domingo, 21 de fevereiro de 2021

 

“CONVERTAM-SE E ACREDITEM NO EVANGELHO” (Mc 1,15).

 

PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA

Ano – B; Cor – roxo; Leituras: Gn 9,8-15; Sl 24 (25); 1Pd 3,18-22; Mc 1,12-15.

 

Diácono Milton Restivo

 

A liturgia faz uma pausa no Tempo Comum onde a Igreja vestia-se de verde e entra no Tempo da Quaresma, cujos paramentos adquirem a cor roxa.

O roxo na Quaresma não tem o mesmo significado da cor roxa do Tempo do Advento.

No Advento o roxo sugere expectativa, espera e preparação para a primeira vinda do Salvador no Natal e de olhos voltados para a sua segunda vinda.

Na Quaresma o roxo é uma chamada de atenção para a oração, jejum, abstinência, penitência, preparando o cristão para a Páscoa, a Ressurreição de Jesus.

A Quaresma é um período de retiro espiritual voltado para a reflexão, onde os cristãos recolhem-se em oração e penitência para preparar o espírito para a acolhida do Cristo Vivo, Ressuscitado no Domingo de Páscoa.

A Quaresma é o tempo litúrgico de conversão, que a Igreja Católica, a Igreja Anglicana e algumas protestantes marcam para preparar os fiéis para a grande festa da Páscoa.

Durante este período, os seus fiéis são convidados a um período de penitência e meditação, por meio da prática do jejum, da esmola e da oração.

O período da quaresma é de quarenta dias. Segundo o Missal Romano, o tempo da Quaresma vai da Quarta-feira de Cinzas até a Missa da Ceia do Senhor, exclusive.

Nas Sagradas Escrituras o número quatro simboliza o universo material – terra, água, ar e fogo. Os zeros que o seguem significam o tempo de nossa vida na terra, suas provações e dificuldades.

Portanto, a duração da Quaresma está baseada no símbolo deste número na Bíblia.

Nas Sagradas Escrituras o número quarenta indica um tempo necessário para algo novo que vai chegar, ou um tempo que se finda uma geração, ou um tempo para conversão, de mudança de vida e de mentalidade como, por exemplo, os quarenta dias que duraram as águas do dilúvio (Gn 7,4.12.17; 8,6), quarenta dias e quarenta noites que Moisés passa entre as nuvens no cume do monte Sinai para receber as tábuas da Lei (Ex 24,18; 34,28; Dt 9,9.11.18.25; 10,10); quarenta anos de caminhada do povo israelita pelo deserto (Nm 14,33; 32,13; Dt 2,7;0 8,2; 29,4; Js 5,6; Sl 94,10; At 7,36; 13,18); quarenta anos de reinado de Davi em Israel (2Sm 5,4; 1Rs 2,11; 1Cr 29,27), quarenta anos de reinado de Salomão em Israel (1Rs 11,42; 2Cr 9,30); quarenta dias de caminhada de Elias pelo deserto até chegar no monte Horeb, a montanha de Deus (1Rs 19,8); quarenta dias e quarenta noites em que Jesus passou no deserto jejuando em oração e tentado pelo demônio (Mt 4,2; Mc 1,13; Lc 4,2); quarenta dias que Jesus passou entre os apóstolos depois de sua ressurreição e antes de sua ascensão aos céus (At 1,3).

Quando julgavam que alguém cometia alguma infração contra a Lei de Moisés, esta mesma Lei determinava que, corrigi-lo, lhe dessem quarenta chicotadas (cf Dt 25,3) e Paulo afirma que recebeu cinco vezes as quarenta chicotadas menos uma por pregar a mensagem do Cristo Ressuscitado (2Cor 11,24).

Muitas outras citações do número quarenta acontecem nas Sagradas Escrituras preconizando e objetivando mudança para melhor. Vemos ai que, nas Sagradas Escrituras o número quarenta está implicitamente ligado à mudança de vida ou na expectativa de algo novo que deveria acontecer.

O Tempo da Quaresma não foge a essa prescrição e tem essa finalidade: mudança de vida e de mentalidade e é a preparação de penitência, jejum e oração para a Páscoa.

Os períodos de quarenta dias ou quarenta anos relacionados nas Sagradas Escrituras vêm sempre antes de fatos importantes e se relacionam com a necessidade de ir criando um clima adequado e dirigindo o coração para algo de destaque que vai acontecer: a concretização da conversão, a passagem da escravidão para a liberdade; a mudança de vida e de mentalidade, como dizia João Batista:

·         “Convertam-se, porque o Reino de Deus está próximo”. (Mt 3,2), e também Jesus: “Daí em diante, Jesus começou a pregar, dizendo: ‘Convertam-se, porque o Reino de Deus está próximo.” (Mt 4,17); “O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam no Evangelho.” (Mc 1,15).

Ao pressentir que deveria iniciar sua vida pública, o momento de começar a sua missão, Jesus deixa sua vida oculta e no anonimato e dirige-se às margens do rio Jordão para se batizado por João Batista. Depois disso

·         “o Espírito levou Jesus para o deserto durante quarenta dias e ai foi tentado por satanás.” (Mc 1,12).

Ser conduzido pelo Espírito quer dizer que Jesus vivia em oração e total recolhimento, entregando-se inteiramente à vontade de Deus, ocasião em que teve uma profunda experiência de encontro com o Pai.

Quem busca a Deus com insistência e persistência, é tentado pelo demônio, pelo chamamento do mundo que sugere ao retirante que deixe essa vida de oração e recolhimento e volte para a vida vulgar e das passageiras facilidades que o mundo oferece. Com Jesus não foi diferente.

As tentações que Jesus viveu são apresentadas como aquelas que também os cristãos precisam viver. É por isso então, que os cristãos realizam uma penitência de quarenta dias, chamada Quaresma. Ao longo deste período, sobretudo na liturgia do domingo, é feito um esforço para recuperar o ritmo e estilo de verdadeiros fiéis que pretendem viver como filhos de Deus.

A Igreja prescreve, além do jejum quaresmal, também a abstinência de carne, que consiste em não comer carne ou derivados em alguns dias do ano que variam conforme determinação dos bispos locais. No Brasil são dias de jejum e abstinência a quarta-feira de cinzas e a sexta-feira santa.

Por determinação do episcopado brasileiro, nas sextas-feiras do ano (inclusive as da Quaresma, exceto a Sexta-feira Santa) fica a abstinência comutada em outras formas de penitência.

Praticar a abstinência é privar-se de algo, não só de carne. Por exemplo, se se tem o hábito diário de assistir televisão, fumar, etc., vale o sacrifício de abster-se destes itens nesses dias.

A obrigação de se abster de carne começa aos 15 anos. A obrigação de jejuar, limitando-se a uma refeição principal e a duas mais ligeiras no decurso do dia, vai dos 21 aos 59 anos. Quem está doente nessa faixa etária e também as mulheres grávidas estão desobrigados do jejum.

A Quaresma é um tempo de graça e bênção, de escuta mais intensa da palavra de Deus, de conversão e mudança de vida e mentalidade, de recordação e preparação do batismo, de reconciliação com Deus e com os irmãos; tempo de oração mais intensa; tempo de jejum como aprendizagem, entrega e docilidade à vontade do Pai; tempo de esmola ou de partilha de bens e de gestos solidários, de carinho com os pobres e necessitados.

Todos os anos durante o período quaresmal, tempo de conversão, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) realiza a Campanha da Fraternidade, que tem por objetivo despertar a solidariedade de seus fiéis e de toda a sociedade em relação a um problema concreto que envolve toda a nação, buscando uma solução para o mesmo. O tema para 2018 será

·         “Fraternidade e superação da violência” e o tema

·         “Em Cristo somos todos irmãos” (Mt 23,8).

A primeira leitura da liturgia deste primeiro domingo da Quaresma relata a segunda aliança citada no Antigo Testamento que Yahweh faz com o homem, neste caso, com Noé:

·         “Deus disse a Noé e seus filhos: ‘Eu estabeleço a minha aliança com vocês e com seus descendentes, e com todos os animais que os acompanham; aves, animais domésticos e feras, com todos os que saíram da arca e agora vivem sobre a terra. Estabeleço a minha aliança como vocês: de tudo o que existe, nada mais será destruído pelas águas do dilúvio, e nunca mais haverá dilúvio para devastar a terra. [...] Este é o sinal da aliança que coloco entre mim e vocês e todos os seres vivos que estão com vocês, para todas as gerações futuras. Colocarei o meu arco nas nuvens, e ele se tornará um sinal de minha aliança com a terra.” (Gn 9,8-10.12-13).

Nesta aliança Yahweh inclui um sinal: o arco-íris.

O propósito de um sinal visível é que todos, ao vê-lo, possam se lembrar da Aliança feita.

Visto a olho nu, observa-se que o arco-íris apresenta sete cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. O número sete, nas Sagradas Escrituras, tem a representatividade da perfeição. Em primeira instância, o arco-íris é a certeza de que a tempestade já passou e que não choverá mais daí por diante.

