sexta-feira, 9 de julho de 2021

 

SANTA MADRE PAULINA DO CORAÇÃO AGONIZANTE DE JESUS - 1865-1942

 

Fundou a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição.

Amábile Lúcia Visintainer nasceu no dia 16 de dezembro de 1865, em Vigolo Vattaro, província de Trento, no norte da Itália. Foi a segunda filha do casal Napoleão e Anna, que eram ótimos cristãos, mas muito pobres. Nessa época, começava a emigração dos italianos, movida pela doença e carestia que assolava a região. Foi o caso da família de Amábile, que em setembro de 1875 escolheu o Brasil e o local onde muitos outros trentinos já haviam se estabelecido no estado de Santa Catarina, em Nova Trento, na pequena localidade de Vigolo.

Assim que chegou, Amábile conheceu Virgínia Rosa Nicolodi e tornaram-se grandes amigas.

As duas se confessam apaixonadas pelo Senhor Jesus e não era raro encontrá-las, juntas, rezando fervorosamente. Fizeram a primeira comunhão no mesmo dia, quando Amábile já tinha completado doze anos de idade. Logo em seguida, o padre Servanzi a iniciou no apostolado paroquial, encarregando-a da catequese das crianças, da assistência aos doentes e da limpeza da capela de seu vilarejo, Vigolo, dedicada a são Jorge. Mas mal sabia o padre que estaria confirmando a vocação da jovem Amábile para o serviço do Senhor. Amábile incluía, sempre, Virgínia nas atividades para ampliar o campo de ação.

Dedicava-se de corpo e alma à caridade, servia consolando e ajudando os necessitados, os idosos, os abandonados, os doentes e as crianças. As obras já eram reconhecidas e notadas por todos, embora não soubesse que já se consagrava a Deus. Com a permissão de seu pai, Amábile construiu um pequeno casebre, num terreno doado por um barão, próximo à capela, para lá rezar, cuidar dos doentes, instruir as crianças. A primeira paciente foi uma mulher portadora de câncer terminal, a qual não tinha quem lhe cuidasse. Era o dia 12 de julho de 1890, data considerada como o dia da fundação da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, que iniciou com Amábile e Virgínia atuando como enfermeiras.

Essa também foi a primeira congregação religiosa feminina fundada em solo brasileiro, tendo sido aprovada pelo bispo de Curitiba, em agosto 1895.

Quatro meses depois, Amábile, Virgínia e Teresa Anna Maule, outra jovem que se juntou a elas, fizeram os votos religiosos; e Amábile recebeu o nome de irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Também foi nomeada superiora, passando a ser chamada de madre Paulina.

A santidade e a vida apostólica de madre Paulina e de suas irmãzinhas atraíram muitas vocações, apesar da pobreza e das dificuldades em que viviam. Além do cuidado dos doentes, das crianças órfãs, dos trabalhos da paróquia, trabalhavam também na pequena indústria da seda para poderem sobreviver.

Em 1903, com o reconhecimento de sua obra, madre Paulina foi convidada a transferir-se para São Paulo. Fixando-se junto a uma capela no bairro do Ipiranga, iniciou a obra da "Sagrada Família" para abrigar os ex-escravos e seus filhos depois da abolição da escravatura, ocorrida em 1888.

Em 1918, madre Paulina foi chamada à Casa-geral, em São Paulo, com o reconhecimento de suas virtudes, para servir de exemplo às jovens vocações da sua congregação. Nesse período, destacou-se pela oração constante e pela caridosa e contínua assistência às irmãzinhas doentes.

Em 1938, acometida pelo diabetes, iniciava um período de grande sofrimento, iniciando com a amputação do braço direito, até a cegueira total. Madre Paulina morreu serenamente no dia 9 de julho de 1942, na Casa-geral de sua congregação, em São Paulo.

Ela foi beatificada pelo papa João Paulo II em 1991, quando o papa visitou, oficialmente, o Brasil. Depois, o mesmo pontífice canonizou-a em 2002, tornando-se, assim, a primeira santa do Brasil.

São lembrados também, neste dia: Bem-aventurados Agostinho Zhao Rong e 119 companheiros (mártires da China), São Nicolau Pik, Santa Everilda, Santa Anatólia, Santa Verônica Giuliani, São Betelino de Croyland (eremita), São Cirano de Clonmacnoise (abade), Santos Jacinto, Alexandre e Tibúrcio (mártires de Roma).

quinta-feira, 8 de julho de 2021

 

MARIA, MÃE DE MISERICÓRDIA

 

“Maria é Rainha. Tendo sido a Santíssima Virgem elevada à dignidade de Mãe de Deus, com justa razão  a Santa Igreja a honra e quer que de todos seja honrada com o título glorioso de Rainha. Se o filho de Maria é Rei, justamente a Mãe deve considerar-se e chamar-se Rainha.

