sexta-feira, 22 de outubro de 2021

 

SÃO JOÃO PAULO II – UM SANTO QUE VIVEU ENTRE NÓS

 

Hoje é dia de São João Paulo II. Muitos de nós conhecemos bem este Santo, viveu conosco.

Ele teve um longo pontificado de 25 anos, um dos mais longos da História. Sua eleição foi uma enorme surpresa do Espírito Santo, pois saiu de um país que estava debaixo do regime comunista, a Polônia, atrás da vergonhosa “Cortina de Ferro”. Ninguém esperava. Isto na época da “guerra fria” entre os EUA e a Rússia, que ameaçava o mundo de uma destruição atômica e nuclear.

Ele começou seu pontificado pedindo ao mundo: “Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!” (Homilia no início de seu pontificado, 1978).

O mundo comunista estremeceu com sua eleição porque sabia que João Paulo II viveu sob o triste regime comunista, e iria lutar para eliminá-lo. E de fato aconteceu: em 1989 caiu o Muro da Vergonha e o comunista desabou. Foi um trabalho do Papa, e uma ação misteriosa de Nossa Senhora de Fátima, a quem o Santo Padre tinha consagrado a Rússia em 1985, como Ela havia pedido.

No dia 13 de maio de 1980 o Papa foi baleado pelo turco Ali Agca, a mando da KGB (polícia secreta da Rússia), como concluiu em inquérito a polícia italiana. No ano seguinte levou o projétil que o atingiu para ser colocado na coroa de Nossa Senhora de Fátima. Ela o salvou. Milagrosamente o Papa foi salvo da morte. Ele disse que “uma mão puxou o gatilho, mas outra Mão dirigiu a bala”, para que não fosse fatal. Ele esteve no limiar da morte.

João Paulo II teve um pontificado notável; um Papa sábio, douto e santo, cuja canonização foi pedida pelo povo, na Praça de São Pedro, no dia do seu sepultamento: “Santo Súbito!”, santo já.

Além da queda do comunismo, ação decisiva de João Paulo II, ele guiou a Igreja com sabedoria e firmeza. Combateu desde o início a herética teologia de libertação de cunho marxista. Auxiliado por seu grande sucessor, Cardeal Ratzinger, Papa Bento XVI, na Congregação da Fé, ele pôde coibir com firmeza os erros de doutrina que ameaçavam a “sã doutrina” (1Tm 1,10; 4,62 Tm 4,3;) da fé.

Entre os documentos mais importantes que João Paulo II nos deixou, está o Catecismo da Igreja Católica, que ele chamou de “texto de referência da fé católica”, e que pediu que os fiéis e os pastores “usem assiduamente ao convocar as pessoas para viver a fé” (Constituição Fidei depositum). Além disso, o Papa renovou o Código de Direito Canônico, em 1983. E escreveu muitas encíclicas e inúmeros documentos importantes, defendendo a vida, a família, a paz no mundo, a razão e a fé, a Eucaristia, etc. Pronunciou Catequeses famosas nas audiências de quarta feira, sobretudo sobre a Igreja, o Espírito Santo, a Virgem Maria, e praticamente sobre todos os assuntos da doutrina católica.

Ele teve a gigantesca missão de introduzir a Igreja no terceiro milênio da Cristandade; e fez isso com maestria. Convocou três anos de preparação para celebrar o Jubileu do ano 2000. Sobretudo foi um defensor da vida e da família. Entre outras coisas disse na (Encíclica Evangelium vitae, 1995):

“A vida humana é sagrada e inviolável em cada momento da sua existência, inclusive na fase inicial que precede o nascimento”. “Só Deus é dono da vida.”

“O homem é chamado a uma plenitude de vida que se estende muito para além das dimensões da sua existência terrena, porque consiste na participação da própria vida de Deus”.

“Uma grave derrocada moral: opções, outrora consideradas unanimemente criminosas e rejeitadas pelo senso moral comum, tornam-se pouco a pouco socialmente respeitáveis”.

“O século XX ficará considerado uma época de ataques maciços contra a vida, uma série infindável de guerras e um massacre permanente de vidas humanas inocentes. Os falsos profetas e os falsos mestres conheceram o maior sucesso possível”.

“A verdade é que estamos perante uma objetiva “conjura contra a vida” que vê também implicadas Instituições Internacionais, empenhadas a encorajar e programar verdadeiras e próprias campanhas para difundir a contracepção, a esterilização e o aborto” (EV, 18).

Em defesa da família, que ele chamou de “Santuário da Vida”, “Patrimônio da humanidade” e “Igreja doméstica”, escreveu a “Carta às Famílias”, em 1994, onde disse:

“A grandeza e a sabedoria de Deus manifestam-se em suas obras. Hoje em dia, porém, parece que os inimigos de Deus, mais do que atacar frontalmente o Autor da criação, preferem defrontá-Lo em suas obras… Entre as verdades obscurecidas no coração do homem, por causa da crescente secularização e do hedonismo reinantes, ficam especialmente afetadas todas aquelas relacionadas com a família. Em torno à família se trava hoje o combate fundamental da dignidade do homem… Nos nossos dias, infelizmente, vários programas sustentados por meios muito poderosos parecem apostados na desagregação da família.” (CF, 5).

“A família é a primeira e fundamental escola de sociabilidade: enquanto comunidade de amor, ela encontra no dom de si a lei que a guia e a faz crescer” (Exortação Apostólica Familiaris consortio, 1981).

“A agradável recordação da vida de Jesus, José e Maria em Nazaré recorda-nos a beleza austera e simples e o carácter sagrado e inviolável da família cristã” (Homilia na Missa para as famílias em Rijeka, Croácia, 2003).

“Com a ajuda de Deus, fazei do Evangelho a regra fundamental da vossa família, e da vossa família uma página do Evangelho escrita para o nosso tempo!” (Discurso IV Encontro Mundial das Famílias).

“Não esqueçais que a oração em família é garantia de unidade num estilo de vida coerente com a vontade de Deus” (Discurso IV Encontro Mundial das Famílias).