O arco-íris também pode ser interpretado como Yahweh, chamado no Antigo Testamento de “Deus dos Exércitos”, depondo a sua arma, o seu arco sobre as nuvens acompanhado da promessa de que não haveria mais punições como aquela que foi imposta para os homens, o dilúvio.

Citadas nas Sagradas Escrituras, aconteceram sete alianças e uma renovação da aliança no deserto feitas por Deus como o homem criado por ele e que sempre lhe virou as costas.

Yahweh é Deus de alianças. Através das alianças que Yahweh fez com o homem, pelo seu imenso amor, dá a garantia de muitas bênçãos, se houver fé e obediência a essas alianças.

A iniciativa da aliança sempre foi de Deus, que estabelece as condições. 

A primeira aliança foi feita com o primeiro homem, Adão (Gn 1.27-30; 2.16-17; 3.2-20).

A segunda aliança foi feita com Noé e seus filhos, constantes da leitura desta liturgia (Gen 9.11-17). 

A terceira aliança foi feita Abraão (Gn 12,2-3.7-15; 13,14-16; 15,5-6; 17,1-14). Para Abraão, ainda, Deus prometeu estender a aliança a Isaque, o filho da promessa que iria nascer (Gn 17,16,19).

A quarta aliança foi com Isaque, filho de Abraão (Gn 26,2-5.23-24).

A quinta aliança foi feita com Jacó, filho de Isaque (Gn 28,13-14).

A sexta aliança foi feita com os israelitas no deserto através de Moisés (Ex 6,3-8; 19,4-6; 23,20-33;  24,3-4).

Nas planícies de Moab houve a renovação dessa aliança antes do povo israelita entrar na terra prometida já no final da sua caminhada pelo deserto para fortalecer espiritualmente o povo que iria enfrentar os contratempos da conquista da Terra Prometida (Dt 4,44-45; 5,1-3; 31.1-33.29).

A sétima, a nova e eterna aliança de Deus com o seu povo se realizou em Jesus Cristo:

·         “E a Palavra se fez homem e veio habitar entre nós. E nós contemplamos a sua glória: glória do Filho único do Pai, cheio de amor e fidelidade.” (Jo 1,14); “Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, o partiu e disse: ‘Isto é o meu corpo que é para vocês; façam isso em memória de mim’. Do mesmo modo, após a Ceia, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que vocês beberem dele, façam isso em memória de mim.” (1Cor 11,23b-25).

A nova aliança já estava preconizada no livro de Jeremias:

·         “Eis que chegarão  dias – oráculo de Yahweh – em que eu farei uma aliança nova com Israel e Judá: Não será como a aliança que fiz com seus antepassados, quando os peguei pela mão para tirá-los da terra do Egito; aliança que eles quebraram, embora fosse eu o Senhor deles – oráculo de Yahweh -. A aliança que eu farei com Israel depois desses dias é a seguinte – oráculo de Yahwew: Colocarei minha Lei em seu peito e a escreverei em seu coração: eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo.” (Jr 31,31-33).

A Nova aliança está selada com e no sangue de Jesus:

·         “Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que é derramado por muitos, para remissão de pecados” (Mt 26,28).

A nova aliança é superior a todas as demais:

·         “Jesus, porém, foi encarregado para um serviço sacerdotal superior, pois é o mediador de uma aliança melhor, que promete melhores benefícios. De fato, se a primeira aliança não tivesse defeito, nem haveria lugar para segunda aliança. [...] Dizendo ‘aliança nova’ Deus declara que a primeira ficou antiquada; e aquilo que se torna antigo e envelhece, vai desaparecer logo” Hb 8,6-7.13).

E o profeta Ezequiel anteve como Deus vai preparar o povo para essa nova aliança:

·         “Darei a eles um coração íntegro, e colocarei no íntimo deles um espírito novo. Tirarei do peito deles o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Tudo isso para que  sigam os meus estatutos e ponham em prática as minhas normas.Então eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus.” (Ez 11,19-20).

O povo da Nova Aliança será guiado pelo Espírito de Deus e será chamado filho de Deus e será herdeiro do reino:

·         “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. E vocês não receberam um Espírito de escravos para recair no medo, mas receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos ‘Abba! Pai!’ O próprio Espírito assegura ao nosso espírito que somos filhos de Deus. E se somos filhos, somos também herdeiro: herdeiros de Deus, herdeiros junto com Cristo, uma vez que tendo participado dos seus sofrimentos, também participaremos da sua glória.” (Rm 8,14-17).

Através da ordem expressa de Jesus quando do envio dos seus apóstolos e discípulos a todo o mundo, Jesus determina quem fará parte do povo da Nova Aliança:

·         “Toda autoridade  foi dada a mim no céu e sobre a terra.  Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt 28,18b-20).

Pelo batismo em nome da Trindade, este povo está repleto do Espírito Santo:

·         “João batizou com água: vocês,, porém, dentro de poucos dias, serão batizados com o Espírito Santo.” (At 1,5).

A Quaresma, portanto, é o tempo para que o povo de Deus se volte para a Aliança definitiva feita com e pelo sangue de Jesus para que a Igreja possa entender o grande amor que o Pai tem pelos seus filhos: “Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, , mas tenha a vida eterna. De fato, Deus enviou  o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por ele. Quem acredita nele, não está condenado; quem não acredita, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus. (Jo 3,16-18).

O Tempo da Quaresma repete o dito por Jesus:

·         “O tempo já se completou e o reino de Deus está próximo. “Convertam-se e creiam no Evangelho.” (Mc 1,15). 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

 

JACINTA DE JESUS MARTOVIDENTE DE FÁTIMA

 

Jacinta de Jesus Marto nasceu em Aljustrel, Fátima, a 11 de março de 1910. Foi batizada uma semana depois. Á ela junto com o irmão Francisco e a prima Lúcia, três simples crianças pastoras analfabetas, foi dada a graça de presenciar as aparições de Nossa Senhora, na sua pequenina aldeia.

Além das cinco aparições da Cova da Iria e uma dos Valinhos, Nossa Senhora apareceu à Jacinta mais quatro vezes em casa durante a doença, uma grave pneumonia que a acometeu juntamente com seu irmão Francisco.

Nessa primeira aparição, quando ambos já estavam acamados, assim descreve a pequenina: "Nossa Senhora veio nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito em breve. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-lhe que sim". De fato, logo depois Francisco morreu santamente.

Nessa ocasião, ao aproximar-se o momento da partida de Francisco, Jacinta recomenda-lhe: "Leve muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora e diz-lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem para converter os pecadores".

Jacinta ficara tão impressionada com a visão do inferno durante uma das aparições da Virgem em Fátima, ocorrida em 13 de julho de 1917, que nenhuma mortificação e penitência era demais para salvar os pecadores. A vida da pequena Jacinta foi caracterizada por esse extremo espírito de sacrifício, o amor ao Coração de Maria, ao Santo Padre e aos pecadores.

Sempre levada pela preocupação da salvação dos pecadores e do desagravo ao Coração Imaculado de Maria, de tudo oferecia um sacrifício a Deus, dizendo sempre a oração que Nossa Senhora lhes ensinara: "Ò Jesus, é por Vosso Amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria". Quase um ano depois da morte de Francisco, Jacinta faleceu, era 20 de fevereiro de 1920. O seu corpo foi enterrado no cemitério de Ourém, sendo transladado em 1935 para o cemitério de Fátima.

Em 1951 foi finalmente transferida para a Basílica do Santuário.

No dia 13 de maio de 2001, dia da festa de Nossa Senhora de Fátima, foi um dia muito especial não só para os portugueses, mas para a família católica inteira. O Papa João Paulo II, esteve na cidade portuguesa para beatificar Jacinta de Jesus Marto, marcando sua celebração para a data de sua morte. A cerimônia ocorreu na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, com a presença da Irmã Lúcia de Jesus.

Os acontecimentos de Fátima e os pastorzinhos são porta-vozes do convite materno de Maria ao acolhimento, ao amor, à confiança, à pureza de vida e de coração e à entrega de si mesmo a Deus e aos outros, em atitude de solidariedade e de fé inquebrantável. A beatificação de Jacinta de Jesus Marto nos lembra a vocação última da Igreja e a comunhão dos santos.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

 

MÃE NÃO TEM COROA... TEM AMOR...

 

Todos nós, que amamos Maria, a Nossa Senhora, amamos sobremaneira ao Senhor Nosso Deus e nos esforçamos para amá-lo mais e mais a cada dia que passa.

Tudo o que fazemos deve ser sempre para a maior glória de Deus. Amamos Maria porque o Senhor Nosso Deus a amou primeiro que nós.

Manifestamos nosso amor por Maria de muitas maneiras.

Cada um de nós tem uma maneira especial de manifestar o seu amor pela boa mãe do céu.

Já nos acostumamos ouvir muitas pessoas dizerem – “Como é boa Nossa Senhora” -. Como é boa a nossa Maria. 