Desde o momento em que Maria  aceitou ser a Mãe do Verbo Encarnado, do Verbo Eterno, mereceu tornar-se Rainha do mundo e de todas as criaturas. Se a carne de Maria não foi diferente da carne de Jesus, como então pode a monarquia do Filho ser separada da Monarquia da Mãe? Por isso deve julgar-se que a glória do Reino não só é comum  entre a Mãe e o Filho, mas também que é a mesma entre ambos. Se Jesus é o Rei do Universo, Maria também é a Rainha do Universo, de modo que, conforme diz São Bernardino de Sena, quantas são as criaturas que servem a Deus, tantas também devem servir a Maria.     

Por conseguinte, estão sujeitos ao domínio de Maria os Anjos, os homens e todas as coisas do céu e da terra, porque tudo está também sujeito ao império de Deus.

E é por isso que o Abade Guerrico dirige estas palavras a Maria: “Continuai, pois, a dominar com toda a confiança; disponde a vosso arbítrio dos bens do vosso Filho, pois, sendo Mãe e Esposa do Rei dos Reis, pertence-vos, como Rainha, o reino e o domínio de todas as criaturas.” Maria é a Rainha de Misericórdia. Mas, para consolo nosso, Maria é uma Rainha cheia de doçura e clemência sempre inclinada e disposta a favorecer e fazer bem a nós, pobres pecadores.

E é por isso que a Igreja quer que saudemos Maria em oração com o título de “Salve Rainha, Mãe de Misericórdia.” ... Maria é uma Rainha, mas não uma Rainha de justiça, zelosa de aplicar o castigo aos malfeitores. Maria é Rainha de Misericórdia, inclinada só à piedade e ao perdão dos pecadores. Por isso quer a Igreja que expressamente chamemos Maria de “Rainha de Misericórdia”.

... E isso, por todos nós, miseráveis filhos de Adão, é motivo de nos alegrarmos , considerando que temos no céu esta Rainha toda cheia  de amor e misericórdia e piedade para com todos nós. ... O Coração de Maria, como Rainha, é tão bom e compassivo , que não deixa voltar de mãos vazias quem quer que a invoque, qualquer um de seus devotos... ...

E São Bernardo diz  à Maria, em oração: “Mas como podereis vós, `Maria, deixar de socorrer os infelizes, se vós sois  a Rainha de Misericórdia? E quem são os súditos da misericórdia senão os miseráveis? Sois a Rainha de Misericórdia, e eu, entre os pecadores, sou o mais miserável, logo, se eu, por ser o mais miserável, sou o maior dos vossos súditos, vós deveis ter mais cuidado de mim do que de todos os outros.” E São Gregório de Nicomédia diz também em oração: “Tende piedade de nós, ò Rainha de Misericórdia, e cuidai em salvar-nos. Não digais, ò Virgem Santíssima que não vos é possível socorrer-nos por ser grande a multidão dos nossos pecados. Pois não há numero de culpa que possa exceder  ao vosso poder e amor. Tão grandes são eles. Nada resiste ao vosso poder, pois nosso comum Criador, honrando-vos como Mãe, estima como sua a vossa glória.”

Quanta, pois, não deve ser  a nossa confiança nessa Rainha, sabendo nós o quanto é ela poderosa diante de Deus e cheia de misericórdia para com todos os homens.” (do livro - Glórias de Maria Santíssima - de Santo Afonso Maria de Ligouri - pg de 23 a 28).

quarta-feira, 7 de julho de 2021

 

MARIA, CONSOLO DAS MÃES ATRIBULADAS

 

É muito comum ouvirmos mães reclamarem que seus filhos adolescentes em lhe trazendo desgostos, apreensão, contra tempos e muitas tristezas. Dizem que seus filhos estão envolvidos com pessoas perigosas, participam de brigas, e muitas mães desconfiam que seus filhos adolescentes estejam fazendo uso de drogas.

E essas mães, nesses desabafos, nessa angústia, perguntam o que poderia ser feito numa situação como essa. Esse é um problema muito comum nas nossas famílias, hoje em dia.

Jovens desajustados, carentes de compreensão, de afeto, do diálogo familiar e, por isso, partem para novas aventuras, procurando fora o que não encontram dentro de suas casas, com os pais, com  os irmãos.

Um jovem que em casa não encontra a compreensão dos pais para ajudá-lo a superar e solucionar os seus problemas, que para ele não são poucos, não tem o afeto e o apoio da família quando enfrentam contra tempos, não tem diálogo em casa para, numa conversa franca e leal expor os seus problemas, as suas dúvidas, os seus receios, as suas amarguras, as suas desilusões, esse jovem logicamente tem necessidade de alguém que lhe dê atenção, que lhe ouça, de alguém que o compreende, de alguém que o apoie, e quando não encontra isso dentro de sua própria casa, com sua família, com seus pais, ele procura fora de casa, longe da família, pessoa ou pessoas que perdem um tempinho para ouvi-lo.

Mas, infelizmente, essas pessoas geralmente não são bem intencionadas, não são as mais recomendadas para servirem de conselheira para esse jovem necessitado. São pessoas que, a princípio, ouve o jovem com carinho e atenção, mas depois pervertem a sua personalidade, os seus costumes, e o introduz numa vida diferente e perigosa.