Na sua última Encíclica, “Fé e razão”, João Paulo colocou com clareza e profundidade a necessidade da fé e da razão caminharem juntas e se auxiliando mutualmente. Ali ele afirmou que:

“A razão e a fé não podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e a Deus” (Fides et Ratio, 16).

“É ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé goze de maior incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou superstição” (FR, 46).

João Paulo II – bem como Bento XVI – foi um intransigente defensor da verdade, diante da mentira da “ditadura do relativismo”; ele disse que:

“Pode-se definir o homem como aquele que procura a verdade. A sede da verdade está tão radicada no coração do homem que, se tivesse de prescindir dela, a sua existência ficaria comprometida” (FR, 28).

“Uma vez que se privou o homem da verdade, é pura ilusão pretender torná-lo livre” (Fides et Ratio, 90).

“A razão e a fé não podem ser separadas, sem fazer com que o homem perca a possibilidade de conhecer de modo adequado a si mesmo, o mundo e a Deus” (FR, 16).

“Uma vez que se privou o homem da verdade, é pura ilusão pretender torná-lo livre” (FR, 90).

Tudo isso é apenas um pouco de toda a herança que esse gigante nos legou, e que nos anima a continuar a sua luta em favor da verdade, da vida, da família, de Deus e dos homens.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

 

AVE MARIA, CHEIA DE GRAÇA...

 

Outubro, mês do rosário. Muitas famílias se aconchegam sob a proteção da Mãe do Senhor e todos os dias rezam o santo rosário, o santo terço. O rosário, o terço é, sobretudo, a contemplação, a interiorização da presença e participação ativa de Maria na história da salvação do homem. Esta participação viva de Maria, sua fidelidade, cheia de amor a Deus, sua caridade imensa para com todos os homens, é causa de profunda alegria para toda a Igreja. Por isso, os cristãos, reconhecendo e admirando o bem inigualável que Maria fez ao mundo, não podem deixar de dizer incessantemente: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.” (cf Lc 1, 28). Maria é cheia de graça, cheia do Espírito de Deus, da bondade de Deus, cheia da ternura de Deus.            Se já na criação, quando as coisas eram feitas, afirmava o Criador que tudo era bom: “Deus contemplou toda a sua obra e viu que tudo era bom.”  (Gen 1, 31). Se o Senhor nosso Deus achou que tudo o que fizera era bom, o que se poderá então dizer da Santa Virgem Maria?

Maria é a mais formosa entre as mulheres. (cf Cant 1, 8; 5, 9; 6, 1).

Maria e aquela para quem Deus olhou. (cf Lc 1, 48).

Maria é bendita entre as mulheres. (cf Lc 1, 28-42).

Maria é a repleta do Espírito Santo e da força do Altíssimo. (cf Lc 1, 35).

Maria é a Mãe do Filho de Deus. (cf Lc 1, 35; Gal 4, 4).

Maria é o grande sinal de Deus. (cf Apoc 12, 1).

Quem será digno de louvar a Santa Mãe de Deus?

Tudo é obra do Senhor, tudo é obra do amor e somente o amor e pelo amor se compreende as criaturas de Deus. “Os olhos não viram, os ouvidos nunca ouviram, nem o coração humano jamais imaginou o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” (1Cor 2, 9).

(Irmão José Milson - Marista - Unda Brasil).

E, neste mês de outubro, de uma maneira especial, devemos dirigir o nosso Coração para a Virgem Aparecida, meditando e rezando com as palavras de João Paulo II, quando disse: “Este templo é morada do “Senhor dos Senhores, do Rei dos Reis” (cf Apoc 17, 14). Nele, tal como a rainha Ester, a Virgem Imaculada, que “conquistou o coração de Deus, e em quem grandes coisas faz o Onipotente (cf Ester 5,5 e Lc 1, 49), não cessará de acolher numerosos filhos e de interceder por eles: “Salve meu povo, eis o meu desejo.” (Est 7, 3). O verdadeiro filho de Maria é um cristão que reza. A devoção à Maria é fonte de vida cristã profunda. Permanecei na escola de Maria, escutai a sua voz, segui os seus exemplos. Como ouvimos no Evangelho, Maria nos orienta para Jesus: “Fazei o que ele vos disser.” (Jo 2, 5). E, como outrora, em Canaã da Galiléia, Maria encaminha ao seu filho Jesus as dificuldades dos homens, obtendo de Jesus as graças desejadas. Rezemos com Maria e por Maria: Ela é sempre a Mãe de Deus e nossa. “Mãe de Deus e Nossa, protegei a Igreja, o Papa, os bispos, os sacerdotes e todo o povo fiel; acolhei sob o vosso manto protetor os religiosos, as religiosas, as famílias, as crianças, os jovens e seus educadores. Saúde dos enfermos e consoladora dos aflitos, sede conforto dos que sofrem no corpo e na alma; sede luz dos que procuram Cristo, Redentor do homem; a todos os homens mostrai que sois a mãe de nossa confiança. Rainha da paz e espelho da justiça, alcançai para o mundo a paz, fazei que o Brasil tenha a paz duradoura, que os homens convivam sempre como irmãos, como filhos de Deus! Nossa Senhora Aparecida, abençoai este vosso Santuário e todos os que neles trabalham; abençoai este povo que aqui ora e canta. Abençoai todos os vossos filhos, abençoai o Brasil”.

(Oração de João Paulo II quando de sua visita à Aparecida).

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

 

A HUMILDADE DE MARIA RETRATADA EM NOSSA SENHORA APARECIDA

 

A história do Brasil parece um imenso andor de Nossa Senhora, andor esse carregado pelo povo simples, humilde e pobre através dos tempos.

Só que o povo não aparece, o povo pobre não faz propaganda de si próprio e nem carrega placas com o seu nome no peito ou estende faixas nas ruas contando as suas vantagens, como fazem os  demagogos e corruptos políticos.

O povo pobre, simples e humilde faz questão é de ficar escondido atrás do nome de Maria.