Todos nós, que desejamos alguma melhora na nossa vida, ou na vida de alguém da família, ou de algum amigo ou amiga, de alguma pessoa que amamos, todos que desejamos a vinda de melhores dias, de um emprego, uma graça para vencermos um defeito particular, ou um pedido com lágrimas para a conversão do marido, filho, pais, irmãos ou amigos, quando precisamos de uma grande graça,  não hesitamos e logo corremos aos pés de Maria e dificilmente de lá saímos sem que a Virgem tenha atendido ao nosso pedido ou nos dado forças para superar o problema.

Quantas vezes recorremos à Virgem Maria quando notamos tristemente que a nossa fé vacila, ou porque nos afligimos por ter de carregar uma grande cruz que nos parece muito pesada para a nossa fraqueza, ou ainda, quando temos no seio da nossa família perturbações e infelicidades domésticas que nos parecem dificultar até a nossa própria salvação eterna, e, para todos nós, para essas tristezas a oração parece trazer tão pouco alívio.

Qual é então o remédio que nos falta? Qual é o remédio indicado pelo próprio Senhor Nosso Deus?    É, sem dúvida, e segundo a revelação dos grandes santos e santas, devotos fervorosos da Virgem Maria, o refúgio no manto maternal de Maria.

Mas, a devoção que consagramos a Maria é fraca, escassa, mesquinha, deturpada pela nossa ignorância religiosa e, muitas vezes, chega até às raias da heresia.        Como eu gostaria de mostrar a todos os fieis devotos de Maria como realmente ela foi - sem tronos e sem coroas, apenas uma mulher simples, de avental sujo de ovo ou caldo de feijão, cabelos em desalinho pelo trabalho doméstico, olhos lagrimejantes por cortar cebola ou pela fumaça da madeira verde que queimava no fogão à lenha, enquanto preparava o alimento para seu filho e seu esposo, tal qual nossas esposas e mães, ainda que nossas esposas e mães levem vantagem sobre isso, considerando que hoje, principalmente nas cidades, não existem mais fogões a lenha e sim a facilidade do fogão a gás. 

Gostaria de mostrar uma Maria tão pequena  e humilde para que todos nós nos sentíssemos bem à vontade junto dela. A nossa ignorância tira de Maria todo o esplendor de sua humildade.

E é por essa razão que Jesus Cristo não é amado como deveria ser. É por não amarmos como deveríamos amar Maria que os homens não se convertem. É por isso que a nossa Igreja não é exaltada.

Quantas almas que poderiam ser santas e que desfalecem  na fé tomando caminhos diferentes daqueles que levam até Deus porque são mal orientados sobre a devoção de Maria, e por isso tomam caminhos diferentes daqueles que levam a Deus.

Por uma falsa distorção com respeito à devoção à Maria que os sacramentos não são freqüentados como deveriam ser. 

É pela falsa devoção ou distorção na devoção de Maria que as almas não são evangelizadas com o entusiasmo do zelo apostólico.

Pelos erros na devoção à Maria que Jesus não é conhecido, porque a devoção à Maria é destorcida e por isso, muitas vezes, é deixada no esquecimento ou é procurada por seus devotos apenas por interesses egoístas e mesquinhos.   

Quantas almas se desviam do verdadeiro caminho porque Maria está distante delas.     

A devoção mal orientada à Maria é a causa de todas as nossas misérias, de todos os nossos males, de todas as nossas omissões, de toda nossa tibieza, de toda nossa frieza.     

Segundo as revelações dos nossos Santos grandes devotos de Maria, tal como foi São Luiz Maria Grignon de Montfort, o Senhor Nosso Deus quer uma devoção mais vasta, mais extensa, mais sólida, uma devoção muito diferente da que temos hoje, da que temos atualmente para com a Santíssima Virgem Maria. Se Jesus não é conhecido como deveria ser é porque nós não amamos como deveríamos amar a sua Mãe Santíssima.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

 

O DOENTE COMPLETA O SOFRIMENTO DE CRISTO

 

            Na carta que o Apóstolo Paulo escreveu aos Colossenses, ele disse: “Meus irmãos, agora eu me alegro de sofrer por vocês e vou completando na minha própria carne o que falta aos sofrimentos de Jesus Cristo a favor  do seu corpo, que é a Igreja.” (Col 1, 24).

Quando eu leio essa passagem, essa frase, fico pensando nos nossos irmãos doentes.      

Essa frase de São Paulo cabe certinho na boca dos doentes, dos nossos irmãos que estão passando por algum problema de saúde, que estão hospitalizados, acamados em tratamento médico.   Todos os doentes sofrem, de uma maneira ou de outra.

E seria tão bom que todos os doentes dissessem como disse Paulo: “eu me alegro de sofrer... porque vou completando na minha carne o que falta aos sofrimentos de Jesus Cristo a favor da sua Igreja.”           

Os doentes são os companheiros de Jesus Cristo a caminho do Calvário.

Os doentes são os participantes  da agonia da cruz.

Os sofrimentos dos doentes é a complementação do que falta aos sofrimentos de Jesus Cristo para a total salvação de todo o gênero humano.

Os doentes são o corpo flagelado de Jesus Cristo; os doentes são a cabeça coroada de espinhos de Jesus Cristo; os doentes são o coração sacrossanto de Jesus Cristo traspassado pela lança.        Os doentes sofrem, e esse sofrimento complementa o sofrimento de Jesus Cristo para a salvação de todos os homens. Não existe sofrimento inútil.

Não existe dor que não seja revertida para a salvação de quem sofre, para a salvação da família de quem sofre, para a salvação de todos os homens.

Todos nós lutamos para ter saúde, aliás, é um direito que todos nós temos, o de sermos sadios,  o de sermos perfeitos.

Mas, apesar dos nossos esforços para sermos sadios e termos saúde, a nossa natureza humana é frágil, é fraca, e a doença, vez ou outra, nos assedia, nos ataca e, muitas vezes, em muitos irmãos, é uma companheira constante, e às vezes até a companheira de toda uma vida.

Então precisamos fazer da nossa doença, do nosso sofrimento, a tábua de salvação para todos nós, para quem sofre e para quem não sofre também.

Paulo Apóstolo se alegra na dor e diz que a sua dor complementa o que falta no sofrimento de Jesus Cristo. Assim, da mesma maneira, os doentes devem se alegrar porque eles são os amigos queridos de Jesus Cristo, eu diria até, os amigos íntimos de Jesus, porque, somente quem sofre pode valorizar o sofrimento de Jesus Cristo que, sem merecer, e de livre e expontânea vontade, se entregou por todos nós para sofrer a sua paixão, crucificação e morte para a salvação de todos os homens. E todos nós, os que agora temos saúde, não devemos nos esquecer jamais  dos nossos irmãos doentes. Não podemos deixar que eles fiquem sozinhos nessa sua caminhada de dor.

Hoje temos saúde, amanhã os doentes poderemos ser nós mesmos.

A nossa saúde é como um fio de linha que pode se romper a qualquer momento.

Estejamos sempre preparados para a doença.          

E a melhor preparação para sermos pacientes e aceitar com resignação qualquer problema de saúde, é visitar com frequência os nossos irmãos doentes.

Você, meu irmão, não imagina como o nosso irmão doente necessita de nossa visita, de nossa ajuda, da nossa presença, da nossa palavra amiga.

Lembremo-nos do que o Senhor Jesus disse no seu Evangelho, quando se referia ao Juízo Final: “Estive doente e você me visitou...”

nosso irmão doente é o próprio Jesus Cristo que continua sofrendo para completar o sofrimento do Calvário para a salvação de todos os homens.

Ainda hoje, caro irmão, procure visitar um doente, e leve a ele uma palavra de conforto, dê a ele a satisfação de sua presença amiga, e verá como você voltará para a sua casa recompensado por ter feito uma obra de  misericórdia...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

 

“PRECISA-SE DE PROFETAS”

 

Movido pela experiência de Deus, o profeta ou a profetiza acabam mudando o seu modo de ver e de pensar, de sentir e de julgar, de portar-se e de falar, e procuram transmitir isso a todos, quer seja bem recebido ou não, correndo o risco de não ser bem interpretado entre os seus mais próximos, como aconteceu com Jesus, o que motivou a suas queixa: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. (4,24). João, no seu Evangelho ratifica isso: “O próprio Jesus havia testemunhado que um profeta não é honrado em sua própria pátria”. (Jo 4,44).

O profeta não fala em nome próprio, mas anuncia a palavra que Deus lhe põe no coração e na boca, uma palavra por vezes nada fácil de ser anunciada e, por isso, encontra dificuldades de ser aceita. Movido pelo Espírito, o profeta age como mensageiro de Deus.

O profeta está afinado com Deus. O profeta vê a realidade com os olhos de Deus.

Por isso o profeta anuncia o amor de Deus, sua ternura e misericórdia, e sua paixão pela vida humana. O profeta também denuncia a injustiça, a exploração, o domínio dos fortes sobre os fracos e tudo que ofende o povo a quem Deus quer bem.

