 

“AMAI-VOS UNS AOS OUTROS...”

 

Em toda a vida de Jesus Cristo todos os seus ensinamentos foram no sentido de que os homens se amassem mutuamente e que os homens, através dos homens, chegassem até o Senhor Nosso Deus:

“Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros.” (Jo 13,34-35).

“Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará  e a ele viremos e nele estabeleceremos morada. Quem não me ama não guarda minhas palavras; e a palavra que ouvis não é minha, mas do Pai que me enviou.” (Jo 14,23-24).

“E sabemos que o conhecemos por isso: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: ”Eu o conheço”, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. Mas o que guarda a sua palavra, nesse, verdadeiramente, o amor de Deus é perfeito. Nisso reconhecemos que estamos nele. Aquele que diz que permanece nele, deve também andar como ele andou.” (1Jo 2,3-6).   

Com essa declaração o Apóstolo João nos deixa claro que, quem diz que ama o Senhor Jesus deve amar a todos como ele amou, deve sentir pelos irmãos o que ele sentiu, deve se doar pelos outros como ele se doou e deve andar no amor, na justiça e na caridade como ele andou, e João complementa, dizendo:

Aquele que diz que está na luz, mas odeia o seu irmão, está nas trevas até agora. O que ama o seu irmão permanece na luz,  e nele não há ocasião de queda. Mas o que odeia o seu irmão está nas trevas; caminha nas trevas, e não sabe onde vai, porque as trevas cegaram os seus olhos.” (1Jo 2,9-11).

“Quanto a nós, amemos, porque ele nos amou primeiro. Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas odeia o seu irmão,  é um mentiroso: pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar. E este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão. Todo o que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus, e todo o que ama ao que gerou ama também o que dele nasceu. Nisto reconhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Pois este é o amor de Deus: observar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, pois todo o que nasceu de Deus vence o mundo.” (1Jo 4,19-21; 5,1-4).

E o Senhor Jesus, quando inquirido pelos fariseus sobre qual seria o maior dos mandamentos, bem, assim nos narra Mateus: “Os fariseus, ouvindo que ele (Jesus) fechara a boca dos saduceus, reuniram-se em grupo e um deles - a fim de pô-lo à prova - perguntou-lhe: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Ele respondeu: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” (Mt 22,34-40).

Jesus nos diz que o maior dos mandamentos é amar ao Senhor nosso Deus e o segundo é amar o próximo como a nós mesmos. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mas ai surge a pergunta: “Quem é o meu próximo?”

Essa pergunta não é moderna, não é dos nossos dias. Já fizeram essa pergunta, pessoalmente, ao Senhor Jesus. Você se lembra da parábola do bom samaritano? Seria interessante relembrá-la, lendo Lc 10,25-37.

Mas, não vamos falar dessa parábola, pelo menos agora, mas, repitamos aqui a pergunta do legista a Jesus:

“Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Ele disse: “que está escrito na lei? Como lês?” Ele, então, respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e ao teu próximo como a ti mesmo.” Jesus disse: “Respondeste corretamente; faze isso e viverás.” Ele, porém, querendo se justificar, disse a Jesus: “E quem é o Meu Próximo?” (Lc 10,25-29).

Quem é o meu próximo? Essa pergunta é centenária, ou, não seria milenar? Talvez seja até eterna! O próprio Senhor Jesus recebeu de “queima-roupa” essa pergunta.

E ainda hoje, dois mil anos depois dos ensinamentos do Senhor Jesus, ainda nos fazemos essa pergunta: “Quem é o meu próximo?”

O seu próximo é aquele que está mais perto de você, o seu próximo é aquele que está ao seu lado: o seu próximo é a sua esposa, o seu esposo, é o seu marido, é a sua mulher, é o seu filho, sua filha, seu pai, sua mãe, seus irmãos e irmãs, seus vizinhos, seus companheiros de trabalho, seus amigos, seus inimigos, seu conhecido, seu desconhecido, é o homem, é a mulher, é o irmão da mesma fé que está sentado ai, ao seu lado na sua igreja. Esse é o seu próximo: aquele que está mais próximo de você.

Não precisa procurar, não precisa se preocupar em encontrá-lo: ele está ai, do seu lado. Essa é a lei do Senhor Nosso Deus: ame o seu próximo e perdoa as suas ofensas, porque, o perdão somente é válido quando é dado com amor e por amor. Não somos perdoados se não soubermos perdoar.           Não adianta somente dizermos: “E perdoa-nos as nossas  dívidas...”, se não completarmos: “... como também nós perdoamos aos nossos devedores.” (Mt 6,12).

domingo, 8 de novembro de 2020

 

“FIQUEM VIGIANDO, POIS VOCÊS NÃO SABEM QUAL SERÁ O DIA, NEM A HORA” (Mt 25,13).

 

XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano – A; Cor – Verde; Leituras: Sb 6,12-16; Sl 62; 1Ts 4,13-18; Mt 25,1-13.

 

Diácono Milton Restivo

 

A primeira leitura desta liturgia é tirada do livro da Sabedoria.

Sabedoria é um dos livros deuterocanônicos da Bíblia, isto é, não é considerado inspirado pelos protestantes e nem consta de sua Bíblia. Possui 19 capítulos. É normalmente atribuído a Salomão, porém estudos indicam que foi escrito por um judeu de Alexandria entre os anos 50 e 150 aC, sendo que, pela ordem cronologia, é o último livro escrito do Antigo Testamento.

Era muito comum, quando um autor desconhecido escrevia alguma obra, dava-lhe crédito a um personagem de destaque de seu povo para que houvesse mais aceitação entre o próprio povo.

O livro da Sabedoria fala da sabedoria divina e da relação homem-sabedoria, da exaltação da sabedoria e da forma de recebê-la através de Deus.

A cidade de Alexandria era uma das mais importantes cidades da antiguidade, vivendo nela cerca de 200 mil judeus; era, naquela época, um importante centro da cultura helenista e exercia um enorme fascínio nos judeus cultos. A adesão à língua e cultura gregas levou muitos judeus a perderem a fé e a identidade cultural hebraica. O autor pretende confrontar a sabedoria hebraica com a sabedoria grega, mostrando a superioridade espiritual da primeira.

A sabedoria divina é superior à sabedoria humana, mas esta é dada a conhecer pelo próprio Deus que se debruça sobre a humanidade, iluminando-a. Como dom de Deus, a sabedoria está acessível a todos, mas para adquiri-la é preciso humildade e fé. Deus, fonte de todo o conhecimento, faz desabrochar o bom senso interior do homem: "A sabedoria é resplandecente, não murcha, mostra-se facilmente àqueles que a amam. Ela deixa-se encontrar por aqueles que a buscam. Ela antecipa-se, revelando-se espontaneamente aos que a desejam" (Sb 6,12).

Para alcançar a sabedoria, basta abrir-se a ela, deixar que a luz de Deus penetre na nossa mente e no nosso coração. “A aprendizagem é produto do desejo autêntico de instrução, e a preocupação pela instrução é o amor. O amor é a observância das leis da Sabedoria. Por sua vez, a observância das leis é garantia da imortalidade. E a imortalidade faz com que a pessoa fique perto de Deus” (Sb 6,17-18).

O Salmo 62, cantado ou recitado nesta liturgia, é uma oração de extrema confiança do salmista ao seu Deus: “Só em Deus minha alma repousa, porque dele vem a minha salvação. Só ele é a minha rocha e a minha salvação, a minha fortaleza, jamais serei abalado” (Sl 62,2-3).

O salmista está convencido da capacidade de Deus para satisfazer a necessidade de sua alma. E continua encorajado por sua própria e absoluta confiança que tem em Deus: “Só em Deus, ó minha alma, repouse, porque dele vem a minha esperança. Só ele é minha rocha e minha salvação, a minha fortaleza, jamais serei abalado” (Sl 62,6-7).

A fim de compreender plenamente o conceito de descanso e confiança que o salmista encontra em Deus, mais tarde Jesus diria: “Tomem meu jugo sobre vocês e aprendam de mim, que sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,29-30).

Na segunda leitura Paulo escreve a sua primeira carta para os cristãos de Tessalônica e fala do fim dos tempos, tranquilizando-os em relação à segunda vinda do Senhor: “E então estaremos para sempre com o Senhor. Consolem-se, pois, uns aos outros, com essas palavras” (1Ts 4,18).

Os primeiros cristãos acreditavam que o fim do mundo, como consequência da segunda vinda de Cristo, ocorreria ainda enquanto estivesse vivos. À base dos conselhos que Paulo deu aos cristãos em Tessalônica, percebe-se que alguns argumentavam que a volta de Jesus era iminente e que tais especuladores pregavam ativamente essa sua teoria da vinda eminente do Senhor.