Mas, mesmo assim o jovem se sente bem, porque está encontrando naquela pessoa, ou naquele grupo de pessoas o que a família não lhe dá, o que ele não encontra no seio de sua família, o que os pais lhe negam: o diálogo, a atenção, a compreensão.

Na maioria das vezes a família dá tudo para o jovem: dá comida, dá roupas, dá clubes, dá piscina, dá motos, mas não dá o essencial, não dá aquilo que o jovem na sua idade, necessita: não lhe dá amor, atenção, diálogo. 

Os pais, muitas vezes, dão tudo para o jovem mais para se ver livre dele, para que ele não perturbe, e para que ele viva a sua própria vida, e, a partir daí  vemos tantos jovens em suas motos pondo em risco a sua vida e a vida dos outros, fazendo rachas nas avenidas, e, de vem em quando, tristemente, o rádio, o jornal noticiam a morte de um ou outro que, no desespero, procuram encontrar na velocidade e no ronco de sua moto o amor, o carinho, o afeto que seus pais não lhe dão. Essas mães que reclamam de seus filhos e que põe em evidência os defeitos e o mau caminho escolhido por seu filho,  talvez ainda não teve tempo de sentar e procurar ver qual foi sua parcela de culpa no desencaminhamento de seu filho.

Os pais geralmente criticam as atitudes de seus filhos, briga, gritam, e, muitas vezes até agridem o jovem, mas não tem a coragem de entrar dentro de si próprios para ver até onde a culpa é sua. Todos temos culpas no desencaminhamento de um jovem, de uma jovem.

E, geralmente, a culpa está dentro do próprio lar do jovem, que, no momento em  que eles mais precisam de amor, de afeto, de compreensão, de carinho e de diálogo, os pais lhe negam isso porque, dizem, tem coisas mais importantes para fazer.

É o momento de nós, pais, pararmos um pouquinho para verificar como está o nosso relacionamento com nossos filhos dentro de nossas casas.            E se tiver alguma coisa que está deixando os nossos filhos jovens e adolescentes com algum grilo, como eles mesmo dizem, é o momento do diálogo, da atenção, da conversa franca e sincera.

Nunca podemos nos esquecer que  nós pais já tivemos a idade que os nossos filhos tem hoje, e por isso nós temos e devemos ter condições de nos abaixarmos até eles, mas eles nunca tiveram a idade que temos agora, e eles jamais poderão estar na altura e compreensão que gostaríamos que eles estivessem.

Pai, mãe, querem evitar que seus filhos tenham grilos? Conversem  constantemente com eles; conversem muito com eles, e o que é o mais importante: procure ouvir mais do que falar...

terça-feira, 6 de julho de 2021

 

SANTA MARIA GORETTI

 

Maria Teresa Goretti, nascida em Corinaldo, Província de Ancona, Itália, a 16 de outubro de 1890 e falecida em Nettuno, na mesma Província, em 06 de julho de 1902, Itália, com 11 anos de idade, foi uma jovem católica italiana, declarada santa, com festa comemorada no mesmo dia de sua morte. Morreu como consequência dos ferimentos infligidos durante uma tentativa de estupro, ao escolher o martírio. Filha de Luigi Goretti e Assunta Carlini. Era a terceira de seis filhos. Suas irmãs chamavam-se Teresa e Ersilia; seus irmãos eram Angelo, Sandrino e Mariano.

Quando tinha seis anos, sua família tornou-se tão pobre que foram forçados a deixar sua fazenda e trabalhar para outros fazendeiros. Em 1899, mudaram-se para Le Ferriere, próximo a atual Latina e Nettuno, em Lázio, onde viviam em um prédio conhecido como "La Cascina Antica", compartilhada com a família Serenelli, cujo filho Alessandro Serenelli viria a ser seu algoz, três anos depois.

O pai de Maria contraiu malária e morreu quando esta tinha apenas nove anos, em 6 de maio de 1900. Enquanto seus irmãos, mãe e irmãs mais velhas trabalhavam nos campos, Maria cozinhava, limpava a casa e cuidava de sua irmã menor. Era uma vida difícil, mas a família estava sempre próxima, compartilhando um profundo amor por Deus e sua fé.

Em 5 de julho de 1902, Alessandro, então com 20 anos, encontrou a menina de 11 anos costurando, sozinha em casa. Ele entrou e a ameaçou de morte se ela não fizesse o que ele mandava. A intenção do rapaz era estuprá-la, porém, ela não se submeteu, ajoelhou-se, protestando que seria um pecado mortal e avisando Alessandro que poderia ir para o inferno. Ela desesperadamente lutou para evitar o estupro, gritava "Não! É um pecado! Deus não gosta disto!". Alessandro primeiro tentou controlá-la, mas como ela insistia que preferia morrer, ele a apunhalou onze vezes. Ferida, Maria tentou alcançar a porta, mas ele a agarrou e deu mais três punhaladas, antes de fugir.