O profeta sacode as consciências e aponta, no meio dos conflitos, a força libertadora de Deus, pois são os profetas e profetisas, homens e mulheres, cheios de inspiração e vigor pela causa de Deus e do povo, que falam ao povo em nome de Deus.

Falar de vocação profética na Bíblia é falar da experiência de Deus que homens e mulheres realizaram em suas vidas.

Os profetas e profetisas, ao vivenciarem sua vocação, procuraram responder ao chamado de Deus. Primeiro, eles tiveram que mergulhar neste mistério profundo, Deus, o inexplicável, o absoluto. Como o mundo precisa de verdadeiros profetas e profetisas no tempo em que vivemos...

Achei entre os meus guardados um artigo denominado “Precisa-se de Profetas”, dos padres Salvatorianos que define bem o que deve ser entendido por profeta nos nossos dias, e transcrevo parte dele:

“O profeta é um homem que acredita fielmente nos seus ideais e sonhos. Ele é capaz de enfrentar  qualquer dificuldade para levar avante o seu projeto de vida. Geralmente este projeto não está separado de uma visão humana e libertadora. O profeta traz em seu íntimo a certeza de que a vida sempre superará a morte porque quem o impulsiona a agir nessa direção é o Deus criador, o Deus que gera e sustenta essa mesma vida. [...] Para o profeta o direito a uma vida digna é indispensável na implantação do projeto de Deus. A vida deve estar acima de qualquer pretensão humana em todas as suas dimensões e níveis: social, político, econômico e religioso. O profeta é animador, entusiasta é aquele que encoraja o seu povo para uma atuação que corresponda aos anseios de uma vida de melhor qualidade possível. Porém, é também aquele que sofre e sente os dramas de uma nação, de um povo sofredor. Diante das situações de calamidade o profeta luta e grita do mais profundo de suas entranhas: Deus não está de acordo com a manutenção da dominação que tem como consequência a exploração e destruição da dignidade humana”.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

 

JESUS NÃO RESISTE AOS PEDIDOS DE MARIA

 

Através dos Santos Evangelhos tomamos conhecimento que Jesus Cristo quis começar e começou a realizar os seus milagres por intercessão de sua Mãe, Maria Santíssima. Quando da visita de Maria à sua prima Isabel, estando Maria grávida de Jesus Cristo e Isabel grávida de João Batista, a simples presença de Maria com Jesus no seu ventre fez com que o filho de Isabel, João Batista, pulasse no ventre de sua mãe assim que Maria cumprimentou Isabel, tendo nessa oportunidade, realizada a santificação de João Batista ainda no entre de sua mãe pela palavra de Maria, pela saudação de Maria à sua prima Isabel, e este foi o primeiro e o maior milagre da graça.

No casamento de Canaã, na Galiléia, Jesus atende a humilde súplica de sua mãe e transforma a água em vinho, e este foi o primeiro milagre da natureza. Jesus Cristo começou e continuou os seus milagres por Maria e continuará a fazer os seus milagres por intercessão de Maria, como aconteceu nas bodas de Caná (Jo 2) isso até o fim dos tempos.

Foi em Maria que Deus Espírito Santo produziu a sua obra prima, que é um Deus feito homem, e assim o Espírito Santo continua produzindo todos os dias, através de Maria, os membros do corpo dessa cabeça adorável, formando, desta forma,, o grande corpo místico de Jesus Cristo, que é a sua Igreja.

Na criação do mundo Deus Pai fez um conjunto de todas as águas, a quem chamou de Mar; depois fez um conjunto de todas as suas graças, a quem chamou Maria, como disse e escreveu o grande santo Luiz Maria Grignon de Montfort.

Maria é um tesouro, um armazém muito rico onde Deus encerrou tudo o que há de mais belo, de refulgente, de raro, de precioso, até o seu próprio Filho.

É através de Maria que Jesus aplica os seus merecimentos a todos os membros do seu Corpo Místico, comunica sua virtudes e distribui as suas graças; Maria é o mistério, é o canal por onde passam, suave e abundantemente, as misericórdias de Jesus.

Deus Espírito Santo comunicou seus dons inefáveis à Maria, sua fiel Esposa, e escolheu-a para ser a distribuidora de todos os seus bens, de modo que Maria distribuía as graças de Deus a quem quer, quando quer, como quer, quanto quer, e não existe dom celeste feito para os homens que não tenha passado pelas mãos virginais de Maria.

Esta é a vontade de Deus: que tenhamos tudo através de Maria; é assim que deve ser enriquecida, elevada e honrada do Altíssimo aquela que, por sua profunda humildade, se fez pobre, humilhou-se ocultou-se até ao nada durante toda a sua vida. Jesus Cristo, o filho de Deus feito homem, veio até nós por meio de Maria, e todos nós, homens, devemos chegar até Deus também por meio de Maria.

É certo que no céu Nosso Senhor Jesus Cristo  é ainda filho de Maria como o era aqui na terra, e tudo nos leva a crer que ele tem conservado a submissão e obediência do mais perfeito dos filhos à melhor e mais santa de todas as mães.

Temos consciência que Maria está infinitamente abaixo de seu Filho, que é Deus, e, obviamente, lá no céu, ela não dá ordens a Jesus como uma mãe aqui da terra. Quando lemos nos escritos de São Bernardo, de São Bernardino, de São Boaventura, de São Luiz Maria Grignon de Montfort, que no céu e na terra tudo se submete à Santíssima Virgem Maria, isso quer dizer que é tão grande a autoridade que o Senhor Nosso Deus deu à Maria que ela pode tudo e que, perante Deus, as orações e as súplicas de Maria são tão poderosas que não existe nada que Maria peça a Deus que não seja atendida, pois Jesus Cristo, que é Deus, jamais resiste aos pedidos  de sua mãe muito amada, porque tudo o que Maria pede a Deus está de acordo com a eterna e imutável vontade do Altíssimo. Jesus Cristo veio até nós por meio de Maria. Devemos chegar a Jesus também por meio de Maria. (baseado no livro “Glórias de Maria Santíssima” de Santo Afonso Maria de Ligouri).

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

 

O DOM DAS LÍNGUAS

 

São Paulo, Apóstolo, dá as regras para o que chamamos de “o exercício para o dom das línguas” na sua primeira Carta aos Coríntios, 14,26-40:

 O DOM DA LINGUA DEVE SER USADO DESDE QUE SEJA PARA EDIFICAÇÃO DA COMUNIDADE – “Que fazer, então, irmãos? Quando vocês estão reunidos, cada um pode entoar um canto, dar um ensinamento ou revelação, falar em línguas ou interpretá-las. Mas que tudo seja para edificação.” (1Cor 14,26). Este é o princípio regulador de todos os dons em geral. Eles devem servir para edificar os outros. Se assim não for, o dom, qualquer que seja, é ineficaz.

 O DOM DA LÍNGUA NÃO DEVE SER USADO POR MAIS DO QUE TRÊS PESSOAS NUM MESMO CULTO – “Se existe alguém que fale em línguas, falem dois ou no máximo três, um após o outro.” (1Cor 14,27). Numa mesma reunião “dois, ou no máximo três” indica que ter três diferentes pessoas falando em línguas em um mesmo culto seria contrariar os ensinamentos de Paulo. Congregações inteiras falando, cantando ou orando em línguas é especificamente proibido aqui.

 NO CULTO SOMENTE UM DE CADA VEZ DEVE EXERCITAR O DOM DA LÍNGUA – (1Cor 14,27). “um após o outro”, ou seja "cada um por sua vez" restringe o falar em línguas a um homem por vez; qualquer um a mais que falaria junto acrescentaria somente confusão. Já é uma confusão suficiente escutar um idioma estrangeiro; escutar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo seria fútil e certamente não poderia edificar. A prática comum contemporânea de ficar de pé falando em línguas durante a pregação é também proibida segundo o ensinamento de Paulo.

 QUANDO ALGUÉM FALA EM LÍNGUA DEVE HAVER UM INTERPRETE E APENAS UM INTÉRPRETE QUE ESCLAREÇA A COMUNIDADE SOBRE O QUE FOI FALADO – “E que alguém as interprete” (1Cor 14,27). Paulo requer aqui que haja um intérprete para transmitir aos demais irmãos o que o irmão esteja falando e que o mesmo intérprete dê as interpretações das mensagens dadas por uma, duas ou no máximo três pessoas. Nenhum outro intérprete deve falar.

 O INTÉRPRETE DEVE SER ALGUÉM QUE NÃO SEJA DAQUELE QUE ESTEJA FALANDO EM LÍNGUAS – E que alguém as interprete. Se há intérprete, que o irmão se cale na assembléia, fale a si mesmo e a Deus. Quanto as profetas, que dois ou três falem, e os outros profetas dêem o seu parecer” (v 27-29). Paulo não permite que alguém fale em uma língua para dar sua própria interpretação. A própria pessoa que fala em línguas não pode dar a sua própria interpretação, tem que ser outro.

