
“QUEM DENTRE VOCÊS NÃO TIVER PECADO, ATIRE A PRIMEIRA PEDRA” (Jo
8,7)
Diácono Milton Restivo
Na liturgia de
hoje o Evangelho de João narra o episódio que é conhecido como o da mulher
adúltera. Não se pode avaliar ou tirar conclusões de uma perícope ou passagem
do Evangelho ou das Sagradas Escrituras sem ter conhecimento da história e dos
costumes do povo da época. Seria muita leviandade de nossa parte fazer um
julgamento precoce e imediato dessa passagem evangélica levando em consideração
os nossos costumes, a nossa lei, a nossa moral e ética. As situações eram bem
diferentes do que são hoje. A religião judaica era uma religião machista,
patriarcal, feita só para homens. As mulheres não eram nem coadjuvantes.
Vamos fazer
apenas algumas colocações para que seja entendida a situação da mulher na sociedade
patriarcal judaica do Antigo Testamento e no tempo de Jesus. Para uma mulher
judia sair de casa sem cobrir a cabeça era considerado ato tão ofensivo ao
marido que este tinha o direito de repudiá-la e separar-se dela sem direito
algum para a esposa. Isso ofendia de tal modo os bons costumes que o marido
tinha o direito, inclusive o dever religioso, de expulsá-la de casa e
divorciar-se dela, sem estar obrigado a pagar-lhe a soma combinada no contrato
matrimonial.
O homem bem
educado jamais poderia encontrar-se, a sós, com uma mulher, onde quer que seja.
Se a mulher fosse casada o homem deveria evitar olhá-la ou saudá-la.
Um pai podia
vender sua filha como escrava, após ela ter completado doze anos. Fato pouco
comum, mas que servia para manter a submissão feminina.
No Pentateuco
era permitido ao pai israelita pobre ou endividado vender sua filha para que
fosse concubina do homem que a comprasse ou de seu filho. Se a mulher, agora
escrava, não agradasse ao seu amo, ela poderia ser resgatada, mas o seu senhor
judeu não podia revendê-la (como peça de mercado) a um estrangeiro, mas poderia
ser vendida a um outro judeu:
·
“Se alguém
vender a filha como escrava, esta não sairá como saem os escravos. Se ela
desagradar o patrão, a quem estava destinada, este deixará que a resgatem; não
poderá vendê-la a estrangeiros, usando de fraude com ela. Se o patrão destinar
a escrava para seu filho, este o tratará conforme o direito das filhas”.
(Ex 21,7-9).
As filhas
tinham que ceder os principais lugares para os filhos homens e, inclusive,
permitir que eles passassem primeiro pelas portas das casas antes que elas. Em
muitos lares os filhos eram incentivados a usar sua força contra as suas irmãs
a fim de irem aprendendo a dominar as mulheres. A mulher não podia atuar como
testemunha num tribunal, nem como testemunha de acusação; o testemunho da
mulher não era válido. A mulher era considerada pecadora e mentirosa por
natureza. Seu testemunho em um julgamento era considerado de pouco valor. Somente
o marido tinha o direito de romper o matrimônio exigindo o divórcio, a mulher
não.
Causas
prováveis de divórcio: além do citado acima, de sair na rua sem cobrir a
cabeça; a mulher que perdia seu tempo na rua falando com outras mulheres
(porque não podia conversar com homens), ou que se põe a fiar na porta de sua
casa, podia ser repudiada por seu marido sem qualquer compensação econômica. Segundo
o rabi Hille, “inclusive quando a esposa
tivesse deixado a comida se queimar”, podia ser repudiada com o divórcio. As
mulheres não tinham acesso ao ensino religioso e eram deixadas à parte nos
cultos; eram, portanto, analfabetas.
Chegavam-se
aos extremos, como os do rabi Eliezer, da época de Jesus, que dizia:
·
“Quem
ensina a Torá para sua filha, ensina-lhe a libertinagem (ela fará mau uso
do que aprendeu). É melhor queimar a Lei santa do que entregá-la a uma mulher.”
Entenda-se que seria melhor jogar a Torá no
fogo do que permitir que uma mulher a lesse e a entendesse. Muitas
outras opressões existiam contra as mulheres.
