domingo, 20 de dezembro de 2020

 

“EIS AQUI A ESCRAVA DO SENHOR” (Lc 1,38)

IV DOMINGO DO ADVENTO

Ano – B; Cor – Roxo; Leituras: 2Sm 7,1-5.8-12.14.16; Sl 88 (89); Rm 16,25-27; Lc 1,26-38.

Diácono Milton Restivo

 Chegamos ao último domingo do Advento. Estamos às portas do Natal de nosso Senhor Jesus Cristo. Na liturgia acende-se a última vela da coroa do Advento, a vela do amor, e quem a acender deve dizer:

·         “Bendito sejais, Deus de amor, pela luz de Cristo, sol de nossa vida, a quem esperamos com toda a ternura do coração”.

Nas leituras da liturgia da Palavra busca-se uma morada para Yahweh, no Antigo Testamento, e para o Emanuel – Deus conosco, no Novo Testamento.

Um personagem de suma importância para Israel e Judá aparece na primeira leitura: o rei Davi.

Não podemos ignorar a figura importante, também, do profeta Natã que foi fundamental no apoio dado ao rei Davi, principalmente quando este cometia deslizes.

Davi sentia-se incomodado por morar num palácio de cedro, enquanto a Arca da Aliança estava “alojada numa tenda”, e propôs-se a construir um Templo para a Arca da Aliança, morada de Yahweh que acompanhou os israelitas durante todo o tempo de sua caminhada pelo deserto.

A construção de uma casa permanente para substituir o tabernáculo, ocupou sempre o pensamento de Davi. O profeta Natã, a mando de Yahweh, desestimula Davi, dizendo que, quem deveria construir o Templo para Yahweh não seria Davi, mas o seu filho:

·         “E quando esgotar seus dias e você repousar junto a seus antepassados, eu exaltarei a sua descendência depois de você, aquele que vai sair de você. E firmarei a realeza dele. Ele é quem vai construir uma casa para o meu nome. E eu estabelecerei o trono real dele para sempre. Serei para ele um pai e ele será um filho para mim”. (2Sm 7,12-14).

E assim aconteceu: Salomão, filho de Davi, seu sucessor no trono de Israel, construiu o Templo de Yahweh no monte Sião, em Jerusalém, conforme o mesmo Salomão afirma:

·         “Meu pai Davi queria construir ai um Templo para o Nome de Yahweh, o Deus de Israel. Yahweh, porém, disse a meu pai Davi: ‘Você está querendo construir um Templo para o meu Nome, e faz muito bem querendo isso. Contudo, não é você quem vai construir o Templo, mas o seu filho, saído de suas entranhas, ele é quem vai construir o Templo para o meu Nome.” (1Rs 8,18-19).

E Salomão construiu para Yahweh um Templo de tamanha riqueza que, em toda a história do povo israelita, nenhum Templo superou o de Salomão em grandiosidade e ostentação.

Acontece, porém, que no ano 587 aC os babilônios saquearam e reduziram a cinzas esse Templo, quando invadiram e destruíram a cidade de Jerusalém (2Rs 25,8-17).

Os templos de pedra, ainda que sejam riquíssimos, grandiosos e com grande ostentação, um dia deles não sobrarão senão pedras sobre pedras (cf Mt 24,2; Mc 13,1-2; Lc 21,6).

O famoso Templo de Salomão foi reduzido a cinzas e dele não ficou mais do que pedras sobre pedras, assim como as duas reconstruções posteriores que também foram saqueadas e destruídas restando deles apenas pedras sobre pedras.

Para a realização de seus projetos para a Nova Aliança, Yahweh não quer templos de pedras como ponto de referência de sua presença no meio do seu povo: ele quer que cada um seja seu templo e Maria foi o primeiro Templo da Santíssima Trindade: do Pai:

·         “Não tenha medo, Maria, porque você encontrou graça diante de Deus. Eis que você vai ficar grávida, terá um filho, e dará a ele o nome de Jesus. Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo.” (Lc 1,30-32a); do Espírito Santo: “O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra.” (Lc 1,35a); e do Filho: “Por isso, o Santo que nascer de você será chamado Filho de Deus.” (Lc 1,35b).

Paulo Apóstolo entendeu tão bem o que Deus queria de todos os que aceitassem a Salvação vinda por meio de Maria que, mais tarde, diria:

·         “Vocês não sabem que são templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vocês? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo e esse templo são vocês”. (1Cor 3,16-17); “Ou vocês não sabem que o seu corpo é templo do Espírito Santo, que está em vocês e lhes foi dado por Deus?” (1Cor 6,19).

Para que a Salvação viesse até nós, Yahweh não buscou o Templo de Salomão e nenhum qualquer outro templo majestoso de pedra, mas uma virgenzinha onde nela já morava o Espírito Santo e ela já era o templo do Espírito Santo.

Maria foi o Templo, mais do que isso, o Sacrário vivo da segunda Pessoa da Santíssima Trindade, onde o Filho de Deus se fez homem, assumiu a natureza humana:

·         “a Palavra se fez homem e veio habitar entre nós” (Jo 1,14a).

A carne de Jesus rasgada na cruz foi formada no ventre de Maria. O sangue de Jesus derramado na cruz era também sangue de Maria, assim como todos os filhos recebem o que tem de sua mãe.

O sofrimento de Jesus na sua paixão e morte foi também o sofrimento de Maria porque, qual é a mãe que não sofre com o seu filho quando ele está sendo injustiçado e mais do que isso, julgado, condenado, executado por um crime que não cometera?

O Filho de Maria, voluntariamente, tornou-se

·         “o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29,b), “Aquele que nada tinha a ver com o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que por meio dele sejamos reabilitados por Deus” (2Cor 5,21), aquele que “veio para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (Mt 20,27; Mc 10,45).

Resgate significa o valor pago para obter a libertação ou soltura de um cativo, e o Filho de Maria, Filho também do Pai, a quem o Pai havia dito:

·         “Tu és o meu Filho amado! Em ti encontro o meu agrado” (Lc 3,22) e a quem Pedro dissera: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16) deu como resgate a sua própria vida em favor de todos os homens. O Filho de Maria, que é o Filho do Pai, veio para sua casa, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11).

Maria não foi somente o Templo da Santíssima Trindade, mas o pára-raios do Espírito Santo porque, onde quer que ela estivesse, o Espírito Santo se manifestava.

Foi assim na anunciação do anjo:

·         “O Espírito Santo virá sobre você” (Lc 1,35).

Foi assim na sua visita a Isabel:

·         “Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1,41b).

Foi assim no cenáculo com os apóstolos:

·         “Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, Mãe de Jesus... [...] Quando chegou o dia de Pentecostes, todos eles estavam reunidos no mesmo lugar. De repente veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles estavam. Apareceram então como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo...” (At 1,14; 2,1-4a).

É na humildade que o Senhor Nosso Deus se manifesta; é nas coisas humildes que o poder de Deus se realiza. O Senhor gosta das coisas pequenas e das pessoas humildes. É por isso que, muitos anos antes do nascimento de Jesus Cristo, Yahweh anunciou, através do profeta Miquéias, que o Salvador do mundo nasceria na mais insignificante cidade de Judá, a esquecida localidade de Belém:

·         “Mas você, Belém de Éfrata, tão pequena entre as principais cidades de Judá! É de você que sairá para mim aquele que há de ser o chefe de Israel. A origem dele é antiga, desde tempos remotos.” (Mq 5,1).

O Evangelista Mateus não se esqueceu desse prenúncio quando Herodes pergunta aos chefes dos sacerdotes e doutores da lei o que diziam os profetas sobre onde nasceria o Messias e:

·         “Eles responderam: ‘Em Belém, na Judéia, porque assim está escrito por meio do profeta: ‘E você, Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as principais cidades de Judá, porque de você sairá um Chefe que vai apascentar Israel, meu povo’.” (Mt 2,5-6).