 QUANDO ALGUÉM ESTIVER FALANDO EM LÍNGUAS DEVE HAVER ORDEM NA ASSEMBLÉIA – “Se alguém que está sentado recebe uma revelação, cale-se aquele que está falando. Vocês todos podem profetizar, mas um por vez, para que todos sejam instruídos e encorajados. Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas. Pois Deus não é um Deus de desordem, mas de paz. [...] Mas que tudo seja feito de modo conveniente e com ordem.” (1Cor 14,30-33.40). Os dons nunca devem ser exercidos de um modo que tenda à “confusão”, porque depreciaria seu propósito (edificar). Embora o formalismo não seja a única resposta, o caos é claramente excluído. O serviço de adoração deve ser conduzido de uma forma ordenada.

 DEVE HAVER UM AUTO CONTROLE NA ASSEMBLÉIA – “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas.” (v 32). Isso exclui qualquer escusa tal como, “Eu simplesmente não pude me refrear; o Espírito Santo apenas tomou o comando!” Paulo expressamente requer que o homem esteja em controle de suas faculdades mentais em todo tempo. Ser “arrastado” é refletivo das religiões pagãs, não dos dons cristãos, conforme Paulo disse em 1Cor 12,2: “Vocês sabem que quando vocês eram pagãos, se sentiam irresistivelmente arrastados para os ídolos mudos.”. Esta regra impede qualquer assim chamado “cair no Espírito” ou algo semelhante em que a pessoa esteja completamente fora de controle; quando o Espírito Santo requer auto controle, Ele então não causará o oposto. Ele não violará sua própria palavra. A objeção frequentemente dada é, “Mas e se o Espírito Santo me encher de uma forma que eu perca o contato com a realidade?” ou, “Eu simplesmente não pude controlar o Espírito”, ou algo parecido. Mas a clara premissa deste versículo é que o Espírito Santo nunca fará isto. Ele proibiu-a, e Ele simplesmente nunca fará algo que é contrário à sua palavra. Nunca!

 A NENHUMA MULHER É PERMITO FALAR NA ASSEMBLÉIA ONDE ESTEJA ACONTECENDO O DOM DAS LÍNGUAS – “Que as mulheres fiquem caladas nas assembléias, como se faz em todas as igrejas dos cristãos, pois não lhes é permitido tomar a palavra. Devem ficar submissas, como diz também a Lei. Se desejam instruir-se sobre algum ponto, perguntem aos maridos em casa; não é conveniente que as mulheres falem nas assembléias.”  (1Cor 14,34-35).

Paulo não poderia ser mais claro nesta proibição. “As mulheres estejam caladas nas igrejas”. Não importa ao que mais se refira, isto pelo menos se refere ao exercício dos dons de línguas e profecia, porque este é o contexto no qual este mandamento é dado. Percebendo, evidentemente, a tempestade de protesto que este mandamento receberia, Paulo acompanha o mesmo com uma declaração de autoridade nos versículos de 36 a 38, que diz, efetivamente, “se você não concorda comigo nisto, você é um arrogante (vs 36), não espiritual (vs 37), e um rebeldemente ignorante” (vs 38). A regra não poderia ser mais clara; rejeitá-la desafia diretamente o apóstolo inspirado. Outras restrições já apontadas, mas não declaradas ou listadas naqueles versos também se aplicam. Eles são as seguintes:

 AS LÍNGUAS DEVEM SER IDIOMAS VERNÁCULOS, OU SEJA, LINGUAS ATUAIS, COMO ACONTECEU NO LIVRO DOS ATOS DOS APÓSTOLOS, 2,4-11: “Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem. Acontece que em Jerusalém moravam judeus devotos de todas as nações do mundo. Quando ouviram o barulho, todos se reuniram e ficaram confusos, pois cada um ouvia, na a sua própria língua, os discípulos falarem. Espantados e surpresos, diziam: ‘Esses homens que estão falando, não são galileus? Como é que cada um de nós os ouve em sua própria língua materna? Entre nós há partos, medos e elamitas; gente da Mesopotâmia, da Judéia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e da região da Líbia, vizinha de Cirene; alguns de nós vieram de Roma, outros são judeus ou pagãos convertidos; também há cretenses e árabes. E cada um de nós, em sua própria língua os ouve anunciar as maravilhas de Deus”. (At 2,4-11). Haveria necessidade de maiores esclarecimentos de que a língua falada deve ser entendida por toda a comunidade e, em especial, por pessoas de outras nacionalidades em suas línguas maternas e vernáculas? Caso não seja entendida, há a necessidade de um intérprete para esclarecê-las. No acontecimento do Pentecostes, pelo menos quinze nacionalidades de línguas diferentes estavam presentes na praça quando os apóstolos, cheios do Espírito Santo, lhes dirigiram a palavra, e todos ouviram e entenderam, na sua própria língua materna, no seu próprio idioma ou dialeto o que os discípulos estavam falando.

Balbucio é completamente estranho ao dom de línguas do Novo Testamento. Falar em uma “expressão extática” é inteiramente sem garantia Bíblica.

 AS LÍNGUAS DEVEM SERVIR PARA PROPÓSITOS APROPRIADOS. O uso pessoal e devocional não é o propósito Bíblico servido pelo dom.

 AS LÍNGUAS DEVEM SER PÚBLICAS. O uso privado do dom é completamente sem precedente e não pode servir como um sinal para os incrédulos. 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

 


“SENHOR, SE QUERES, TENS O PODER DE CURAR-ME.” (Mc 1,40).

 

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano – B; Cor – Verde; Leituras: 2Rs 5,9-14; Sl 31 (32); 1Cor 10,31 – 11,1; Mc 1,40-45.

 

Diácono Milton Restivo

 

A primeira leitura desta liturgia fala de um profeta muito importante, mas totalmente desconhecido pela grande maioria dos cristãos: o profeta Eliseu. O nome “Eliseu” quer dizer “Deus é a salvação”. Eliseu foi discípulo e sucessor do grande profeta Elias.

Nas narrativas da vida de Eliseu, nas Sagradas Escrituras, encontram-se uma série de acontecimentos sobrenaturais que marca a carreira de seu ministério.

Os milagres de Eliseu ocorreram num momento em que a religião de Yahweh estava enfrentando uma afronta da parte do povo que insistia em adorar ao deus pagão Baal, e os reis de Israel se entregaram a essa adoração, chegando a fazer altares e locais de adoração para esses deuses. Da mesma forma que os milagres de Elias, Eliseu foi concebido para demonstrar a autoridade do profeta e de apresentar ao povo o Deus vivo, Yahweh, combatendo os falsos deuses.

Eliseu superou em muito o profeta Elias no número e no caráter extraordinário de seus milagres, mas a personalidade e a influência religiosa de Elias foram que ficaram marcadas na história do povo judeu e, bem por isso, Elias é mencionado trinta vezes no Novo Testamento, enquanto que Eliseu apenas uma vez referenciado, e isso pelo próprio Jesus, quando disse:

·         “Havia também muitos leprosos em Israel, no tempo de Eliseu. Apesar disso nenhum deles foi curado, a não ser o estrangeiro Naamã, que era sírio” (Lc 4,27), passagem de que trata primeira leitura desta liturgia.

Naamã era um importante general, comandante do exército sírio. Esse homem que comandava exércitos e que tinha fama, prestígio e riquezas, sofria da terrível doença da lepra, ficou sabendo que Eliseu era um homem de Yahweh, e procurou o profeta para curá-lo.

Naamã não era um israelita. Era um estrangeiro, até inimigo dos israelitas, porque os sírios e os israelitas estavam em constante guerra.

·         “Naamã, chefe do exército do rei Aram, era homem estimado e favorecido pelo seu senhor. [...] No entanto, esse homem ficou leproso” (2Rs 5,1).

Era general de todos os exércitos de seu país e podia tudo, menos curar-se da sua terrível moléstia: a lepra. E, para tanto, Naamã busca Eliseu para curá-lo.

Mas, Eliseu não deu a mínima para ele quando chegou às portas da sua casa e apenas mandou um recado através de um mensageiro:

·         “Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo” (2Rs 5,10).

Naamã ficou indignado com o pouco caso de Eliseu porque, afinal de contas, ele era uma pessoa importante do seu país e merecia melhor consideração e

·         “Naamã, irritado, foi-se embora, dizendo: ‘Eu pensava que ele sairia para me receber e que, de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, e que tocaria com sua mão o lugar da lepra e me curaria” (2Rs 5,11).

Eliseu apenas deixou claro que não estava a serviço de qualquer pessoa importante deste mundo e que o seu ministério era totalmente voltado à vontade de Yahweh, o seu Deus e Senhor. 

Eliseu não estava para fazer graça, fazer média ou usufruir de privilégios que essa pessoa importante lhe pudesse proporcionar, como fazem muitos ministros que dizem estar a serviço de Deus, mas que se submetem aos caprichos de poderosos a troco de satisfações pessoais.