Parece que alguns até mesmo usavam isso como desculpa para não trabalhar para o seu próprio sustento, no que foram, também, chamados à atenção por Paulo na segunda carta que ele escreveu para esses cristãos: “Fiquem longe de qualquer irmão que vive sem fazer nada e não segue a tradição que recebeu de nós. [...] Quem não quer trabalhar, também não coma. Ouvimos dizer que entre vocês existem alguns que vivem à toa, sem fazer nada e em contínua agitação. A essas pessoas mandamos e pedimos, no Senhor Jesus Cristo, que comam o próprio pão, trabalhando em paz” (2Ts 3,6.10b-12). Paulo alertou então: “Agora, irmãos, quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e ao nosso encontro com ele, pedimos a vocês o seguinte: não se deixem perturbar tão facilmente! Nem se assustem, como se o Dia do Senhor estivesse para chegar logo, mesmo que isso esteja sendo veiculado por alguma suposta inspiração, palavra, ou carta atribuída a nós." (2Ts 2,1-2).

A respeito disso, na sua segunda carta, Pedro alerta: "Amados, esta é, agora, a segunda epístola que lhes escrevo; nas duas procurei despertar com lembranças a vossa mente esclarecida, para que vocês se recordem das palavras que, anteriormente, foram ditas pelos santos profetas, bem como do mandamento do Senhor e Salvador, ensinado pelos seus apóstolos, tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos dias, virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as próprias paixões e dizendo: Não deu em nada a promessa de sua vinda? Porque, desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação." (2Pd 3,1-4).

No Evangelho Jesus continua com o seu discurso, preparando os seus discípulos para o fim dos tempos, a sua segunda vinda e, desta feita, narra a parábola das dez virgens.

A parábola das dez virgens, também conhecida como parábola das virgens néscias, é uma das mais conhecidas parábolas de Jesus. Esta parábola é narrada somente no Evangelho de Mateus. É uma parábola que está no contexto da escatologia.

Escatologia - escaton "último", mais o sufixo logia - é uma parte da teologia e filosofia que trata dos últimos eventos na história do mundo ou do destino final do gênero humano, comumente denominado como fim dos tempos, fim do mundo.

Dentro da escatologia, de forma resumida, estuda-se a respeito da segunda vinda de Jesus Cristo, da ressurreição final - que é a volta à vida de todos os mortos -, do juízo final - julgamento de Deus - e também a respeito do destino final de todos os homens.

Jesus, conforme registrado nos Evangelhos de Mateus, capítulos 24 e 25, Marcos, capítulo 13 e Lucas, capítulo 21, teceu considerações extensas sobre aquilo que ensinou ser a sua próxima vinda ou advento bem como o fim do mundo.

De acordo com Mateus 25,1-13, parábola narrada na liturgia de hoje, as cinco virgens que estão preparadas para a chegada do noivo são recompensadas ​​enquanto que as cinco que não estão são excluídas de seu banquete de casamento. A parábola tem um tema claramente escatológico: estar preparado para o fim dos tempos, para o Juízo Final.

Existem muitas interpretações para essa parábola e, infelizmente, as interpretações, muitas vezes, ofuscam o verdadeiro objetivo da mensagem que deve ser colhida e atendida do ensinamento. Dentro dessas interpretações cada qual quer impor o seu ponto de vista, a sua verdade, ou como entendeu o texto, muitas vezes distanciando-se daquilo que o próprio Jesus procurou transmitir.

Ainda estamos dentro do contexto do discurso que Jesus vem transmitindo aos seus discípulos desde o capítulo 23,37-39, todo o capítulo 24 e todo o capítulo 25 do Evangelho de Mateus.

A parábola das virgens não pode ser interpretada isoladamente e não tem sentido fora desse contexto.

Nesse ensinamento Jesus declara solenemente a incerteza do momento de sua volta e a necessidade de estarmos preparados para esse acontecimento.

A parábola é uma sequência de respostas para uma pergunta que os discípulos fizeram em particular a Jesus no Evangelho de Mateus: “Jesus estava sentado no monte das Oliveiras. Seus discípulos se aproximaram dele em particular, e disseram: ‘Dize-nos quando vai acontecer isso, e qual será o sinal de tua vinda e do fim do mundo” (Mt 24,3). Outras parábolas, nesta sequência, incluem a parábola da figueira (Mt 24,32-35) e a parábola do servo fiel (Mt 24,42-51).

A parábola das dez virgens reforça o convite à prontidão perante o nosso desconhecimento da segunda vinda de Cristo. Ela já foi descrita como uma “parábola de vigília”. A parábola a seguir é a dos talentos (Mt 25,14-30). Todas essas parábolas fazem parte da escatologia.

Todas essas parábolas falam sobre um Senhor ausente, mas em cada caso ele volta para agir corretamente para com aqueles a quem foram confiadas certas responsabilidades durante a sua ausência. Esta parábola é uma advertência dirigida especificamente àqueles dentro da igreja que julgam que, aconteça o que acontecer, o que já tivera feito em prol da igreja já é o suficiente para sua salvação e que o seu futuro eterno está garantido incondicionalmente, esquecendo-se do que Jesus alertara: “Assim também vocês: quando tiverem comprido tudo o que lhes mandarem fazer, digam: ‘Somos empregados inúteis;  fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17,10).

No casamento judaico havia um rito alegre e interessante para o cortejo que conduzia a noiva. Sob a luz de lâmpadas de azeite, cânticos e sons de instrumentos musicais, aguardava-se o noivo.

As dez virgens desta parábola eram amigas da noiva que esperavam com ela a chegada do esposo, que por morar distante, demorou a chegar para a o início das bodas. “O Reino do Céu será como dez virgens que pegaram suas lâmpadas de óleo, e, saíram ao encontro do esposo. Cinco delas não tinham juízo, e as outras cinco eram prudentes. Aquelas sem juízo pegaram suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. As prudentes, porém, levaram vasilhas com óleo, junto com as lâmpadas. O noivo estava demorando, e todas elas acabaram cochilando e dormiram” (M 25,1-5). A parábola não critica as virgens por terem dormido, uma vez que ambos os grupos fazem isso, mas, por algumas, não terem se preparado devidamente. Não está claro se as virgens imprudentes não levaram óleo suficiente ou se gastaram o óleo que levavam em momentos em que não deveriam tê-lo feito. O que está claro é que, quando precisaram do óleo, não o tiveram.

As prudentes, porém, levaram vasilhas com óleo, junto com as lâmpadas” (Mt 25,4).

As virgens prudentes tinham em estoque o azeite que fazia delas luz na escuridão: “Vocês são a luz do mundo. [...] Que a luz de vocês brilhe diante dos homens para que eles vejam as boas obras que vocês fazem, e louvem ao Pai que está no céu” (Mt 5,14.16).

As lâmpadas de azeite das virgens prudentes são propriedade particular de cada uma e era a certeza de caminhar por veredas escuras sem tropeçar ou errar o caminho, erradicando a negritude da noite do pecado, da violência, do desamor. E, para isso, elas não poderiam deixar faltar o óleo que alimentaria as chamas dessas lamparinas.

A sabedoria dessas virgens foi fazer o provimento do óleo para alimentar a luz de suas lâmpadas. Possuíam estoque de obras em amor, em sinceridade, em dedicação, de boas obras, de espiritualidade, que aquecia, alimentava e mantinha acesa a chama espiritual do amor que ardia em seus corações. E não andavam em escuridão, mas eram elas próprias a luz do mundo. Estavam atentas. Estavam vigiando. Não seriam pegas de surpresa.

A parábola das dez virgens passa uma mensagem que realça a necessidade de uma vida de constante vigilância: “O céu e a terra desaparecerão, mas minhas palavras não desaparecerão. Quanto a esse dia e essa hora, ninguém sabe nada, nem os anjos do céu, nem o Filho. Somente o Pai é que sabe. [...] Fiquem vigiando, pois vocês não sabem qual será o dia, nem a hora. [...] Vigiem e rezem, para não caírem na tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 24,35-36; 25,13; 26,41). Como vemos, Jesus não descuidou em alertar os seus discípulos para essa terrível realidade. E, as virgens prudentes, não deixando faltar o óleo para as suas lâmpadas, vigiavam para não serem pegas desprevenidas quando a escuridão viesse.

Vigiar, pois, é não deixar de fazer o bem, ainda que não seja reconhecido. Vigiar é não deixar de amar o próximo e continuar a levar esta mensagem de perdão e reconciliação entre Deus e os homens, através do seu filho Jesus. Vigiar é não deixar de ser “a luz do mundo” (Mt 5,14). Vigiar é não deixar de ser o “sal da terra” (Mt 5,13). E as virgens prudentes estavam fazendo isso.