E, quando chegou a plenitude dos tempos, Yahweh busca, não um Templo de tamanha riqueza, ostentação e grandiosidade como o Templo de Salomão para, através dele, vir até nós a Salvação, mas Yahweh busca uma menina mulher para ser o Templo da Salvação, o Sacrário vivo da Palavra para agasalhar, no seu ventre, o Rei dos Reis, o Emanuel – Deus conosco -, o Messias, o Cordeiro de Deus, A Palavra:

·         “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher...” (Gl 4,4); “E a Palavra se fez homem e veio habitar entre nós. E nós contemplamos a sua glória do Filho único do Pai, cheio de amor e fidelidade.” (Jo 1,14).

O Filho a que se refere Paulo e a Palavra, a que se refere João, são os mesmos que o mesmo João cita no seu Evangelho:

·         “No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus, e a Palavra era Deus. No começo ela estava voltada para Deus. Tudo foi feito por meio dela e, de tudo o que existe, nada foi feito sem ela. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens.” (Jo 1,1-4).

É para este Filho de Deus e esta Palavra do Pai que Yahweh busca uma jovenzinha virgem para que, através dela a Palavra se torne homem e venha habitar entre nós (cf Jo 1,14).

A jovenzinha tornar-se-ia o Templo vivo onde se agasalharia o Filho de Deus e a Arca do Novo Testamento onde a Palavra assumiria a natureza humana, considerando que, na Palavra, já existia a natureza divina:

·         “a Palavra que estava voltada para Deus, e a Palavra que era Deus. Tudo foi feito por meio da Palavra e, de tudo o que existe, nada foi feito sem a Palavra” (cf Jo 1,1).

E esta “Palavra se fez homem e veio habitar entre nós” personificada na pessoa de Jesus Cristo, filho de Maria,

·         “o Filho de Deus que se fez homem para que todos os homens se tornassem filhos de Deus.” “Na Palavra estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4).

O profeta Isaias, o mais messiânico dos profetas, setecentos anos antes desses acontecimentos, já profetizara:

·         “Levanta-te, recebe a luz, Jerusalém, porque chegou a tua luz e a glória do Senhor nasceu sobre ti. Porque eis que as trevas cobrirão a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti nascerá o Senhor, e a sua glória se verá em ti. As nações caminharão à tua luz, e os reis, ao resplendor da tua aurora.” (Is 60,1-3).

Não somente isso. Isaias ainda adianta o nome que teria o Salvador no nosso meio: “Emanuel”, que significa “Deus conosco”, e quem foi Jesus senão “Deus conosco?” Diz ainda quem seria a mãe do Prometido:

·         Pois por isso o mesmo Senhor dará a vocês este sinal: Uma virgem conceberá e dará à luz um filho e seu nome será Emanuel.” (Is 7,14; Mt 1,23).

Por gostar das pessoas pobres e humildes é que o Senhor escolheu entre todas as mulheres a mais humilde, mas também a mais bela, a mais santa e a que mais amou ao próprio Senhor Deus.

E Maria foi humilde e acreditou na palavra de Deus. Por isso ela foi escolhida para se tornar a Mãe de Jesus Cristo.

Nos últimos dias que antecederam a era cristã, lá, em Nazaré da Galiléia, morava essa jovenzinha, virgenzinha, menina moça, entre doze e quinze anos de idade, a quem o Senhor Nosso Deus, desde os primórdios da humanidade, preparava para ser a mãe de seu Filho, o Templo da Palavra, que seria o Salvador do gênero humano mergulhado no pecado:

·         “O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi, o nome da virgem era Maria.” (Lc 1,26-27).

O Anjo Gabriel transmitiu à jovenzinha e virgem Maria o recado que o Senhor lhe havia determinado e, sem dúvida, Maria o ouviu cheia de espanto e emoção e, comovida, a princípio, sem saber exatamente o que estava acontecendo e qual seria a razão daquela “Anunciação”.

Sintonizada como sempre fora com a vontade e os desígnios de Deus, e seu coração entendendo que um pedido do Senhor não é simplesmente um pedido, mas um prenúncio de que a Salvação prometida desde o início dos tempos estava chegando, Maria não titubeou e colocou-se inteiramente, de corpo e alma, ao serviço do Senhor, respondendo ao Mensageiro:

·         “Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a sua palavra.” (Lc 1,38).

Maria, quando consultada pelo Anjo, declara-se “a escrava do Senhor”, e se coloca inteiramente à disposição de Deus para que a vontade do Senhor se realizasse nela da maneira mais perfeita e como Deus quisesse.

Nos nossos dias não existe mais escravidão e, por isso mesmo, não entendemos bem o significado e a dimensão dessa palavra “escrava”.

Ser escravo é não ter vontade própria, não ter o direito, sequer, de ter desejos, é não ter, absolutamente, liberdade. Ser escravo é sempre estar sujeito a um senhor como propriedade única e exclusiva dele. Ser escravo é viver em absoluta sujeição a um senhor.

Do livro “Glórias de Maria Santíssima” de Santo Afonso Maria de Ligouri, colhi esta preciosidade:

·         “A história do mundo (quando da anunciação do anjo) para por uns instantes, instantes que parecem eternidade; será que os homens vão receber a salvação por meio daquela virgenzinha, ou tudo vai continuar da maneira que era antes? Tudo vai depender da resposta da Virgem. E é São Bernardo quem nos diz, em uma oração cheia de súplica ardente: ‘Senhora, o Anjo espera a tua resposta; e todos nós, que já estamos condenados à morte, com muito mais ansiedade a esperamos. Deus te oferece, Senhora, o preço da nossa salvação que será o Verbo Divino que se fará homem no teu ventre. Se a Senhora o aceitar por filho, seremos imediatamente livres da morte. O mesmo Senhor nosso, pelo muito que está enamorado de tua beleza, muito deseja o teu consentimento, por cujo intermédio determinou salvar o mundo. Responda, Senhora, depressa; não retardes mais ao mundo a salvação que agora só depende do teu consentimento.’ E eis que Maria responde ao Anjo, dizendo: ‘Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra’. (Lc, 1, 38). Esta foi a resposta mais bela, mais humilde e mais prudente que nem toda a sabedoria dos homens e dos anjos juntamente teria podido inventar”.

sábado, 19 de dezembro de 2020

 

MARIA GRÁVIDA RUMO A BELÉM.

 

Nesse tempo que antecede o natal, em que aguardamos o nascimento  do Filho de Deus que se tornará homem no seio imaculado de Maria, a gente fica preocupado, pensando na maneira como todos os cristãos se preparam para receber a Salvação que vem de Deus. Se nós não amamos suficientemente Maria é porque desconhecemos quase que na sua totalidade os sacrifícios e sofrimentos porque ela teve de passar para nos trazer aquele que viria para tirar o pecado do mundo.        Hoje em dia, quando a jovem esposa vai ter o seu primeiro filho, ela é cercada de todas as atenções; quando chega nos últimos dias de sua gravides já não a deixam mais fazer serviços pesados ou incômodos; a mãe da jovem esposa grávida vem limpar a sua casa, fazer a sua comida, lavar e passar a sua roupa, enfim, a família se desdobra em atenções e prestações de serviços para que a jovem esposa grávida não se esforce demais, não se exponha demais para não sentir em demasia os incômodos da gravides.  Tudo é facilitado para a jovem esposa  que está prestes a ser mãe, e nada mais justo.    

Mas é exatamente por isso que, nas minhas meditações, eu volto aos tempos de Maria e a vejo grávida de oito meses e meio, com o seu ventre crescido anunciando que muito breve o seu filho deverá nascer.     Mas, de repente, um decreto do imperador de Roma tira Maria e José de sua cômoda e pobre casa de Nazaré e os obriga a se dirigir até a cidade de Belém para o recenseamento do povo judeu. Na oportunidade Maria estava de oito meses e meio de gravides.

