quarta-feira, 7 de abril de 2021

 

PAZ... O QUE É PAZ?

 

Às vezes, em muitas circunstâncias da vida, como os apóstolos estavam se sentindo após a crucificação e morte de Jesus, nos sentimos sozinhos, abandonados, isolados.

Nesse isolamento sentimos um vazio intenso e o silêncio grita alto dentro de nós todas aquelas coisas que gostaríamos que se tornassem conhecidas e aceitas para provar que somos humanos, que acertamos algumas vezes e erramos outras tantas; e o silêncio explode dentro de nosso cérebro, dentro do nosso peito, dentro do nosso coração, ressoando fortemente em nossa alma e, desesperadamente, buscamos paz, procuramos a paz, lutamos pela paz, desejamos ardentemente a paz... paz... paz... Como necessitamos de paz. Como procuramos a paz, como desejamos a paz.

Paz interior. Paz de espírito. Paz na alma. Paz onde vivemos. Paz onde trabalhamos.

Como procuramos a paz. Mas como a procuramos nos lugares mais equivocados, nos lugares onde, absolutamente, ela não está, não se encontra, e, nessa busca desenfreada pela paz mais nos confundimos, mais nos desesperamos, mais nos perdemos, mais nos equivocamos.

Mas, o que é paz? Se procurarmos no dicionário encontraremos que paz é ausência de guerra, é tranquilidade, serenidade, sossego, descanso, ausência de hostilidade, silêncio...

Mas a paz que o nosso espírito, o nosso coração, a nossa alma busca não é somente ausência de guerra, nem tranquilidade, nem o que tudo o mais que o dicionário pressupõe.

A paz que buscamos, a paz verdadeira é estarmos de bem conosco mesmos e com Deus, mesmo que à nossa volta haja confusão, guerra, incompreensão, agressões...

A paz verdadeira vem de Deus, somente de Deus; paz interior, paz de consciência, paz de espírito, paz na alma, paz no coração...

A paz que buscamos não é essa paz que é sinônimo de tranquilidade, mesmo contrariando a definição de paz que nos dão os dicionários da nossa língua portuguesa.

Realmente, a paz que vem de Deus não pode ser sinônimo de tranquilidade, porque, por um paradoxo, o Senhor Nosso Deus nos dá a sua paz exatamente para não nos deixar em paz, para não nos deixar tranquilos, porque, quem tem a paz que vem do Senhor não pode estar tranquilo ao conviver com tantas injustiças, tantas mentiras, agressões, infidelidades, falsidades, desumanidade, desamor, tantos interesses escusos e mesquinhos que existem entre as pessoas, e o pior, pessoas que se dizem cristãs, e isso em quaisquer seguimentos cristãos e no mundo inteiro.

Quem tem a paz que vem do Senhor não pode se acomodar, não pode se tranquilizar, porque a paz que o Senhor nos dá não é a mesma paz que o mundo transmite: “A minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.” (Jo 14,27).

Quem tem a paz que vem do Senhor Nosso Deus não pode se omitir ao ver tantas e tantas faltas e falhas, tantos pecados imperarem nos locais que, por força das circunstâncias e princípios, deveriam ser santos; não podem concordar com aqueles que deveriam se postar em defesa dos oprimidos e dos injustiçados se calarem criminosa e covardemente; não podem ter repouso ao presenciar tantas agressões covardes contra aqueles que não podem e não sabem e nem tem condições de se defender, tanto física quanto moral, psicológica e até religiosamente.

Por isso, a paz não é e nem pode ser sinônimo de tranquilidade.

O Senhor nos dá a paz, mas não nos deixa em paz...

A paz que vem do Senhor é aquela que deve nos desalojar do nosso comodismo da mesma maneira como aconteceu com Maria, a mãe de Jesus que, após receber em seu coração e no seu ventre a Paz Personificada no Filho de Deus, não se acomodou e partiu para uma longa viagem ao tomar conhecimento, pela boca do Anjo que viera lhe trazer a Boa Nova da vinda do Messias, que a sua parenta Isabel, mulher já de idade avançada, necessitava de sua ajuda, de sua presença para auxiliá-la nos preparativos dos últimos dias de sua gravidez temporã, conforme narra Lucas, 1,26-27. Só os valentes têm essa paz verdadeira.

Os valentes que assumem de corpo e alma os preceitos emanados das Sagradas Escrituras e ditados pelo Senhor Nosso Deus e que se sintonizam com a vontade divina para servirem de instrumentos nas mãos do Pai a fim de dar continuidade ao plano de salvação iniciado por Jesus Cristo e que se prolonga na luta do dia-a-dia de sua Igreja.

E o resultado dessa paz nem sempre é uma velhice tranquila ou uma aposentadoria sem lutas e abastada como todos desejariam que fossem, como aconteceu com a irmã Dóroty.

O resultado dessa paz é, muitas vezes, a incompreensão dos homens e do mundo, é uma coroa de espinhos, são flagelos, chacotas, indiferenças e dores que, muitas vezes, terminam ao se ver o mundo do alto, mas do alto de uma cruz, como aconteceu com o Senhor Jesus, e isso não é novidade pois que, o Senhor Jesus já nos alertava a respeito disso: “Não existe discípulo superior ao mestre, nem servo superior ao seu senhor. Basta que o discípulo se torne como o mestre e o servo como o seu senhor.” (Mt 10,24-25).

Essa paz que buscamos desesperadamente somente a encontramos, e gratuitamente, nos é transmitida, através dos apóstolos e discípulos, pelo Senhor Jesus: ”A paz esteja com vocês”. (Lc 24,36; Jo 20,21.26), e “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá. Não fiquem perturbados , nem tenham medo.” (Jo 14,27).

Por incrível que possa parecer, vemos que todos aqueles que receberam a paz diretamente do Senhor Jesus e, estando em pleno gozo dessa paz, foram perseguidos, caluniados, flagelados, assassinados, martirizados.

E ai nos vem a pergunta: “Que tipo de paz é essa que, para gozá-la plenamente, passa-se por todas essas privações?”

Essa é a paz verdadeira que vem do Senhor Nosso Deus nos dando plena segurança de que vale à pena ser perseguido injustamente pelo mundo e incompreendido pelos homens e até por aqueles que amamos de verdade; vale à pena, desde que permaneçamos fieis às observâncias dos preceitos evangélicos transmitidos por Jesus Cristo e consolados por sua exortação: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados são vocês, quando lhes injuriarem e lhes perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vocês por causa de mim. Alegrem-se e regozijem-se, porque será grande a recompensa de vocês nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vocês.” (Mt 5,10-12).

A paz que recebemos do Senhor Nosso Deus nos traz alegria interior. A paz que o mundo nos oferece se transforma em remorso.

O Senhor faz bem-aventurados todos aqueles que vivem na sua paz e a sua paz e as bem-aventuranças evangélicas são o conforto que o Senhor dá aos que vivem na sua paz.

Bem-aventurados os que buscam a paz no Senhor, os que vivem plenamente essa paz e que a transmitem a todos os que o cercam. Precisamos dessa paz, buscamos essa paz e somente essa paz porá fim ao silêncio gritante que ecoa em nossos corações pelas indecisões que a vida nos traz.

No Evangelho de João, na oportunidade dessa mesma narrativa, Jesus transmite a paz juntamente com o envio dos apóstolos para o mundo, transmitindo a eles o Espírito Santo que ele havia prometido durante quase toda a sua pregação, além de lhes facultar uma atitude que só a Deus pertence: a de perdoar pecados: “Jesus disse de novo para eles:A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou eu também envio vocês. Tendo falado isso Jesus soprou  sobre eles, dizendo: ‘Recebam o Espírito Santo.. os pecados que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados que vocês não perdoarem, não serão perdoados.” (Jo 20,21-23).

A presença do Espírito Santo transmitido à Igreja de Jesus Cristo só pode trazer e transmitir a paz, não a paz do mundo, “a paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá”.

A presença do Espírito Santo na Igreja patrocina o perdão pleno e irrestrito dos pecados. A presença do Espírito Santo transmitido por Jesus ao soprar sobre os seus apóstolos, deve ser materializada no amor, porque, como disse João na sua carta: “Filhinhos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. E todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor. [...] “Nós reconhecemos o amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse amor. Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele.” 1Jo 4,7-8.16).

terça-feira, 6 de abril de 2021

 

QUEM NÃO AMA MARIA, NÃO AMA JESUS...