Imagine
a coragem de Jesus ao conversar com as mulheres, instruí-las e tratá-las com
dignidade. Na época de Jesus a mulher não era mais do que uma propriedade do
seu marido, que era o seu dono. O marido possuía empregados, escravos,
propriedades e a própria mulher como propriedade sua. O Decálogo, os dez
mandamentos constantes na Lei de Moisés, coloca a mulher como propriedade de seu
marido com as demais posses, juntamente com a casa e o campo, o escravo e a
escrava, o boi e o asno:
·
“Não
cobice a casa de seu próximo, nem a mulher do próximo, nem o escravo, nem a
escrava, nem o boi, nem o jumento, nem coisa alguma que pertença ao seu
próximo”. (Ex 20,17; Dt 5,21).
Como pode ser
observado, a mulher era colocada no mesmo nível da escrava, do boi, do jumento
e de todas as outras propriedades do marido. E isso está no Decálogo, nos dez
mandamentos. Rabinos judaicos iniciavam todos os encontros
nas sinagogas com as seguintes palavras, "Bendito
sejas tu, Senhor, porque tu não me fizeste mulher". As mulheres eram
excluídas da vida religiosa e raramente lhes ensinavam a Torá em privacidade,
porque isso era proibido.
Jesus começou, publicamente, a incluir muitas mulheres como
suas discípulas, o que era rejeitado pelos rabinos e não permitido pelos
doutores da Lei, escribas e fariseus, e isso enfurecia os líderes religiosos. No
Templo e nas sinagogas homens e mulheres ficavam rigorosamente separados; as
mulheres sempre em lugares inferiores, secundários, e jamais poderiam ler os
livros da Lei ou dos Profetas, mesmo porque eram analfabetas, e não podiam nem
falar durante o culto. O culto na sinagoga era celebrado apenas caso houvesse
presentes ao menos dez homens com mais de treze anos de idade, por mais
numerosas que fossem as mulheres; as mulheres não contavam.
As mulheres
não aprendiam a ler, não frequentavam qualquer tipo de escola, estavam isentas
de peregrinar nas grandes festas anuais a que estavam obrigados os homens, e de
outras práticas religiosas, e nem podiam pronunciar a ação de graças à mesa,
mas, eram obrigadas a cumprir todas as proibições da lei religiosa, e
submetidas, também, a todo rigor da legislação civil, penal e religiosa,
inclusive à pena de morte, como vemos no caso da mulher adúltera (Jo 8,1-5).
No livro do
Levítico encontramos:
·
“O homem
que cometer adultério com a mulher de seu próximo deverá morrer, tanto ele como
ela” (Lv 20,10).
E no
Deuteronômio:
·
“Se um
homem for pego em flagrante tendo relações sexuais com uma mulher casada, ambos
serão mortos, o homem que se deitou com a mulher e a mulher. Deste modo você
eliminará o mal de Israel. Se houver uma jovem prometida a um homem, e outro
tiver relações com ela na cidade, vocês levarão os dois à porta da cidade, e os
apedrejarão até que morram; a jovem por não ter gritado por socorro na cidade,
e o homem por ter violentado a mulher de seu próximo”. (Dt 22,22-24).
Mas isso não
aconteceu quando apresentaram a mulher adúltera para Jesus, que “foi surpreendida em adultério”
(sozinha?). Se a mulher foi surpreendida em adultério, deveria haver um homem
em cena, porque sozinha isso seria impossível; onde estava o homem que praticou
o ato libidinoso com a mulher? Então vê-se que o homem era protegido, não
estava enquadrado nos rigores da lei e estava isento de qualquer
responsabilidade; somente a mulher era culpada.
Há registro
que, nos séculos I e II dC, três vezes ao dia, o homem judeu agradecia a Deus,
rezando, por não terem sido criados pagão, escravo, ou mulher.
Assim diz um
comentário do século II:
·
“Rabi Jehuda diz: “devem ser feitas três orações diárias: Bendito seja Deus que não me
fez pagão. Bendito seja Deus que não me fez mulher. Bendito seja Deus que não
me fez ignorante. Bendito seja Deus que não me fez pagão: porque todas as
nações diante dele são como nada (Is 40,17). Bendito seja Deus que não me fez
mulher: porque a mulher não está obrigada a cumprir os mandamentos. Bendito
seja Deus que não me fez ignorante: porque o ignorante não se envergonha de
pecar”.
Nem sempre o
homem que não cumprisse a lei seria punido, mas a mulher jamais escaparia da
punição, como vemos no caso da mulher adúltera.