A gravides de Maria foi normal, como qualquer gravides de qualquer mulher que está prestes ma dar à luz. Com Maria nada foi diferente; quando tudo estava pronto para que Maria desse à luz ao seu filho ali mesmo, na cidade de Nazaré, o Senhor Nosso Deus usa o decreto do imperador de Roma para levá-la até Belém, onde, desde a antiquidade e os profetas, deveria nascer o Salvador.          Mas Maria estava de oito meses e meio de gravides, e aquilo era uma ordem do imperador de Roma que tinha de ser cumprida, tinha de ser obedecida.          

E José arruma o seu burrinho, arruma as coisas, coloca Maria no lombo  do burrinho e parte para a distante Belém, aproximadamente oitenta quilômetros de Nazaré.  

E o caminho era o mais difícil possível.      Tinham de passar por um longo deserto, e, no deserto, o clima é assim: durante o dia o calor é violento, chegando a mais de cincoenta graus, e a noite a temperatura cai para até quatro graus. E não era só isso: o deserto é infestado de insetos e animais nocivos, venenosos e nojentos como abelhas, cobras, moscas escorpiões, aranhas e até feras, sem contar os perigos dos ladrões que se escondiam nas rochas para assaltarem as caravanas de mercadores ou peregrinos que por ali passavam.

E Maria, ora andava à pé, ora no lombo do burrinho. E Maria estava grávida de mais de oito meses e meio. Será que podemos imaginar o sofrimento o incômodo, o discômodo por que passou Maria? O calor, o suor, a poeira, o sol, o frio, o medo dos insetos, dos animais e dos ladrões, a insegurança, aquele casal jovem desprotegido de tudo e de todos, só tendo a certeza de que o Senhor Deus estava com eles.

E hoje nós vemos os cuidados pelas quais são cercadas as jovens esposas que vão ser mães.        Eu fico meditando no sofrimento de Maria. Será que cada um de nós já parou para meditar todos os momentos e movimentos da Virgem desde quando o Anjo lhe anunciou o nascimento de Jesus até o nascimento de Jesus na gruta de Belém? Se não meditamos isso ainda, não podemos de maneira nenhuma avaliar a dor, o sofrimento, a angústia, a entrega total e o grande amor que Maria tem por Deus e por nós, seus filhos, muitas vezes ingratos.      

E o momento que nós vivemos nos convida a isso.           

E hoje, quantas Marias esperam os seus Meninos Jesus ainda desamparadas de tudo e de todos, e esses Meninos Jesus já não nascem mais em currais e nem são depositados em cochos, mas nascem nos barracos, nas favelas, debaixo das pontes e viadutos, e os Josés, e as Marias dos nossos dias, como José e Maria, tem de abandonar os seus lares porque leis injustas e opressoras os obrigam a migrarem  para procurarem serviço em terras distantes para não morrerem à mingua.

Os imperadores de Roma continuam assinando os seus decretos muitas vezes absurdos, sem pensar naqueles que serão desalojados e expulsos de suas casas e de suas terras por causa de suas leis; e os Josés e as Marias continuam deixando tudo para trás e migrando, oprimidos pelos decretos dos imperadores de Roma que hoje são as nossas autoridades políticas que não sofrem o efeito do decreto e nem são atingidos pelas suas próprias leis.    

É o momento de pararmos e meditarmos um pouco  para ver quanto Maria sofreu  por nós e quanto ela nos amou, desde que, por meio dela nos veio a salvação, e a Salvação chegou até nós pela maneira mais difícil e cruel possível...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

 

MARIA E JOSÉ – SITUAÇÃO ANGUSTIANTE DE UM NOIVO

 

José ficou numa situação difícil depois que Maria ficou grávida de Jesus. Sem uma explicação aparente e razoável, de repente, vê a sua noiva grávida.

Mateus narra assim esse drama terrível vivido por José: sua “A origem de Jesus Cristo foi deste modo: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, achou-se ter concebido (por obra) do Espírito Santo, antes de coabitarem. José, seu esposo, sendo justo, e não a querendo difamar, resolveu repudiá-la secretamente. Andando ele com isto no pensamento, eis que um Anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, e lhe disse: ‘José, filho de Davi, não temas  receber em tua casa Maria, tua esposa, porque o que nela foi concebido é (obra) do Espírito Santo.  Ela dará à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta que diz: ‘Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porão o nome de Emanuel, que quer dizer: ‘Deus conosco’.  Ao despertar José de seu sono, fez como lhe tinha mandado o Anjo do Senhor, e recebeu em sua casa (Maria),  esposa. Não a conheceu até que deu à luz um filho, e pôs-lhe o nome de Jesus.” (Mt 1,18-25).     

Depois desse impasse resolvido e de toda a preparação por parte do Senhor para a vinda do Messias e Salvador de todos os homens, Lucas nos narra assim o seu nascimento: “José foi também da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi, que se chamava Belém, porque era da casa e família de Davi, para se recensear juntamente com Maria, sua esposa, que estava grávida. Ora, estando ali, aconteceu completarem-se os dias em que devia dar à luz o seu filho primogênito. Enfaixou-o e o reclinou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem.” (Lc 2, 4-7).

Até ai tudo certo, tudo resolvido; os planos do Senhor Nosso Deus estavam se realizando.  Mas ainda havia um “porém”: apenas três pessoas estavam sabendo das maravilhas que o Espírito Santo estava operando em Maria: ela mesma, José  e uma parenta de Maria, chamada Isabel, que tomou conhecimento do fato quando Maria a visitou.

Isabel, inspirada pelo Espírito Santo, ou melhor, deixemos que o Evangelista Lucas nos narre como isso aconteceu: “Naqueles dias, levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá.  Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Aconteceu que, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.  Exclamou ela em alta voz e disse: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde a mim esta dita, que a mãe do meu Senhor venha ter comigo? Porque logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre.  Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas’.” (Lc 1,39-47).

Mas, os planos do Senhor não era somente deixar Maria, José e Isabel desfrutarem dessas maravilhas e beberem desse néctar maravilhoso vindo dos céus. O Senhor queria que mais pessoas tomassem conhecimento e partilhassem da alegria do nascimento do Salvador prometido desde o início dos tempos. O Senhor age de uma maneira que somente Deus tem condições de realizar, e assim fez: “Naquela mesma região, havia uns pastores que velavam e faziam de noite a guarda ao seu rebanho. Eis que apareceu junto deles um Anjo do Senhor, e a glória de Senhor os envolveu com a sua luz e tiveram grande temor. Porém, o Anjo disse-lhes: ‘Não temais porque eis que vos anuncio uma boa-nova, que será de grande alegria para todo o povo: Nasceu-vos hoje na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo, o Senhor. Eis o sinal: Encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura’. Subitamente apareceu com o Anjo uma multidão da milícia celeste louvando e glorificando a Deus, e dizendo: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade’.” (Lc 2,8-14).

Que espetáculo maravilhoso deve ter sido esse. Mas o Senhor Nosso Deus não precisa de espetáculos para anunciar as verdades da salvação, e dispensa até platéias sofisticadas; o Senhor quis apenas demonstrar a alegria que inundava o céu ao ser mandado para todos os homens “O Cordeiro de Deus” que veio para tirar o pecado do mundo. (Jo 1,29).

Para anunciar que o Filho de Deus havia nascido, o Senhor manda um Anjo, e depois uma multidão do exército celeste, mas... para quem??? Para os pobres, para os humildes, para os ignorantes e explorados pastores que “Não tinham onde reclinar a cabeça.” (Lc 9,58).