A irmã menor de Maria acordou com o barulho e começou a chorar. Quando o pai de Alessandro e a sua mãe chegaram, encontraram Maria sangrando. Levaram-na para o hospital em Netuno. Ela foi operada, sem anestesia, mas os ferimentos estavam além da capacidade dos médicos. Durante a cirurgia, Maria recobrou os sentidos e insistiu que preferia ficar acordada. O farmacêutico do hospital respondeu: "Maria, quando estiveres no céu, pense em mim" Ela olhou para o homem e disse: "Mas quem sabe qual de nós chegará primeiro ao céu?" Ele respondeu "Você, Maria". "Então ficarei feliz em pensar em você". No dia seguinte, ela perdoou seu agressor e afirmou que gostaria de encontrá-lo no céu. Morreu vinte horas após o ataque enquanto olhava uma bela pintura da Virgem Maria. Inspirada em suas mestras Santa Cecília e Santa Inês, aceitou o martírio piedosamente.

Alessandro Serenelli foi capturado logo após a morte de Maria. Inicialmente, seria condenado à prisão perpétua, mas como era menor, a sentença foi comutada para 30 anos na prisão. Ele manteve-se isolado do mundo por três anos, sem demonstrar arrependimento. Até o bispo local, Monsenhor Giovanni Blandini visitá-lo na cadeia. Serenelli escreveu uma nota de agradecimento ao bispo, pedindo que o incluísse em suas orações e contando sobre um sonho que tivera, onde a santa lhe alcançava flores, que se queimavam imediatamente em suas mãos.

Após sair da prisão, visitou a mãe de Maria, Assunta, e implorou seu perdão. Ela respondeu que se a filha lhe havia perdoado em seu leito de morte, ela não poderia fazer diferente. No seguinte, ambos foram juntos a Santa Missa, recebendo a Eucaristia lado a lado. Ele foi aceito na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, vivendo em um monastério e trabalhando como recepcionista e jardineiro até morrer tranquilamente em 1970. Referia-se a Maria como "sua pequena santa" e esteve presente na sua canonização.

Em 27 de abril de 1947, o Papa Pio XII celebrou a cerimonia de beatificação na Basílica de São Pedro. Ao final da celebração, o Papa caminhou até Assunta, a mãe de Maria. "Quando eu vi o Papa vindo na minha direção, eu rezei, Nossa Senhora, por favor me ajude. Ele colocou sua mão na minha cabeça e disse, abençoada mãe, feliz mãe, mãe de uma abençoada por Deus. Ambos tinham lágrimas nos olhos.

Três anos após, em 24 de Junho de 1950, o Papa Pio XII canonizou Goretti como santa, a "Santa Agnes do século XX". Assunta estava presente na cerimonia, junto com os quatro irmãos e irmãs ainda vivos. Segundo algumas fontes, ela foi a primeira mãe a estar presente na canonização de seu filho. Mas, talvez, seja a segunda, pois a mãe de São Luiz Gonzaga talvez tenha estado presente na sua canonização. Alessandro Serenelli também estava presente na celebração.

A celebração foi realizada na Praça São Pedro, em frente à Basílica. Uma multidão de 500.000 pessoas assistiu à celebração, na sua maioria jovens, vindos de vários países do mundo. O Papa perguntou a eles: "Jovens, prazer ao olhos de Jesus, vocês estão determiandos a resistir a todos os ataques à castidade com a ajuda da graça de Deus?"A resposta foi um grande "sim".

Os três irmãos contaram que Santa Maria Goretti interveio miraculosamente nas suas vidas. Angelo ouviu sua voz orientando-o a emigrar para a América. Sandrino recebeu uma quantia de dinheiro para pagar sua viagem aos EUA, de maneira inesperada. Faleceu em 1917, ao lado do irmão Angelo. Este, por sua vez, faleceu em 1964, quando retornou para a Itália. O terceiro irmão, Mariano, enquanto lutava na Primeira Grande Guerra, recebeu ordens de abandonar a trincheira e atacar. Neste momento, teve uma visão de Santa Maria Goretti dizendo-lhe para desobedecer e permanecer na trincheira. De todo batalhão, ele foi o único a salvar-se. 

Seu corpo é mantido em uma cripta na Basilica de Santa Maria delle Grazie e Santa Maria Goretti, em Nettuno, ao sul de Roma.

Maria Goretti, humilde camponesa, nasceu em 16 de outubro de 1890 na cidade de Corinaldo, província de Ancona, Itália. Seus pais, Luiz e Assunta, criavam os sete filhos em meio à penúria de uma vida de necessidades, mas dentro dos preceitos ditados por Jesus Cristo.

A menina Maria, por ser a mais velha, cresceu cuidando dos irmãos pequenos em casa, enquanto os pais labutavam no campo. Uma de suas irmãs, mais tarde, tornou-se freira franciscana. As dificuldades financeiras eram tantas que a família migrou de povoado em povoado até fixar-se num povoado inóspito chamado Ferrieri. Nessa localidade, a família passou a residir na mesma propriedade de João Sereneli, ancião de sessenta anos de idade que tinha dois filhos, Gaspar e Alexandre, este com dezoito anos de idade. Assim, todos trabalhavam na lavoura enquanto a jovem Maria cuidava da casa e dos irmãos pequenos. Desse modo, Maria nunca pôde estudar, mas ao lado da família sempre freqüentou a igreja.