Colocaram em depósito o amor, a graça e a misericórdia, para que estas virtudes espirituais, como um azeite precioso que estava na reserva, não deixasse apagar a luz do Espírito de Deus, que alimentando a chama, queimava e brilhava suavemente em seus corações.

As imprudentes também eram virgens, possivelmente confiantes de que, o que faziam, isto é, o óleo que reservaram para as suas lamparinas, seria suficiente para a sua caminhada na noite da vida e irem ao encontro do noivo que viria, mas que não sabiam quando chegaria. Julgavam que o seu estilo de vida descuidado fosse suficiente para conduzi-las pelo caminho que as levaria ao noivo.

Historicamente, as sociedades religiosas acreditavam que a virgindade concedia às mulheres capacidades mágicas ou sagradas. Atrelava-se à virgindade a pureza do corpo e da alma, assim essas virgens tinham uma autopercepção de santidade pelo simples fato de serem virgens, e ignoravam o fato de que precisavam de alguma coisa mais, além disso. Por isso não guardaram o azeite precioso do amor ao próximo em reserva. Não possuíam estoque de obras em amor, em sinceridade, em dedicação, de boas obras, de espiritualidade, que aquecia, alimentava e mantinha acesa a chama espiritual do amor que deveria arder em seus corações. Por isso, andariam na escuridão porque deixaram de ser a luz do mundo. Não estavam atentas. Não estavam vigiando...

As virgens néscias haviam decidido usar o seu óleo em prol de uma prática religiosa vazia, omissa, sem compromisso, visando apenas merecer por si mesmas a entrada nas bodas do Cordeiro.

Porém isto não foi suficiente para manter acesa a chama da luz divina em seus corações. Por final, elas terminam na escuridão fria da religião: “Aquelas sem juízo pegaram suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo” (Mt 25,3). A falta de óleo é o símbolo de uma vida vazia, carente de boas obras, distante do aconchego do amor do Pai e indiferente ao amor ao próximo.

A pseudo-santidade, orgulho, a auto-suficiência das virgens néscias as impediu de reconhecer que elas precisavam guardar em depósito o amor ao próximo, a compaixão e a prática da piedade.

A distância entre as virgens prudentes e as néscias é imensa.

No meio da noite, ou à meia noite, “ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Saiam ao seu encontro’” (Mt 25,6). À meia noite chega o noivo, ou seja, no pior momento da madrugada, quando as trevas estão com toda a sua força. Jesus prediz que próximo ao fim, a humanidade estará envolvida em densas trevas de pecados. E a chama do amor se esfriará em muitos: “A maldade se espalhará tanto, que o amor de muitos se resfriará” (Mt 24,12).

Mas quanto mais escuro for o ambiente, mais a luz se torna percebida porque “ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha, e sim para colocá-la no candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa” (Mt 5,14).

Quando o noivo chegou as dez virgens prudentes acenderam suas lâmpadas mostrando que, a qualquer hora que isso acontecesse, elas estavam preparadas para receber o noivo. Mas, “Aquelas que eram sem juízo, disseram às prudentes: ‘Dêem um pouco de óleo para nós, porque nossas lâmpadas estão se apagando” (Mt 25,8). O amor, as boas obras, a confiança total e a entrega nas mãos de Deus, não se dão e nem se empresta; são particularidades de cada um. O despreparo teve a mesma medida da insensatez. Se as virgens sensatas tivessem dividido o seu óleo com as insensatas, o óleo não daria para todas e todas ficariam nas trevas. Na caminhada da espera da vida pela vinda do noivo, não se pode deixar faltar o amor. Tem que se guardar o amor em depósito, no estoque dos corações, para que este brilhe iluminando o caminho que conduz à salvação.

Na esfera da graça nenhum cristão verdadeiro pode dividir a sua salvação com outro. As prudentes responderam: “De modo algum, porque o óleo pode faltar para nós e para vocês. É melhor vocês irem aos vendedores e comprar” (Mt 25,9). Seria óbvio dizer que nessas altas horas da noite não teria como encontrar vendedores que pudessem fornecer o óleo para as lâmpadas. E foi o que aconteceu. As insensatas não encontraram óleo e, enquanto estavam preocupadas em adquirir o óleo, o noivo chegou, e as que haviam se preparado para isso “entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou.” (Mt 25,10). A seguir, as virgens imprudentes chegaram, e a narrativa não deixa claro se elas conseguiram ou não óleo para suas lâmpadas. Apenas diz que: “Por fim, chegaram também as outras virgens, e disseram: ‘Senhor, Senhor, abre a porta para nós.’ Ele, porém, respondeu: ‘Eu garanto a vocês que não as conheço” (Mt 25,11-12).

Jesus já havia alertado a respeito disso, quando disse: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino do Céu. Só entrara aquele que põe em prática a vontade do meu Pai que está no céu. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi abertamente: nunca conheci vocês. Apartem-se de mim, vocês que praticam a iniquidade!” (Mt 7,21-23).

E Jesus termina a parábola das dez virgens, alertando: “Portanto, fiquem vigiando, pois vocês não sabem qual será o dia, nem a hora” (Mt 25,13). Pode ser hoje, amanhã, daqui a um ano, cem anos... Fica a pergunta: como está o óleo de nossas lâmpadas? 

sábado, 7 de novembro de 2020

 

ESTE FOI O MILAGRE QUE LEVOU À BEATIFICAÇÃO O PADRE DONIZETTI

 

Bruno Henrique Arruda de Oliveira é um menino nascido em 2006 com uma deformidade nos membros inferiores e que recebeu o milagre por intercessão de Padre Donizetti Tavares de Lima, reconhecido em decreto assinado pelo Papa Francisco, o qual levará à beatificação do sacerdote brasileiro.

Em um relato publicado no site do Santuário Nossa Senhora Aparecida, de Tambaú (SP), a mãe de Bruno, Margarete Rosilene Arruda de Oliveira, conta que o menino, nascido em 22 de maio de 2006, em Casa Branca (SP), tinha uma deformidade conhecida como “pé torto congênito bilateral”, uma anormalidade de difícil tratamento.

Quando a criança começou a ficar em pé, seus pais perceberam que ele “não conseguia encostar as solas dos pés na superfície, ele pisava com os lados dos pés e tinha as perninhas arqueadas”. A mãe levou ao pediatra o raio-X e o laudo e foi encaminhada ao ortopedista.

Certa noite, a mãe colocou Bruno de pé sobre uma mesa e tentou desentortar os pezinhos dele com suas mãos, um esforço em vão. Então, começou a chorar e clamar ao Pe. Donizetti: “Por favor, Santo Padre Donizetti, tenha piedade desta vossa filha que vos clama, me ajude: cure o meu filho, cura os pés dele... Sei que terei um caminho difícil pela frente com esse tratamento... Intercede por mim junto a Nossa Senhora Aparecida, sei que Ela não negará um pedido do senhor padre, pois Ela o ama muito, peça a Ela, por favor, que interceda ao filho Jesus, tal qual nas bodas de Caná”.

Prometeu também levar os sapatinhos de Bruno à casa de padre Donizetti, em Tambaú, “para que dê o testemunho do seu poder junto à Nossa Senhora e Jesus, para que outros que sofrem, possam também pedir ajuda a vós”. “Obrigada, essa é minha vontade, mas que seja feita a vontade de Deus sobre todas as vontades”, concluiu a mãe a sua oração.

No dia seguinte, ao acordar, colocou novamente o menino de pé sobre a mesa e ele “pisou com os pés retos e as solas dos pés tocavam a mesa”, conta Margarete, ressaltando que “suas pernas ainda continuavam arqueadas, mas, os pés estavam pisando certo”.

No dia da consulta com o ortopedista, ela levou o raio-X e o laudo e, após examinar os pés de Bruno, o médico exclamou que Deus havia curado a criança, que não tinha “nada nos pés”.

Com o tempo, as pernas do menino continuavam arqueadas, mas Margarete ressalta que “agradecia e pensava que as pernas continuavam assim, para dar testemunho do milagre que havia acontecido”.

Em 2010, visitou Tambaú e levou os sapatinhos de Bruno, os quais deixou juntamente com o laudo sobre a cama de Padre Donizetti. “Hoje meu filho Bruno encontra-se em perfeito estado de saúde, suas pernas desentortaram e seus pés são normais sem nunca ter se submetido a nenhum tratamento e nenhuma cirurgia. Não existe nenhuma sequela nele que indique que algum dia teve ‘pé torto congênito’”, completa a mãe.