Esta foi a primeira, grande e maravilhosa manifestação do Senhor Jesus ao povo de Israel que, nessa oportunidade, estava sendo representado pelos pastores, os pobres, oprimidos, humildes e injustiçados homens da terra.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

 

ORAÇÃO À VIRGEM IMACULADA

 

São maravilhosas as orações que conhecemos e que  pedem a intercessão de Maria. São Maravilhosos os apelos  que os santos e os devotos filhos de Maria fazem, suplicando o seu olhar meigo, o seu sorriso maternal, e sua proteção de mãe terna e carinhosa.

Os apelos feitos à Maria para que ela seja a nossa Medianeira de todas as graças e seja nosso elo de ligação com o seu amado filho, são centenas e milhares, e em todos os apelos existe a extrema confiança de que vai ser atendido por parte de quem faz a oração.

Vamos nos unir também, neste momento , em oração, para pedirmos à Maria por nós e pelo mundo, para que ela interceda junto ao seu Divino Filho para que alcancemos  as graças que solicitamos: “Maria, tu que encontraste graça junto de Deus, roga por todos aqueles que vivem marginalizados pela sociedade, sem apoio e sem defesa, e que não tem onde reclinar a sua cabeça. Maria, tu que aceitaste com alegria o anúncio de que darias à luz um filho - roga por todas as mães que, por desespero ou por egoísmo, são levadas a interromper a maternidade, decepando a vida antes mesmo dela nascer. Maria, tu que refugiaste num estábulo para dar à luz o Filho de Deus - roga por todos aqueles que nascem, vivem e morrem às margens da sociedade, na periferia da vida, nas favelas das grandes cidades. Maria, tu que experimentaste a perseguição dos poderosos - roga por todos os perseguidos, pelos injustiçados detidos nas prisões e por todos aqueles que sofrem e morrem pela liberdade e pela justiça.Maria, tu que profetizaste a queda dos orgulhosos, dos prepotentes e dos injustos - roga a fim de que despontem dias melhores para todos os filhos de Deus, dias em que a justiça e a paz se abracem, o amor e perdão andem de mãos dadas. Maria, tu que anunciaste o reerguimento dos humildes e a saciedade dos pobres - roga por todos aqueles que estão sendo judiados, humilhados e violentados ou que passam fome por causa do egoísmo de uns poucos. Maria, tu que contemplaste o sangue de teu filho derramado  no chão - roga pelas vítimas da violência e da guerra, , pelas mães e esposas dos desaparecidos, e por todos aqueles que oferecem suas vidas para salvar um irmão. Maria, tu que aguardaste com fé ardente o anúncio da ressurreição de teu filho - roga por todos nós para que permaneçamos sempre de pé, na alegre esperança de que as promessas  feitas aos nossos pais também hão de se cumprir.” (Padre Virgílio, ssp, O Domingo de 08.12.82 - Missa da Imaculada Conceição).

Maria puríssima, concebida sem a mancha do pecado, Virgem escolhida por Deus para ser a Mãe de seu Filho; bendita entre as mulheres; modelo de santidade e nossa advogada, olhai com bondade as nossas súplicas e atenda as nossas orações para que possamos, neste mundo, viver o reino que o Cristo veio nos trazer.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

 

“SE ALGUÉM QUER VIR APÓS MIM... TOME A SUA CRUZ... E SIGA-ME” (Lc 9,23)

 

Jesus nunca escondeu nada de ninguém e para ninguém. Jesus Cristo jamais disse alguma coisa se referindo ao plano de Deus referente aos homens e dizendo como se deve viver uma vida verdadeiramente voltada para Deus e para o próximo onde escondesse alguma coisa para não chocar seus ouvintes. Sempre que falava de como se deve viver para pertencer ao Reino de Deus, Jesus era claro, preciso e objetivo e jamais usou de meias palavras ou termos dúbios.

Jesus jamais obrigou alguém a seguí-lo, prova disso está nessa sua afirmativa: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me.” (Lc 9,23).

Jesus não obriga; ele respeita o livre arbítrio de cada um e diz: “Se alguém quer vir após mim...”; Jesus deixa a decisão para cada um de nós. Precisamos “querer” ir após ele, e isso é uma atitude de nossa livre e expontânea vontade...

Mas, mesmo deixando para nós a escolha de seguí-lo ou não, ele não se omite quanto às consequências que recairá sobre as atitudes que venhamos tomar, sejam boas ou más: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas o que perder a sua vida  por causa de mim, esse a salvará.” (Lc 9,24).

O velho Simeão, quando da apresentação de Jesus, ainda bebê, nos braços sua mãe, no Templo de Jerusalém, profetizou: “Eis que este menino foi colocado para a queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição.” (Lc 2,34). Para a queda daqueles que virariam as costas para os seus ensinamentos e para o soerguimento dos que aderissem às suas mensagens e as vivessem intensamente, e, como um sinal de contradição, pois que, ele mesmo afirmou: “Não pensem que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada. Vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra.” (Mt 10,34). Por essa maneira dura de falar, é que os escribas e fariseus diziam: “Está possuído por Beelzebu.”  (Mc 3,22).        E, por jamais omitir qualquer coisa e sempre dizer a verdade, considerando que a verdade, para quem não a assume e a nega, incomoda e dói, Jesus já previa qual seria o seu fim: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto...” (Mc 8,31). E todos aqueles que se propuserem seguir a Jesus terão o mesmo destino, e isso ele não escondeu de ninguém e orientou seus seguidores, quando disse: “Eu envio vocês como ovelhas no meio de lobos. Sejam, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas. Cuidado com os homens. Eles entregarão vocês a seus tribunais e açoitarão vocês em suas sinagogas. Por minha causa vocês serão conduzidos diante dos governadores e dos reis. Assim vocês servirão de testemunho para eles e para os pagãos. Quando vocês forem presos, não se preocupem nem pela maneira, nem pelo que vocês haverão de falar. Naquele momento, será inspirado o que  vocês haverão de dizer. Porque naquele momento  não serão vocês que falarão, mas o Espírito de vosso Pai  falará em vocês. O irmão entregará o seu irmão à morte, e o pai entregará o seu filho. Os filhos levantar-se-ão contra seus pais e os matarão. Vocês serão odiados  por todos por causa do meu nome.” (Mt 10,16-22).

Jesus é realmente motivo de contradição, conforme profetizou o velho Simeão; é incrível acreditar que, alguém que seja perseguido, injuriado, maltratado e açoitado seja bem-aventurado. Mas é exatamente isso que Jesus afirma: “Bem-aventurados vocês serão, quando lhes insultarem, quando, por minha causa, lhes perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vocês. Alegrenm –se e exultem, porque será grande a recompensa de vocês nos céus.” (Mt 5,11-12), e completa: “E todo aquele que tiver deixado casas ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por causa do meu nome, receberá muito mais e herdará a vida eterna.” (Mt 19,29).

E, bem por isso, Jesus determina as condições para quem quiser seguí-lo: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas o que perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, irá salvá-la. Com efeito, o que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e arruinar a sua vida? Pois o que daria o homem em troca de sua vida? De fato, aquele que, nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e de minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele quando vier na gloria do seu Pai com os santos e anjos. (Mc 8,34-38).

Não se pode ser cristão autêntico se não assumir a cruz proposta e oferecida por Jesus Cristo.

Renunciar-se a si mesmo significa não se preocupar tanto com os próprios problemas, que talvez não sejam tão grandes e graves como se imagina; é parar de reclamar da dor de estômago, da indisposição, dor de cabeça, para ir ao encontro do irmão que se encontra no seu leito de dor e o tira do convívio da sociedade e, às vezes, até do convívio de seus familiares...   