Como foi
citado acima, o judeu que se considerava educado, puro e santo, jamais
conversaria na rua com uma mulher sozinha, e principalmente ainda se essa
mulher estivesse isolada no campo, e principalmente ainda se essa mulher fosse
de vida duvidosa, e principalmente, ainda se essa mulher fosse uma estrangeira.
Jesus desafiou as leis sociais em relação a ambos os sexos
e conversava com as mulheres onde quer que fosse, ainda que a mulher fosse uma
estrangeira. Não aconteceu assim com a samaritana, mulher estrangeira e de um
povo inimigo dos judeus? E onde estava a samaritana? Ela não estava sozinha buscando água num poço afastado da
sua comunidade? E quem era a samaritana? Mulher estrangeira, pertencente
a um povo considerado infiel à lei de Moisés, inimigo dos judeus, de conduta
moral duvidosa, sozinha num lugar descampado... (Jo 4,1-30). A samaritana era uma mulher que
estava sozinha no campo (apanhando água na fonte de Jacó); uma mulher
estrangeira, idólatra para os judeus, de moral duvidosa, pois já havia tido
cinco maridos, e maldita por todo judeu que se julgava fiel e santo, e isso é
constatado na admiração e surpresa e até repulsa de seus discípulos quando
flagraram Jesus conversando com esse tipo de mulher sozinho, em lugar isolado,
na fonte de Jacó, fora da cidade da região de Samaria chamada Sicar:
·
“Naquele
instante (enquanto Jesus conversava com a samaritana), chegaram os seus discípulos e admiravam-se de que falasse com uma
mulher; nenhum deles, porém, lhe perguntou: ‘que procuras’? ou: ‘o que falas
com ela?” (Jo 4,27).
Ficaram com
medo de inquirir o Mestre sobre sua atitude. E o que presenciamos depois disso?
A comunidade cristã da Samaria começa a existir exatamente por essa mulher, de
vida e moral duvidosa, idólatra, estrangeira que qualquer judeu de bom senso
deveria cortar léguas dela, e foi para ela que Jesus ofereceu a água viva:
·
“Se você
conhecesse o dom de Deus, e quem lhe está pedindo de beber, você é que lhe
pediria. E ele daria a você água viva. [...] A mulher então, deixou seu cântaro e correu à cidade, dizendo a todos:
‘Venham ver um homem que me disse tudo o que fiz. Não será ele o Cristo? ’ Eles
saíram da cidade e foram encontro de Jesus”. (Jo 4,29-30).
A afirmação de
Jesus: “Muitos os que agora são
primeiros, serão os últimos, e muitos que agora são os últimos serão os
primeiros.” (Mc 10,31; cf Mt 19,30; 20,16), aplicava-se, de uma maneira
especial, às mulheres pela sua situação de inferioridade nas estruturas
dominadas pelos homens nas comunidades patriarcais judaicas.
Contrariando
todas as expectativas da época, em que o Rabi só podia ter discípulos homens, Jesus
foi ousado e não teve somente discípulos homens; teve muitas discípulas
mulheres, aliás, mais assíduas do que os próprios homens, e ter discípulas
mulheres era proibido aos mestres judeus (desculpem-me pelos “discípulos
homens” e “discípulas mulheres”. Foi apenas para chamar mais a atenção sobre o
fato. Vou insistir nisso).
Jesus teve mulheres
amigas muito queridas, como as irmãs Marta e Maria, e manifestou por elas
amizade humana, intensa, profunda e publicamente:
·
“Estando
(Jesus) em viagem, entrou num povoado, e
certa mulher, chamada Marta, recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria,
ficou sentada aos pés do Senhor, escutando-lhe a palavra”. (Lc 10,38-42);
·
“Jesus
amava Marta e sua irmã (Maria) e
Lázaro. Quando Jesus a viu chorar (Maria) e também os judeus, que a acompanhavam, comoveu-se interiormente e
ficou conturbado”. (Jo 11,5.33);
·
“Seis dias
antes da Páscoa, Jesus foi à Betânia, onde estava Lázaro que ele ressuscitara
dos mortos. Ofereceram-lhe um jantar: Marta servia e Lázaro era um dos que
estavam à mesa com ele. Então Maria, tendo tomado uma libra de um perfume de
nardo puro, muito caro, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos; e
a casa inteira ficou cheia do perfume do bálsamo”. (Jo 12,1-8).