Bruno, sua mãe Margarete, seu pai Adriano e seu irmão Gabriel estiveram presentes durante coletiva de imprensa realizada pela Diocese de São João da Boa Vista, na segunda-feira, 8 de abril, no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em Tambaú.

Participaram da coletiva o Bispo Diocesano, Dom Antônio Emídio Vilar, o reitor do Santuário e vice-postulador da causa, padre Anderson Godoi, e os sacerdotes de Tambaú padre Waldemar C. de Souza Júnior, Pe. Diego Santos de Oliveira e padre Edward Gregório Júnior.

“Hoje, para nós é um dia memorável, dia que temos que render graças a Deus por tantos benefícios que concede à nossa Diocese de São João da Boa Vista, em particular a este Santuário, onde temos a graça de viver este momento tão esperado por todos nós”, expressou o vice-postulador, padre Anderson Godoi.

O sacerdote recordou que durante o processo, realizaram “o levantamento da parte documental e conseguimos comprovar documentalmente. Depois, vimos os laudos médicos, do pediatra que acompanhou o Bruno desde seu nascimento, de outros ortopedistas que nos auxiliaram para chegar à conclusão deste milagre”.

“Lembro que quando conversamos com um ortopedista, ele disse assim para o Bruno: ‘Você tem que agradecer muito a Deus e ser muito devoto do Padre Donizetti, porque era para você ter uma dor insuportável e não conseguir ficar de pé’”, contou padre Godoi.

Por sua vez, o Bispo Dom Vilar ressaltou que o decreto de beatificação de padre Donizetti vem também recordar a todos sobre o chamado à santidade. “Podemos dizer que a Igreja é santa naqueles que estão santificados por Deus. Hoje, padre Donizetti, mas através dele todos nós somos chamados à santidade” declarou.

“Ninguém é santo sozinho, onde tem um santo, pode ter certeza, tem uma grande comunidade que vive a santidade. E Tambaú é chamada neste dia a renovar o seu compromisso com Deus e com os irmãos na sua vida cristã e ser um sinal também para acolher todos os peregrinos que vêm aqui”, acrescentou.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

 

PADRE MARIANO DE LA MATA APARÍCIO

 

Mariano de La Mata Aparício nasceu na Espanha, em 31 de dezembro de 1905, e veio ao Brasil em agosto de 1931, um ano após a sua ordenação sacerdotal.

Mariano veio ao mundo numa família amorosamente católica, de oito filhos, sendo que todos os quatro homens tornaram-se agostinianos, e os casamentos de suas irmãs deram-lhe vinte e sete sobrinhos, dos quais três sacerdotes e três religiosas missionárias.

Mariano chegou primeiro na cidade de Taquaritinga, Estado de São Paulo, onde trabalhou como vigário capelão do colégio das Irmãs Agostinianas Missionárias.

Passou por São José do Rio Preto onde deu aulas no Colégio São José, da congregação dos Agostinianos e depois foi capelão no asilo no distrito de Engenheiro Schimit, São José do Rio Preto, onde celebrava na Igreja de Santa Apolôlia e atendia a paróquia de Cedral, aproximadamente quinze quilômetros de onde estava, fazendo esse percurso sempre à pé. Depois foi transferido para a capital paulista, onde permaneceu até a sua morte.

Em vida, não realizou ações extraordinárias aos olhos do mundo, levando uma vida aparentemente comum nesta imensa cidade de São Paulo, mas viveu um heroísmo autêntico, e teve o Amor a Deus como incentivo maior, até nos seus mínimos gestos.

A partir de 1961 padre Mariano viveu no Colégio-Paróquia Sto. Agostinho, como professor, diretor espiritual e vigário paroquial.

As pessoas que o conheceram dão testemunho de como foi a sua vida, especialmente o Vice-Postulador da causa de sua beatificação, padre Miguel Lucas, que narrou sua vida e a reproduziu em pinturas.

A sobrinha agostiniana, Irmã María Paz, disse: “Conhecer Pe. Mariano e não conhecer o Amor de Deus era impossível. Usava qualquer pretexto para falar de Deus aos outros”.

Padre Mariano era chamado “mensageiro da caridade”, porque percorria as ruas de São Paulo visitando as dezenas de casas das Associações de Santa Rita de Cássia, onde se faziam roupas para os pobres; foi diretor espiritual dessa obra por quase 31 anos.

Procurava recursos para socorrer os necessitados. Ficou conhecido por distribuir santinhos e medalhas de santo Agostinho e santa Rita de Cássia aos operários de uma grande construção próxima à igreja onde trabalhava. Sempre levava-lhes, também, alimento, e muita fé e coragem. Era um sacerdote zelosamente cumpridor de suas obrigações ministeriais.

Madrugava muito; pouco depois das seis horas já se podia vê-lo a preparar o Altar para as Missas. Destacou-se pela visita aos doentes: era um bálsamo para os enfermos, levava a eles a Eucaristia e os demais Sacramentos, a qualquer hora do dia ou da noite.

Nas horas de angústia e dor, consolava as viúvas e filhos dos falecidos. Era como um pai para todos. Padre José Luiz Martínez, que conviveu muito com o padre Mariano, testemunha que “nos momentos mais difíceis a sua presença era desejada, porque significava um elemento de equilíbrio e de paz”.

Sempre conciliador, às vezes alguém o enganava, ou melhor, ele se deixava enganar, desde que isso servisse para ganhar outros para Deus.

Nunca falava mal do próximo, nem comentava defeitos alheios. Relacionava-se tão bem com os pobres quanto com os ricos piedosos, e com as autoridades.

Padre Mariano tinha uma alma alegre, e uma simplicidade contagiante e acolhedora. Nunca se vangloriava das suas qualidades, mesmo ao exercer cargos importantes.

Como professor era muito querido pelos alunos, porque sabia, sem perder a autoridade, fazer de cada um deles um amigo.

Estava sempre disposto a sacrificar seus direitos pelo bem da unidade. Extrovertido, festejava os sucessos dos outros. Cecília Maria de Queiroz, secretária da Igreja de santo Agostinho, relembra: “Padre Mariano falava muito da devoção ao Terço. Vi-o muitas vezes caminhar de um lado ao outro, rezando com o Breviário e seu Terço. Recomendava-nos rezar muito e sempre. Punha as coisas de Deus sempre em primeiro lugar”.

Padre Mariano pode ser considerado também um protetor dos esportistas.

Padre Mariano não só organizava, orientava e motivava jovens atletas, mas aconselhava-os antes das competições. Num programa de rádio, ele disse: “Os jogos, além de enrijecer os músculos do corpo, fortalecem a vontade, fomentam o companheirismo, reanimam o coração nas lutas que se apresentam e oferecem descanso ao intelecto que reclama algumas horas de lazer”.

A manifestação de santidade de uma pessoa cresce ao longo da vida e às vezes atinge o auge nos momentos finais. Aquele que com tanta dedicação cuidou dos doentes, foi visitado pela doença. Numa tarde de 1983, padre Mariano sentou-se numa escada do Colégio, o que não era comum para ele, sempre cheio de energia e disposição.

Perguntado por que se sentara ali, respondeu: “Sinto como se um gato me arranhasse o estômago...”. Era o câncer. Aceitou e suportou a doença com grande resignação. Sofria grandes dores mas esquecia de si e preocupava-se com os outros doentes do Hospital do Câncer, onde fora internado. Apesar dos sofrimentos, conservava a alegria.

Seus gestos de amor para com os visitantes, pessoal do serviço e demais enfermos causavam admiração. Na Quinta-Feira Santa, recebeu a visita dos confrades, dos amigos e do Cardeal-Arcebispo Dom Evaristo Arns. Insistiu com sua sobrinha, Irmã María Paz, para ir visitar a unidade de crianças com câncer. Pediu que todos fossem celebrar juntos a Eucaristia. Passou tranquilo a noite, mas na manhã seguinte tinha muita dificuldade em falar. À

 tarde já não falava, e assim permaneceu no Sábado Santo e Domingo de Páscoa. Na segunda- feira após a cristandade celebrar a Ressurreição do Senhor, perto das oito da manhã, partiu padre Mariano para celebrar no Céu a Páscoa eterna: sem nenhum movimento, sem o mínimo gesto, simplesmente parou de respirar, inclinando suavemente a cabeça para a direita...

Tinha 78 anos de idade. Era 5 de abril de 1983. O milagre necessário para a beatificação, aprovado pela Congregação para as Causas dos Santos e pelo Papa Bento XVI, ocorreu no dia 26 de abril de 1996.

Em Barra Bonita, interior de São Paulo, o menino João Paulo Polotto, de São José do Rio Preto, de seis anos de idade, aluno do colégio agostiniano de São José do Rio Preto e que fazia parte de um grupo de alunos que visitavam aquela cidade, sofreu um gravíssimo acidente ao soltar-se de sua mãe e atravessar a rua. Foi atingido por um caminhão que lançou seu pequeno corpo pelos ares, a vários metros de distância.