Apesar de sua indignação, Naamã, aconselhado pelos seus servos, fez o que Eliseu mandara:

·         “Então ele desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante a de uma criancinha, e ele ficou purificado”. (Rs 5,14).

Na Lei de Moisés uma pessoa leprosa era considerada imunda:

·         Quando um homem tiver na pele da sua carne inchação, ou pústula, ou mancha lustrosa, e esta se tornar na sua pele como praga de lepra, então será levado a Arão o sacerdote, ou a um de seus filhos, os sacerdotes, e o sacerdote examinará a praga na pele da carne. Se o pêlo na praga se tiver tornado branco, e a praga parecer mais profunda que a pele, é praga de lepra; o sacerdote, verificando isto, o declarará imundo” (Lv 13,2-3).

O leproso, no Antigo Testamento, na concepção do povo e segundo a lei de Moisés, era alguém que fizera um grande mal, um grande pecado, e teria sido castigado, atingido pela ira de Yahweh e contraído essa tão terrível moléstia.

O primeiro caso que vemos nas Sagradas Escrituras que relaciona a lepra à ira de Yahweh refere-se à Maria, irmã de Moisés e Aarão, que havia murmurado contra Moisés por uma sua atitude que havia sido aprovada por Deus (Nm 12,1-16) e Yahweh, na sua ira, a atingiu com a lepra:

·         "Porque vocês se atreveram a falar contra meu servo Moisés?" A ira de Yahweh se inflamou contra eles, e Yahweh se retirou. A nuvem se afastou da tenda. E Maria tornou-se leprosa, branca como a neve. Aarão voltou-se para ela, e estava leprosa." (Nm 12, 8b-10).

Dentre as maldições contra aquele que não cumprisse os mandamentos de Yahweh estava a lepra e outros males e doenças:

·         “Contudo, se você não obedecer a Yahweh seu Deus, não colocando em prática todos os seus mandamentos e estatutos que hoje eu lhe ordeno, virão sobre vocês todas essas maldições e o atingirão... [...] Yahweh ferirá você com úlceras do Egito, com tumores, crostas e sarnas, que você não poderá curar. Yahweh ferirá você com loucura, cegueira e demência. [...] Yahweh ferirá você com úlcera maligna nos joelhos, nas pernas, da qual você não poderá ficar bom, desde a sola dos pés até o alto da cabeça.” ( Dt, 28, 15.27-28.35).

Para os judeus a doença era considerada consequência do pecado.

Quando a lepra era constatada numa pessoa, homem ou mulher, essa pessoa deveria ser afastada de sua família, de sua aldeia, de sua cidade para não contaminar os demais e viver no deserto, sozinha e ninguém poderia se aproximar dela e muito menos tocá-la para não se contaminar tanto corporalmente como espiritualmente.

Até a casa da pessoa contaminada pela lepra deveria ser purificada e se não fosse, deveria ser destruída:

·         “Se, porém, a praga tornar a brotar na casa, depois de arrancadas as pedras, raspada a casa e de novo rebocada, o sacerdote entrará, e a examinará; se a praga se tiver estendido na casa, lepra roedora há na casa; é imunda. Portanto se derrubará a casa, as suas pedras, e a sua madeira, como também toda a argamassa da casa, e se levará tudo para fora da cidade, a um lugar imundo. Aquele que entrar na casa, enquanto estiver fechada, será imundo até a tarde. Aquele que se deitar na casa lavará as suas vestes; e quem comer na casa lavara as suas vestes. (Lv 14,43-47).

Na lei de Moisés a lepra sempre foi tratada como sinal de impureza ou pecado grave, e a regra era uma só: discriminar os doentes e privá-los do convívio familiar e social.

Discriminação é dar tratamento diferente às pessoas que são iguais e que têm, pela constituição ou normas religiosas, os mesmos direitos e deveres que os demais. Discriminação é a não aceitação do outro.

E isso acontecia no Antigo Testamento, na Lei de Moisés, onde o leproso deveria ser expulso da família, da sociedade, do culto religioso, vagar pelas pradarias e desertos e para se identificar como tal, deveria rasgar suas roupas, cabeça descoberta e cabelos em desalinho, e sair pelo mundo, gritando para que ninguém se aproximasse dele “imundo, imundo”:

·         “Também as vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas; ele ficará com a cabeça descoberta e de cabelo solto, mas cobrirá o bigode, e clamará: Imundo, imundo. Por todos os dias em que a praga estiver nele, será imundo; imundo é; habitará só; a sua habitação será fora do arraial. Quando também houver praga de lepra em alguma vestidura, seja em vestidura de lã ou em vestidura de linho, quer na urdidura, quer na trama, seja de linho ou seja de lã; ou em pele, ou em qualquer obra de pele” (Lv 13,45-48).

Os leprosos tinham que andar com roupas rasgadas, cabelos soltos, clamando o tempo todo:

·         “Imundo! Imundo.”

Assim todas as pessoas ao seu redor eram avisadas:

·         “Cuidado! Aqui perto se encontra alguém que é leproso. Evite encontrar-se ou aproximar-se dele”.

A discriminação era total, e o homem colocava na boca de Yahweh aquilo que o próprio homem gostaria que acontecesse aos outros, desde que ele não fosse atingido pelo mal que afligia ao outro, muitas vezes ocasionado pelo seu próprio desinteresse, como acontece ainda nos nossos dias, como se Yahweh aconselhasse e determinasse a discriminação entre seus filhos:

·         “Yahweh falou a Moisés: ‘Ordene aos filhos de Israel que expulsem do acampamento os leprosos, os que têm gonorréia e os que se contaminaram com cadáveres. Homens e mulheres serão todos expulsos do acampamento, para que não fique contaminado o acampamento, no meio do qual eu moro. Os filhos de Israel fizeram isso e os expulsaram do acampamento. Os israelitas fizeram conforme Yahweh havia ordenado a Moisés.” (Nm 5,1-4).

Quantos foram expulsos, supostamente por ordem de Yahweh, o Deus da misericórdia, do amor, do perdão e da fraternidade? Dezenas, centenas, milhares? Como devemos interpretar o amor dedicado ao próximo por uma Teresa de Calcutá, Camilo de Lelis, Vicente de Paula, Irmã Dulce e centenas e milhares de irmãos e irmãs cristãos que seguiram o novo mandamento de Jesus, quando disse:

·         “Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros. Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos.” (Jo 13,34-35).

Seguindo o mandamento de Jesus esses santos não expulsaram nenhum leproso de sua presença, muito pelo contrário, os acolheram, confortaram, minimizaram seus sofrimentos e se fizeram um deles.

E o que dizer então de Damião, o Santo de Molokai, uma ilha do arquipélago do Havaí, que dedicou seu apostolado inteirinho no tratamento dos leprosos naquela ilha, culminando em morrer, também ele, vítima dessa doença?

Padre Damião, nascido na Bélgica, cujo nome de Batismo era Jozef de Veuster, foi padre e missionário da Congregação dos Sagrados Corações, é conhecido como o Santo Apóstolo dos leprosos de Molokai. Com sua atividade pastoral, Damião conseguiu regenerar a convivência social na “colônia da morte”, como era conhecida a ilha de Molokai e onde os enfermos brigavam para sobreviver. Padre Damião morreu vitimado pela lepra em 1889. Foi canonizado pelo Papa Bento XVI em 11 de outubro de 2011, recebendo o título de “São Damião de Molokai”.

Como então expulsar do convívio familiar, social e religioso pessoas que têm doenças consideradas incuráveis, como era a lepra no Antigo Testamento e até quase o Século XX da nossa era? Os leprosos não faziam parte da comunidade do povo de Deus porque, no Antigo Testamento, quem tinha uma doença grave era considerado punido por Yahweh por ter cometido algum pecado grave. A lepra era considerada um castigo de Deus, uma medida disciplinar que Deus usava para punir os pecadores.

E nós, hoje em dia, não somos diferentes dos judeus do Antigo Testamento e do tempo de Jesus; naquele tempo eles expulsavam de suas comunidades os doentes corporais.

Hoje nós expulsamos do nosso meio os doentes sociais, os doentes morais, os doentes espirituais. Julgamo-nos por demais puros e honestos e, hipocritamente, temos receio de ter perto de nós irmãos e irmãs que necessitam do nosso apoio moral, material, espiritual, afetivo.

No nosso meio proliferam, a cada dia que passa, os leprosos sociais: os pobres, os desempregados, os marginalizados, os que usam drogas, os alcoólatras, os excepcionais, os encarcerados, as prostitutas, os homossexuais, os favelados,  e em todos eles colocamos um carimbo de desprezo e exigimos que eles permaneçam bem longe de nós para que, na nossa hipocrisia, não nos contagiemos com sua doença...

Jesus veio e tirou o estigma dos leprosos e por todos aqueles que eram considerados pela lei e pela opinião pública, punidos por Yahweh.

O Evangelho da liturgia deste domingo narra que, naquele dia

·         “de madrugada, ainda escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto. Simão e seus companheiros foram atrás de Jesus, e quando o encontraram, disseram: ‘Todos estão te procurando’.” (Mc 1,35-37).