 

Como é gostoso a gente falar de quem amamos de verdade. Maria é a nossa mãe, o nosso modelo, a mãe do Senhor Nosso Deus. Se amamos realmente Maria, chegamos com mais facilidade até Jesus, porque Maria é o meio mais seguro para chegarmos ao Senhor Jesus. A devoção que temos por Maria deve, cada vez mais, nos levar até Jesus.

São Luiz Maria Grignon de Montfort escreveu no seu livro “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”: “Se a devoção que temos a Maria Santíssima nos afastasse  de Jesus Cristo, esta devoção deveria ser rejeitada como ilusão do demônio. Mas o que acontece é justamente o contrário; a devoção à Maria é necessária principalmente por acharmos Jesus, por nos encontrarmos com o Filho muito amado de Deus e de Maria, para estarmos com Jesus Cristo perfeitamente, amá-lo com ternura e servi-lo com fidelidade. Mas, a maior parte dos cristãos, até aqueles que dizem entender bem as coisas de Deus não sabem da união necessária que existe entre Jesus Cristo e sua Mãe Santíssima. Jesus está sempre com Maria, assim como Maria está com Jesus, e nem poderia estar sem Jesus, porque, se fosse de outra maneira, Maria não seria o que é; Maria está de tal maneira transformada em Jesus pela graça que não vive mais, não existe mais se não for por meio do Senhor Jesus que nela vive e reina mais profundamente do que em todos os anjos e bem-aventurados. Maria está tão intimamente unida a Jesus, que seria mais fácil separar a luz do sol (do que separar Maria de Jesus); seria mais fácil separar o calor do fogo (do que separar Jesus de Maria), e ainda mais: seria mais fácil separar de Jesus Cristo todos os anjos e santos do que separar de Jesus a Divina Maria, porque ela, Maria, ama Jesus mais ardentemente, glorifica a Jesus mais perfeitamente que todas as criaturas de Deus juntas.     É verdade que causa espanto e compaixão ver a ignorância e as trevas de todas as criaturas deste mundo em relação à Mãe Santíssima do Filho de Deus. E isso acontece entre os próprios católicos que fazem promessa de ensinar aos outros a verdade e que, no entanto, não conhecem a Maria Santíssima. Esses cristãos pouco falam de Maria e da devoção que lhe é devida, porque muitos dizem que temem que, falando de Maria, poderiam ofuscar a luz que vem de Jesus. Maria é o meio seguro e sem ilusão, é um caminho curto e sem perigo, é uma estrada imaculada e sem imperfeição, é um segredo maravilhoso para achar a Jesus Cristo e amá-lo perfeitamente. Muitos cristãos combatem a devoção à Maria, à Nossa Senhora. Muitos cristãos consideram o rosário, o escapulário, o terço, como devoções próprias de espíritos acanhados e ignorantes.       Teriam essa gente, por acaso, o espirito de Jesus Cristo?  Será que Jesus fica contente de ver que, mesmo no seu rebanho, existem pessoas que não ligam para a sua Mãe Santíssima? Será que a devoção à Maria impede a devoção a Jesus?” E, nessa altura, neste momento repito a oração de São Luiz Maria Grignon de Montfort, contida nesse mesmo livro: “Preservai-me, Senhor, preservai-me desses sentimentos e dessas práticas, e concedei-me a graça de partilhar os sentimentos de gratidão, de estima, de respeito e de amor que o Senhor consagra à vossa Mãe Santíssima, a fim de que eu tanto mais vos ame e glorifique quanto mais de perto vos imitar e seguir.        Como se até agora nada ainda tivesse dito em honra de sua Mãe Santíssima, dai-me a graça de louvá-la dignamente apesar de todos os seus inimigos que são também vossos, e permiti que eu lhes diga com todos os santos: “Não pensem vocês em receber a misericórdia de Deus se vocês ofendem sua santa Mãe.”

(itálico do livro “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de São Luiz Grignion de Montefort, partes da páginas de 64 a 69, art. 1, cap II).

segunda-feira, 5 de abril de 2021

 

PADRE MARIANO DE LA MATA APARÍCIO - 1905-1983

 

Padre Mariano de la Mata Aparício nasceu em 31 de dezembro de de 1905 em Palência, norte da Espanha, de uma família profundamente cristã.

Como seus três irmãos tinham ingressado na Ordem Agostiniana, ele também sentiu-se atraído para essa mesma vida sacerdotal.

Ordenado sacerdote, em 25 de julho de 1930, foi destinado a vir para o Brasil, em 21de agosto de 1931, para a paróquia de Taquaritinga.

Foi professor e vigário da paróquia Santo Agostinho, em São Paulo. Foi superior da vice-província dos agostinianos e diretor espiritual das "Oficinas de Santa Rita de Cássia".

Distinguiu-se pela bondade. Era amável, mensageiro do amor. Sempre dava a Unção dos Enfermos às pessoas doentes. Distinguia-se pelo amor à Eucaristia e a Nossa Senhora da Consolação. Amava a natureza, cultivava com amor as plantas, emocionava-se com as beleza das flores. Era de caráter firme e generoso, coração aberto e sensível.

Apesar da deficiência auditiva e visual, levava aos doentes o conforto da esperança e da Eucaristia. Dava assistência aos doentes e às suas famílias. Distinguia-se pelo amor à Eucaristia, a Nossa Senhora, aos pobres, carentes e necessitados.

Suas grandes paixões: natureza, família, as Oficinas de Santa Rita de Cássia, as vocações agostinianas.

Padre Mariano morreu em 5 de abril de 1983, no Hospital do Câncer, em São Paulo . O processo de beatificação foi aberto em 31 de maio de 1987, pelo Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Em 20 de novembro de 2004, o Santo Padre reconheceu a veracidade do milagre que havia realizado e suas virtudes heróicas.

O milagre atribuído a Padre Mariano aconteceu em abril de 1996, em Barra Bonita, São Paulo. O menino João Paulo Palotto tinha 6 anos quando foi atropelado por um caminhão.

Teve traumatismo encefálico grave, hemiplegia e olho esquerdo projetado para a frente, além de hemorragia, parada respiratória. Foi então que Padre Luís Miguel pediu que todos rezassem. O menino foi transferido para vários hospitais, até que em maio do mesmo ano de 1996, João Paulo estava totalmente recuperado, graças à intervenção de Padre Mariano. Padre Mariano foi beatificado no dia 5 de novembro de 2006, na catedral da Sé em São Paulo presidida pelo representante do Vaticano, o cardeal José Saraiva Martins. 

domingo, 4 de abril de 2021

 

“TIRARAM O SENHOR DO TÚMULO E NÃO SABEMOS ONDE O COLOCARAM”. (Jo 20,2b).

 

PÁSCOA E RESSURREIÇÃO

Ano – A; Cor – Branco; Leituras: At 10,34.37-43; Sl 117 (118); Cl 3,1-4; Jo 20,1-9.

 

Diácono Milton Restivo

 

O livro dos Atos dos Apóstolos está presente neste Domingo da Páscoa, como estará, também, nos outros seis domingos do Tempo Pascal. No capítulo 10 encontramos Pedro na cidade de Cesaréia, na casa de Cornélio “centurião da corte chamada Itálica. Era piedoso e, junto com todos os da sua família, pertencia ao grupo dos tementes a Deus; dava muitas esmolas ao povo e orava sempre a Deus.” (At 10,1-2).

Esta é a apresentação e a qualificação que este livro faz sobre Cornélio. Pedro fora chamado por Cornélio para evangelizar e batizar na fé Cornélio e todos os da sua família. Para um judeu não era permitido hospedar-se na casa de um gentio, ou seja, de alguém que não fosse judeu e que não professasse a fé judaica, fato que Pedro notifica Cornélio: “Vocês sabem que é proibido um judeu relacionar-se com um estrangeiro, ou entrar na casa dele” (At 10,28), mas Cornélio o tranquiliza e diz a Pedro que: “agora, portanto, estamos todos aqui, na presença de Deus, prontos para ouvir o que o Senhor o encarregou de nos dizer”. (At 10,33b).