Jesus teve
centenas de mulheres discípulas:
·
“Maria de
Magdala, chamada de Madalena, de que Jesus fez sair sete espíritos; Joana,
mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Suzana, e várias outras mulheres
que ajudavam a Jesus e aos seus discípulos com os bens que possuíam.” (Lc
8,1-3; cf Mc 15,40-41).
Voltemos ao
assunto que nos fez fazer essa explanação a respeito de como eram tratadas as
mulheres em toda a narração das Sagradas Escrituras. O que dizer, então, da mulher
adúltera apresentada de forma constrangedora a Jesus? Pela Lei de Moisés e dos judeus essa mulher
deveria ser morta por apedrejamento, conforme prevê o livro do Deuteronômio
22,22:
·
“Se um
homem for pego em flagrante tendo relações sexuais com uma mulher casada, ambos
serão mortos, o homem que se deitou com a mulher e a mulher. Deste modo você
eliminará o mal de Israel”.
Mas, onde
estava o homem? Porque não o apresentaram? E qual foi a atitude de Jesus diante
dos anciãos, sacerdotes, escribas, doutores da lei e todo o povo?
Os escribas e
os fariseus estavam, desde longa data, maquinando uma armadilha para pegar
Jesus e desacreditá-lo diante da opinião pública. Talvez tivesse chegado o
momento.
Era de manhã e
Jesus estava chegando ao Templo. Vieram até ele os mestres da Lei e os fariseus
trazendo uma mulher em estado lastimável de vergonha, humilhação e desespero.
Segundo eles, a mulher havia sido pega em flagrante, cometendo adultério, um
dos três pecados gravíssimos citados na Lei de Moisés, que era punido com a
morte por apedrejamento. Os rabinos diziam:
·
“Todo
judeu deve morrer antes de cometer idolatria, adultério ou assassinato.”
O
adultério era um dos três crimes e pecados mais graves e a Torá era muito clara
neste aspecto, variando apenas a forma de como se deveria cumprir a pena de
morte:
·
“O homem
que cometer adultério com a mulher de seu próximo deverá morrer, tanto ele como
ela”. (Lv 20,10).
Mas não fala
da forma como deveriam ser mortos.
O livro do Deuteronômio,
22,24, estabelece a pena no caso da mulher já estar casada, e, neste caso,
deve-se tirar a mulher e o homem fora das portas da cidade e serem apedrejados:
·
“e vocês
levarão os dois à porta da cidade e os apedrejarão até que morram.”
Adultério era
um pecado contra Deus e contra a Lei de Moisés, e que era para ser aplicado
tanto para a mulher... quanto para o homem (???). Mas, trouxeram somente a
mulher. Insisto: cadê o homem que consumira com ela o ato de adultério? A
mulher teria cometido o adultério sozinha?
Afinal de
contas, quem era a mulher? Que valor tinha a mulher na sociedade judaica?
Os doutores da
Lei e os fariseus estavam menos preocupados com o pecado que a mulher cometera
e mais preocupados em
desacreditar Jesus e submetê-lo a um descrédito e delito
maior.
Se Jesus
inocentasse a mulher estaria contrariando a Lei de Moisés, o que seria causa de
morte também. Se ele condenasse a mulher à morte por apedrejamento estaria
contrariando todos os seus ensinamentos baseados na lei do amor e da
misericórdia, e ainda mais, contrariaria a lei dos romanos que haviam tirado
dos judeus o direito de aplicar a pena de morte a quem quer que seja, e isso
deixaria Jesus em maus lençóis com os dominadores do povo judeu, os romanos.
Repito a Lei mosaica
que prescrevia a pena de morte para uma mulher casada, pega em adultério, tanto
quanto para o homem:
·
“Se um
homem for pego em flagrante tendo relações sexuais com uma mulher casada, ambos
serão mortos, o homem que se deitou com a mulher e a mulher. Deste modo você
eliminará o mal de Israel. Se houver uma jovem prometida a um homem, e outro
tiver relações com ela na cidade, vocês levarão os dois à porta da cidade, e os
apedrejarão até que morram; a jovem por não ter gritado por socorro na cidade,
e o homem por ter violentado a mulher de seu próximo”. (Dt 22,22-24).
O Evangelho de
João relata que os romanos tinham retirado dos judeus o direito de condenar
alguém a morte:
·
“Pilatos
disse: ‘Encarreguem-se vocês mesmos de julgá-lo conforme a lei de vocês’. Os judeus responderam; ‘Não temos permissão
de condenar ninguém à morte’.” (Jo 18,31).