O menino, com o impacto, sofreu fratura do crânio. Foi internado com parada respiratória e hemorragia cerebral. Padres e alunos do Colégio Agostiniano São José, de São José do Rio Preto, onde padre Mariano viveu, pediram oração a intercessão do Padre Mariano pela criança.

Socorrido em estado de coma, no hospital foi diagnosticada fratura craniana, traumatismo crânioencefálico grave, paralisia, batimentos cardíacos lentos, parada respiratória, globo ocular projetado e afundamento do crânio.

Estava praticamente morto. Alguns minutos após o acidente, padres e alunos do Colégio Agostiniano São José, de São José do Rio Preto, rezaram pedindo a intercessão de Padre Mariano, juntamente com familiares do menino.

O resultado foi que o menino se recuperou tão rapidamente que, dez dias depois, o médico que o tinha atendido no hospital foi visitá-lo e, estupefato, o encontrou já na rua, perfeito, brincando com os colegas, andando de patins, sem nenhuma sequela do terrível atropelamento, como se nada tivesse acontecido! João Paulo é hoje um moço.

Dez dias depois do acindente o menino era visto nas ruas da cidade caminhando e brincando sem qualquer sequela do acidente. O Altar em honra ao Beato Mariano e suas relíquias encontram-se na igreja da Paróquia Santo Agostinho, que fica na Praça Santo Agostinho, 79, próxima à estação Vergueiro do Metrô.

São comemorados também neste dia: Santa Bertila de Chelles (virgem, abadessa), São Caio de Nagasakiu (catequista, mártir), São Dominator de Brescia (bispo), São Domnino de Grenoble (bispo), São Galácio, São Guido Maria Conforti.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

 

MEDO DA MORTE

 

Todos nós sabemos que o nosso fim último é a morte. Todos morreremos um dia, isso é uma realidade incontestável e, a cada dia que passa, mais perto chegamos dessa realidade.

A cada dia que passa mais e mais tomamos conhecimento de pessoas que morrem: um parente, uma pessoa amiga, um vizinho, alguém da comunidade.

Dificilmente passa um dia sem termos conhecimento da morte de alguém; é só pegar o jornal e conferir quantas pessoas morreram no dia anterior. A morte convive conosco.

Mas, mesmo sendo a morte uma realidade, uma coisa com quem convivemos todos os dias, ainda não nos acostumamos com ela e talvez jamais nos acostumaremos.

A morte é sempre causa de dor, de tristeza, de lágrimas.

Todos tem medo da morte; uns mais, outros menos, mas todos tem medo da morte.

Todos temos medo do desconhecido e, muito embora a nossa fé seja motivo de esperança mesmo depois da morte, todos se sentem desprotegidos e inseguros quando se fala desse fim último de todos os seres viventes.

Mas uma pergunta sempre vem à nossa cabeça: porque termos medo da morte?

As promessas e as certezas que o Senhor Jesus nos deixou no seu Evangelho não seriam suficientes para nos encher de coragem e enfrentar esse momento difícil  na vida de cada um com coragem e esperança? Jesus nos diz no seu Evangelho que “na casa do Pai há muitas moradas e que se assim não fosse ele não teria dito isso” (cf Jo, 14, 1).

Na casa do Pai há muitas moradas para todos aqueles que ouvirem a voz do Bom Pastor e seguirem os seus ensinamentos, os seus mandamentos; mas, porque ainda persiste o medo da morte? A morte é fruto do pecado, e todos nós sem distinção, somos pecadores.

Todos sabemos que o pecado é a negação do plano de salvação de Deus; quando cometemos um pecado dizemos “não” a Deus e ficamos em dívida com ele. Segundo Santo Afonso Maria de Ligouri, “Três coisas costumam tornar amarga a morte: primeiro, o apego demasiado que temos com as coisas da terra. Segundo, o remorso que nos invade por causa dos pecados que cometemos e, terceiro, a incerteza da nossa salvação eterna.”

Todos nós relutamos contra a morte, porque somos apegados demais às coisas terrenas e lutamos para jamais deixar os nossos bens materiais, o nosso carro, a nossa casa, ou o que quer que seja que conseguimos, como dizemos, com suor e sangue.

A vida toda que vivemos não foi suficiente para que aprendêssemos que as coisas da terra, as coisas deste mundo são passageiras e que as coisas que tem realmente valor são as coisas do Reino de Deus, são as coisas do céu.           

E Santo Afonso Maria Ligouri continua nos seus escritos, dizendo: “Não há dúvida que o apego aos bens terrenos torna amarga e miserável a morte, como diz o Espírito Santo no livro do Eclesiástico (41, 1): “Ò morte, como é amarga a tua memória para um homem que tem a paz no meio de suas riquezas.”

Em segundo lugar, o que nos causa medo da morte são os pecados que cometemos durante toda a nossa vida, (e continua Santo Afonso Maria de Ligouri), “são os pecados cometidos que mais afligem e roem o coração dos pobres moribundos. Lembrando-se que eles deverão comparecer dentro de pouco perante o tribunal divino, se vêem nesse momento terrível rodeados de seus pecados, que os apavoram e lhes dizem: “Somos obras tuas; não te deixaremos.”, e o remorso invade o coração  do moribundo que se vê cheio de pecados diante do Juiz Eterno que vai o vai julgar logo após a sua morte.

E, em terceiro lugar, o que apavora o moribundo é a incerteza da sua salvação eterna após a sua morte. “A morte chama-se “trânsito”, porque, por ela se passa de uma vida para a outra, da vida breve para a vida eterna. Por isso é grande o espanto daqueles que morrem com dúvida de sua salvação e se avizinham do grande momento com justo temor de uma morte eterna.” (Santo Afonso Maria de Ligouri).

Sempre tivemos medo da morte, e nunca soubemos explicar as causas desse medo, mas, Santo Afonso Maria de Ligouri  nos indica as três principais causas, como vimos anteriormente, e que são: “primeiro, o apego às coisas terrenas; segundo, o remorso dos pecados cometidos e, terceira, a incerteza da salvação.”

Então, é o momento de nos sintonizarmos melhor com as coisas de Deus, viver com mais intensidade o nosso cristianismo, nos apegarmos mais às coisas do céu, evitar o cometimento de pecados que podem e devem ser evitados e acreditarmos nas palavras do Mestre que promete a salvação a todos os que ouvem a sua mensagem, seguem os seus mandamentos e acreditam nele; ”Não se perturbe o seu coração; acredite em Deus, acredita também em mim” (Jo, 14, 1), nos diz Jesus. “Porque deve ser muito grande a alegria dos santos quando vêem a morte se aproximar” (Sto Afonso Maria de Ligouri), porque os santos tem a certeza de que muito embora seus pecados tenham sido muitos, a misericórdia de Deus é maior do que o maior pecado do mundo.

Tenhamos confiança, e vamos nos preocupar mais com as coisas de Jesus Cristo porque, quando passarmos para a outra vida, será Jesus Cristo o primeiro a nos estender a mão para nos introduzir na vida que não se acaba mais, e vai nos dizer, com toda a certeza: “Vinde, benditos de meu Pai, tomem posse do reino preparado para vocês desde a criação do mundo...” (Mt 25, 34).

terça-feira, 3 de novembro de 2020

 

MORTE, PASSAGEM PARA A VIDA...

 

Todos nós, sempre e de um modo especial, nos lembramos dos nossos mortos. Todos temos dentro de nós uma lembrança, um vazio deixado por alguém a quem a gente amou e que partiu para a outra vida.       

Todos, de uma maneira ou de outra, conhecemos  a dor do luto, lamentamos o lugar que ficou vazio na mesa, no sofá da sala, reclamamos a voz que se calou, sentimos a falta da presença que se tornou ausência. Em muitos dos nossos lares, senão em quase todos, já passou a figura tenebrosa e indesejável da morte, e a morte já levou muitos dos nossos entes queridos.

Se não conhecêssemos a Cristo e a sua mensagem, talvez não houvesse esperanças em nossos corações e nossa vida seria uma fuga eterna da morte, uma fuga de uma realidade  que nenhum ser vivente sobre esta terra poderá se livrar; o que nos conforta, quando pensamos sobre a morte ou somos atingido por ela através de um ente querido são as palavras de Jesus Cristo, quando disse: “Em verdade, em verdade eu lhes digo: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte.”  (Jo, 8, 51).