O que deve aparecer realmente para o povo pobre e humilde é o nome e a imagem de Nossa Senhora, a nossa Maria,  que é aclamada e invocada por milhares e milhões de vozes que cantam e rezam sem parar a Ave Maria... Carregando o andor de Nossa Senhora, a nossa Maria, o povo carrega pelas ruas a sua esperança de um dia poder chegar lá onde Maria já chegou, isto é, gozar da liberdade total dos filhos de Deus.

A história de Maria é a imagem  da história do povo  humilde; a história do povo pobre e simples se confunde com a história de Maria. A história de Maria é uma história que ainda não terminou; a história de Maria continua até hoje  mas pequenas e grandes histórias do povo.

Maria, moça pobre, simples e humilde de uma cidadezinha do interior da Palestina é saudada até hoje por milhares e milhões de pessoas; o povo todo a invoca e a venera. Maria mesmo preveniu isso quando disse à sua prima Isabel: “De hoje em diante  todas as nações vão me chamar de bem-aventurada.”  (Lc 1, 48).

Todas as nações, todos os povos de todos os tempos e lugares, desde todo o sempre, chamam Maria de bem-aventurada e a veneram como a eleita de Deus, e ainda hoje, como sempre, o povo simples, o povo humilde, o povo pobre continua chamando Maria de bem-aventurada.

Maria é do povo, do povo pobre, do povo simples, do povo humilde, mas, além de ser do povo, Maria é também de Deus, totalmente de Deus, e Deus estava, está e sempre estará em Maria, como Maria jamais deixou de estar em Deus. Ser do povo é ser de Deus, e Maria é do povo, e o povo pobre e humilde é de Maria. Estes dois pontos marcam a vida de Maria. e é por isso que o povo a venera com entusiasmo, invocando por todo o sempre o seu nome.

Para poder ser do povo tem que ser de Deus; para poder ser de Deus, tem que ser do povo. É assim que Deus e o povo desejam: ser de Deus e do povo. São esses os dois grandes retratos  que as Sagradas Escrituras tiraram de Maria e que a Igreja conserva até hoje em seu álbum.

Maria soube unir em sua vida o seu amor a Deus e ao povo.

O nosso povo pobre, simples e humilde ama Maria, e Maria se faz presente no sofrido povo brasileiro com o título de Nossa Senhora Aparecida; Nossa Senhora Aparecida  é a nossa Maria, a Maria brasileira, a Maria humilde, pobre e simples do povo pobre, simples e humilde. A imagem de Nossa Senhora Aparecida é pequena, pequenina mesmo, coberta de um manto azul, manto bonito e ricamente enfeitado.

Presente do povo; isso mesmo, presente do povo, porque o povo gosta de enfeitar e enriquecer  a quem ele ama de verdade, muito embora ele continue pobre, simples e humilde.

Mas, o manto azul , bonito e ricamente enfeitado, acabou escondendo grande parte da imagem brasileira de Maria, imagem que, originariamente é pobre, simples, humilde e... preta.

Só olhando de perto é que a gente percebe que, no Brasil, Maria é preta.

O manto é bonito, isso é bom; o manto não pode ser jogado fora, mas a gente não pode se esquecer que a imagem de Nossa Senhora Aparecida é preta, pretinha, igual a tantas Marias e Cidas que a gente encontra pelas ruas. Aquilo que aconteceu com a sua imagem, aconteceu com a própria Maria: glorificada pelo povo e pela Igreja como Mãe de Deus, Maria recebeu um manto de glória; presente de fé do povo.

Mas o manto de glória acabou escondendo grande parte da semelhança que Maria tem conosco. O manto ricamente enfeitado fez de Maria uma pessoa diferente e a gente quase esquece que Maria foi e ainda é uma moça pobre e simples do povo.

Só olhando de perto é que a gente percebe que na Bíblia Maria  é pobre, simples e humilde, muito semelhante à maioria do nosso povo.

A Bíblia fala muito pouco de Maria mas o pouco que fala é muito importante. É o suficiente para a gente poder conhecer a grandeza de sua simplicidade e a riqueza de sua pobreza.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

 

OS PAIS DE SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS - SÃO LUÍS E SANTA ZÉLIA

 

Luís Martin (1823-1894) e Zélia Guérin (1831-1877) foram declarados santos em 18 de outubro de 2015. Não foram canonizados por serem os pais de Santa Teresinha, mas porque se empenharam totalmente em fazer a vontade de Deus em qualquer situação de suas vidas. Luís e Zélia, com suas vidas, nos ensinam que a santidade é caminho para a esposa, o marido, os filhos, os colegas de trabalho e para a sexualidade.

O santo não é um super-homem, mas um homem verdadeiro.

Se tanto amamos Teresinha de Lisieux, se tanto nos encanta sua santidade, devemos dizer que ela é fruto de seus pais, um casal que vivia o amor de Deus tanto na alegria como nas tristezas. As muitas cartas deixadas por Zélia dão testemunho deste colocar-se inteiramente nas mãos de Deus.

«Eu amo loucamente as crianças e nasci para ter filhos», dizia Zélia. Mas, contraditoriamente, esse lar não era para existir. Aos 20 anos Luís esteve na Suíça para aprender o ofício de relojoeiro. Dirigiu-se ao Eremitério de São Bernardo, dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, querendo ser monge. O Prior foi direto: «Não conhece latim, nada de postulantado no Mosteiro». Luís retorna a Alençon e se dedica à oficina de conserto de relógios.

Já Zélia Guérin desejava ser admitida entre as Irmãs de São Vicente de Paulo, em Alençon. A Superiora não vê nela sinal se vocação. Decide-se então a aprender artes domésticas de bordados e confecções, abrindo pequeno negócio em Alençon e indo de casa em casa à procura de fregueses.

Luís vive ardente espiritualidade alimentada no seio das Conferências de São Vicente de Paulo, onde pôde se inserir no trabalho social e cristão. Sua mãe, preocupada com sua condição de celibatário, lhe comenta a respeito da jovem Zélia Guérin, jovem de face diáfana e de sorriso doce e misterioso. Os dois se encontram e meses depois se casam, em 13 de julho de 1858. Zélia está com 27 anos e inicia com Luís um amor sólido e durável, apesar da doença e da morte. O vigário de Alençon estranhou que o casal não tivesse filhos e eles explicaram que viviam um matrimônio como Maria e José, como dois irmãos. O padre repreendeu-os, dizendo que deveriam viver como casal e terem filhos. Fiéis ao conselho, entre 1860 e 1873 nascem nove filhos, dos quais quatro morrem pouco depois do nascimento: Helena, José, João Batista e Melânia Teresa.