O sacrifício de Jesus na cruz já começava a mostrar seus frutos: não eram somente os judeus que deveriam ser evangelizados; todos os povos da terra deveriam ter acesso à mensagem de Jesus, conforme ele mesmo havia dito: “Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28,19).

A salvação deixara de ser exclusividade dos judeus; viera para todos os povos. Cornélio, portanto seria, juntamente com toda a sua casa, o primeiro estrangeiro, o primeiro não judeu a ser evangelizado e batizado e se tornar um cristão. E esta função foi designada para que Pedro a realizasse. Era a Páscoa da Ressurreição, como o despertar do sol, o nascer de um novo dia, que atingia o seu objetivo: todos os povos seriam evangelizados e batizados.

Pedro, “tomando a palavra, começou a falar: ‘De fato, estou compreendendo que Deus não faz diferença entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, seja qual for a nação a que pertença.” (At 10,35).

O que chama a atenção nessa exortação de Pedro é que ele afirma que “Deus não faz diferença entre as pessoas”, o que seria repetido por Paulo mais tarde na sua carta aos Gálatas 2,6, em Romanos 2,11 e novamente pelo próprio Pedro em sua Primeira Carta 2,17. a salvação veio para todos. Deixou de ser exclusividade para os judeus que não a aceitaram em primeira instância. É a nova Páscoa do sangue do “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” conforme dissera João Batista em João 1,29.

O Salmo 117 enaltece a salvação vinda de Yahweh: “Agradeçam Yahweh, porque ele é bom, porque o seu amor é para sempre. [...] Yahweh é minha força e energia, ele é minha salvação. [...] eu te agradeço, porque me ouviste, e foste a minha salvação! A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular. [...] Yahweh, dá-nos a salvação. [...] Bendito o que vem em nome de Yahweh! [...] Agradeçam Yahweh, porque ele é bom, porque o seu amor é para sempre.” (Sl 118 (117),1.14.21-22.26.29).

Paulo na segunda leitura, fala que, pela ressurreição de Jesus, todos ressuscitamos e um dia nos manifestaremos com ele na sua glória: “Se vocês foram ressuscitados com Cristo, procurem as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita do Pai. [...] Quando Cristo se manifestar, ele que é a nossa vida, então vocês também se manifestarão com ele na glória.” (Cl 3,1.4).

Estamos vivendo a Páscoa da Ressurreição, a festa magna da cristandade. Páscoa, no Antigo Testamento, era a festa solene que os israelitas celebravam anualmente em comemoração a sua libertação da escravidão e saída do Egito; no Novo Testamento a Páscoa é a memória, o memorial do sacrifício por nós na cruz e da ressurreição do Cristo.

Páscoa é libertação. Jesus, na Páscoa da Nova Aliança, na sua ressurreição, nos liberta da escravidão do pecado para a graça de Deus; liberta-nos da morte para a vida; liberta-nos da opressão para a total liberdade de filhos de Deus.

Páscoa é liberdade: “Em verdade, em verdade digo a vocês que todo o que comete o pecado, é escravo do pecado. Ora, o escravo não fica para sempre na casa, mas o filho fica nela para sempre. Por isso, se o Filho livrar vocês, vocês serão verdadeiramente livres." (Jo 8,34-36).

Páscoa é ressurreição. Páscoa é sairmos do estado pecaminoso e compreendermos que a liberdade total só vem de Deus; é só nele acreditarmos e só a ele nos entregarmos porque “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam no Evangelho”. (Mc 1,15).

A Páscoa da ressurreição tem que ser vivida todos os dias. A ressurreição não se explica por palavras, mas pelo testemunho de vida verdadeiramente cristã; demonstra-se que acredita na ressurreição de Jesus Cristo através da mudança de vida, da mudança de mentalidade para que se possa viver como Jesus viveu, pensar como Jesus pensou, amar como Jesus amou, andar como Jesus andou, porque: “Aquele que diz que permanece nele deve também andar como ele andou” (1Jo 2,6), e seguir seus mandamentos: “Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai. Eu o amarei e me manifestarei a ele”. (Jo 14,21); “Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; e a palavra que vocês ouvem não é minha, mas do Pai que me enviou”.(Jo 14,22-24).

Se a Igreja, que somos nós, quiser que o mundo acredite na Páscoa da Ressurreição devem ter a coragem de gritar aos quatro ventos: “Cristo ressuscitou; nós cremos e foi por isso que a nossa vida mudou”: “Vocês são testemunhas disso”. (Lc 24,48).

Os primeiros cristãos agiam dessa maneira: “Eles mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. Apossava-se de todo o temor, pois numerosos eram os prodígios e sinais que se realizavam por meio dos apóstolos”. (At 2,42-43).

Os primeiros cristãos demonstraram uma mudança radical de vida, pois que começaram a acreditar na ressurreição de Jesus Cristo.

Os primeiros cristãos, depois que começaram a crer no Ressuscitado, abandonaram o egoísmo e a injustiça, condenaram a opressão e a ganância de ter mais para ser mais, abraçaram uma vida nova na fé e no amor, enfim, mudaram de vida e de mentalidade nos moldes do Evangelho.

Agindo dessa maneira, o livro dos Atos dos Apóstolos revela-nos que, entre os primeiros cristãos, não havia necessitados: “Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum; vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-no entre todos, segundo as necessidades de cada um. Dia após dia, unânimes, mostravam-se assíduos no Templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e gozavam de simpatia de todo o povo. E o Senhor acrescentava cada dia ao seu número os que seriam salvos”. (At 2,44-47).

Já passou da hora de que, aqueles que acreditam verdadeiramente no Ressuscitado, fazerem o mesmo. Acreditar e ser testemunha de Jesus Ressuscitado e ressuscitar com ele implica em contratempos, sofrimentos, dores, perseguições, incompreensões até dos que nos são mais íntimos e amados, assim como aconteceu também com o próprio Cristo e com os primeiros cristãos.

O que se faz necessário é tirar Jesus das nuvens, onde foi colocado, e trazê-lo de volta ao seu povo, pés no chão, bem perto do seu povo. Há a necessidade de mudar de vida e de mentalidade, acreditar que Jesus Cristo ressuscitou realmente.

Se acreditassem, realmente, como dizem, que Jesus ressuscitou dos mortos, que venceu a morte e está, mais do que nunca, vivo, porque então não assumem com responsabilidade a fé verdadeira e a transmitem ao mundo, para que este mesmo mundo se liberte de tantas injustiças e opressões?

Se acreditam na ressurreição, têm que acreditar também que, a primeira prova da fé na ressurreição é lutar para por fim às desigualdades entre os homens, matar a fome de tantos irmãos  que continuam a receber o salário da fome e não tem condições de atender, sequer, as necessidades primárias da sua família. O Evangelho é a revelação do amor, e o amor não tolera desigualdades.

Onde existe o amor não pode existir a fome, a injustiça, a opressão. É com muita tristeza que se observa nas nossas comunidades cristãs que, no mesmo culto participam, lado a lado, o opressor e o oprimido, o violento e o violentado, o injusto e o injustiçado, aquele que recebe o salário de milhões e o que recebe o salário mínimo, o salário da fome. E dizem que todos são irmãos!

E, farisaicamente, se abraçam no abraço da paz como se isso não estivesse acontecendo.

E todos se acomodam, e nada fazem. Cada um senta no seu cantinho e, covardemente, respondem a Deus quando são inquiridos, da mesma maneira que Caim respondeu quando foi inquirido por Yahweh a respeito de seu irmão Abel: “Yahweh disse a Caim: ‘Onde está teu irmão Abel?’ Ele respondeu: ‘Não sei. Acaso sou guarda de meu irmão?’ (Gn 4, 9), ou como fez Pedro, negando ao Senhor Jesus no momento mais crucial de sua vida: ‘Não conheço esse homem de quem vocês falam”. (Mc 14,71).

Da maneira, como Caim que mente ao Senhor sobre o destino de seu irmão e Pedro que nega ao Senhor, todos, também, covardemente, buscam ignorar as necessidades do irmão e negam a Jesus na presença de seus acusadores, virando as costas à afirmativa do Senhor Jesus quando subia aos céus: “... e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e a Samaria, e até os confins da terra”. (At 1,8).