Até Jesus Cristo e a sua Mãe Santíssima, Maria, conheceram a morte e passaram por ela; passaram pela morte, mas venceram a morte, nos dando a esperança e a certeza de uma vida plena depois da morte, a vida que não se acaba, a vida eterna, a vida que o Senhor Jesus nos veio trazer em abundância, e Jesus afirma isso no seu Evangelho quando conversava com as irmãs Marta e Maria: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre.” (Jo, 11, 15-26).

A morte é para o cristão apenas a passagem que une o nosso tempo à eternidade; a morte é a porta que se abre para que nós possamos entrar na vida que Jesus Cristo preparou para todos nós, “e não nos devemos admirar porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que fizeram o bem, sairão para a ressurreição da vida, e os que fizeram o mal, para a ressurreição do juízo.”  (conf Jo, 5, 28-29).

Todos nós, quando morre alguém da nossa família, do nosso círculo de amizade, choramos, e às vezes choramos muito.         É bom chorar, é necessário que se chore porque as lágrimas sinceras são as provas mais evidentes do amor que tínhamos por aquela pessoa que se foi; as lágrimas são a demonstração e a exteriorização dos nossos sentimentos mais sinceros e mais íntimos.

Todo cristão chora quando um ente querido parte para a vida eterna.

Mas o cristão não chora de desespero, o cristão chora, sim, mas de saudade.

Nós sentimos saudade do ente querido que se foi, mas temos confiança  nos ensinamentos evangélicos de Jesus Cristo, acreditamos na sua mensagem e temos a certeza evangélica de que os nossos entes queridos que conviveram longo tempo conosco neste vale de lagrimas e que ouviram a voz do Bom Pastor e fizeram parte do seu rebanho, agora, depois de sua morte, estão na glória de Deus Pai, na casa do Pai onde, segundo uma das promessas de Jesus Cristo, existem muitas moradas, e Jesus nos diz no seu Evangelho: “Não se perturbe o seu coração; creia em Deus, creia também em mim. Na casa do meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse eu não teria dito isso para vocês, porque eu ou preparar um lugar para vocês. Quando eu tiver ido e tiver preparado um lugar para vocês, de novo voltarei e tomarei vocês comigo, para onde eu estiver estejam  também vocês.” (Jo 14, 1-3).    

Paulo, Apóstolo, em sua carta aos Romanos, ele escreveu para nos confortar a respeito da morte: “Pelo batismo fomos sepultados com Cristo na morte a fim de que nós também, como o Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, levemos uma vida nova. Mas, se morremos com Cristo, cremos também que vivemos com ele, sabendo que o Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte não tem mais poder sobre ele.” (Rom 6, 3-4, 8-9).           

Paulo, através dessa sua carta nos dá a certeza que a vida eterna já começou aqui e agora em nós pelo batismo e pela fé no Senhor Jesus.      João Evangelista, com sua mensagem de fé e amor, também nos conforta a todos e nos dá a certeza de que, um dia, após a nossa morte, nós veremos realmente a Deus tal qual ele é.

Na sua primeira carta, João nos escreve: “Filhinhos, vejam como é grande o amor que o Pai tem por nós! Seu amor para conosco é tão grande que ele nos deu a graça de sermos chamados “Filhos de Deus”, e o somos de fato. O mundo não nos conhece, porque não conhece a Deus. Meus queridos amigos, já somos filhos de Deus aqui e agora, embora, externamente ainda não apareça o que vamos ser. Mas sabemos, com certeza, que, quando aparecer, seremos semelhantes a ele porque o veremos como ele realmente é. Todo aquele que tem essa esperança nele se torna puro, como também ele é puro.” (1Jo, 3, 1-3).

O que nos conforta sobre os pensamentos que temos sobre os nossos mortos são as palavras de Jesus, quando diz: “Deus, não é Deus dos mortos, e sim dos vivos, porque para ele todos vivem.”  (Lc 20, 38).

Tudo isso revigora a nossa certeza de que os nossos mortos, os nossos entes queridos por quem a gente derramou copiosas lágrimas de dor e saudade, todos eles estão na casa do Pai. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

 

DIA DOS FINADOS

“O SENHOR NÃO É DEUS DOS MORTOS, E SIM DOS VIVOS”. (Lc 20,38).

 

“O Senhor me deu, o Senhor me tirou. Bendito seja o nome do Senhor”. (Jó 1,21).

“Esta é a vontade de meu Pai: que vê o Filho e nele crê tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”. (Jo 6,40).

 

Diácono Milton Restivo

 

A morte nos apavora. A morte nos acabrunha. A morte nos entristece...

Aflige-nos o temor da destruição perpétua, mas devemos considerar que, dentro de nós, temos a semente da eternidade. Essa semente da eternidade nos dá a segurança e a esperança de uma vida que jamais se acaba e a certeza de que não seremos destruídos eternamente e que, a morte do corpo, o fim da matéria, não será o fim de tudo para aquele que crê.

O que nos dá essa certeza é a redenção que Jesus Cristo veio trazer ao gênero humano e que age dentro de cada um de nós. Por essa redenção nos vem a certeza de que a morte corporal  será vencida um dia quando o reino de felicidade, perdido pelo homem, for restituído pelo seu Onipotente e Misericordioso Senhor, Deus Pai.      

Paulo Apóstolo, nosso amigo e orientador, escreve em uma de suas cartas: “Em realidade sabemos que, se a casa terrestre desta nossa morada for desfeita, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas, eterna, nos céus. Por isso também suspiramos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é celeste, se, todavia, formos encontrados vestidos, e não nus. Realmente nós, que estamos nesse tabernáculo, gememos acabrunhados, porque não queremos ser despojados, mas sim revestidos por cima, a fim de que, o que é em nós mortal, seja absorvido pela vida. Ora, o que nos formou para isto mesmo, foi Deus que nos deu o penhor do Espírito. Por isso, sempre cheios de confiança, sabemos que, enquanto estamos no corpo, estamos longe do Senhor (porque caminhamos pela fé e não pela visão), cheios de confiança, temos mais vontade de nos ausentarmos do corpo e estar presentes ao Senhor. Por isso, quer ausentes, quer presentes, esforçamo-nos para lhe agradar, pois é necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que é devido ao corpo, segundo fez o bem ou o mal.” (2Cor 5,1-10).

A cada dia que passa morremos um pouco, ou, numa visão mais otimista e cristã, renascemos para a verdadeira vida, aquela que não se acaba mais...

O fenômeno que chamamos “morte” é uma coisa sempre presente em nossa existência; é uma “coisa” que a todo momento marca presença em nossa vida, muito embora, a todo custo, tentamos ignorá-la.

Tudo morre, tudo se acaba, tudo passa, tudo nesta vida é vaidade, como diz o escritor sagrado: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.” (Ecl 1,2).

Vaidade das vaidades, tudo neste mundo é vaidade, exceto adorar, amar e servir ao Senhor Nosso Deus enquanto tivermos vida, tivermos forças... Tudo o mais é vaidade.

Para o cristão não existe morte. A morte é, simplesmente, um ponto de partida, não um fim.

A morte é um trampolim que nos arremessa para a vida eterna, para a vida que não se acaba mais porque, a promessa de Jesus Cristo não pode ser esquecida por nenhum dos seus seguidores: “E todo o que deixar a casa, ou os irmãos ou irmãs, ou o pai ou a mãe, ou os filhos ou os campos por causa do meu nome, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna.” (Mt 19,29), e “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo.” (Mc 13,13; Mt 24,13).

A vida é eterna. A vida é abundante porque Jesus Cristo veio para que tivéssemos vida, e a tivéssemos em abundância: “Eu vim para que tenham a vida, e a tenham em abundância.” (Jo 10,10). A vida não se acaba.

Na nossa ignorância naquilo que diz respeito às promessas divinas em relação à vida eterna, sofremos, sofremos muito quando um ente querido nos deixa e parte desta para herdar a vida eterna.

Choramos, choramos muito dentro de nós, ainda que o nosso semblante se esforce para demonstrar conformismo.

É bom chorar, se faz necessário chorar, mas o cristão não chora por desespero. Antes de tudo, o cristão chora por saudade, de saudade de alguém que partiu temporariamente, mas, temos certeza, está na casa do Pai; apenas nos antecipou e isso é a nossa fé que nos garante que um dia nos juntaremos a esse ente querido porque Jesus nos conforta dizendo: “Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas.” (Jo 14,1-2).

Para nós, cristãos, não existem mortos; existem somente vivos, e as Sagradas Escrituras nos dizem isso com muita propriedade: “Ora, ele não é Deus dos mortos, e sim dos vivos; todos, com efeito, vivem para ele.” (Lc 20,38).