Renunciar a si mesmo é parar de reclamar do alto custo das roupas que se usaria para ir ao baile do clube  para ouvir o irmão que reclama do alto preço do arroz, da carne, do pão, que, pelo seu baixo salário, o deixa sem condições de abastecer a sua mesa com o mínimo necessário para a manutenção e o sustento decente de sua família.  Renunciar a si mesmo significa se esquecer um pouco de si próprio para se lembrar do irmão necessitado e carente de... Deus...

Renunciar a si mesmo significa abandonar-se à Providência Divina: “Por isso lhes digo: não se preocupem com a sua vida quanto ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa? Olhem as aves do céu: não semeiam nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai Celeste as alimenta. Ora, vocês não valem mais do que elas? Quem dentre vocês, com as suas preocupações, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida? E com a roupa, porque andam preocupados? Aprendam dos lírios do campo, como crescem, e não trabalham e  nem fiam. E no entanto eu lhes asseguro que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que existe hoje e amanhã será lançada ao forno, não fará ele mesmo mais por vocês, homens fracos na fé? Por isso, não andem preocupados, dizendo: ‘Que iremos comer?’  Ou, ‘Que iremos beber?’ Ou, ‘que iremos vestir?’ De fato, são os gentios que estão à busca de tudo isso: o vosso Pai Celeste sabe que vocês tem necessidade de todas essas coisas. Busquem, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Não se preocupem, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal.” (Mt 6,25-34).

Para cada dia basta as suas próprias preocupações, e cada dia tem as preocupações próprias, por isso Jesus nos orienta para nos preocuparmos com o hoje, com o agora, com o minuto presente pois que, o próximo minuto já poderá não nos pertencer.

Se quisermos seguir Jesus, é necessário que tomamos a nossa cruz de cada dia.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

 

MARIA, OBRA PARTICULAR DO ESPÍRITO SANTO.

 

            “Tudo o que se realizou em Maria foi por obra do Espírito Santo. A Virgem Maria é aquela mulher que, à sombra da potência da Santíssima Trindade, foi a criatura mais estreitamente  associada à obra da salvação. A Encarnação do Verbo verificou-se sob o coração virginal de Maria por obra do Espírito Santo. Em Maria começou a raiar a aurora da nova humanidade que, com Cristo, se apresentava ao mundo para levar a termo o plano original da aliança com Deus que foi infringida pela desobediência do primeiro homem. E Jesus Cristo foi concebido pelo poder do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria. Maria, dando o seu consentimento à palavra divina, se tornou Mãe de Jesus, e abraçando de todo o seu coração e sem impedimento algum de pecado a vontade de salvação de Deus, se consagrou totalmente como serva do Senhor à pessoa e à obra de seu Filho. E por isso Maria não foi utilizada como instrumento passivo, meramente passivo nas mãos de Deus, mas cooperou livremente, pela fé e obediência, na salvação dos homens.” (LG 56).

“E é muito belo que, assim como Maria esperou com essa fé a vinda do Senhor, de modo semelhante também, neste final do segundo milênio, Maria esteja  presente a iluminar a nossa fé nessa perspectiva de Advento de Jesus Cristo. [...] E, nessa esperança de tempos novos, recordemos que a obra de renovação da Igreja não poderá nunca realizar-se senão no Espírito Santo, ou seja, com a ajuda de suas luzes e do seu poder. Lembremo-nos, ainda, que “a maior obra realizada pelo Espírito Santo, obra a qual todas as outras se referem constantemente, indo ela haurir  como a uma fonte, é precisamente a obra da encarnação do Verbo Eterno, a obra do Espírito Santo no seio da Virgem Maria.” (João Paulo II).

Maria, por obra e graça do Espírito Santo, se tornou Mãe de Jesus Cristo e, consequentemente, Mãe de Deus.

“Cristo, Redentor do homem e do mundo, é o centro da história; Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre.” (Hb 13, 8).

“E, nesse momento em que os nossos pensamentos e os nossos corações se acham voltados para Maria na perspectiva do segundo milênio que está para se encerrar e que nos separa da sua primeira vinda ao mundo, com isso eles se voltam para o Espírito Santo, por obra do qual se verificou a concepção humana do mesmo Cristo; e se voltam também para aquela por quem foi concebido e de quem nasceu; voltam-se para a Virgem Maria.” (João Paulo II).

Assim, os nossos pensamentos e os nossos corações se voltam de modo especial para o Espírito Santo e para a Mãe de Deus, Maria.

Glorificamos a maternidade divina da Virgem Maria, e, simultaneamente, glorificamos a particular obra do Espírito Santo.

Obra que se concretizou, quer na concepção e no nascimento do Filho de Deus por obra do Espírito Santo, quer ainda e igualmente por obra do Espírito Santo na maternidade santíssima da Virgem Maria. Esta maternidade não é só fonte  e fundamento de toda a santidade excepcional de Maria e de sua particularíssima participação em toda a economia da salvação, mas estabelece também um permanente vínculo materno de Maria com a Igreja, devido ao fato de Maria ter sido escolhida pela Santíssima Trindade para ser a mãe de Cristo,  o qual é a “cabeça do corpo, que é a Igreja.” (Cl 1, 18).

Este vínculo revela-se, particularmente, aos pés da cruz, onde Maria esteve “padecendo profundamente com seu Filho Unigênito, e associando-se com coração de Mãe ao sacrifício dele...      Jesus Cristo, que agonizante na cruz deu Maria por mãe ao seu discípulo, com esta palavras: “mulher, eis ai o teu filho.” (Jo 19, 26-27 - LG 58 - João Paulo II).

(Irmão José Milson - Marista.)

E é por isso que devemos sempre repetir: “Salve Santa e Imaculada e Gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe de Igreja. Salve obra maravilhosa do Espírito Santo”.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

 

“UMA VIRGEM CONCEBERÁ...” (Is 7,14)

 

Antes de sua vida pública, conforme nos narram os Evangelistas, o Senhor Jesus se manifestou , de uma maneira especial e maravilhosa, por três vezes e em situações diferentes. A sua primeira manifestação foi na noite do seu nascimento, quando aconteceram coisas maravilhosas e que, anteriormente, já haviam sido anunciadas  pelos Profetas do Antigo Testamento.

O Profeta Isaias, setecentos anos antes do nascimento de Jesus Cristo, já profetizava: “Levanta-te, recebe a luz, Jerusalém, porque chegou a tua luz e a glória do Senhor nasceu sobre ti. Porque eis que as trevas cobrirão a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti nascerá o Senhor, e a sua glória se verá em ti. As nações caminharão à tua luz, e os reis, ao resplendor da tua aurora.” (Is 60,1-3). Não somente isso; o Profeta Isaias ainda adianta o nome e o que seria o Salvador no nosso meio: “Emanuel”, nome simbólico dado ao Senhor Jesus e que significa “Deus Conosco”, e quem foi Jesus no nosso meio senão “Deus Conosco”???

Assim se expressa Isaias: “Pois por isso o mesmo Senhor vos dará este sinal: Uma virgem conceberá e dará à luz um filho e seu nome será Emanuel.” (Is 7,14).

Lucas, o mais detalhista dentre os quatro Evangelistas a respeito do nascimento de Jesus, narra com pormenores esse acontecimento a começar pela Anunciação desse maravilhoso fato à jovem e virgem Maria citada por Isaias: “...uma virgem conceberá...” (Is 7,14), e o Mensageiro do Senhor para essa Boa Nova não foi outro senão o Anjo Gabriel.

Assim Lucas narra como aconteceu: “No sexto mês o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi, o nome da Virgem era Maria. Entrando onde ela estava, disse-lhe: “Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo.”  Ela ao ouvir essas palavras perturbou-se e descorria pensativa que saudação seria esta.  O Anjo disse-lhe: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus.  Este será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim.”  Maria disse ao Anjo: “Como se fará isso, pois eu não conheço varão?” Respondendo o Anjo, disse-lhe: “O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso mesmo o Santo que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1,26-35).