 

Um lar feliz e santo

Constituíam um casal típico da pequena burguesia francesa do século XIX. Levam uma vida ordinária, é verdade, mas Deus ocupa um lugar especial em sua vida pessoal e comunitária. Diariamente freqüentam a Missa das 5:30h: Deus antes de tudo. A filha Celina escreveu, mais tarde: “Quando papai comungava ele permanecia em silêncio na volta para casa”. “Continuo a conversar com Nosso Senhor”, dizia. No meio das tristezas pela perda dos filhos, “tudo aceitamos na serenidade e no abandono à vontade de Deus”. Oração em família duas vezes ao dia, ao toque do Ângelus ao meio-dia e às 18h. Natal, Quaresma, Páscoa, os meses marianos de maio e outubro, o 15 de agosto ocupam um lugar central em sua vida, tocando profundamente suas filhas. Essa espiritualidade conjugal e familiar não os isolou dos outros, pelo contrário, reforçou sua atenção a todos, domésticas, conhecidos, vizinhos.

Sobreviveram cinco filhas, que ingressaram no convento: Maria, Paulina, Leônia, Celina e Teresa. Talvez o casal não seria lembrado se não fosse a caçulinha, a grande Santa Teresinha, morta aos 24 anos no Carmelo de Lisieux.

Foram apenas 19 anos de vida em comum cujos frutos ultrapassaram a existência terrena. Uma palavra-chave expressa esse amor: a unidade, unidade que edificou sua vida espiritual, familiar e social. Num tempo em que nós fragmentamos a vida, vivemos divididos, eles cimentaram sua existência numa unidade invencível e contagiante.

A casa dos Martin era casa de caridade. Luís recolhe um epiléptico na rua e cuida de assisti-lo. Não hesita em convidar à mesa os mendigos encontrados na rua. Visita os anciãos. Ensina às filhas a honrar o pobre e a tratá-lo como um igual. Teresa será a mais sensibilizada por esse exemplo. Podemos afirmar que a doutrina da “pequena via” que fez de Teresinha Doutora da Igreja nasce da santidade e do exemplo da vida de Luís e Zélia. Em seus escritos Santa Teresinha mais vezes dirá: “O bom Deus deu-me um pai e uma mãe mais dignos do Céu que da terra”.

Não era uma família triste. O “pequeno convento” não era uma prisão austera, mas um lar feliz. Um lar cristão com o amor entre os esposos, deles pelas filhas, entre as irmãs, uma unidade sensível. Ambiente sadio, brincadeiras, jogos, festas, passeios em família. O amor era verdadeiro. Um amor, como definiu Teresinha “onde se dá tudo e se dá a si mesmo”.

 Luís e Zélia não desejavam que suas filhas fossem religiosas, mas santas. O desejo de santidade que ali se vivia impregnava toda a vida familiar. A santidade se manifesta nas etapas vividas pelo casal, etapas tão semelhantes às de um casal atual: casamento tardio, trabalho, dupla jornada de Zélia entre a casa e a loja, ambos assumem a educação das filhas. Foram consumidos por doenças contemporâneas: o câncer de Zélia e a doença neuropsiquiátrica de Luís. Atravessam a guerra de 1870 entre França e Alemanha, as crises econômicas, o drama da morte de Zélia em 1877: sozinho, Luís deve criar e educar suas cinco filhinhas Maria, Paulina, Leônia, Celina e Teresa.

 

A Paixão de Luís e Zélia

Luís e Zélia vivem a Paixão, cada um a seu modo. Em dezembro de 1864 Zélia descobre um câncer impossível de ser operado, que não lhe oferece nenhuma chance de cura. Zélia aceita a morte com coragem heróica, trabalhando até véspera, a cada manhã participando da Missa. Sua força era a existência das cinco filhas. Em agosto de 1877 seus seios são amputados. Preocupa-se sobretudo por Leônia, meio doentinha. Carrega a cruz por 12 anos, até a morte aos 46 anos, em 28 de agosto de 1877. Luís sente-se anulado, o pânico toma conta da família.

A Paixão de Luís é de outra ordem. A partir de novembro de 1877 passa a residir em Lisieux e sucessivamente entrega todas as filhas a Deus: Paulina (1882), Maria (1886), Leônia (1899) e, enfim, sua “pequena rainha” Teresa (1888) e depois Celina (1894).

Sua saúde decai cada vez mais e necessita de hospitalização em Caen. Hoje diríamos num Hospital Psiquiátrico, mas em 1889 se dizia “asilo de loucos”. O venerável pai está agora misturado a 500 doentes. O homem estimado e respeitado é apenas um ser decadente. “Ele bebeu a mais humilhante de todas as taças”, escreveu Teresinha. Os médicos diagnosticaram arteriosclerose cerebral, com insuficiência renal. O lar dos Martin está disperso: três filhas são carmelitas. Não curado, Luís é devolvido ao lar e assistido noite e dia pela filha Celina. É como uma criança, continuamente necessitado de assistência.

Em 1888 Luís tinha oferecido um altar à catedral de São Pedro, sua paróquia. Teresinha comenta: “Papai ofereceu a Deus um Altar. Ele foi a vítima escolhida para ali ser imolado com o Cordeiro sem mácula”. Deus o chamou à eternidade em 29 de julho de 1894.

Relendo sua vida familiar à luz do Amor Misericordioso, em 1896, Teresinha relembra a entrada no Carmelo nos braços de “seu Rei” e nunca imaginaria que poucos dias após a tomada do hábito seu querido pai “deveria beber a mais amarga, a mais humilhante de todas as taças”. “Os três anos de martírio de Papai me parecem os mais amáveis, os mais frutuosos de toda a nossa vida. Eu não os trocaria por nada, por nenhum êxtase ou revelação este tesouro que deve provocar uma santa inveja nos Anjos de Corte Celeste”.