Portanto, se
Jesus dissesse que a mulher deveria ser apedrejada, ele contrariaria a lei
civil dos romanos; se ele negasse esta pena, estaria contra a lei religiosa
mosaica.
Os doutores da
Lei e os fariseus procuravam, por todos os meios estratégicos, de como apanhar
e encontrar em Jesus alguma contradição, ou erro contra a Lei de Moisés,
tradições, costumes judaicos que pudessem incriminá-los, para que, de alguma
forma, Jesus ficasse mal visto aos olhos do povo, e desacreditado e que ele
perdesse sua popularidade.
Jesus não
defende a mulher do delito que havia cometido; ela era realmente adúltera, não
prostituta, e a trata como tal, mas com amor, compreensão, compaixão e
misericórdia. Mas a Lei determinava que morressem os dois: homem e mulher que
cometeram o delito. Mas, onde estava o homem? Adúlteras e prostitutas existem,
sim, mas elas não existiriam se não houvessem homens covardes que delas tiram
proveito e depois lhes apontam o dedo para incriminá-las, escondendo-se na
multidão dos que gritam condenando-as e incentivando o apedrejamento. Quem sabe
se o homem que havia cometido adultério com aquela mulher não estaria também na
multidão apontando o dedo e condenando aquela infeliz a morte para se ver livre
de futuras acusações?
Pela Lei aquela mulher deveria ser punida
com o apedrejamento. Deveria ter sido uma cena constrangedora. Para
surpresa de todos, Jesus ignora os julgadores e com misericórdia e muito amor
coloca a sua atenção na mulher. A fisionomia da mulher estava transtornada,
triste, aterradora. Estava com medo, angustiada, apavorada, sem nenhuma
perspectiva de futuro; afinal das contas, sua vida terminaria ali. Ela fora
pega praticando sexo com um homem, provavelmente casado, e estava, agora, nas
mãos de seus possíveis algozes, mas o companheiro de infortúnio havia
desaparecido ou estaria no meio da multidão para condená-la também por
conveniência própria e da própria Lei que protege os que direcionam a lei
contra os fracos e oprimidos.
Jesus não
apela nem para a lei dos homens e nem para a Lei de Moisés. Jesus coloca em
prática a Lei da Graça onde a pessoa é mais importante do que a letra. Jesus
usou a lei da liberdade, a lei do perdão, a lei da misericórdia, a lei da
compaixão, a lei do amor. Os acusadores dizem:
·
“Mestre,
esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés na lei manda
apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?” (Jo 8,4-5).
Olha a má
interpretação da lei por conveniência própria: “Moisés na lei manda apedrejar tais mulheres.” E os homens que
praticaram adultério com essas mulheres? Como fica?
O Evangelista
conhecia a intenção dos acusadores, e testemunha:
·
“Perguntaram
isso para experimentar Jesus e para terem motivo de acusá-lo.” (Jo 8,6).
Jesus, com
toda a serenidade que sempre pautou sua personalidade, caráter e suas atitudes,
conhecedor das intenções dos que queriam pegá-lo em contradição, manteve-se
inatingível pelo ódio que reinava no local:
·
“abaixou-se
e começou a escrever com o dedo no chão”. (Jo 8,8).
Não sabemos o
que Jesus tenha escrito, e jamais o saberemos.
Alguns autores
vêem uma referência a uma frase em Jeremias:
·
"aqueles
que se afastam de ti terão seus nomes inscritos na poeira, porque abandonaram
Yahweh, a fonte de água viva" (Jr 17,13).
Talvez Jesus
tivesse escrito no chão o que já havia ensinado antes:
·
“Não julguem,
e vocês não serão julgados. De fato, vocês serão julgados com o mesmo
julgamento com que vocês julgarem, e serão medidos com a mesma medida com que
vocês medirem. Porque você fica olhando o cisco no olho do seu irmão e não
presta atenção à trave que está no seu próprio olho?” (Mt 7,1,3).
Os acusadores
insistiram para que Jesus se definisse e desse uma resposta e:
·
“Jesus
ergueu-se e disse: ‘Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra’.”
(Jo 8,7).
Em outras
palavras:
·
“somente
quem fosse santo, quem não tivesse pecados, quem fosse puro de mãos e limpo de
coração, que não entregasse a sua alma à vaidade e nem jurasse enganosamente”
(Sl 24).