Voltando para a comunidade,

·         “um leproso chegou perto de Jesus e pediu de joelhos: ‘Se queres, tu tens o poder de me purificar’.” (Mc 1,40).

Dois fatos importantes chamam a atenção nessa aproximação do leproso a Jesus.

Primeiro: o leproso chega perto de Jesus. Era extremamente proibida pela Lei de Moisés a aproximação de qualquer leproso para qualquer pessoa, correndo o risco da pessoa sadia ficar impura e ter que se afastar também da comunidade por sete dias para se purificar e verificar se não havia sido contaminado.

Segundo: A total confiança e fé do leproso na pessoa de Jesus, vendo em Jesus alguém que tinha condições de curar qualquer tipo de doença, já que, se ele curasse a lepra, que era incurável, qualquer outro tipo de doença seria fichinha para Jesus.

E o evangelista Marcos continua na sua narrativa:

·         “Jesus ficou cheio de ira, estendeu a mão, tocou nele, e disse: ‘Eu quero, fique purificado’. No mesmo instante a lepra desapareceu e o homem ficou purificado.” (Mc 1,42-42).

Mais esclarecimentos vamos encontrar nestes versículos.

Primeiro: Jesus ficou cheio de ira, isto é, a sua natureza divina falou mais alto que a natureza humana. Jesus ficou cheio de ira, de revolta, de indignação, de repúdio por ver como os homens tratavam-se unas aos outros. Por quê? Por ver a discriminação da qual era submetido o leproso: abandonado à sua própria sorte, sem apoio, assistência e socorro por parte da comunidade e dos setores públicos e religiosos e dos seus próprios irmãos de religião.

Segundo: Jesus estendeu a mão e, com certeza, tocou na pele purulenta do leproso, isto é, contrariou frontalmente a lei de Moisés que proibia sequer que alguém se aproximasse de um leproso e muito menos que o tocasse porque, segundo a própria lei, quem assim o fizesse, ficaria impuro e deveria, também, afastar-se da comunidade por sete dias, até confirmar que não havia sido contagiado pela doença.

Terceiro: Jesus fez valer a sua natureza divina, indo de encontro com a fé do leproso e atendendo ao seu pedido, pedido esse que foi uma oração fervorosa e cheia de fé e confiança, de um homem que necessitava da ajuda de Jesus e pede-a seguro de que, se o Senhor quiser, tem poder para livrá-lo do mal de que padece, recebendo com resposta:

·         “Eu quero, fique purificado”, confirmando aquilo que ele mesmo diria mais tarde: “Tudo o que vocês pedirem na oração, acreditem que já o receberam, e assim será” (Mc 11,24) e

·         “Todo aquele que pede, recebe; quem procura acha; e a quem bate, a porta será aberta.” (Mt 7,7-8).

Jesus demonstrou que é maior que Moisés. Não seguiu as leis e rituais da lei mosaica que proibia terminantemente de se aproximar, ainda que de longa distância, de um leproso, e não foi só isso, tocou no leproso.

E foi além: demonstrou que a caridade, o amor, a fraternidade está acima da lei e, para provar isso, mandou que o leproso se apresentasse aos sacerdotes, conforme a lei de Moisés e que oferecesse o sacrifício estabelecido pela purificação, para mostrar aos sacerdotes que o amor supera a lei, conforme escreveu Paulo aos corintios:

·         “Ainda que eu falasse línguas, e dos homens e dos anjos, se eu não tiver amor, seria como um sino ruidoso ou como um címbalo estridente. Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse o amor, eu nada seria.” (1Cor, 13,1-2).

Agostinho, Bispo de Hipona, disse:

·         “A necessidade não conhece leis”.

Teresa de Calcutá, certa vez, estava dando banho em um leproso e achegou-se a ela um turista inglês que, enjoado, escandalizado e enojado, disse que não faria aquilo nem por um milhão de dólares, a que Teresa respondeu:

·         “O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso.”

Teresa de Calcutá não fazia aquilo por um milhão de dólares; ela fazia por amor. E ela vai além, quando afirmou:

·         “A todos os que sofrem e estão sós, dai sempre um sorriso de alegria. Não lhes proporciones apenas os vossos cuidados, mas também o vosso coração”.

Assim nos ensina o Catecismo da Igreja Católica no seu item 1972:

·         “A Lei nova é chamada Lei do amor, porque faz agir mais pelo amor infundido pelo Espírito Santo do que pelo temor: Lei da graça, porque confere a força da graça para agir pela fé e pelos sacramentos; Lei de liberdade porque nos liberta das observâncias rituais e jurídicas da Lei antiga, nos inclina a agir espontaneamente sob o impulso da caridade e, finalmente, nos faz passar da condição do escravo «que ignora o que faz o seu senhor», para a do amigo de Cristo: «porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi do meu Pai» (Jo 15, 15); ou ainda para a condição de filho herdeiro (34)”.


sábado, 13 de fevereiro de 2021

 

16º ANIVERSÁRIO DO FALECIMENTO DA IRMÃ LÚCIA, UMA DAS VIDENTES DE FÁTIMA

 

Nesta data 13 de fevereiro completam-se dezesseis anos que a Serva de Deus Irmã Lúcia partiu para junto de Deus. No Carmelo de S. Teresa, Coimbra, esta data será assinalada com uma Evocação da Irmã Lúcia composta por vários momentos.

Lúcia de Jesus dos Santos, a Irmã Lúcia, uma dos três videntes de Nossa Senhora de Fátima, nasceu no dia 23 de março de 1907, na Vila Aljustrel, Fátima, Portugal e faleceu no dia 13 de fevereiro de 2005, com 97 anos de idade, no Convento Carmelita de Santa Teresa, na cidade de Coimbra, Portugal.

No dia 13 de maio de 1917, durante a primeira guerra mundial, as três crianças, Lúcia, Jacinto e Francisca, estavam pastoreando nas colinas, quando surge um clarão após um relâmpago e a Virgem Maria aparece brilhando e vestida de branco. Ela pede que eles rezem pela paz no mundo e o fim da guerra.

As aparições continuaram, sempre no dia 13, pedindo para que as crianças continuassem rezando e revelou terríveis acontecimentos futuros, como a segunda guerra mundial, a queda do comunismo e uma terceira revelação que permaneceu em segredo.

Lúcia foi religiosa, freira da Ordem das Carmelitas Descalças, conhecida no Carmelo como Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado e reverenciada pela maioria dos católicos portugueses simplesmente como Irmã Lúcia.

Foi, juntamente com os seus primos Jacinta e Francisco Marto, os chamados “três pastorzinhos”, uma das três crianças que viram Nossa Senhora na Cova da Iria, em Fátima, durante o ano de 1917.

Lúcia nasceu no lugar de Aljustrel, próximo de Fátima, filha de António dos Santos e de sua mulher (casados em Fátima, Ourém, a 19 de Novembro de 1890) Maria Rosa, e era a irmã mais nova de sete irmãos: Maria dos Anjos, Teresa de Jesus Rosa dos Santos, Manuel Rosa dos Santos, Glória de Jesus Rosa dos Santos, Carolina de Jesus Rosa dos Santos e Maria Rosa.

Tinha dez anos e era completamente analfabeta quando viu, pela primeira vez, Nossa Senhora na Cova da Iria, juntamente com os primos Jacinta e Francisco Marto. Lúcia foi a única dos três primos que falava com a Virgem Nossa Senhora. Sua prima Jacinta ouvia mas não falava e Francisco nem sequer ouvia as palavras de Nossa Senhora, e como tal era a portadora do Segredo de Fátima. Nos primeiros tempos, a hierarquia católica revelou-se céptica sobre as afirmações dos Três Pastorinhos e foi só a 13 de outubro de 1930 que o Bispo de Leiria tornou público, oficialmente, que as aparições eram dignas de crédito.

A partir daí, o Santuário de Fátima ganhou uma expressão internacional, enquanto a irmã Lúcia viveu cada vez mais isolada.

Em 17 de junho de 1921, o Bispo de Leiria, Dom José Alves Correia da Silva, proporcionou a entrada de Lúcia no colégio das irmãs doroteias em Vilar, Porto, alegadamente para a proteger dos peregrinos e curiosos que acorriam cada vez mais à Cova da Iria e pretendiam falar com ela. Professou como doroteia em 1928, em Tui, Espanha, onde viveu alguns anos.

Em 1946 regressou a POrtugal e, dois anos depois, entrou para a clausura do Carmelo de Santa Teresa em Coimbra, onde professou como carmelita a 31 de maio de 1949. Foi neste convento que escreveu dois volumes com as suas Memórias e os Apelos da Mensagem de Fátima.

Em 1991, quando o Papa João Paulo II visitou Fátima, convidou a irmã Lúcia a deslocar-se ali e esteve reunido com ela doze minutos. Antes, a irmã Lúcia já se tinha encontrado também em Fátima com o Papa Paulo VI.