Pouco antes da doença, Luís escreveu às três filhas carmelitas: “Devo dizer-vos, minhas queridas filhas, que sou obrigado a agradecer e fazer-vos agradecer ao bom Deus, porque eu sinto que nossa família, apesar de tão humilde, tem a honra de ser privilegiada por nosso adorável Criador”.

É verdade que Deus cumulou de bênçãos e graças o lar de Luís e Zélia. É mais verdade, porém, que ambos abriram suas vidas ao dom de Deus, dele fazendo participar intensamente suas filhas.

 

Relíquias dos novos santos

O casal foi beatificado em 19 de outubro de 2008 por Bento XVI.

Luís e Zélia Martin eram os pais de Santa Terezinha do Menino Jesus, Padroeira das Missões e uma das santas mais queridas no Brasil que, em 1997 foi proclamada Doutora da Igreja por São João Paulo II. Durante o Sínodo Ordinário dos Bispos sobre a Família, em andamento no Vaticano, os fiéis podem venerar as relíquias de Santa Teresa de Lisieux e de seus pais, na Basílica de Santa Maria Maior, no centro de Roma.

As urnas com suas relíquias se encontram na Capela de Nossa Senhora “Salus Populi Romani”, na Basílica de Santa Maria Maior. Os cônjuges Luís Martin e Zélia Guérin serão o primeiro casal não mártir na história da Igreja a ser elevado à honra dos altares na mesma cerimônia. 

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

 

SÃO LUCAS, O MÉDICO EVANGELISTA

 

O dia 18 de outubro foi escolhido como "dia dos médicos" por ser o dia consagrado pela Igreja a São Lucas. Como se sabe, Lucas foi um dos quatro evangelistas do Novo Testamento. Seu evangelho é o terceiro em ordem cronológica; os dois que o precederam foram escritos pelos apóstolos Mateus e Marcos.

Lucas não conviveu pessoalmente com Jesus e por isso a sua narrativa é baseada em depoimentos de pessoas que testemunharam a vida e a morte de Jesus. Além do evangelho, é autor do "Ato dos Apóstolos", que complementa o evangelho.

Segundo a tradição, São. Lucas era médico, além de pintor, músico e historiador, e teria estudado medicina em Antióquia. Possuindo maior cultura que os outros evangelistas, seu evangelho utiliza uma linguagem mais aprimorada que a dos outros evangelistas, o que revela seu perfeito domínio do idioma grego.

São Lucas não era hebreu e sim gentio, como era chamado todo aquele que não professava a religião judaica. Não há dados precisos sobre a vida de S. Lucas. Segundo a tradição era natural de Antióquia, cidade situada em território hoje pertencente à Síria e que, na época, era um dos mais importantes centros da civilização helênica na Ásia Menor. Viveu no século I d.C., desconhecendo-se a data do seu nascimento, assim como de sua morte.

Há incerteza, igualmente, sobre as circunstâncias de sua morte; segundo alguns teria sido martirizado, vítima da perseguição dos romanos ao cristianismo; segundo outros morreu de morte natural em idade avançada. Tampouco se sabe ao certo onde foi sepultado e onde repousam seus restos mortais. Na versão mais provável e aceita pela Igreja Católica, seus despojos encontram-se em Pádua, na Itália, onde há um jazigo com o seu nome, que é visitado pelos peregrinos.

Não há provas documentais, porém há provas indiretas de sua condição de médico. A principal delas nos foi legada por São Paulo, na epístola aos colossenses, quando se refere a "Lucas, o amado médico" (4.14). Foi grande amigo de São Paulo e, juntos, difundiram os ensinamentos de Jesus entre os gentios.

Outra prova indireta da sua condição de médico consiste na terminologia empregada por Lucas em seus escritos. Em certas passagens, utiliza palavras que indicam sua familiaridade com a linguagem médica de seu tempo. Este fato tem sido objeto de estudos críticos comparativos entre os textos evangélicos de Mateus, Marcos e Lucas, e é apontado como relevante na comprovação de que Lucas era realmente médico. Dentre estes estudos, gostaríamos de citar o de Dircks, [4] que contém um glossário das palavras de interesse médico encontradas no Novo Testamento.

A vida de São Lucas, como evangelista e como médico, foi tema de um romance histórico muito difundido, intitulado "Médico de homens e de almas", de autoria da escritora Taylor Caldwell. Embora se trate de uma obra de ficção, a mesma muito tem contribuído para a consagração da personalidade e da obra de Sao Lucas.

A escolha de São Lucas como patrono dos médicos nos países que professam o cristianismo é bem antiga. Eurico Branco Ribeiro, renomado professor de cirurgia e fundador do Sanatório S. Lucas, em São Paulo, é autor de uma obra fundamental sobre São Lucas, em quatro volumes, totalizando 685 páginas, fruto de investigações pessoais e rica fonte de informações sobre o patrono dos médicos. Nesta obra, intitulada "Médico, pintor e santo", o autor refere que, já em 1463, a Universidade de Pádua iniciava o ano letivo em 18 de outubro, em homenagem a São Lucas, proclamado patrono do "Colégio dos filósofos e dos médicos".

A escolha de São. Lucas como patrono dos médicos e do dia 18 de outubro como "dia dos médicos", é comum a muitos países, dentre os quais Portugal, França, Espanha, Itália, Bélgica, Polônia, Inglaterra, Argentina, Canadá e Estados Unidos. No Brasil acha-se definitivamente consagrado o dia 18 de outubro como "dia dos médicos".

São comemorados também neste dia: Nossa Senhora Rainha três vezes Admirável de Shoenstatt, São Renato e Santa Cirila, Santo Asclepíades de Antioquia (bispo e mártir), Santo Antenodoro do Ponto (bispo e mártir), São Justo de Beauvais (mártir), São Mono da Escócia (mártir).

domingo, 17 de outubro de 2021

 

“QUEM DE VOCÊS QUISER SER GRANDE, DEVE TORNAR-SE O SERVIDOR DE VOCÊS, E QUEM DE VOCÊS QUIZER SER O PRIMEIRO, DEVERÁ TORNAR-SE O SERVO DE TODOS.” (Mc 10, 43-44).