Somente quem
estivesse nessa situação de pureza poderia ser o primeiro a atirar a pedra. E
quem é assim não atira pedra em ninguém, pelo contrário, usa a lei da
misericórdia, do perdão e, como Jesus fez, a Lei da Graça onde a pessoa é mais importante
do que a letra. E Jesus, diz:
·
“Quem de
vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”. (Jo 8,7).
E após dizer
isso, abaixou-se novamente e
continuou a escrever no chão.
·
“E eles,
ouvindo o que Jesus falou, foram saindo uma a um, a começar pelos mais velhos”.
(Jo 8,9).
Resultado:
deixaram Jesus sozinho com a mulher. É de se acreditar que até os discípulos e
apóstolos, desconsertados com o desfecho, deixaram o local, porque o
Evangelista é taxativo:
·
“E Jesus
ficou sozinho. Ora, a mulher continuava ali no meio”. (Jo 8,9).
Jesus, então,
dirige-se para a mulher fazendo-lhe uma pergunta:
·
“Mulher,
onde estão àqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: ‘Ninguém,
Senhor’. E disse-lhe Jesus: ‘Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques
mais’.” (Jo 8,10-11).
Perguntando para
a mulher se os seus acusadores não a tinham condenado, Jesus deixa claro que
ele não se identifica com eles:
·
“pois Deus
amou tanto o mundo, que entregou seu Filho Único, para que todo o que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3,16).
Ele não veio
para condenar, mas para salvar! Por isso a mulher está livre para ir, mas não
para pecar de novo! A Lei de Moisés, que é a lei do Antigo Testamento, foi
escrita com o dedo de Deus na pedra:
·
“Yahweh
disse a Moisés: ‘Corte duas tábuas de pedra, como as primeiras, suba ao meu
encontro na montanha, e eu escreverei as mesmas palavras que estavam nas
primeiras tábuas que você quebrou.” (Ex 34,1).
É por isso que
os acusadores entendiam que os infratores da lei de Moisés deveriam ser punidos
com a pedra, com o apedrejamento, porque a sua lei foi escrita na pedra.
A Lei do amor,
da misericórdia e do perdão, que é a Lei do Novo Testamento e da Nova Aliança,
também é escrita, da mesma forma, com o dedo de Deus, mas não na pedra, mas no
coração de cada um, transmitida, não para Moisés, mas transmitida pela própria Palavra
de Deus:
·
“Palavra
de Deus que se fez homem e veio habitar entre nós” (Jo 1,14):
·
“Eu dou a
vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês,
vocês devem se amar uns aos outros. Se vocês tiverem amor uns para com os
outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos.” (J0 13,34-35).
Por isso é que
os que pecam contra essa lei devem ser tratados com compreensão, amor,
misericórdia e perdão, assim como fez Jesus. Deus detesta o pecado, mas ama o
pecador.
O amor mútuo já era orientado no Antigo Testamento,
também como um mandamento:
·
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18).
Mas que foi olvidado e não levado a sério. Esta
é a Nova Lei que Jesus escreve e prescreve. Esta é a Nova e Eterna Aliança, não
escrita, mas inscrita nos nossos corações pelo “dedo de Deus”, Jesus
Cristo. “Quem não tiver pecado atire a primeira
pedra.”.
Jesus podia
ter atirado a primeira pedra! Jesus seria o único que poderia ter atirado a
pedra, porque ele era o único ali presente que não tinha pecado algum. Mas estendeu
a mão e levantou a mulher da sua prostração, libertou-a da sua humilhação,
salvou-a até da sua solidão, conversando com ela pela primeira vez, olhando-a,
quem sabe, amorosamente, nos olhos.
Com o olhar e
com o coração, Jesus deve ter dito àquela mulher:
·
“Eu não te
condeno! Eu sou o Messias do Deus sem pedras, o Deus do Perdão abundante. Vai e
de agora em diante não tornes a pecar! Vai, e sê de novo!”.
Mais tarde Paulo escreveria:
·
“Onde
abundou o pecado, superabundou a graça”. (Rm 5,20).
A
graça do perdão de Deus, a graça da misericórdia de Deus, perdoa qualquer
pecado por mais duro e por maior que ele seja!
A
misericórdia de Deus é maior do que o maior dos nossos pecados.
Como
disse santo Agostinho:
·
“Bendito
pecado que nos fez merecer um tão grande Salvador”.