Ela só estudou o catecismo para fazer a primeira comunhão, aos doze anos de idade, um ano após a morte de seu pai. Quando isto ocorreu, o senhor João, compadecido, manteve tudo como estava, contando apenas com a viúva para o trabalho na lavoura.

Porém o problema era seu filho Alexandre, que passara a assediar Maria. Apesar da pouca idade, ela era bonita e bem desenvolvida, já atraindo os olhares masculinos. Como recusasse todas as aproximações do rapaz, este se irritou ao extremo. Até que, no dia 5 de julho de 1902, ele perdeu a razão e a tragédia aconteceu. Naquele dia, Alexandre trabalhava ao lado de Assunta quando inventou um pretexto, deixou a lavoura. Foi para o lar dos Goretti portando uma barra de ferro com ponta afiada, sabia que Maria estaria sozinha e indefesa. Primeiro insinuou, depois exigiu, por fim ameaçou a jovem de morte se não satisfizesse seus desejos. Mesmo temendo o pior, Maria resistiu dizendo que aquilo era um pecado mortal. Alexandre, transtornado por não alcançar seu intento, passou a golpear violentamente o corpo da menina. Ela ainda foi levada com vida a um hospital, após ser vitimada com quatorze perfurações.

E teve tempo de perdoar seu agressor, pedindo a sua mãe e seus irmãos que fizessem o mesmo, por amor a Jesus. Maria Goretti morreu no dia seguinte ao ataque, no dia 6 de julho de 1902. Quanto a Alexandre, foi preso, quase linchado e condenado a trabalhos forçados. Porém, depois de vinte e sete anos de prisão, foi solto por bom comportamento. Depois de ir a Corinaldo pedir perdão à mãe de Maria Goretti, ingressou num convento capuchinho, onde viveu sua sincera conversão até morrer.

Muitos milagres passaram a acontecer por intercessão da pequena menina virgem. A fé na sua santidade cresceu e espalhou-se de tal forma no mundo cristão que, em 1950, ela foi canonizada. Na solenidade, estava presente a sua mãe Assunta, então com oitenta e quatro anos, ao lado de quatro de seus filhos e Alexandre Sereneli, o agressor sinceramente convertido.

O papa Pio XII declarou santa Maria Goretti padroeira das virgens cristãs.

Até hoje continuam as romarias ao Santuário de Nossa Senhora das Graças, em Nettuno, onde se encontra a sepultura da santa, há dez quilômetros do povoado onde tudo aconteceu.

São comemorados, também, neste dia: Bem-aventurada Maria Teresa Ledochowska, Santa Domingas de Campânia (virgem emártir), Santa Edana de Polesworth (virgem), São Goar de Aquitânia (presbítero), Santa Godeva de Bhistelles (mártir), Santo Isaias (profeta do Antigo Testamento).

segunda-feira, 5 de julho de 2021

 

SÃO TOMÉ APÓSTOLO

 

Tomé (ou Tomás) Apóstolo foi um dos doze apóstolos originalmente escolhidos por Jesus, segundo os Evangélios sinóticos e os Atos dos Apóstolos (Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,15)) havendo pouco registro além disso.

Alguns teólogos têm mantido discordâncias a respeito da verdadeira identidade de São Tomé. Tomé ou Tomás não era propriamente um prenome, mas sim a palavra equivalente a gêmeo, vindo do aramaico, e posteriormente traduzida para o grego Didymus. Essa palavra aparece composta com o prenome Judas nalguns trechos bíblicos.

Tomé aparece numas poucas passagens no Evangelho de João. Em João 11,16, quando Lázaro morre, os discípulos resistem à decisão de Jesus para que retornem à Judéia onde os judeus tentaram apedrejar Jesus. O Mestre está determinado, mas é Tomé que toma a palavra final: "Vamos todos, pois poderemos morrer com Ele". Alguns interpretam esse como uma antecipação ao conceito teológico paulina de "morrer com Cristo".

Ele também fala na Última Ceia, em João 14,5. Jesus assegura a seus discípulos que eles sabem aonde ele irá, mas Tomé protesta que eles não sabem de fato. Jesus retruca a ele aos pedidos de Filipe com uma complexa exposição de seu relacionamento com O Pai.

A aparição mais famosa de Tomé no Novo Testamento está em João 20,24-29, quando ele duvida da ressurreição de Jesus e afirma que necessita sentir suas chagas antes de se convencer. Essa passagem é a origem da expressão "Tomé, o incrédulo" bem como de diversas tradições populares similares, tal como "Fulano é feito São Tomé: precisa ver para crer". Após ver Jesus vivo, Tomé professa sua fé em Jesus; a partir de então ele é considerado "Tomé, o Crente" .