 

XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano – B; Cor – verde; Leituras: Is 53,10-11; Sl 32; Hb 4,14-16; Mc 10,35-45.

 

Diácono Milton Restivo

 

A primeira leitura, tirada do livro do profeta Isaias, está dentro do contexto da missão do servo sofredor de Yahweh. Os cantos do servo sofredor contido em Isaias estão assim distribuídos: primeiro canto, 42,2-4; segundo canto, 49,1-6; terceiro canto, 50,40-11 e, quarto canto, 53,1-12. 

Esta leitura, portanto, contém uma partícula do quarto canto do servo sofredor de Yahweh.

Mas, quem é o servo sofredor citado por Isaias? 

Não é fácil identificar quem seria o servo sofredor a que se refere Isaias.

Não foi sem motivos que, em Atos 8,26-40, o eunuco etíope, ao ler a seguinte passagem do profeta Isaias, ficou embaraçado:

·         “Ele foi levado como ovelha ao matadouro. E como um cordeiro diante do seu tosquiador, ele ficava mudo e não abria a boca. Quem poderá contar seus seguidores? Porque eles o arrancaram da terra dos vivos.” (Is 53,7-8; At 8,32-33).

Perguntado pelo diácono Filipe se ele havia entendido o que lia, o eunuco respondeu:

·         “Por favor, me explique: de quem o profeta está dizendo isso? Ele fala de si mesmo, ou se refere a outra pessoa?” (At 8,34).

Não era fácil identificar de quem Isaias se referia: se seria ele mesmo, se seria o povo de Israel, se seria uma pessoa anônima, ou se teria uma interpretação messiânica. 

Essa narração, porém, parece-se tanto com a descrição feita pelos autores dos evangelhos sobre os sofrimentos de Jesus no processo de acusação e no dia de sua morte que Isaías chegou a ser chamado de quinto evangelista.

Se quiséssemos resumir, numa palavra, o sentido desta primeira leitura, diríamos que aquilo que, aos nossos olhos, é considerado fracasso, para Deus é tido como vitória, como diria Paulo, mais tarde:

·         “Os judeus pedem sinais e os gregos procuram a sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, ele é o Messias, poder de Deus e sabedoria de Deus. A loucura de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. [...] Mas, Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraqueza no mundo para confundir o que é forte. E aquilo que o mundo despreza, acha vil e diz que não tem valor, isso Deus escolheu para destruir o que o mundo pensa que é importante”. (1Cor 1,22-25.27-28).

Nos escritos do Novo Testamento os autores sagrados voltam seus olhares para a realização perfeita dessa profecia do servo sofredor na pessoa de Jesus, conforme vemos na explicação de Filipe ao eunuco etíope:

·         “Então Filipe foi explicando. E tomando essa passagem da Escritura como ponto de partida, anunciou Jesus ao eunuco. [...] O eunuco respondeu: ‘Eu acredito que Jesus Cristo é o Filho de Deus.” (At 8,35.37).

A segunda leitura, a carta aos Hebreus deixa claro que, se hoje “temos um sumo sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus”, e que ele “é capaz de se compadecer de nossas fraquezas”, foi porque, antes de ser levado à glória junto ao Pai, Jesus se submeteu a tudo àquilo que o servo sofredor de Isaias se propôs “pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, exceto no pecado.” (Hb 4,14-15).

Jesus, antes de ser “o sumo sacerdote eminente que entrou no céu”, foi, antes de tudo, o servo sofredor cantado por Isaias, que é “capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós.”

Jesus não fez de conta que era um homem, mas foi homem de verdade, na sua totalidade, de fato, assumindo todas as consequências da natureza humana, tendo enfrentado todas as vicissitudes pelas quais nós passamos e, como homem, se tornado servo de todos, como ele mesmo diz no Evangelho:

·         “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida como resgate para muitos”. (Mc 10,45).

E agora, como sumo sacerdote, Jesus é o pontífice, isto é, aquele que construiu a ponte para ligar o homem ao Pai. Jesus é o mediador entre nós e o Pai e, por isso,

·         “aproximemo-nos então, com toda a confiança, do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de um auxílio no momento oportuno”. (Hb 4,16).

Na sequência, o episódio narrado no Evangelho de hoje, vem em seguida ao terceiro anúncio da Paixão.

Os evangelistas sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) registram três “anúncios da Paixão”, que são feitos na caminhada rumo a Jerusalém, indo Jesus ao encontro das multidões de peregrinos que para aí acorriam para cumprir a observância da celebração anual da Páscoa, no templo.

E essa Páscoa, segundo os Evangelhos sinóticos, seria a última de Jesus; então ele estava a caminho do supremo sacrifício.

Depois de cerca de três anos de convivência com Jesus, vendo e participando dos ensinamentos, milagres e sinais que Jesus dava, fazia e realizava, os discípulos ainda manifestavam incompreensão em relação à boa nova de Jesus.

É João, logo João, o chamado “discípulo amado”, um dos discípulos mais próximos de Jesus e seu irmão Tiago, que manifestam suas aspirações de estarem à direita e à esquerda de Jesus, como primeiro e segundo ministros do império que eles julgavam que Jesus viera para que se tornasse realidade ao final da jornada que eles faziam rumo a Jerusalém, e que ali, em Jerusalém, Jesus se revelaria o Messias esperado pelos judeus e assumiria o poder esperado por todos, expulsando os romanos, dominadores do povo. 

Então, pensou João, antes que isso aconteça e antes que alguém pleiteie essa posição, deixe que eu e meu irmão nos antecipemos. Tiago e João se aproximam de Jesus de modo ousado, determinante e imperativo e lhe falam:

·         “Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir. [...] Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!” (Mc 10, 35.37).

Tal atitude se parece com a nossa, quando nos dirigimos ao Senhor. Porque não pedimos que se faça a vontade de Deus, mas a nossa. Por isso Jesus lhes responde:

·         “Vocês não sabem o que estão pedindo” (Mc 10,38).