Que testemunha seria essa prefigurada por Jesus se todos o negam na pessoa do irmão necessitado e carente? Não conhecem, verdadeiramente, ao Senhor Jesus, e bem por isso, não se preocupam com a necessidade do irmão, não protestam contra as injustiças que existem mesmo na participação de uma mesma eucaristia... Esquecem-se do que o Mestre falara: “Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” Mt 25,40), acompanhado dessa chamada de atenção: Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus.” (Mt 10,33).

A Páscoa e ressurreição de Jesus Cristo só se tornarão uma realidade na vida dos cristãos se forem capazes de lutar contra a fome dos pobres, as lágrimas dos oprimidos e sofredores, “Pois tive fome e você me deu de comer. Tive sede e você me deu de beber de beber. Era forasteiro e você me recolheu. Estive nu e me vestiu, doente e me visitou, preso e você foi me visitar”. (Mt 25,35-36).

A Páscoa da ressurreição é a razão de ser da fé da Igreja. A Páscoa da Ressurreição é o sustentáculo da Igreja de Jesus Cristo. De nada teria adiantado o Senhor Jesus vir a este mundo, sofrer o que sofreu, morrer como morreu, se não tivesse ressuscitado ao terceiro dia como havia prometido aos seus apóstolos e discípulos, e como afirma Paulo ao constatar a incredulidade da ressurreição em alguns primeiros cristãos: “Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como pode alguém dentre vocês dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé." (1Cor 15,12-14).          

Todos os dias acontece uma ressurreição em nossa vida. Quando acordamos pela manhã estamos ressuscitando para um novo dia. Quando conhecemos alguém estamos ressuscitando para uma nova amizade. Quando perdoamos estamos ressuscitando para a graça de Deus. Quando somos perdoados estamos ressuscitando para a misericórdia divina: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”. (Mc 2,17).

Jesus Cristo ressuscitou e nos abriu as portas para a ressurreição nossa de cada dia. Assim como Jesus Cristo ressuscitou Lázaro (Jo 11,43-44), ressuscitou a filha de Jairo (Mc 5,41-42), ressuscitou o filho da viúva de Naim (Lc 7,14-15), nós também ressuscitamos nossos irmãos. Quando confortamos alguém mergulhado na tristeza, nós o ressuscitamos para a alegria; quando socorremos alguém em dificuldades de qualquer natureza, nós o ressuscitamos para uma vida mais confiante no hoje e no agora e mais digna. A ressurreição é um ato que acontece todos os momentos de nossa vida. A Páscoa é ressurreição, é libertação, é doação, é amor...

Todas as vezes que nos voltamos para Deus Pai, animados pela mensagem de Jesus Cristo e aquecidos pelo fogo do Espírito Santo, estamos sendo ressuscitados para uma vida melhor.

Jesus Cristo ressuscitou da morte para a vida. Deu-nos esperanças de dias melhores. Mostrou-nos que, nesta vida, nada tem valor se o que fizermos não for feito para a maior glória de Deus, conforme disse Paulo: “E tudo o que vocês fizerem através de palavras ou ações, o façam em nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus Pai por meio dele” (Cl 3,17).

O cristão é aquele que acredita no Jesus Ressuscitado.

O cristão é aquele que assume a ressurreição de Jesus Cristo.

O cristão é aquele que ressuscita todos os dias, todos os momentos, com Jesus Cristo, para os irmãos, com os irmãos e nos irmãos, proclamando o Reino de Deus e atendendo a exortação do Senhor Jesus: “Todo aquele, portanto, que se declarar por mim diante dos homens, também eu me declararei por ele diante de meu Pai que está nos céus”. (Mt 10,32).

Quando ignoramos e não vivemos a Páscoa da ressurreição, quando rejeitamos a libertação que o Senhor Nosso Deus nos oferece, viramos as costas para o sacrifício supremo de Jesus Cristo, renegamos ao Senhor Jesus, e Jesus nos alerta a respeito disso: “Aquele, porém, que me renegar diante dos homens, também o renegarei diante de meu Pai que está nos céus”. (Mt 10,33). Vivemos a ressurreição de Jesus Cristo ressuscitando com ele.

A Páscoa dos israelitas aconteceu depois de muito sofrimento vivido na escravidão do Egito. A Páscoa e ressurreição de Jesus Cristo aconteceram depois dos maiores sofrimentos, do mais triste abandono; aconteceu depois de sua morte para libertar-nos do pecado.

A nossa ressurreição de todos os dias não pode ser diferente da de Jesus Cristo; somente ressuscitamos após havermos morrido para o pecado, para o mundo; ressuscitamos depois de haver sofrido a ingratidão e indiferença dos irmãos, depois de sermos maltratados, injuriados, traídos, caluniados, e abandonados até pelas pessoas que mais amamos.

Se não for precedida de dor, sofrimento e renúncia, a nossa ressurreição de cada dia não tem sentido, não tem valor. Não porque Deus quer isso de nós, mas isso acontece porque o mundo não aceita a salvação trazida por Jesus e persegue aqueles que tentam difundi-la entre todos os homens: persegue, maltrata, injuria, calunia e, bem por isso Jesus disse: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês por causa de mim. Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu”. (Mt 5,10-12).

Adoremos a Jesus ressuscitado e vivamos de tal maneira que possamos ser dignos de ressuscitar como ele ressuscitou, não somente no juízo final como ele nos prometeu, mas ressuscitar todos os dias numa renovação total e diária de nossas vidas, sempre voltados para a promoção da maior glória de Deus. Jesus Cristo ressuscitou como havia dito. O bem vence o mal. A vida vence a morte. A misericórdia vence a ofensa. O perdão vence o pecado. A luz vence as trevas.

Jesus Cristo ressuscitou como disse: “... porque vocês procuram Aquele que vive entre os mortos? Ele não está aqui; ressuscitou. Lembrem-se de como ele falou para vocês, quando ainda estava na Galiléia? "É preciso que o Filho do Homem seja entregue às mãos dos pecadores, seja crucificado, e ressuscite ao terceiro dia." (Lc 24,5-8).

Jesus Cristo voltou da morte para a vida, para mostrar que Deus não é Deus dos mortos, mas Deus dos vivos: "Ora, Ele não é Deus de mortos, mas sim de vivos; todos, com efeito, vivem para Ele." (Lc 20, 38). A nossa fé está baseada num túmulo vazio.

Mas, infelizmente, dizemos que acreditamos na Páscoa da Ressurreição, mas não vivemos a ressurreição. Dizemos que amamos Jesus Ressuscitado, mas nem sempre convivemos com Jesus Ressuscitado. Sabemos que um dia ressuscitaremos com ele, mas ignoramos que devemos ressuscitar todos os dias.

De fato, falamos demais na ressurreição, mas somos por demais presos em nossos interesses particulares que nada dizem com os interesses do Pai. Pouco importa para nós que o fraco continue oprimido, o doente continue esquecido, o menor continue abandonado, o faminto continue ignorado...

Falamos em ressurreição enquanto o egoísmo esmaga os mais pobres, a violência extermina a vida, o poder tiraniza o homem comum, a volúpia dos prazeres paralisa os corações. Falamos muito em ressurreição, mas pouco ou nada fazemos para que possamos ressuscitar todos os dias.

Ressurreição não é somente o despertar de um cadáver, o reviver de um Lázaro ou a reconstituição de um corpo no último dia. Ressurreição é também o fim de um sistema opressor e o início de um sistema de justiça. Ressurreição é a morte do egoísmo e florescimento do amor. Ressurreição é o fim do sofrimento e da violência e a volta da fraternidade, da alegria, da esperança e do amor. Ressurreição é pão na mesa de todos, salários dignos e decentes aos trabalhadores, respeito pela vida, paz na terra, amor nos corações, mães sem lágrimas, amores verdadeiros e verdadeiramente correspondidos, filhos com lar, jovens não drogados, doentes amados e bem servidos, velhos respeitados e amparados.

Essa deve ser a ressurreição nossa de cada dia; isso é Páscoa, e Páscoa é ressurreição, é libertação. Não podemos deixar de construí-la todos os dias se quisermos merecer e participar da ressurreição definitiva. Jesus Cristo ressuscitou para nos dar esperanças de dias melhores, e esses dias melhores começam conosco mesmo, dentro de cada um de nós...

 Por isso, devemos repetir todos os dias o que o salmista desta liturgia nos transmite: “Este é o dia que o Senhor fez para nós; alegremo-nos e nele exultemos”. (Sl 188 (117),24).