O Profeta Isaias, referindo-se à divindade e majestade do filho que nasceria da virgem, assim diz: “Porquanto um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado e foi posto o principado sobre o seu ombro; e será chamado Admirável, Conselheiro, Deus forte, Pai do século futuro, Príncipe da paz. O seu império se estenderá cada vez mais e a paz não terá fim; sentar-se-á sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o firmar e fortalecer pelo direito e pela justiça, desde agora e para sempre; fará isso o zelo do Senhor dos exércitos” (Is 9,6-7).                 

Mas, em que lugar nasceria essa maravilha? E é o Profeta Miquéias quem nos responde: “E tu, Belém, Éfrata, tu és pequenina entre os milhares de Judá; mas de ti é que me há de sair aquele que há de reinar em Israel, e cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade.” (Mq 5,1-2).

domingo, 13 de dezembro de 2020

 

“EU SOU A VOZ QUE GRITA NO DESERTO”.  (Jo 1,23)

 

III DOMINGO DO ADVENTO

Ano – B; Cor – Róseo; Leituras: Is 61,1-2.10-11; Sl de Lc 1; 1Ts 5,16-24; Jo 1,6-8.19-28.

 

Diácono Milton Restivo

 

O Terceiro Domingo do Advento é chamado “Domingo Gaudete”, ou seja, “Domingo da Alegria”. Este domingo tem esse nome porque a antífona de entrada da Missa começa com as palavras de Paulo Apóstolo na sua carta aos filipenses: “Gaudete in Domino semper”, que, traduzido para o português, temos:

·         “Fiquem sempre alegres no Senhor! Repito: fiquem alegres! O Senhor está próximo”. (Fl 4,4.5)

Na segunda leitura, no mesmo espírito de alegria, Paulo diz aos tessalonicenses:

·         “Irmãos, estejam sempre alegres, rezem sem cessar. Dêem graças em todas as circunstâncias, porque esta é a vontade de Deus a respeito de vocês em Jesus Cristo. [...] Que o espírito, alma e corpo de vocês sejam conservados de modo irrepreensível para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Quem chamou vocês é fiel e realizará tudo isso.” (1Ts 5,16-18.23-24).

Os paramentos litúrgicos deste domingo poderão ser róseos para amenizar um pouco a austeridade do roxo, e o otimismo deve reinar porque, na liturgia da Palavra, o profeta Isaias diz para que o Messias deveria vir.

No Salmo Maria, a escolhida para ser a mãe do Filho de Deus, o Messias, entoa um dos mais belos cânticos das Sagradas Escrituras, o “Magnificat” e o Evangelho de João apresenta o precursor do Messias, João Batista, “a voz que grita no deserto”. (cf Jo 1,22).

O profeta Isaias marca presença, novamente, na primeira leitura deste terceiro Domingo do Advento. Jesus, na sua primeira alocução na sinagoga de Nazaré, lê e comenta esta passagem de Isaias, atribuindo-a a si próprio:

·         “Deram-lhe o livro do profeta Isaias. Abrindo o livro, Jesus encontrou a passagem onde está escrito: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor’. Em seguida Jesus fechou o livro, o entregou na mão do ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então Jesus começou a dizer-lhes: ‘Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.” (Lc 4,17-21).

Foi para isso que Jesus veio e, para que isso se realize, a Igreja se prepara, no Tempo do Advento, para a sua primeira vinda, já na expectativa de sua segunda vinda, no fim dos tempos.

No Salmo é lido e cantado uma das mais belas orações contida nas Sagradas Escrituras, o Cântico de Maria, também conhecido como “Magnificat” em sinal de humildade e agradecimento a Deus Pai por realizar em Maria as promessas do Antigo Testamento em enviar aos homens a Salvação do mundo.

Deus se satisfaz com o que é pequeno, pobre, simples e humilde. Por isso, neste cântico, Maria diz que Deus “olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48).

Deus buscou uma moça pobre, simples, humilde numa cidade desconhecida, Nazaré, numa região desprezada pelos judeus, a Galiléia, “a terra que não era dos judeus” (Mt 4,15; Is 8,23) e no meio de um povo pobre e desprezado, para ser a mãe do seu Filho, ao invés de escolher, para essa finalidade, uma mulher da alta sociedade, uma rainha ou cortesã do palácio real, ou até a filha do sumo sacerdote.

No tempo de Maria, como hoje, deveriam existir mulheres que se destacavam na sociedade, na política, no poder, na riqueza. Mulheres que, sem dúvida, poderiam oferecer ao Filho de Deus, que assumiu a natureza humana, um palácio com todas as riquezas e mordomias, ao invés de uma gruta úmida e fria, cheirando a estrume e urina de muares e equinos.

Essas mulheres poderiam oferecer um berço de ouro, ao invés de um cocho incômodo e mal cheiroso de animais como seu primeiro berço. Poderiam oferecer aquecedores de ar ao invés do respirar quente dos animais para aquecer o recém-nascido.

Mulheres que poderiam providenciar e determinar para que as primeiras visitas ao Filho de Deus recém-nascido fossem os mais ricos e poderosos monarcas e autoridades que existiam na terra naquele tempo, ao invés de as primeiras visitas serem, como foram, pobres e humildes pastores. Mas a Divina Providencia age diferentemente dos pensamentos humanos.

Deus não quis para o seu Filho um palácio, já que o universo inteiro é seu.

O Senhor não quis para o seu Filho um berço de ouro, já que tem a abóbada celeste para lhe servir de suporte dos pés.

Deus não quis para o seu Filho um aquecedor de ar para aquecê-lo, já que os ventos que sopram dos quatro cantos do universo obedecem as suas ordens, obedecem a sua voz.

Deus não quis, para visitar seu Filho, pela primeira vez, ricos monarcas e poderosos reis e nem esnobes gentes da sociedade, porque ele é o Rei dos Reis, e todos os reinos do mundo lhe pertencem.

Deus não quis para mãe de seu filho uma mulher rica, poderosa, da sociedade, porque sabia que no coração dessas mulheres não havia lugar para a Vida que deveria ser vivida pelos homens e para a Verdade que seria transmitida a toda a humanidade, e nem para o Caminho que os homens deveriam trilhar, porque os corações das mulheres ricas estariam encharcados e inchados das coisas da terra e não teriam espaços para as coisas do céu.

Para ser a mãe de seu Filho, o Senhor não procurou mulheres em palácios ou sociedades, mas procurou a mais pobre, a mais humilde exatamente numa das mais pobres e humildes casas de Nazaré, na Galiléia, terra dos pagãos. Para a mãe de seu Filho, o Senhor não escolheu a mulher mais rica da terra, mas aquela que estava mais familiarizada com as coisas do céu.

Deus não escolheu uma mulher comprometida com a sociedade e com o mundo, com o coração cheio das preocupações passageiras e apegado demais às coisas que perecem, mas escolheu uma mulher com o coração desapegado, um coração pobre, um coração que ele sabia, poderia não entender o que estivesse acontecendo, mas que se submeteria dócil e livremente a vontade de Deus através do seu “sim”:

·         “eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), ainda que isso lhe custasse as mais cruciantes dores.

E Jesus Cristo foi exigente na escolha de sua mãe. Nós não escolhemos a mãe que temos, embora agradeçamos a Deus pelas mães que ele nos deu.

Mas Jesus teve um privilégio a mais que nós: ele teve o privilégio de poder escolher a sua mãe, e nisso ele foi exigente, porque escolheu a mais bela, a mais pura, a mais santa, a mais imaculada, a mais inviolável, e, além de tudo isso, a mais pobre, humilde.

Maria foi pobre em toda a extensão da palavra. Não só teve espírito de pobre, mas viveu a pobreza materialmente com todas as suas consequências.