A exemplo de João e Tiago, não sabemos o que pedimos.

O mais interessante é que o evangelista diz que:

·         “quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João.” (Mc 10, 41).

Porque ficaram com raiva? Não porque achavam sem sentido o pedido dos dois, mas porque, no fundo, cada um deles queria ter o lugar de honra e poder nesse suposto reino terrestre que Jesus iria assumir.

O vírus de dominação é mais do que contagioso. Essa indignação não foi porque os dois irmãos fizeram um pedido fora de propósito ao Mestre, mas sim porque eles fizeram esse pedido antes que eles mesmos tivessem tempo de fazê-lo; os irmãos, simplesmente, se anteciparam ao desejo de poder dos demais discípulos; daí a causa da indignação.

Que paciência que Jesus teve de ter; a mesma paciência que uma mãe tem para um filhinho de dois anos. Afinal de contas, que faixa etária na fé estaria os discípulos na oportunidade no seguimento de Jesus? Apenas pouco mais de dois anos de caminhada com Jesus. Não haviam amadurecido na fé. Jesus, além de ser Mestre, é amigo, pai e mãe.

Jesus, com a maior calma e maternalmente, chama a atenção dos discípulos e diz:

·         “entre vocês não devem ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servo de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos”. (Mc 10,43-44),

E, continuando, ele mesmo dá o exemplo:

·         “porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos”. (Mc 10,45).

Ser discípulo de Jesus é ter o mesmo ideal, a mesma prática do que ele!

O texto torna-se muito atual para os dias de hoje.

Hoje em dia vivemos num mundo de competição.

Cada qual quer se destacar mais que o outro. Em qualquer lugar onde existe mais de uma pessoa, uma quer se destacar mais que a outra, quer ser melhor e mais importante e ocupar o melhor lugar, ainda que isso implique em pisar na outra pessoa. Isso acontece na família, na sociedade, no trabalho, no comércio, nas entidades desportivas ou de classe.

As pessoas querem sempre aparecer, querem estar sempre em evidência. Querem sempre se destacar das demais. Se praticarem um esporte, querem sobrepujar aos demais.

Se vão a uma festa, querem se apresentar sempre melhores vestidos e ocuparem os melhores lugares e serem notados por todos. Se vão a uma reunião, querem ocupar lugares de destaque.

No trabalho tudo fazem para que o patrão note seus esforços, não importando se, para serem promovidos, pisem e maltratem seus colegas de trabalho, tenham de falar mal ou desprestigiar o trabalho dos outros.

Todos querem ocupar o primeiro lugar. Todos querem ser notados. Isso é inerente à natureza humana. No tempo de Jesus não era diferente, como nunca foi diferente na história da humanidade.

A doutrina de Jesus contraria o modo de pensar do mundo como disse Paulo:

·         Mas, Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios; e Deus escolheu o que é fraqueza no mundo para confundir o que é forte.” (1Cor 1,27).

O mundo incita que se ocupem os primeiros lugares onde quer que se esteja, e os Apóstolos de Jesus, inebriados com as coisas do mundo e julgando que no céu seria a mesma coisa, em outra ocasião, perguntam ao Mestre:

·         “Quem é o maior no Reino dos Céus?” (Mt 18,1).

O mundo deixa claro que só são importantes aqueles que ocupam os primeiros lugares, e aí vem Jesus e diz:

·         “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos.” (Mc 9, 35).

O mundo prega a ganância, o orgulho, a vaidade; Jesus prega a humildade, a simplicidade, a caridade, o amor. Nada se faz nesse mundo que não se objetive lucros, retornos ou retribuições; tudo o que se faz é por interesse, e muitas vezes, interesses escusos, e, por isso, Jesus adverte:

·         “Ao dar um almoço ou jantar, não convide seus amigos, nem seus irmãos, nem seus parentes, nem os vizinhos ricos; para que não lhe convidem por sua vez e lhe retribuam do mesmo modo. Pelo contrário, quando você der uma festa, chame pobres, estropiados, coxos, cegos; feliz você será, então, porque eles não tem como lhe retribuir. Você será, porém, recompensado na ressurreição dos justos.” (Lc 14,12-14).

A força do cristão está na simplicidade, caridade, na humildade.

É no trabalho e no serviço aos irmãos que o cristão encontra sentido da vida que busca. 

Quem quiser ser o maior no reino dos Céus deve ser o primeiro a servir os irmãos, a valorizar os irmãos, a respeitar os irmãos, a se colocar ao serviço dos irmãos, porque, no dizer de Jesus:

·         “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos.” (Mc 9, 35).

O mundo jamais saciará aqueles que atendem ao seu convite de serem importantes aos olhos dos homens porque o mundo sempre vai exigir que se queira mais e mais e mais.

Os ensinamentos de Jesus são exatamente ao contrário do que ensina o mundo.

O mundo diz:

·         Se você quer ser o primeiro não se preocupe em espezinhar o outro, a mentir, a levantar falso testemunho, a ser infiel, não dê chances às pessoas que você não gosta e que você julga ser seu inimigo; não se preocupe com a opinião dos outros, o importante é você ser o primeiro em tudo a qualquer custo”.  

Jesus vem e diz:

·         “... se quiser ser o primeiro, seja o último e o servo de todos.” (Mc 9,35).

·         “Dou-lhes um mandamento novo: que se amem uns aos outros. Nisso reconhecerão todos que vocês são meus discípulos, se tiverem amor uns pelos outros.” (Jo 13, 34-35).

Antes de advertir João, Tiago e todos os demais discípulos, Jesus fala o óbvio:

·         aqueles que se dizem governadores das nações tem poder sobre elas, e os seus dirigentes tem autoridade sobre elas”.  (Mc 10,42).

E isso os coloca em posição de destaque e tendo direto às mordomias inerentes ao cargo que ocupam e, carinhosamente, lhes orienta:

·         “mas, entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos”. (Mc 10,43-44).