 

sábado, 3 de abril de 2021

 

AS SETE DORES DE MARIA, A MÃE DE JESUS.

 

Nesta Semana das Dores, vamos meditar acerca das Dores de Maria, a Mãe de Jesus. As Dores de Maria nos comovam o coração, impulsionando-nos para a prática do bem.


PRIMEIRA DOR - APRESENTAÇÃO DO PEQUENO JESUS NO TEMPLO

Nesta primeira dor veremos como o coração de Maria Santíssima foi transpassado por uma espada, quando Simeão profetizou que o Filho dela seria a salvação de muitos, mas também serviria para ruína de outros. A virtude que aprendemos nesta dor é a da santa obediência. Sejamos obedientes aos superiores, porque são eles instrumentos de Deus. Quando soube que uma espada lhe atravessaria a alma, desde aquele instante Maria experimentou sempre uma grande dor, mas sempre olhava para o Céu e dizia: 'Em vós confio'. Quem confia em Deus jamais será confundido. Em nossas penas, angústias, confiemos em Deus e jamais nos arrependeremos dessa confiança. Quando a obediência nos trouxer qualquer sacrifício, confiando em Deus, a Ele entreguemos nossas dores e apreensões, sofrendo de bom grado por amor. Obedeçamos não por motivos humanos, mas pelo amor Daquele que por nosso amor se fez obediente até a morte de Cruz.  


SEGUNDA DOR - A FUGA PARA O EGITO

Irmãos, quando Jesus, Maria e José fugiram para o Egito, foi grande dor saber que desejavam matar o seu filho, aquele que trazia a salvação! Maria não se aflige pelas dificuldades em terras longínquas; mas por ver seu filho inocente perseguido, por ser o Redentor. Maria suportou o exílio por amor e por alegria por Deus fazer dela cooperadora do mistério da salvação. No exílio Maria sofreu provocações, mas as portas do Céu futuramente abriam para Maria. Esta dor nos ensina a aceitar as provocações do dia-a-dia com alegria de quem sofre para agradar a Deus. Esse agir e esse procedimento chamam-se santidade. No meio da dor sofrem os infelizes, entregam-se ao desespero, porque não têm a amizade divina, que traz paz e confiança em Deus. Por isso, somos convidados a aceitar os sofrimentos por amor a Deus. Exultemos de alegria, porque grande é o nosso merecimento, assemelhando-nos a Jesus Crucificado, que tanto sofreu por amor a vossas almas!  


TERCEIRA DOR - PERDA DO MENINO JESUS

Maria procurou Jesus por três dias. Maria tinha consciência de que Ele era o Messias prometido. Quando o encontrou no Templo, no meio dos doutores, ao dizer-lhe que havia deixado sua mãe três dias em aflição, ele respondeu-lhe: “Eu vim ao mundo para cuidar dos interesses de meu Pai, que está no Céu”. À esta resposta do meigo Jesus, Maria emudeceu e compreendeu que sendo o seu Filho, Homem e Deus, aquele que salva assim deveria proceder, submetendo a sua vida à vontade de Deus, que muitas vezes nos fere em proveito de nossos irmãos. Jesus deixou Maria por três dias angustiada para proveito da salvação. Aqui devemos contemplar as mães que choram, ao verem os seus filhos generosos ouvirem o chamamento divino, aprendendo com Maria a sacrificar o seu amor natural. Se seus filhos forem chamados para trabalhar na vinha do Senhor, não abafem tão nobre aspiração, como é a vocação religiosa. Mães e pais dedicados, ainda que o seu coração sangre de dor, deixem seus filhos partirem, deixem corresponder aos desígnios de Deus, que usa com eles de tanta predileção. Pais que sofrem, ofertem a Deus a dor da separação, para que seus filhos, que foram chamados, possam ser na realidade bons filhos Daquele que os chamou. Lembrem-se que seus filhos a Deus pertencem e não a vocês. Devem criá-los para servir e amar a Deus neste mundo, e um dia no Céu O louvarem por toda a eternidade. Pobres aqueles que querem prender seus filhos, abafando-lhes a vocação! Os pais que assim procedem podem levar seus filhos à perdição eterna e ainda terão que dar contas a Deus no último dia. Porém, protegendo suas vocações, encaminhando-os para tão nobre fim, que bela recompensa receberão estes pais afortunados! Ainda que aqui chorem de saudades e a separação lhes custe muitas lágrimas, eles serão abençoados! E vocês, filhos prediletos chamados por Deus, procedam como Jesus procedeu comigo: primeiramente obedeça à vontade de Deus, que os chamou para habitar na sua casa, quando diz: 'Quem ama seu pai e sua mãe mais do que a mim não é digno de Mim'. Vigiem se, por causa de um amor natural, deixam de corresponder ao chamado divino! Almas eleitas chamadas e que sacrificam as afeições mais caras e a sua própria vontade para servir a Deus! Grande é sua recompensa. Avante! Sejam generosas em tudo e louvem a Deus por terem sido escolhidas para tão nobre fim. Vocês que choram, pais, irmãos, regozijam-se, porque suas lágrimas um dia converter-se-ão em pérolas, como as de Maria Santíssima se converteram em favor da humanidade.


QUARTA DOR - DOLOROSO ENCONTRO NO CAMINHO DO CALVÁRIO

Contemplemos e vejamos se há dor semelhante à dor de Maria Santíssima, quando encontrou-se com seu divino Filho a caminho do Calvário, carregando uma pesada cruz e insultado como se fosse um criminoso. 'É preciso que o Filho de Deus seja esmagado para abrir as portas da mansão da paz!' Lembremos-nos de suas palavras e aceitemos a vontade do Altíssimo, nossa força em horas tão cruéis de nossa vida. Ao encontrá-lo, Jesus fitou os olhos de Maria e a fez compreender a dor de sua alma. Não pôde dizer-lhe palavra, porém a fez compreender que era necessário que se unisse à Sua grande dor. Amados irmãos, a união da grande dor de Maria e Jesus nesse encontro tem sido a força de tantos mártires e de tantas mães aflitas! Almas que temem o sacrifício aprendam nesta meditação a se submeterem à vontade de Deus, como Maria e Jesus se submeteram! Aprendam a calar nos seus sofrimentos. No nosso silêncio, nesta dor imensa, armazenamos riquezas imensuráveis! Nossas almas hão de sentir a eficácia desta riqueza na hora em que, abatidos pela dor, recorrermos a Maria, fazendo a meditação deste encontro dolorosíssimo. O valor do nosso silêncio se converte em força, quando nas horas difíceis soubermos recorrer à meditação desta dor! Como é precioso o silêncio nas horas de sofrimentos! Há almas que não sabem sofrer uma dor física, uma tortura de alma em silêncio; desejam logo contá-la para que todos o lastimem! Jesus e Maria tudo suportaram em silêncio por amor a Deus! A dor humilha e é na santa humildade que Deus edifica! Sem a humildade, trabalhamos em vão; vejam, pois como a dor é necessária para a nossa santificação. Aprendamos a sofrer em silêncio, como Maria e Jesus sofreram neste doloroso encontro no caminho do Calvário.  


QUINTA DOR – MARIA AOS PÉS DA CRUZ

Na meditação desta dor encontraremos consolo e força para nossas almas contra mil tentações e dificuldades e aprenderemos a ser fortes em todos os combates de nossa vida. Contemplemos Maria aos pés da Cruz, assistindo à morte de Jesus, com a alma e o coração transpassados com as mais cruéis dores! Não nos escandalizemos com o que fizeram os judeus! Eles diziam: 'Se Ele é Deus, por que não desce da cruz e se livra a si próprio?!' Infelizes aqueles que não crêem que Jesus é o Messias. Não podem compreender que um Deus se humilhasse tanto e que a sua divina doutrina pregava a humildade. Jesus precisava dar o exemplo, para que seus filhos tivessem a força de praticar uma virtude, que tanto custa aos filhos deste mundo, que têm nas veias a herança do orgulho. Infelizes os que, à imitação dos que crucificaram a Jesus, ainda hoje não sabem se humilhar! Depois de três horas de tormentosa agonia, Jesus morre, deixando Maria na mais negra escuridão! Sem duvidar um só instante, ela, contido, aceitou a vontade de Deus e, no seu doloroso silêncio, entregou ao Pai sua imensa dor, pedindo, como Jesus, perdão para os criminosos. Entretanto, quem a confortou nessa hora angustiosa? Fazer a vontade de Deus foi o seu conforto; saber que o Céu foi aberto para todos os filhos foi seu consolo! Porque Maria também no Calvário foi provada com o abandono de toda consolação! Sofrer em união com os sofrimentos de Jesus encontra consolo; sofrer por ter feito o bem neste mundo, recebendo desprezos e humilhações, encontra força. Que glória para nossas almas se um dia, por amarmos a Deus com todo o nosso coração, formos também perseguidos! Aprendamos a meditar muitas vezes esta dor, que ela nos dará força para sermos humildes: virtude amada de Deus e dos homens de boa vontade.