Epílogo

Da mesma forma que se acredita que Pedro e Paulo disseminaram as sementes do cristianismo pela Grécia e Roma, Marcos pelo Egito, e João pela Síria e Ásia Menor, Tomé teria levado a Palavra à Índia, tendo sido o primeiro dos católicos do leste. Como "prova" das passagens de São Tomé pelo mundo, são-lhe atribuídas formas e marcas em pedras que se assemelham a pegadas, algumas de tamanho gigantesco. É o caso, por exemplo, da lenda sobre a "pegada" no Pico de Adão.

De acordo com A passagem de Maria, um texto da Alta Idade Média atribuído a José de Arimatéia, Tomé foi a única testemunha da Assunção de Maria aos céus. Os outros apóstolos foram miraculosamente transportados a Jerusalém para observar sua morte. Tomé, que já estava na Índia, após o funeral fora transportado à tumba dela, onde testemunhou o corpo de Maria subir aos céus, jogando-lhe seu cinto. Numa inversão à imagem de ceticismo vinculada a Tomé, os outros apóstolos é que duvidaram de seu relato até verem a tumba vazia e o cinto. O recebimento do cinto por Tomé é representado várias vezes na arte medieval e pré-tridentina.

São lembrados também, neste dia: São Leão II (papa), Santo Anatólio, Santos Irineu e Mustíola (mártires), São Jacinto da Capadócia (mártir), Santos Júlio, Aarão e companheiros (mártires).


domingo, 4 de julho de 2021

 

SÃO PEDRO E SÃO PAULO

 

RECONHECER E TESTEMUNHAR QUE JESUS É O MESSIAS

 

Ano – B; Cor – Vermelho; Leituras: At 12,1-11; Sl 33; 2Tm 4,6-8.17-18; Mt 16,13-19.

 

Diácono Milton Restivo

 

Celebramos, neste fim de semana, a festa dos Apóstolos que consideramos as duas colunas mestras da nossa Igreja: Pedro e Paulo.

Para ambos, o chamamento de Cristo para o apostolado foi muito diferente, em épocas diferentes, de modo diferente e viveram seus apostolados de maneira diferente, mas com todo o fervor, culminando por dar a vida para testemunharem os ensinamentos de Cristo e o grande amor que Jesus teve por todos e cada um de nós, e isso para confirmar a desigualdade dentro da unidade da Igreja de Jesus Cristo.

 

Conheçamos Pedro.

Pedro, inicialmente pescador da Galiléia, tornou-se discípulo e depois apóstolo de Jesus quando Jesus “andava à beira do mar da Galiléia, quando viu dois irmãos, Simão, também chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam jogando a rede no mar, pois eram pescadores. Jesus disse para eles: ‘Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens’. Eles deixaram imediatamente as redes e seguiram a Jesus”. (Mt 4,18-20).

Não temos dados quanto à data de seu nascimento e as principais fontes de informação sobre sua vida são os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João).

Pedro é sempre abordado com destaque em todas as narrativas evangélicas, nos Atos dos Apóstolos, nas epístolas de Paulo, tendo escrito duas epístolas.

Pedro, conforme consta no Evangelho de Mateus, era filho de Jonas (Mt 16,17) e irmão do apóstolo André (Mt 4,18). Seu nome original era Simão tendo Jesus, no encontro inicial, mudado seu nome para Pedro: “Jesus olhou bem para Simão e disse: “Você é Simão, o filho de Jonas. Você vai se chamar Cefas (que quer dizer Pedra = Pedro).” (Jo 1,42).

Jesus, além de mudar-lhe o nome, escolheu-o como chefe da cristandade toda, o primeiro Papa da Igreja, tendo sida mantida a sucessão apostólica petrina até os dias de hoje na pessoa do papa Francisco: “E eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares sobre a terra, será ligado também nos céus” (Mt 16,18-19). 

Na época de seu encontro com Jesus Pedro morava na cidade de Cafarnaum com a família de sua mulher: “Jesus saiu da sinagoga e foi para a casa de Simão. A sogra de Simão estava com febre alta, e pediram a Jesus em favor dela.” (Lc 4,38).

Chamado ao discipulado e apostolado por Jesus, despontou como líder dos doze apóstolos: “Pedro levantou-se no meio dos irmãos, e falou...” (At 1,15).  Foi o primeiro a perceber em Jesus o filho de Deus: “Simão Pedro respondeu: ‘Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.” (Mt 16,16).

Junto com seu irmão André e os irmãos Tiago e João Evangelista, fez parte do círculo íntimo de Jesus entre os doze, participando dos mais importantes milagres do Mestre sobre a terra, como, por exemplo, na transfiguração: “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E se transfigurou diante deles.” (Mt 17,1-8; Mc 9,2,8; Lc 9,28-36); na ressurreição da filha de Jairo: Estando Jairo ainda falando, chegou um da casa do príncipe da sinagoga, dizendo: A tua filha já está morta; não incomodes o Mestre. 50 Jesus, porém, ouvindo-o, respondeu-lhe, dizendo: Não temas; crê somente, e será salva. E, entrando em casa, a ninguém deixou entrar, senão a Pedro, e a Tiago, e a João, e ao pai, e a mãe da menina”. (Lc 8,40-56; Mt 9,18-26; Mc 5,21-43); na oração final do Getsêmani: Eles chegaram a um lugar  chamado Getsêmani. Então Jesus disse aos discípulos: ‘Sentem-se aqui, enquanto eu vou rezar’. Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a ficar com medo e angústia.” (Mt 26,37-46; Mc 14,32-42).