Não nos conformamos, muitas vezes, quanto parte de junto de nós um ente muito amado para a outra vida porque desconhecemos as mensagens evangélicas de esperança que nos são transmitidas com tanta autoridade por Jesus Cristo: “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá.” (Jo 11,25-26). “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente.” (Jo 6,51). “Em verdade, em verdade, vos digo: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte.” (Jo 8,51).

Confortados com estas palavras de Jesus Cristo podemos ter a certeza de que os nossos entes muito amados que se foram, vivem no Senhor e iremos, sem sombra de dúvidas, reencontrá-los no Senhor. Os nossos entes queridos quando passam desta vida para a vida que não se acaba mais, simplesmente abandonam o seu envoltório de carne como se estivessem se despindo de uma roupa velha, rota, estragada ou fora de moda para receber as vestimentas de quem vive a vida da Trindade.

A morte não põe fim à vida. A morte não tem poder para isso.

Cristo morreu na cruz, mas venceu a morte ressuscitando no terceiro dia, e como disse e escreveu o Apóstolo Paulo, se Cristo não tivesse ressuscitado como havia prometido, estaríamos perdendo tempo em acreditar nele: “Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como pode alguns dentre vocês dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a fé de vocês. [...] Pois se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a fé de vocês; vocês ainda estão nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens.” (1Cor 15,12-14.16-19).

Apesar da certeza da ressurreição que nos é transmitida pelas Sagradas Escrituras, os nossos sentimentos humanos nos fazem sentir saudades dos nossos entes queridos que nos deixaram, mas, não podemos perder a esperança, não podemos perder a confiança nos ensinamentos de Jesus Cristo; temos de acreditar nas suas verdades evangélicas de que os nossos entes queridos, que caminharam conosco neste vale de lágrimas e que ouviram a voz do Bom Pastor e fizeram parte de seu rebanho, agora, depois desse passamento, estão na glória do Senhor, na casa do Pai, onde, segundo uma das promessas do Divino Mestre, existem muitas moradas: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar, e quando eu me for e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também.” (Jo 14,2-3).

O Apóstolo Paulo, em sua carta aos romanos, nos conforta a respeito da morte: “Ou não sabeis que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, é na sua morte que fomos batizados? Portanto pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova. [...] Mas, se morremos com Cristo, temos fé que também viveremos com ele, sabendo que Cristo, uma vez ressuscitado dentre os mortos, já não morre, a morte não tem domínio sobre ele.” (Rm 6,3-4.8-9).

Paulo, por esta carta, transmite-nos a certeza que a vida eterna já começou aqui e agora em nós pelo batismo e pela fé no Senhor Jesus.

O Apóstolo Amado, o Evangelista João, em sua mensagem de fé e amor, também nos conforta a todos e nos dá a certeza de que, um dia, após a nossa morte, veremos o Pai tal qual ele é: “Vede que prova de amor nos deu o Pai: sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não o conheceu. Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é. Todo o que nele tem essa esperança, purifica-se a si mesmo como também ele é puro.” (1Jo 3,1-3).

Nossos entes muito amados que nos deixaram estão vivendo no Senhor e, com toda a certeza, os reencontraremos na casa do Pai.

O Senhor Jesus venceu a morte ressuscitando e “... a morte não tem domínio sobre ele.” (Rm 6,9), e Paulo Apóstolo baseia-se na ressurreição de Cristo para nos dar a certeza que também venceremos a morte: “Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé.” (1Cor 15,13-14).

Quem morre acaba de nascer, de nascer para a vida, de ressurgir para a vida em abundância, a vida que não se acaba mais, a vida que é para valer, e isso entendeu muito bem Francisco, o pobrezinho de Assis: “É morrendo que se ressuscita para a vida...”.


domingo, 1 de novembro de 2020

 

TODOS OS SANTOS E SANTAS E FINADOS

 

“VENHAM BENDITOS DE MEU PAI! RECEBAM COMO HERANÇA O REINO QUE MEU PAI PREPAROU PARA VOCÊS DESDE A CRIAÇÃO DO MUNDO”. (Mt 25,34).

 

Diácono Milton Restivo

 

O dia de Todos os Santos deveria ser comemorado, como sempre foi, no primeiro dia de novembro que antigamente também era feriado, mas, como deixou de ser feriado, a Igreja transfere esta comemoração de Todos os Santos para o primeiro domingo do mês de novembro.

O dia de Todos os Santos, como sugere a comemoração, é dedicado a todos os santos e santas existentes; aos santos e santas que conhecemos e aos santos e santas que não conhecemos; aos santos e santas que sabemos o nome e a sua história, e aos santos e santas que não sabemos o nome nem a história de sua vida e que jamais ouvimos falar ou ouviremos falar; aos santos e santas que conviveram conosco e que nos anteciparam na casa do Pai e lá estão nos aguardando.

Esta data é dedicada a todos os santos e santas que todos conhecem o seu nome e às santas e santos anônimos.

A festa de Todos os Santos é uma das comemorações mais antigas e mais importantes do calendário litúrgico; é a festa da família de Deus, da família da Igreja de Jesus Cristo.

A fé nos apresenta as santas e os santos todos como nossos irmãos e irmãs que viveram em épocas e lugares diferentes. A fé apresenta-nos os santos e santas como membros da mesma família, da família a qual todos pertencemos através do batismo.

Como membros dessa família, devemos nos encher de alegria e congratularmo-nos com os nossos irmãos e irmãs que já venceram o mundo, a carne e o demônio e se acham, agora, num lugar onde não há mais lágrimas, sofrimento, tristeza ou dor.

A Igreja apresenta-nos os santos e santas como modelos de vida cristã e nos orientam na penosa viagem para a casa do Pai. Eles e elas já passaram pelo que estamos passando, viveram os problemas que estamos vivendo e, por isso, nos indicam os meios que devemos aplicar para chegarmos ao porto da salvação.

E esses meios que eles usaram e nos ensinaram, é a observação dos mandamentos, da Lei de Deus, a observação da caridade e da partilha ao próximo, os mandamentos da lei da Igreja, trabalho, oração, mortificação, e aceitação dos sofrimentos que não podemos evitar.

A festa de Todos os Santos é, para nós, que ainda caminhamos neste vale de lágrimas, um dia de alegria, de consolo e de animação: eles foram como nós somos e, pelo seu estilo de vida conseguiram a graça da santidade; nós também somos como eles e podemos e devemos conseguir.

Os santos e santas foram o que somos hoje: homens e mulheres lutadores e, muitos dentre eles, grandes pecadores que reconheceram em Jesus a salvação e a ele aderiram incondicionalmente. Os santos e santas foram o que nós somos hoje, e nós seremos o que eles são: “Benditos do Pai”.

Temos, dentro de nós, a semente da esperança do céu. Quem tem esperança, santifica-se.

Cremos na vida eterna. Na luta, na dor, no desânimo e nas tribulações, lembremo-nos da glória que nos espera.

Daqui a pouco tudo estará acabado e podemos, nós mesmos, se seguirmos os ensinamentos de Jesus Cristo e os exemplos dos santos e santas, experimentar e nos deliciar com as maravilhas celestes antecipadas por Paulo Apóstolo: “Olho algum viu, ouvido nenhum ouviu, nem jamais veio à mente do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam.” 1Cor, 2, 9).

Santos e santas não são somente os que gozam da veneração nos altares da família cristã.

Todos os que estão na casa do Pai, gozando da eterna bem-aventurança da presença de Deus são os nossos santos e santas, saibamos ou não os seus nomes, as suas histórias, os seus sacrifícios, os seus martírios.

Os nossos parentes, amigos, benfeitores, os nossos antepassados que já passaram por esta vida, por este vale de lágrimas, e que agora gozam da eterna bem-aventurança, são os santos e santas que comemoramos no dia de Todos os Santos; são os santos e santas anônimos da nossa festa.

Quantos conhecidos nossos e que conviveram conosco lá estão e são comemorados no dia de hoje. Com quantos santos convivemos e que hoje, na glória eterna eles rezam por nós, velam por nós. Se estão na glória de Deus Pai são santos e santas e simplesmente, para serem santos e santas, não há a necessidade de terem sidos canonizados e frequentarem o ensejo da veneração do povo.

Nesta festa de Todos os Santos somos convidados a lançar um olhar nas magníficas habitações celestes e contemplar as multidões de santos e santas, aqueles benditos do Pai que se acham no reino que lhes foi preparado desde o princípio dos tempos: “Venham vocês, que são abençoados pelo meu Pai. Recebam como herança ao Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo”. (Mt 25,34).

Não há espetáculo aqui na terra, por mais belo e atraente que seja que se possa comparar com a grandiosidade do céu que hoje se abre à nossa vista, e repito os dizeres de Paulo: “Olho algum viu, ouvido nenhum ouviu, nem jamais veio à mente do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam.” 1Cor, 2, 9).