SEXTA DOR - UMA LANÇA ATRAVESSA O CORAÇÃO DE JESUS

Com a alma imersa na mais profunda dor, Maria viu Longinus transpassar o coração de seu Filho, sem poder dizer uma palavra! Derramou muitas lágrimas... Só Deus pode compreender o martírio desta hora, na alma e no coração! Depois depositaram Jesus em seus braços, não cândido e belo como em Belém... Morto e chagado, parecendo mais um leproso do que aquele adorável e encantador menino, que tantas vezes apertara ao seu coração! Se Maria tanto sofreu, não será ela capaz de compreender os nossos sofrimentos? Por que, então, não recorramos a Maria com mais confiança, ela que tem tanto valor diante do Altíssimo? Por muito ter sofrido aos pés da cruz, muito lhe foi dado! Se não tivesse sofrido tanto, não teria recebido os tesouros do Paraíso em suas mãos. A dor de ver transpassar o Coração de Jesus com a lança, conferiu a Maria o poder de introduzir, em seu amável Coração, a todos aqueles que a ele recorrerem. Corramos todos a Maria, porque ela pode nos colocar dentro do Coração Santíssimo de Jesus Crucificado, morada de amor e de eterna felicidade! O sofrimento é sempre um bem para a alma. Regozijemos-nos, pois, com Maria, que foi a segunda mártir do Calvário! Sua alma e seu coração participaram dos suplícios do Salvador, conforme a vontade do Altíssimo, para reparar o pecado da primeira mulher! Jesus foi o novo Adão e Maria a nova Eva, livrando assim a humanidade do cativeiro no qual se achava presa. Para correspondemos, porém, a tanto amor, sejamos muito confiantes em Maria, não nos afligindo nas contrariedades da vida; ao contrário, confiemos todos os nossos receios e dores a Ela, que saberá dar em abundância os tesouros do Coração de Jesus! Não nos esqueçamos de meditar esta imensa dor, quando nossa cruz estiver pesada. Nela encontraremos força para sofrer por amor a Jesus que sofreu na Cruz a mais infame das mortes.

 

SÉTIMA DOR - JESUS É SEPULTADO

Quanta dor padeceu Maria quando teve que ver sepultado seu Filho. A quanta humilhação seu Filho se sujeitou, deixando-se sepultar, sendo Ele o mesmo Deus! Por humildade, Jesus submeteu-se à própria sepultura, para depois, glorioso, ressuscitar dentre os mortos! Bem sabia Jesus o quanto Maria sofreria vendo-o sepultado; não a poupando, quis que Maria também fosse participante na sua infinita humilhação! Vejamos como Deus amou a humilhação! Tanto que se deixou sepultar nos santos Sacrários, a esconder sua majestade e esplendor, até o fim do mundo! Na verdade, o que se vê no Sacrário? Apenas uma Hóstia Branca e nada mais! Ele esconde sua magnificência debaixo da massa branca das espécies de pão! E não o admiramos tanto quanto Ele merece, por Jesus assim Se humilhar até o fim dos séculos! A humildade não rebaixa o homem, pois Deus Se humilhou até à sepultura e não deixou de ser Deus. Se quisermos corresponder ao amor de Jesus, devemos mostrar que O amamos, aceitando as humilhações. A aceitação da humilhação nos purifica de toda e qualquer imperfeição e, desprendendo-nos deste mundo, passamos desejar mais intensamente o Paraíso. Apresentamos estas sete Dores de Maria, não para queixar somente, mas para mostrar as virtudes que devemos praticar, para um dia estar ao seu lado e ao lado de Jesus! Receberemos a glória imortal, que é a recompensa das almas que, neste mundo, souberam morrer para si, vivendo só para Deus! Nossa Mãe nos abençoa e nos convida a meditar muitas vezes nestas palavras ditadas, porque muito nos amou.

Padre Wagner Augusto Portugal

 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

 

“PERTO DA CRUZ PERMANECIAM, DE PÉ, SUA MÃE...” (Jo 19,25).

 

·         “Na minha angústia invoquei a Yahweh, ao meu Deus lancei o meu grito; do seu templo ele ouviu a minha voz, meu grito chegou aos seus ouvidos.” (Sl 18 (17),7).       

 

Nos momentos em que nos sentimos sozinhos, mesmo estando no meio da mais barulhenta multidão, devemos elevar o nosso pensamento ao Senhor Nosso Deus e Pai e, nos recolhendo dentro de nós mesmos, nos entregarmos à oração.

Nesses momentos em que sentimos que a solidão bate forte em nosso coração, devemos voltar a nossa atenção a todos aqueles que estão tristes, acabrunhados, arrasados, explorados; todos aqueles que se sentem abatidos, desesperados, injustiçados...

Nesses momentos, quando nos sentimos desamparados, devemos nos unir em oração e nos colocar na presença de Deus Pai que muito nos amou e nos ama e suplicar a mediação do Senhor Jesus que

·         “foi obediente até a morte e morte de cruz” (Fl 2,8), esse mesmo Senhor Jesus que nos disse: “Eu dou a minha vida por minhas ovelhas.” (Jo 10,15).

João, o Apóstolo amado, na sua primeira carta nos adverte dizendo:

·         Nisso conhecemos o amor: ele deu a sua vida por nós, e nós também devemos dar a nossa vida pelos irmãos.” (1Jo 3,16).

Mentalizemos a cruz de Jesus, o Cristo, a cruz onde ele se imolou por nós. 

Coloquemo-nos, totalmente na presença do Senhor Nosso Deus e, num ato de humildade, peçamos:

·         “Senhor, aqui estamos com nossas fraquezas, com nossos fracassos, com nossas angústias e sofrimentos. O Senhor vê a nossa miséria e nossa dor, e, na sua bondade, tem compaixão de nós e releve todas as nossas faltas, as nossas ingratidões, os nossos desamores”.

Prestemos atenção; na nossa mentalização no sofrimento do Senhor Jesus, o Cristo, no Calvário, observemos lá, junto da cruz onde Jesus está suspenso entre o céu e a terra nas mais terríveis e angustiantes dores, , uma figura abatida, desolada, sofrida: Maria, a mãe de Jesus:

·         “Perto da cruz de Jesus permaneciam, de pé, sua mãe...” (Jo 19,25).

A mãe ama todos os filhos, indistintamente, e, a cada um se dedica de coração e sem reservas.  

Não temos dúvidas, a mãe não pensa duas vezes para se sacrificar, em perder horas e horas de sono para ali estar, atenciosa e orante junto à cama do filho enfermo e, sempre aflita, partilhando da dor do filho.

A mãe tem sempre uma palavra de ânimo, de conforto, de esperança.

Dificilmente encontramos a mãe nas noites de festas, mas, no leito de dor do filho a presença da mãe é uma constante, sempre humilde e serviçal, com seu olhar materno, com seu carinho, com seu amor, com sua dedicação extrema e com a sua participação na dor do filho...

Maria de pé, perto da cruz...

E, quando o Senhor Jesus, nos estertores da morte, pressentiu que havia chegado o momento derradeiro de voltar para o Pai, num gesto de amor extremo, transfere a maternidade de Maria para o seu apóstolo mais querido, João:

·         “Jesus, então, vendo sua mãe e, perto dela, o discípulo que amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!”(Jo 19,26-27).

A experiência nos faz entender que o sofrimento é sempre difícil de ser aceito e, por vezes, a tentação do desespero, da vingança, do revide, pode estar batendo à porta do nosso coração.  Pode ser forte até a tentação do ódio.