Lúcia morreu no dia 13 de fevereiro de 2005, aos 97 anos, no Convento Carmelita de Santa Teresa em Coimbra. O Papa João Paulo II, nesta ocasião, rezou por Irmã Lúcia e enviou o Cardeal Tarcisio Bertone para o representar no funeral. Em 19 de fevereiro de 2006 o seu corpo foi trasladado de Coimbra para o Santuário de Fátima onde foi sepultada junto dos seus primos.

A 12 de setembro de 1935, os restos mortais de Jacinta Marto são trasladados para o cemitério de Fátima. Ao abrir-se a urna, verifica-se que o rosto da vidente se encontrava incorrupto. Tiram-se então algumas fotografias e o então Bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, remete algumas para Lúcia que se encontrava na altura em Pontevedra.

Na carta de agradecimento, Lúcia evoca a prima com saudade referindo alguns fatos sobre o carácter de Jacinta. Estas palavras levam D. José a ordenar-lhe que escrevesse tudo o que se recordava da prima. Assim nasce a Primeira Memória da Irmã Lúcia que fica concluída em Dezembro de 1935.

Passados dois anos sobre a revelação dos fatos relatados na Primeira Memória, o Bispo de Leiria, convencido da necessidade de se estudar mais a fundo os acontecimentos de Fátima, dá ordens a Lúcia para escrever a história da sua vida e das aparições.

A vidente obedece e redige, entre os dias 7 e 21 de novembro de 1937, o que fica conhecido como Segunda Memória da Irmã Lúcia. Neste texto, a vidente revela pela primeira vez os factos ocorridos com as três visões do Anjo.

Em 26 de Julho de 1941, o Bispo de Leiria escreve a Lúcia anunciando-lhe o livro "Jacinta" que estava a ser preparado pelo Dr. J. Galamba de Oliveira. Pede-lhe então para recordar tudo o mais o que pudesse lembrar sobre a prima, de modo a ser incluído nesta edição.

Esta ordem cai no fundo da alma da vidente como um raio de luz, dizendo-lhe que era chegado o momento de revelar as duas primeiras partes do “Segredo”. Manifesta então a vontade de acrescentar à edição dois capítulos: um sobre o Inferno e outro sobre o Imaculado Coração de Maria. Estas revelações são escritas e concluídas em 31 de outubro de 1941.

São posteriormente publicadas e conhecidas como a "Terceira Memória da Irmã Lúcia". Surpreendidos com os relatos da "Terceira Memória", Dom José Alves Correia da Silva e Galamba de Oliveira concluíram que Lúcia não tinha dito tudo nas narrações anteriores e que ocultaria ainda algumas coisas.

A 7 de Outubro de 1941, a vidente recebe ordem para escrever tudo o que soubesse sobre Francisco e completar o que faltasse sobre Jacinta e descrever, com mais pormenor, as Aparições do Anjo e de Nossa Senhora. Lúcia entrega o manuscrito a 8 de dezembro de 1941 deixando claro que nada mais tem a ocultar, excepto a Tersceira parte do Segredo.

O texto é depois publicado como "Quarta Memória da Irmã Lúcia" e nele a vidente escreve o texto definitivo das Orações do Anjo, acrescentando também ao segredo a frase “Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé etc.”

Em 31 de Maio de 2007 foi inaugurado em Coimbra um museu sobre a vidente de Fátima.

Foi projetado pelo arquiteto Florindo Belo Marques para uma área onde as freiras do Carmelo de Coimbra tinham galinheiros. O museu apresenta um espólio que remete até ao tempo das "aparições de Fátima".

Em 14 de fevereiro de 2008, na Catedral de Coimbra, em Portugal, o Cardeal José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, por ocasião do aniversário da morte da "vidente de Fátima", tornou público que o papa Bento XVI, atendendo ao pedido do bispo Albino Mamede Cleto, de Coimbra, compartilhado com numerosos bispos e fiéis do mundo todo autorizou, excepcionando as normas do Direito Canônico (art. 9 das "Normae servandae"), o início da fase diocesana da causa da sua beatificação, transcorridos apenas três anos da sua morte.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

 

QUAL O SIGNIFICADO DO NÚMERO QUARENTA NA BÍBLIA?

 

Por que quarenta dias? Na Bíblia, o número quatro simboliza o universo material e o quarenta é a duração de uma geração. Em quarenta dias ou quarenta anos tudo se renova.

Quarenta foram os dias em que Moisés recebeu das mãos de Deus as Leis e Mandamentos que orientaram o povo escolhido a deixar para trás a escravidão e a viver a vida de liberdade total.

Quarenta foram os dias em que Jesus esteve no deserto, entrando ali como simples e humilde carpinteiro e de lá saindo como o Salvador da humanidade. Portanto, a duração da Quaresma está baseada no símbolo deste número na Bíblia.

A Quaresma evoca as passagens que se referem ao número quarenta. Dos quarenta dias do dilúvio: “Durantequarenta dias caiu o dilúvio sobre a terra. [...] No fim de quarenta dias, Noé abriu a clarabóia que tinha feito na arca, e soltou o corvo, que ia e vinha, esperando que as águas secassem sobre a terra.”  (Gn 7,17; 8,6 ).

Dos quarenta anos de peregrinação do povo israelita pelo deserto: “A ira de Yahweh se inflamou contra Israel, e ele o fez andar errante pelo deserto durante quarenta anos, até que desaparecesse aquela geração que fez o que Yahweh reprova.” (Nm 32,13; 14,33; Dt 8,2; 29,4; etc.). Dos quarenta dias e quarenta noites de Moisés no monte Sinai, também conhecido como Monte Horeb ou Jebel Musa, que significa “Monte de Moisés” em árabe: “Moisés ficou ali com Deus, o Senhor,quarenta dias e quarenta noites e durante esse tempo não comeu nem bebeu nada. Ele escreveu nas placas de pedra as palavras da aliança, isto é, os dez mandamentos.” (Ex 34,28; 24,18; Dt 9,9-11; 10,10).

Dos quarenta dias e quarenta noites da caminhada do profeta Elias para a montanha: “Elias se levantou, comeu, bebeu, e sustentado pela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até o Horeb, a montanha de Deus.” (1Rs 19,8).

Dos quarenta dias que foi o tempo que Yahweh deu a Jonas para destruir a cidade de Nínive, se esta não se arrependesse de seus pecados: “Jonas entrou na cidade e começou a percorrê-la, caminhando um dia inteiro. Ele dizia: ‘Dentro de quarenta dias a cidade será destruída.” (Jn 3,4). Dos quarenta anos que foi o tempo que Davi reinou em Israel: “Davi foi rei em Israel durante quarenta anos; reinou sete anos em Hebron, e trinta e três anos em Jerusalém.” (1Rs 2,11).

Dos quarenta dias e quarenta noites em que Jesus jejuou no deserto antes de começar o seu ministério: “Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome.” (Mt 4,2; Mc 1,12; Lc 4,2).

Dos quarenta dias depois da Ressurreição acontece a Ascensão de Jesus: “Foi aos apóstolos que Jesus, com numerosas provas, se mostrou vivo depois de sua paixão: durante quarenta dias apareceu a eles, e falou-lhes do Reino de Deus. [...] Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu à vista deles.” (At 1,3.9).

Das quarenta chicotadas previstas pela Lei de Moisés ao infrator que tenha contrariado alguma recomendação da Lei: “Podem açoitá-lo até quarenta vezes”. (Dt 25,3). Das quarenta chicotadas menos uma que Paulo recebeu por cinco vezes para ser punido por difundir a mensagem de Jesus e do Reino de Deus: “Dos judeus recebi cinco vezes os quarentagolpes menos um.” (1Cor 11,24). Tendo como início o número quatro, podemos citar ainda os quatrocentos anos de escravidão do povo israelita no Egito: “Ai nessa terra eles ficarão como escravos e serão oprimidos durante quatrocentos anos.” (Gn 15,13), e mais: “A estada dos filhos de Israel no Egito durou quatrocentos e trinta anos. No mesmo dia em que terminaram os quatrocentos e trinta anos, os exércitos de Israel saíram do Egito”. (Ex 12,40-41).

Esses períodos vêm sempre antes de fatos importantes e se relacionam com a necessidade de ir criando um clima adequado e dirigindo o coração para algo de destaque que vai acontecer: a concretização da conversão, a passagem da escravidão para a liberdade; a mudança de vida e de mentalidade, como dizia João Batista: “Convertam-se, porque o Reino de Deus está próximo”. (Mt 3,2), o que foi ratificado por Jesus: “Daí em diante, Jesus começou a pregar, dizendo: ‘Convertam-se, porque o Reino de Deus está próximo.” (Mt 4,17).

A Igreja propõe, por meio do Evangelho proclamado na quarta-feira de cinzas, três grandes linhas de ação: a oração, a penitência e a caridade. Não somente durante a Quaresma, mas em todos os dias de sua vida, o cristão deve buscar o Reino de Deus, ou seja, lutar para que exista justiça, a paz e o amor em toda a humanidade.