E acrescenta ainda, explicando melhor a lição que lhes quer dar, dando o exemplo:

·         “porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos.” (Mc 10,45).

Jesus uniu tais palavras ao gesto, ao exemplo quando, na última ceia, lavou os pés dos discípulos:

·         “Jesus se levantou da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Colocou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando com a tolha que tinha na cintura”. (Jo 13,4-5).

Com certeza, o espanto foi geral. Ao pegar a bacia e toalha, Jesus assumiu a função de um servo, agia como um escravo. Mais complicado ainda: exercia uma atividade que um judeu, mesmo na condição de servo, não aceitava fazer.

Pedro reagiu a seu modo:

·         “tu não vais lavar os meus pés nunca”. (Jo 13,6-9).

Só aceitou a contra gosto, quando viu que não ia convencer Jesus do contrário.

Ao terminar e:

·         “depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto, sentou-se de novo, e perguntou: ‘Vocês compreenderam o que eu acabei de fazer? Vocês dizem que eu sou o Mestre e o Senhor. E vocês tem razão; eu sou mesmo. Pois bem, eu que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros”. (Jo 13,12-14).

E ai vem o grande ensinamento:

·         Eu lhes dei um exemplo: “vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz. Eu garanto a vocês: o servo não é maior que o seu senhor, nem o mensageiro é maior do que aquele que o enviou. Se vocês compreenderam isso, serão felizes se o puserem em prática.” (Jo 13,15).

Jesus propõe aos discípulos um novo jeito de pensar e agir.

·         “Se alguém quer ser o primeiro, deverá ser o último, e ser aquele que serve a todos” (Mc 9, 35).  

sábado, 16 de outubro de 2021

 

SANTA EDWIGES

 

Santa Edwiges da Silésia, nascida Edwiges de Andechs, é conhecida na Polônia pelo nome de Jadwiga Śląska. Depois da morte do marido e dos filhos, entrou para o mosteiro e dedicou-se a ajudar os carentes.

Com seu próprio dinheiro, construiu hospitais, escolas, igrejas e conventos. Ganhou fama de protetora dos endividados por ajudar detentos da região, presos por não terem recursos pagar suas dívidas. Foi proclamada santa 1267.

O dia 16 de outubro é dedicado a Santa Edwiges, popularmente conhecida como protetora dos pobres e endividados.

 

Biografia

Santa Edwiges nasceu em 1174 na Alemanha. Filha de Bertoldo IV da Rovávia e de sua esposa, Inês de Rochlitz, foi criada em ambiente de luxo e riqueza, o que não a impediu de ser simples e viver com humildade.

O seu bem maior era o amor total a Deus e ao próximo. Aos 12 anos, casou-se com Henrique I (O Barbudo), príncipe da Silésia (um dos principados da Polônia medieval e atual região administrativa da Polônia), com quem teve seis filhos, sendo que dois deles morreram precocemente.

Culta, inteligente e esposa dedicada, ela cuidou da formação religiosa dos filhos e do marido. Mulher de oração, vivia em profunda intimidade com o Senhor. Submetia-se ao sacrifício de jejuns diários, limitando-se a comer alguns legumes secos nos Domingos, Terças, Quintas e Sábado. Nas Quartas e Sextas-feiras somente pão e água. Isto sempre em quantidade limitada, somente para atender as necessidades do corpo. No tempo do Advento e da Quaresma, Edwiges se alimentava só para não cair sem sentidos.

O esposo não aceitava aquela austeridade. Numa Quarta-feira de Quaresma ele esbravejou por haver tão somente água na mesa sendo que ele só bebia vinho. Edwiges então ofereceu-lhe uma taça, cujo líquido se apresentou como vinho. Foi um dos muitos sinais ou milagres que ela realizou.

Algum tempo depois Edwiges caiu vítima de uma grave enfermidade.

Foi preciso que Guilherme, Bispo de Módena, representante do Papa para aquelas regiões, exigisse com uma severa ordem a interrupção de seu jejum. A Santa dizia que isto era mais mortificante do que a sua própria doença.

Dedicou toda sua vida na construção do Reino de Deus. Exerceu fortes influências nas decisões políticas tomadas pelo marido, interferindo na elaboração de leis mais justas para o povo. Junto com o marido construiu igrejas, mosteiros, hospitais, conventos e escolas. Por isto, em algumas representações a santa aparece com uma Igreja entre as mãos.

Aos 32 anos, fez votos de castidade, o que foi respeitado pelo marido. Quando ficou viúva, foi morar no Mosteiro de Trebnitz, na Polônia, onde sua filha Gertrudes era superiora. Foi lá que Edwiges deu largos passos rumo à santidade. Vivia com o mínimo de sua renda, para dispor o restante em socorro dos necessitados.

Ela tinha um carinho especial pelas mulheres e crianças abandonadas. Encaminhava as viúvas para os conventos onde estariam abrigadas em casos de guerra e as crianças para escolas, onde aprendiam um ofício. Era misericordiosa e socorria também os endividados. Em certa ocasião, quando visitava um presídio, ela descobriu que muitos ali se encontravam porque não tinham como pagar as suas dívidas.

Desde então, Edwiges saldava as dívidas de muitos e devolvia-lhes a liberdade. Procurava também para eles um emprego. Com isto eles recomeçavam a vida com dignidade, evitando a destruição das famílias em uma época tão difícil como era aquela do século XIII.

E ainda mantinha as famílias unidas. Assim, Santa Edwiges, é considerada a Padroeira dos pobres e endividados e protetora das famílias. Sua morte ocorreu no dia 15 de outubro de 1243.

E foi canonizada no dia 26 de março de 1267 pelo Papa Clemente IV. Como no dia 15 de outubro celebra-se Santa Teresa de Ávila, a comemoração de Santa Edwiges passou para o dia 16 de outubro. Modelo de esposa, celibatária e viúva, a Santa não faltava à Missa aos Domingos, e isto ela pede aos seus devotos: mais amor a Jesus na Eucaristia e auxílio aos necessitados.

São comemorados também, neste dia: São Geraldo Majela, Santa Margarida Maria Alacoque e Bem-aventurada Josefina Vannini.