Maria sentiu-se um instrumento humilde e pobre para os planos da Providência

·         “porque o Todo poderoso realizou grandes obras em meu favor; seu nome é santo, e sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração” (Lc 1,49-50).

E foi exatamente por isso que o Senhor a julgou apta para operar nela as suas maravilhas. Poderia haver algo de mais pobre do que uma Virgem ser mãe? Deus opera as suas maravilhas nos pobres, humildes e corações desapegados das coisas do mundo, e Maria preencheu em tudo os desejos do Pai.

Deus voltou exatamente o seu olhar para essa jovenzinha, uma serva simples, pobre e humilde para que, nem ela se gloriasse na presença de Deus por ter merecido tão grande honraria.

Isso é pura graça, bondade e misericórdia de Deus, e não mérito de qualquer que seja a pessoa, e isso Maria reconhece nesse cântico.

Neste cântico Maria diz:

·         “De hoje em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48).

As gerações e os seguimentos religiosos, ainda que sejam cristãos, que não reconhecem em Maria “bem-aventurada”, ainda não entenderam que Deus realiza as suas maravilhas no povo das bem-aventuranças (cf Mt 5,1-13), e desconhecem aquilo que o Espírito Santo falou pela boca de Isabel:

·         “Você é bendita entre as mulheres e é bendito o fruto do teu ventre” Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar? [...] Bem-aventurada aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu”. (Lc 1,42-43.45).

O cântico de Maria é o cântico dos pobres e bem-aventurados que esperam e reconhecem a vinda de Deus, o “Emanuel – Deus conosco” para libertá-los através de Jesus.

O Evangelho volta-se, novamente, para a figura de João Batista.

As narrativas da vida de Jesus começam no capítulo primeiro do Evangelho de João com João Batista confirmando a profecia e identificando Jesus como

·         “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).

O discurso principal de João era a respeito da vinda do Messias.

Grandemente esperado por todos os judeus, o Messias era a fonte de todas as esperanças deste povo em restaurar a sua dignidade como nação independente.

Vinha gente para ver e ouvir a mensagem de João Batista, de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a região ao redor do Jordão, bem como as suas diretrizes para corrigir o seu comportamento (cf Lc 3,11-14). João Batista era grande aos olhos do Senhor, não tendo havido maior profeta do que ele, conforme disse Jesus:

·         “Eu digo a vocês: entre os nascidos de mulher ninguém é maior do que João” (Lc 7,28).

As suas vestimentas de pelo de camelo e cinto de couro lembravam o profeta Elias, que também assim se vestia:

·         “Ele estava vestido com roupas de pelos e usava um cinto de couro” (2Rs 1,8; Mt 3,4a).

A sua maneira de vida e alimento austeros: “comia gafanhotos e mel silvestre” (Mt 3,4b) seria uma viva reprimenda ao luxo e ambições da maioria do povo, especialmente às autoridades políticas e religiosas do povo.

João Batista aparece brevemente como um mensageiro que deu testemunho da luz, enviado por Deus para preparar o caminho para Jesus:

·         “Apareceu um homem enviado por Deus, que se chamava João. Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas apenas a testemunha da luz. A luz verdadeira, aquela que ilumina todo homem, estava chegando ao mundo” (Jo 1,6-9).

João Batista não era para ser confundido com a própria luz, que era o Messias esperado, mas como um enviado para ajudar a todos a acreditar na luz que era a Palavra.

João Batista é questionado pelos “sacerdotes e levitas” que foram enviados de Jerusalém pelas “autoridades dos judeus para perguntarem a João: Quem é você?” (Jo 1,19).

Perguntaram se João Batista era o Messias que todos estavam esperando que viria. Então,

·         “João confessou e não negou. Ele confessou: ‘Eu não sou o Messias’. [...] Perguntaram-lhe, então ‘Então, que é você? Elias’?” (Jo 1,20.21).

Esta pergunta, se João Batista era Elias, foi feita porque os judeus esperavam, antes da vinda do Messias, o retorno de Elias, e isso tinha seu fundamento na profecia de Malaquias, através do qual Yahweh havia dito:

·         “Vejam! Eu mandarei para vocês o profeta Elias, antes que venha o grandioso e terrível Dia de Yahweh.” (Ml 3,23).

Também, o anjo Gabriel, quando trouxera a notícia do nascimento de João Batista para seu pai Zacarias, dissera:

·         “Caminhará à frente deles com o espírito e o poder de Elias.” (Lc 1,17) e, mais tarde, Jesus diria: “E se vocês quiserem aceitar, João é Elias que devia vir.” (Mt 11,14).

Em outra oportunidade Jesus, com amargura, disse aos apóstolos:

·         “Elias vem para colocar tudo em ordem. Mas eu digo a vocês: Elias já veio e eles não o reconheceram. Fizeram com ele tudo o que quiseram. E o Filho do Homem será maltratado por eles do mesmo modo’. Então os discípulos compreenderam que Jesus falava de João Batista”. (Mt 17,11-13).

O que Jesus queria deixar claro é que, o mesmo espírito que repousara em Elias, estava com João Batista, com o mesmo denodo, coragem, ousadia e intrepidez. E as perguntas continuaram, porque os sacerdotes e levitas “tinham que levar uma resposta para aqueles que os enviaram” (cf Jo 1,22). João afirma que não é o Messias, nem Elias, nem o Profeta.

João só pretende ser “uma voz gritando no deserto” e alertar a todos que “Aplainem o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaias.” (Jo 1,23).

Perguntado:

·         “Porque é que você batiza, se não é o Messias, nem Elias, nem o Profeta? João respondeu: ‘Eu batizo com água, mas no meio de vocês existe alguém que vocês não conhecem, e que vem depois de mim. Eu não mereço nem sequer desamarrar a correia das sandálias dele.” (Jo 1,25-27).

Jesus mesmo afirma que João Batista foi uma de suas maiores testemunhas, e diz que João era “uma lâmpada acesa e iluminava”:

·         “Se eu dou testemunho de mim mesmo, meu testemunho não vale. Mas há outro que dá testemunho de mim, e eu sei que o testemunho que ele dá é válido. Vocês mandaram mensageiro a João, e ele deu testemunho da verdade. Eu não preciso do testemunho de um homem, mas falo isso para que vocês sejam salvos. João era uma lâmpada que estava acesa e iluminava. Vocês quiseram se alegrar com a sua luz.” (Jo 5,31-35).

Como precursor e testemunha do Messias, João Batista anunciou:

·         “Eu batizo vocês com água. Mas vai chegar alguém mais forte do que eu. Eu não sou digno nem sequer de desamarrar a correia das sandálias dele. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo. Ele terá na mão uma pá; vai limpar sua eira, e recolher o trigo em seu celeiro; mas a palha ele vai queimar no fogo que não se apaga.” (Lc 3,16-17).

Jesus lamenta pelos judeus, principalmente as autoridades políticas e religiosas do povo, não terem dado crédito a João Batista:

·         “Pois eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu. Porque João veio até vocês para mostrar o caminho da justiça, e vocês não acreditaram nele. Vocês, porém, mesmo vendo isso, não se arrependeram para acreditar nele”. (Mt 21,31-32).

João deixou-nos um belo exemplo de humildade. Quando lhe informaram que Jesus estava batizando, (cf Jo 3,22-29) em vez de sentir inveja, respondeu:

·         “É preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).

João foi o último profeta a quem “veio a palavra de Deus”.

Do mesmo modo que falava o Senhor aos outro profetas do Antigo Testamento:

·         “Foi nesse tempo que Deus enviou a sua palavra a João, filho de Zacarias, no deserto” (Lc. 3.2). da mesma forma que fora enviada ao profeta Jeremias: “A palavra de Yahweh lhe foi dirigida (a Jeremias) no décimo terceiro ano do reinado de Josias...” (Jr 1,2). 