Todos sabemos e temos conhecimento, principalmente através das folhinhas e dos calendários que a nossa Igreja, em cada dia do ano nos propõe à veneração, a memória e a lembrança de um ou mais santos e santas, de um ou mais bem-aventurados que foram modelos de perfeição cristã como a nos estimular na prática da virtude que nos leva ao nosso destino eterno, a verdadeira imortalidade para a qual foram criados todos os homens.

Todos os dias veneramos um ou mais santos. Todos os dias é dia de algum santo, conhecido ou não. Mas, mesmo nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, mesmo que veneremos centenas de santos por dia, jamais veneraríamos todos os santos que estão na casa do Pai.

Claro, não os conhecemos a todos; são centenas de milhares, canonizados ou não, que são venerados ou não. E é por isso que a nossa Santa Igreja, na sua sabedoria que lhe transmite o Espírito Santo, instituiu o dia de Todos os Santos e Santas, para que nenhum santo ou santa ficasse no esquecimento, seja ela ou ele conhecido ou não.

No dia de Todos os Santos veneramos os nossos irmãos e irmãs que se encontram na glória eterna gozando das bem-aventuranças eternas. Não é necessário ser canonizado para ser santo.

A Igreja simplesmente canoniza alguns para que sirvam de modelo de vida cristã a todos os demais que caminham neste vale de lágrimas, mas, em comparação às centenas de milhares de santos que se encontram na casa do Pai, os canonizados são poucos, pouquíssimos mesmo.

Todos os que estão no céu, gozando da presença beatífica de Deus, são santos e santas.

Todos os que viveram em plenitude as bem-aventuranças pregadas por Jesus Cristo e que foram perseguidos por amor da justiça e do nome do Senhor, são santos e santas. E é por isso que a Igreja, na comemoração do dia de Todos os Santos e Santas, através dos Santos Evangelhos, nos lembra a todos as bem-aventuranças pregadas por Jesus a todos os homens.

Quem levou e leva a sério essas bem-aventuranças e, quem é injuriado, perseguido, caluniado e maltratado por segui à risca as bem-aventuranças pregadas, ensinadas e vividas por Jesus, já é santo e santa nesta terra e, quando partir para a casa do Pai, será recebido com festas na morada eterna que Deus Pai preparou para todos.

Santos e santas não são somente aqueles que já gozam da presença eterna de Deus Pai.

Temos muitos santos e santas que hoje estão caminhando conosco, ao nosso lado, vivendo conosco no nosso dia-a-dia, padecendo conosco as agruras da vida, rindo conosco nas mesmas alegrias e chorando nas mesmas lágrimas as nossas tristezas e procurando viver as bem-aventuranças pregadas, ensinadas e vividas por Jesus Cristo. Santos somos todos nós que vivemos a vida da graça, que vivemos a vida de Deus.

“A terra está cheia de santos. São os pobres e os aflitos, gente que chora porque foi privada das coisas mais necessárias para sobreviver ou porque foram atingidas injustamente naquilo que existe de mais sagrado.Santos são os mansos deste mundo, os que não têm forças para se defender, os que não podem levantar a voz para reclamar os seus direitos. Santos são os que tem fome e sede de justiça, que não se conformam com este mundo violento... Santos são os misericordiosos que aprenderam com Jesus Cristo a lei do perdão e do amor. Santos são os puros de coração que nunca se deixaram levar pela corrupção... Santos são os que promovem a paz, fonte de todos os bens, princípio da alegria...” (Padre Virgílio).

Santos somos todos que caminhamos seguindo as pegadas de Jesus neste vale de lágrimas.

No início do mês, no dia dois de novembro, comemoramos também os nossos falecidos, os que nos anteciparam na casa do Pai. Todos nós, sempre e de um modo especial, nos lembramos dos nossos falecidos. Todos temos, dentro de nós, uma lembrança, um vazio deixado por alguém a quem amamos e que partiu para a vida que não se acaba mais.

Todos, de uma maneira ou de outra, conhecemos a dor do luto, lamentamos o lugar que ficou vazio na mesa, no sofá da sala, reclamamos a voz que se calou, sentimos a falta da presença que se tornou ausência.

Em muitos lares, senão em quase todos, já passou a figura tenebrosa e indesejável da morte, e a morte já levou muitos dos nossos entes queridos. Se não conhecêssemos Jesus e a sua mensagem, talvez não houvesse esperança em nossos corações e nossa vida seria uma fuga eterna da morte, uma fuga de uma realidade que nenhum ser vivente sobre esta terra poderá se livrar; o que nos conforta, quando pensamos sobre a morte ou somos atingidos por ela através de um ente querido, são as palavras de Jesus: “Em verdade, em verdade eu lhes digo: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte.” (Jo, 8,51).

Até Jesus e a sua Mãe, Maria, conheceram a morte e passaram por ela; passaram, mas venceram a morte, nos dando a esperança e a certeza de uma vida plena depois desta vida, a vida que não se acaba, a vida eterna, a vida que Jesus veio nos trazer em abundância, e Jesus afirma isso no seu Evangelho quando conversava com as irmãs de Lázaro, Marta e Maria: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre.” (Jo, 11, 15-26).

A morte é, para o cristão, apenas a passagem que une o nosso tempo à eternidade; a morte é a porta que se abre para que possamos entrar na vida que Jesus preparou para todos, “e não nos devemos admirar porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que fizeram o bem, sairão para a ressurreição da vida, e os que fizeram o mal, para a ressurreição do juízo.” (Jo 5,28-29).

 Todos, quando morre alguém da nossa família, do nosso círculo de amizade choramos, e às vezes choramos muito. É bom chorar, é necessário que se chore porque as lágrimas sinceras são as provas mais evidentes do amor que tínhamos por aquela pessoa que se foi; as lágrimas são a demonstração e a exteriorização dos nossos sentimentos mais sinceros e mais íntimos.

Todo cristão chora quando um ente querido parte para a vida eterna. Mas o cristão não chora de desespero nem de revolta.

O cristão chora, sim, mas de saudade. Sentimos saudade do ente querido que se foi, mas temos confiança nos ensinamentos evangélicos de Jesus, acreditamos na sua mensagem e temos a certeza evangélica de que os nossos entes queridos, que conviveram longo tempo conosco neste vale de lagrimas e que ouviram a voz do Bom Pastor e fizeram parte do seu rebanho, agora, depois de sua morte, estão na glória de Deus Pai, na casa do Pai onde, segundo uma das promessas de Jesus, existem muitas moradas: “Não se perturbe o seu coração; creia em Deus, creia também em mim. Na casa do meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse eu não teria dito isso para vocês, porque eu vou preparar um lugar para vocês. Quando eu tiver ido e tiver preparado um lugar para vocês, de novo voltarei e tomarei vocês comigo, para onde eu estiver estejam  também vocês.” (Jo 14,1-3).  

Paulo, na sua carta aos Romanos, escreveu para nos confortar a respeito da morte: “Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Pelo batismo fomos sepultados com ele na morte, para que assim, como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da glória do Pai, assim nós também possamos caminhar numa vida nova. [...] Mas, se estamos mortos com Cristo, acreditamos que também vivemos com ele, pois sabemos que Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais: a morte não tem poder sobre ele. (Rm 6,3-4.8-9).

Paulo, através dessa sua carta nos dá a certeza que a vida eterna já começou aqui e agora em nós pelo batismo e pela fé no Senhor Jesus.

João Evangelista, com sua mensagem de fé e amor, também nos conforta a todos e nos dá a certeza de que, um dia, após a nossa morte, veremos realmente a Deus tal qual ele é.

Na sua primeira carta, João nos escreve: “Filhinhos, vejam como é grande o amor que o Pai tem por nós! Seu amor para conosco é tão grande que ele nos deu a graça de sermos chamados “Filhos de Deus”, e o somos de fato. O mundo não nos conhece, porque não conhece a Deus. Meus queridos amigos, já somos filhos de Deus aqui e agora, embora, externamente ainda não apareça o que vamos ser. Mas sabemos, com certeza, que, quando aparecer, seremos semelhantes a ele porque o veremos como ele realmente é. Todo aquele que tem essa esperança nele se torna puro, como também ele é puro.” (1Jo 3,1-3).

O que nos conforta sobre os pensamentos que temos sobre os nossos falecidos são as palavras de Jesus: “Deus, não é Deus dos mortos, e sim dos vivos, porque para ele todos vivem.” (Lc 20,38).

Tudo isso revigora a nossa certeza de que os nossos mortos, os nossos entes queridos por quem a gente derramou copiosas lágrimas de dor e saudade, todos eles estão na casa do Pai.