Mas, não devemos entrar nessa. Não vamos permitir que a descrença e a desilusão ofusquem a nossa fé e a nossa esperança... Por isso devemos permanecer em oração!

São benditas as lágrimas que lavam os olhos, purificam o coração e nos faz ver melhor a vida por outro prisma. Não devemos nos desesperar; somos pessoas humanas, não somos anjos...

Continuemos em oração e mentalizando a cruz de Cristo; Jesus está ali, no mais terrível dos sofrimentos.

Tanto que o Senhor Jesus amou a todos, tanto bem que Jesus fez:

·         “os cegos recuperam as vistas, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados.” (Mt 7,47).   

Jesus perdoou pecados:

·         “Por esta razão eu te digo, teus numerosos pecados te estão perdoados... Teus pecados estão perdoados.” (Lc 7,47.48).  

Jesus amou e acariciou as criancinhas:

·         “Deixai as crianças virem a mim. Não as impeçais, pois delas é o reino dos céus.” (Mc 10,14). 

Jesus amou e respeitou os velhos e as viúvas:

·         “Pois todos os outros deram do que lhes sobrava, ela (a viúva), porém, na sua penúria, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver.” (Mc 12,44).

Jesus acolheu os pobres:

·         “Ao ver a multidão, teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelha sem pastor.” (Mt 9,36). 

Jesus alimentou os famintos:

·         “Não é preciso que vão embora. Dai-lhes vós mesmos de comer.” (Mt 14,16). 

Jesus curou os doentes:

·         “Assim que desembarcou, viu uma grande multidão e, tomado de compaixão, curou os seus doentes.” (Mt 14,14).   

Jesus expulsou os demônios:

·         “Logo que saíram, Eis que lhe trouxeram um endemoniado mudo. Expulsou o demônio, o mudo falou.” (Mt 9,32-33) e

·         “Os demônios lhe imploravam, dizendo: “Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos.” Jesus lhes disse: “Ide.” (Mt 8,32-33).

Até os mortos se levantavam ao ouvirem a palavra de Jesus:

·         “Jovem, eu te ordeno, levanta-te.” E o morto sentou-se e começou a falar.” (Lc 7,14-15). e

·         “Lázaro, vem para fora.” O morto saiu com os pés e as mãos enfaixados e com o rosto recoberto  com um sudário. Jesus lhes disse: “Desatai-o e deixai-o ir embora.” (Jo 11,43-44).

E ainda mais:

·         “Tomando a mão da criança, disse-lhe: “Talita kûm” - que significa: “Menina, eu te digo, levanta-te.” No mesmo instante a menina se levantou, e andava, pois já tinha doze anos.” (Mc 5,41-42).

Jesus era um homem tão cheio de Deus; era o próprio Deus caminhando conosco neste vale de lágrimas:

·         “...quem me viu, viu o Pai.  Como podes dizer: “Mostra-nos o Pai?”Não Crês que estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que vos digo, não as digo por mim mesmo, mas o Pai que permanece em mim, realiza suas obras. Crede-me: Eu estou no Pai e o Pai está em mim.” (Jo 14,9-11).

Na sua infinita sabedoria, Jesus nos deixa uma regra de ouro:

·         “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a lei e os profetas.” (Mc 7, 12).

Sabemos que o Senhor Jesus gostava muito de dar atenção aos mais esquecidos, aos abandonados, aos doentes, aos desamparados, aos injustiçados, aos que se sentiam sozinhos, aos mais pobres. Jesus amava os pecadores, pois assim ele afirmou:

·         “Não são os que tem saúde que precisam de médico, mas sim os doentes.  Ide, pois, e aprendei o que significa: “Misericórdia é que eu quero, e não sacrifício.”  Com efeito, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores.” (Mt 9,12-13).

O Senhor Jesus sabia e sabe perdoar, sabe acolher os corações mais esmagados, mais dilacerados; e são para nós, que temos o coração sofrido, as palavras acolhedoras e reconfortantes do Senhor Jesus:

 

·         “Vinde a mim todos os que estais cansados, sob o peso de vosso fardo, e eu vos darei descanso... Tomais sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas, pois o meu jugo e suave e o meu fardo é leve.” (Mt 11,28-30).

Voltemos a meditar na cruz. Mentalizemos novamente Jesus pendente na cruz, ma eminência da morte, e aprendamos com ele a perdoar os que nos fazem mal, como ele perdoou os seus algozes, pedindo o perdão do Pai para os seus carrascos:

·         “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem.” (Lc 23,24).

E, mesmo no meio das mais violentas dores imagináveis, Jesus ouviu a súplica do ladrão condenado e crucificado no mesmo local:

·         “Jesus, lembra-te de mim quando vieres com teu reino”  Ele respondeu: “Em verdade eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso.” (Lc 23,42-43).     

Estas atitudes de amor e perdão do Divino Mestre não nos deixa perder as esperanças. 

O Senhor Nosso Pai nos ama do jeito que somos: pecadores, cheios de falhas, imperfeitos, e muitas vezes inconsequentes...

Nos orgulhosos, nos prepotentes a fé é muito difícil.

  Nos humildes, nas pessoas como nós, a fé é possível; basta que creiamos e tenhamos coragem de assumirmos e vivermos as verdades ensinadas pelo Divino Mestre.

Os braços abertos de Jesus na cruz também estão abertos para mim, para você, para todos nós, e não podemos esquecer que

·         “Jesus morreu de pé e de braços abertos para que não ficássemos sentados e de braços cruzados.”

Por isso tudo devemos abrir o nosso coração ao Senhor Jesus, ouvindo o Apóstolo Pedro:

·         “Com efeito, para isso é que fomos chamados, pois que também Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais os seus passos. Ele não cometeu nenhum pecado; mentira nenhuma foi achada em sua boca.  Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa na mão daquele que julga com justiça.  Por suas feridas fostes curados, pois estáveis desgarrados como ovelhas, mas agora retornastes ao pastor e supervisor de vossas almas.” (1Pd 2,21-25).

Não nos desesperemos.

Não busquemos desforras.

Não aumentemos o mal que já fez tanto mal a tanta gente. Acreditemos em Deus.

·         “Tudo é possível àquele que crê.” (Mc 9, 23).

O Senhor Jesus está conosco.   Ele permanece conosco todos os dias em cumprimento à sua promessa:

·         “E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.” (Mt 28,20).

E isso nos transmite uma paz celestial.

O importante é a paz no coração, a paz do coração, não a paz que o mundo nos dá, mas aquela paz que o Senhor Jesus desejou e derramou sobre os seus discípulos e apóstolos dizendo.

·         “A paz esteja convosco.” (Jo 20,19), e

·         “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.” (Jo 14,27).

Descubramos o nosso coração ao Senhor Jesus e reconfortemo-nos com a sua palavra de vida eterna:

·         “É por isso que estão diante do trono de Deus, servindo-o dia e noite em seu templo. aquele que está sentado no trono estenderá sua tenda sobre eles: Nunca mais terão fome, nem sede, o sol nunca os afligirá, nem qualquer calor ardente; pois o cordeiro que está no meio do trono os apascentará, conduzindo-os até as fontes de água da vida. e Deus enxugará toda lágrima de seus olhos.” (Apo 7,15-17).

quinta-feira, 1 de abril de 2021

 

FAZEI ISSO EM MEMÓRIA DE MIM...

 

QUINTA-FEIRA SANTA

Ano “C” – Cor: branco – Leituras: Ex 12,1-8.11-14; Sl 115 (116B); 1Cor 11,23-26; Jo 13,1-15.

 

Diácono Milton Restivo

 

Quando participamos do Santo Sacrifício da Missa e, durante a oração eucarística, o celebrante toma em suas mãos a hóstia, levanta-a sobre o altar para que todos os participantes possam vê-la, e diz em voz alta, para que todos possam ouvi-lo:

·         “Na véspera de sua paixão, durante a última ceia, Jesus tomou o pão, deu graças e o partiu, e deu aos seus discípulos, dizendo: “Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós.”  Depois, do mesmo modo, ao fim da ceia, Jesus tomando o cálice em suas mãos, deu graças novamente e o entregou aos seus discípulos, dizendo: “Tomai, todos, e bebei: Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna  aliança, que será derramado por vós e por todos para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de mim.”