 

SANTA LUZIA OU LÚCIA – Século IV

 

Somente em 1894 o martírio da jovem Luzia, também chamada Lúcia, foi devidamente confirmado, quando se descobriu uma inscrição escrita em grego antigo sobre o seu sepulcro, em Siracusa, Nápoles.

A inscrição trazia o nome da mártir e confirmava a tradição oral cristã sobre sua morte no início do século IV. Mas a devoção à santa, cujo próprio nome está ligado à visão ("Luzia" deriva de "luz"), já era exaltada desde o século V.

Além disso, o papa Gregório Magno, passado mais um século, a incluiu com todo respeito para ser citada no cânone da missa. Os milagres atribuídos à sua intercessão a transformaram numa das santas auxiliadoras da população, que a invocam, principalmente, nas orações para obter cura nas doenças dos olhos ou da cegueira.

Diz a antiga tradição oral que essa proteção, pedida a santa Luzia, se deve ao fato de que ela teria arrancado os próprios olhos, entregando-os ao carrasco, preferindo isso a renegar a fé em Cristo. A arte perpetuou seu ato extremo de fidelidade cristã através da pintura e da literatura.

Foi enaltecida pelo magnífico escritor Dante Alighieri, na obra "A Divina Comédia", que atribuiu a santa Luzia a função da graça iluminadora. Assim, essa tradição se espalhou através dos séculos, ganhando o mundo inteiro, permanecendo até hoje.

Luzia pertencia a uma rica família napolitana de Siracusa. Sua mãe, Eutíquia, ao ficar viúva, prometeu dar a filha como esposa a um jovem da Corte local. Mas a moça havia feito voto de virgindade eterna e pediu que o matrimônio fosse adiado. Isso aconteceu porque uma terrível doença acometeu sua mãe. Luzia, então, conseguiu convencer Eutíquia a seguí-la em peregrinação até o túmulo de santa Águeda ou Ágata. A mulher voltou curada da viagem e permitiu que a filha mantivesse sua castidade.

Além disso, também consentiu que dividisse seu dote milionário com os pobres, como era seu desejo. Entretanto quem não se conformou foi o ex-noivo. Cancelado o casamento, foi denunciar Luzia como cristã ao governador romano. Era o período da perseguição religiosa imposta pelo cruel imperador Diocleciano; assim, a jovem foi levada a julgamento.

Como dava extrema importância à virgindade, o governante mandou que a carregassem à força a um prostíbulo, para servir à prostituição. Conta a tradição que, embora Luzia não movesse um dedo, nem dez homens juntos conseguiram levantá-la do chão. Foi, então, condenada a morrer ali mesmo.

Os carrascos jogaram sobre seu corpo resina e azeite ferventes, mas ela continuava viva. Somente um golpe de espada em sua garganta conseguiu tirar-lhe a vida. Era o ano 304. Para proteger as relíquias de santa Luzia dos invasores árabes muçulmanos, em 1039, um general bizantino as enviou para Constantinopla, atual território da Turquia. Elas voltaram ao Ocidente por obra de um rico veneziano, seu devoto, que pagou aos soldados da cruzada de 1204 para trazerem sua urna funerária.

Santa Luzia é celebrada no dia 13 de dezembro e seu corpo está guardado na Catedral de Veneza, embora algumas pequenas relíquias tenham seguido para a igreja de Siracusa, que a venera no mês de maio também.

São comemorados, também, neste dia: Santa Otília, São Marimoni, Santo Alberto de Cambrai-Arras (bispo), Santo Antíoco de Suclcis (mártir), Santo Arsênio de Monte Latro (monge), São Columba de Terryglass (abade).

sábado, 12 de dezembro de 2020

 

NOSSA SENHORA DE GUADALUPE – PADROEIRA DA AMÉRICA LATINA

 

Como toda aparição de Nossa Senhora, a que é venerada hoje é emocionante também. Talvez esta seja uma das mais comoventes, pelo milagre operado no episódio e pela dúvida lançada por um bispo sobre sua aparição a um simples índio mexicano.

Tudo se passou em 1531, no México, quando os missionários espanhóis já haviam aprendido a língua dos indígenas. A fé se espalhava lentamente por essas terras mexicanas, cujos rituais astecas eram muito enraizados. O índio João Diogo havia se convertido e era devoto fervoroso da Virgem Maria.

Assim, foi o escolhido para ser o portador de sua mensagem às nações indígenas. Nossa Senhora apareceu a ele várias vezes. A primeira vez, quando o índio passava pela colina de Tepyac, próxima da Cidade do México, atual capital, a caminho da igreja. Maria lhe pediu que levasse uma mensagem ao bispo. Ela queria que naquele local fosse erguida uma capela em sua honra. Emocionado, o índio procurou o bispo, João de Zumárraga, e contou-lhe o ocorrido.

Mas o sacerdote não deu muito crédito à sua narração, não dando resposta se iria, ou não, iniciar a construção. Passados uns dias, Maria apareceu novamente a João Diogo, que desta vez procurou o bispo com lágrimas nos olhos, renovando o pedido. Nem as lágrimas comoveram o bispo, que exigiu do piedoso homem uma prova de que a ordem partia mesmo de Nossa Senhora. Deu-se, então, o milagre.

João Diogo caminhava em direção à capital por um caminho distante da colina onde, anteriormente, as duas visões aconteceram. O índio, aflito, ia à procura de um sacerdote que desse a unção dos enfermos a um tio seu, que agonizava.

De repente, Maria apareceu à sua frente, numa visão belíssima. Tranquilizou-o quanto à saúde do tio, pois avisou que naquele mesmo instante ele já estava curado. Quanto ao bispo, pediu a João Diogo que colhesse rosas no alto da colina e as entregasse ao religioso.

João ficou surpreso com o pedido, porque a região era inóspita e a terra estéril, além de o país atravessar um rigoroso inverno. Mas obedeceu e, novamente surpreso, encontrou muitas rosas, recém-desabrochadas. João colocou-as no seu manto e, como a Senhora ordenara, foi entregá-las ao bispo como prova de sua presença. E assim fez o fiel índio.

Ao abrir o manto cheio de rosas, o bispo viu formar-se, impressa, uma linda imagem da Virgem, tal qual o índio a descrevera antes, mestiça. Espantado, o bispo seguiu João até a casa do tio moribundo e este já estava de pé, forte e saudável.

Contou que Nossa Senhora "morena" lhe aparecera também, o teria curado e renovado o pedido. Queria um santuário na colina de Tepyac, onde sua imagem seria chamada de Santa Maria de Guadalupe. Mas não explicou o porquê do nome. A fama do milagre se espalhou. Enquanto o templo era construído, o manto com a imagem impressa ficou guardado na capela do paço episcopal. Várias construções se sucederam na colina, ampliando templo após templo, pois as romarias e peregrinações só aumentaram com o passar dos anos e dos séculos.

O local se tornou um enorme santuário, que abriga a imagem de Nossa Senhora na famosa colina, e ainda se discute o significado da palavra Guadalupe.

Nele, está guardado o manto de são João Diego, em perfeito estado, apesar de passados tantos séculos. Nossa Senhora de Guadalupe é a única a ser representada como mestiça, com o tom de pele semelhante ao das populações indígenas.

Por isso o povo a chama, carinhosamente, de "La Morenita", quando a celebra no dia 12 de dezembro, data da última aparição. Foi declarada padroeira das Américas, em 1945, pelo papa Pio XII. Em 1979, como extremado devoto mariano, o papa João Paulo II visitou o santuário e consagrou, solenemente, toda a América Latina a Nossa Senhora de Guadalupe.

São comemorados também, neste dia, Santa Luzia, Santa Otília, São Marimoni, Santo Alberto de Cambrai-Arras (bispo), Santo Antíoco de Suclcis (mártir), Santo Arsênio de Monte Latro (monge), São Columba de Terryglass (abade).