Teve, também seus momentos controversos, como quando usou a espada para defender Jesus na ocasião em que o prendiam, muito embora os evangelhos não citem o nome do agressor, mas, pela sua impetuosidade, a tradição atribuiu esse gesto a Pedro: “Nesse momento, um dos que estavam com Jesus estendeu a mão, puxou da espada, e feriu o empregado do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha”. (Mt 26,51; Mc 14,47; Lc 22,50) e na passagem da tríplice negação: “Eles prenderam e levaram Jesus, e o conduziram à casa do sumo sacerdote. Pedro seguia Jesus de longe. Acenderam uma fogueira no meio do pátio, e sentaram-se ao redor. Pedro sentou-se no meio deles. Ora, uma criada viu Pedro sentado perto do fogo. Encarou-o bem, e disse: ‘Este aqui também estava com Jesus’. Mas Pedro negou: ‘Mulher, eu nem o conheço’. Pouco depois, outro viu Pedro, e disse: ‘Você também é um deles’. Mas Pedro respondeu: ‘Homem, não sou, não’. Passou mais ou menos uma hora, e outro insistia: ‘De fato, este aqui também estava com Jesus, porque é galileu.’ Mas Pedro respondeu: ‘Homem, não sei do que está falando.’ Nesse momento, enquanto Pedro ainda falava, um galo cantou. Então o Senhor se voltou e olhou para Pedro. E Pedro se lembrou do que o Senhor lhe havia dito: ‘Hoje, antes que o galo cante, você me negará três vezes. Então Pedro saiu para fora e chorou amargamente.” (Lc 22,54-62; Mt 26,69-75; Mc 14,66-72; Jo,18,15-18.25-27).

Apesar de, em situações normais e que não ofereciam riscos, Pedro demonstrar uma coragem aparente e inconsequente, nos momentos que eram exigidas essa coragem, Pedro fraquejou, como aconteceu na tríplice negação e depois da prisão e morte de Jesus, juntamente com os demais, fugiram e se esconderam com medo dos judeus: “Então, todos os discípulos, abandonando-o, fugiram.” (Mt 26,56); “À tarde do mesmo dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas onde se achavam os discípulos, por medo dos judeus, Jesus veio e, pondo-se no meio deles, lhes disse: ‘A paz esteja convosco.’ [...] “Oito dias depois, achavam-se os discípulos, de novo, dentro de casa, e Tomé com eles. Jesus veio, estando as portas fechadas, pôs-se no meio deles e disse: ‘A paz esteja convosco.’” (Jo 20,19-21.26).

Após a Ascensão de Jesus, Pedro presidiu a assembléia dos apóstolos que escolheu Matias para substituir Judas Escariotes (At 1-15-26), fez seu primeiro sermão no dia de Pentecostes (2,14-36), e peregrinou por várias cidades. 

Pedro batizou e incluiu na Igreja de Jesus Cristo o primeiro não judeu e toda a sua família, o centurião Cornélio, conforme constatamos nos Atos dos Apóstolos, capítulo 10.

Fundou as linhas apostólicas de Antioquia e Síria (as mais antigas sucessões do Cristianismo, precedendo as de Roma em vários anos) que sobrevivem em várias ortodoxias Sírias.

Escreveu duas Epístolas e, provavelmente, foi a fonte de informações para que Marcos escrevesse seu Evangelho. Encontrou-se com Paulo Apóstolo em Jerusalém (cf Gl 1,19; 2,9), e apoiou a iniciativa de Paulo de Tarso de incluir os não judeus na fé cristã, sem obrigá-los a participarem dos rituais de iniciação judaica.

Após esse encontro, foi preso por ordem do rei Agripa I, encaminhado à Roma durante o reinado de Nero, onde passou a viver. Ali fundou e presidiu à comunidade cristã, base da Igreja Católica Apostólica Romana, e, por isso, segundo a tradição, Pedro foi executado por ordem do imperador de Roma, Nero.

Conta-nos a tradição que Pedro pediu aos carrascos para ser crucificado de cabeça para baixo, por se julgar indigno de morrer na mesma posição de Cristo Salvador, a quem havia negado por três vezes. O túmulo de Pedro encontra-se sob a catedral de São Pedro, no Vaticano, e é autenticado por muitos historiadores.

 

Conheçamos Paulo.

Paulo se chamava também Saulo (At 13,9), nome hebraico derivado de Saul, o primeiro rei dos israelitas, que significa pedido.  Era judeu por descendência e romano por cidadania devido à importância de sua cidade natal no Império (At 16,37; 22,25-30). 

Paulo era seu nome romano, considerando a sua cidadania romana, derivado do latim Paulus, que significa pequeno: “Então Saulo, também chamado Paulo...” (At 13,9).