Todas as vezes que participamos da Santa Missa e todas as vezes que o sacerdote celebrante repete essa atitude, estamos participando da ceia sagrada e estamos vivendo o maior mistério da nossa fé, porque, como diz Paulo Apóstolo:

·         “Toda vez que se come deste pão, toda vez que se bebe deste vinho, se recorda a paixão de Jesus Cristo e se fica esperando a sua volta.” (1Cor 11, 26).

A Santa Ceia, esta cena maravilhosa, tocante e imorredoura, aconteceu na noite em que o Jesus, já sabendo que tinha sido vendido aos judeus por um de seus apóstolos, Judas Escariotes, para ser condenado à morte, e ele, Jesus, tendo reunido todos os seus apóstolos para a despedida final, promoveu o que chamamos hoje de “Santa Ceia”, que seria o seu último encontro como os seus discípulos e apóstolos, e ali, naquela oportunidade, institui o Sacramento da Eucaristia.

O Sacramento da Eucaristia é o Sacramento em que Jesus se faz presente de corpo, alma e divindade e Jesus instituiu esse sacramento exatamente para permanecer entre nós, para que ele jamais nos deixasse e para que nós não ficássemos como ovelhas sem pastor, perdidas neste vale de lágrimas entre os espinhos do pecado e as intempéries da própria natureza humana que tem suas inclinações sempre contrárias ao Caminho, à Verdade e à Vida que é Jesus Cristo, e, num último esforço de amor e doação total, Jesus se entrega a nós no mistério infinito da Eucaristia.

Todas as vezes que participamos de uma Santa Missa é como se estivéssemos ao redor da mesa, com Jesus, como aconteceu na última ceia; todas as vezes que participamos do sacrifício da missa nós estamos, como estiveram na última ceia os doze apóstolos, ao redor da mesa, tendo Jesus Cristo ao centro, e estamos participando do banquete pascal, onde se serve, como alimento, o pão que se transforma no corpo de Jesus Cristo, e se bebe, como bebida, o vinho, que se transforma no sangue de Jesus Cristo que foi derramado “por todos os homens para o perdão dos pecados.”

Mas, para participarmos dessa Santa Ceia o Senhor Jesus quer que seus apóstolos e discípulos estejam limpos, sem a poeira do pecado, sem a mancha das más inclinações, sem a sujeita dos maus pensamentos, e foi por isso que Jesus se propôs a lavar os pés de seus apóstolos com a água do perdão e enxugá-los com a toalha da misericórdia do Pai.

Jesus nos quer limpos para participarmos efetiva e dignamente da mesa da sua santa ceia, porque, como diz Paulo Apóstolo, todos aqueles que não estiverem preparados para receber a Sagrada Eucaristia e o fazem ou se dirigem à mesa da comunhão impuros, estão comendo e bebendo a sua própria condenação:

·         “Por isso, todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Portanto, cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação.” (1Cor 11,27-29).

E é por isso que, em uma das Orações Eucarísticas o celebrante reza, e nós repetimos com a Santa Igreja, dizendo:

·         “Jesus Cristo, verdadeiro e eterno sacerdote, oferecendo-se a Deus Pai pela nossa salvação, instituiu o sacramento da nova aliança e mandou que o celebrássemos em sua memória. Sua carne imolada por nós é o alimento que nos fortalece, e o seu sangue por nós derramado, é a bebida que nos purifica.” (V oração eucarística).

Nosso Senhor Jesus Cristo é a realização plena de todas as promessas de salvação feita por Deus Pai aos homens de todos os tempos.

Desde a queda do homem, Deus promete a salvação, e todo o Antigo Testamento das Sagradas Escrituras é a preparação dessa salvação prometida por Deus; e, tanto a vinda de Jesus Cristo como toda a sua vida, a sua paixão, morte e ressurreição e ascensão aos céus, tudo isso aconteceu como havia sido anunciado pelos profetas e Santos do Antigo Testamento.

E tudo o que o Senhor Jesus fez, falou e ensinou em toda a sua vida, deve ser aceito e vivido por todos aqueles que dizem e acreditam que ele é a Salvação que vem de Deus.

Não adianta dizermos que Jesus Cristo é o Filho de Deus, não adianta dizermos que Jesus Cristo é Deus se duvidamos ou não acreditamos em qualquer coisa que ele tenha feito, falado ou ensinado.

O Frei Agostinho escreveu na revista “Cavaleiro da Imaculada de junho do 1984:

·         Quando, na última ceia, Jesus Cristo tomou em suas mãos o pão e o abençoou, dizendo: “Isto e o meu corpo”, e depois, sobre o cálice com vinho, disse: “Este é o cálice do meu sangue”, os apóstolos acreditaram na palavra de Jesus, porque, realmente Jesus Cristo havia dito que o pão era o seu corpo e o vinho era o seu sangue, e não somente representava isso. Os apóstolos acreditaram porque já haviam se convencido inúmeras vezes que as palavras de Jesus Cristo sempre foram eficientes; o que Jesus dizia, ele fazia. Quando Jesus sarava os doentes, os doentes ficavam realmente curados; quando Jesus mandava sair dos espíritos imundos, os espíritos imundos, mesmo contra a sua vontade, imediatamente saiam; quando Jesus mandou que se acalmassem as ondas do mar tumultuado, no mesmo instante a tempestade passou; quando Jesus resolveu matar a fome de milhares de pessoas com cinco pães e dois peixes, Jesus multiplicou  os pães de tal sorte que as multidões ficaram  fartamente saciadas; quando Jesus mandou sair Lázaro do túmulo mesmo já estando em adiantado estado de decomposição, Lázaro saiu vivo e perfeito do túmulo; quando Jesus mandou que o filho da viúva de Naim se levantasse de seu caixão mortuário, imediatamente aquele moço se levantou cheio de vida e saúde e foi devolvido para a sua mãe. Nenhuma palavra de Jesus foi frustrada ou desmentida. E por isso a nossa Santa Igreja nos ensina ao longo do tempo, ao longo de toda a sua história, com toda fé e veneração, que o pão consagrado e o vinho consagrado são verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo entregue na cruz e derramado por todos os pecados dos homens em todos os tempos. Jesus Cristo não somente realizou este ato pessoalmente na última ceia, mas, o que é mais importante mandou e autorizou os seus apóstolos e os sucessores dos apóstolos de todos os tempos a repetirem esse mesmo ato por toda a eternidade, quando disse: “Fazei isso em minha memória”. E os Apóstolos, enquanto tiveram vida, repetiram esse ato de Jesus com a fé e convicção firme de que o pão e o vinho que eles consagravam sobre o altar eram realmente corpo e o sangue de Jesus Cristo. E hoje, todos os sacerdotes da Igreja Católica Apostólica Romana, em todos os tempos e lugares, devidamente ordenados, repetem esse ato de Jesus ao longo dos tempos, até os confins do mundo. E nós, cristãos, assim instruídos, acreditamos na presença real, mesmo que sacramental, de Jesus Cristo na Sagrada Eucaristia. Acreditamos piamente que Jesus Cristo está realmente presente na Eucaristia com o seu corpo, sangue alma e divindade, não porque entendemos esse mistério, mas porque, e acima de tudo, simplesmente acreditamos cegamente nas palavras e atitudes de Jesus Cristo. Ele nunca nos enganou; ele nunca mentiu. E por isso, com que amor então deveríamos nós correr para participarmos da Santa Missa. Com que amor e devoção deveríamos fazer visitas nas igrejas onde Jesus Cristo está presente verdadeiramente nos sacrários. Com que ansiedade, preparação e gratidão deveríamos comungar todas as vezes quantas nos forem possíveis. Será que as nossas atitudes de cristãos correspondem aos desejos de Jesus? Será que nós temos fé nas palavras de Jesus de verdade, ou somos iguais àqueles que acreditam somente em parte nas palavras de Jesus e colocam outras partes em dúvidas? Devemos pedir, e pedir muito à Santíssima Virgem Maria que nos dê aquela fé viva, bem viva que ela mesma viveu e praticou em todos os momentos de sua caminhada. Quanto mais nos aproximarmos da Eucaristia, tanto mais viveremos plenamente a nossa vida cristã. E é isso que o próprio Senhor Jesus deseja e espera de cada um de nós...”