Paulo nasceu em Tarso, cidade principal da Cilícia (At 21,39), possivelmente entre os anos 5 e 10 dC e é conhecido como o grande apóstolo dos gentios, povos não judeus. Descendia de uma família hebréia da tribo de Benjamin (At 23,6; Fl 3,5), que havia obtido a cidadania romana, de grandes posses e prestígio político. Seus pais, sendo como eram, fiéis à lei mosaica, o mandaram logo para Jerusalém para ser educado lá e onde moravam sua irmã e seu sobrinho (At 23,16; 26,4). Tal mudança deve ter ocorrido por volta dos treze anos de idade de Paulo, quando todo judeu deveria se apresentar no templo judaico.

Judeu e fariseu fervoroso (Gl 1,14; At 22,3; 26,4-5) foi circuncidado ((Fl 3,5.7.9a) e recebeu o nome de Saulo e teve como professor e preceptor um dos mais sábios e notáveis rabinos daquele tempo, o grande Gamaliel (At 22,3), neto do ainda mais famoso Hilel, de quem recebeu as lições sobre os ensinos do Antigo Testamento (At 22,3). Foi este Gamaliel, cujo discurso está contido nos Atos dos Apóstolos 5,34-39, que aconselhou o Sinédrio a não tentar contra a vida dos apóstolos.

Saulo tornou-se um fariseu convicto e extremamente zeloso (Gl 1,14).

Pela análise de todos os textos por ele escritos, entende-se que a família de Saulo era influente. Paulo mesmo chegou a possuir algum nível de autoridade política e religiosa em Jerusalém. É discutido se Paulo tivesse participado do Sinédrio ou simplesmente de uma sinagoga, onde votava contra os cristãos (At 26,10), mas, ter feito parte ou não do Sinédrio inexiste citação nos textos sagrados. Parte de sua instrução foi o aprendizado da confecção de tendas, ofício que mais tarde lhe serviria como fonte de renda em algumas viagens.

Paulo falava e escrevia corretamente o grego (At 21,37), a língua comum (koiné) das cidades e do comércio. Falava também o hebraico (At 21,40; 26,14), a língua na qual foi escrita a maior parte do Antigo Testamento e que ainda se usava nas sinagogas. Falava o aramaico do povo da Palestina, língua materna de Jesus.  Não se sabe se Paulo falava o latim de Roma, mas, com certeza, sim, considerando ser um cidadão romano por adoção.

A primeira vez que Saulo aparece nas Sagradas Escrituras foi no apedrejamento e morte do diácono Estevão: “As testemunhas depuseram seus mantos aos pés de um jovem chamado Saulo.” (At 7,58); “Saulo era um daqueles que aprovavam a morte de Estevão. Naquele dia desencadeou-se uma grande perseguição contra a igreja de Jerusalém. E todos os apóstolos se espalharam pelas regiões da Judéia e da Samaria”. (At 8,1); “Saulo, porém, devastava a igreja: entrava nas casas e arrastava para fora homens e mulheres, para colocá-los na prisão.” (At 8,3).

A perseguição de Saulo serviu apenas como fermento para a difusão da mensagem de Jesus Cristo: “E aqueles que se dispersaram iam de um lugar para outro anunciando a Palavra”. (At 8,4). Pode um homem que perseguiu e torturou cristãos tornar-se também um cristão? O que faz com que o perseguidor dê meia-volta em sua vida e passe a ser perseguido?  Existe esperança para alguém que blasfema o nome de Deus e odeia os que seguem a Jesus?  “Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Ele apresentou-se ao sumo sacerdote, e lhe pediu cartas de recomendação para as sinagogas de Damasco, a fim de levar presos para Jerusalém todos os homens e mulheres que encontrasse seguindo o CAMINHO. Durante a viagem, quando já estava perto de Damasco, Saulo se viu repentinamente cercado por uma luz que vinha do céu. Caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Saulo, Saulo, por que você me persegue? ’ Saulo perguntou: ‘Quem és tu, Senhor? ’ A voz respondeu: ‘Eu sou Jesus, a quem você está perseguindo. Agora se levante, entre na cidade, e ai dirão o que você deve fazer’.” (At 9,1-6).

Esta é a história da conversão de Saulo de Tarso. Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” A sua primeira pergunta de Saulo não foi: “Senhor, o que queres que eu faça?”, mas, sim, “Senhor, quem és Tu?” Porque cristianismo não é somente fazer. Cristianismo é descobrir, em primeiro lugar, quem é Jesus, apaixonar-se por Ele, amá-Lo com todo o coração, viver uma vida de comunhão com esse maravilhoso “quem”. Só depois que Jesus reproduziu seu caráter na vida de Paulo, é que ele aprendeu a fazer as coisas que devem ser feitas: os “quês” e “porquês” do cristianismo. E Jesus diz a Saulo: “... levanta-te, e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer.” (At 9,6)

Segundo o livro dos Atos dos Apóstolos, Paulo, conforme ele mesmo escreveu, converteu-se sem a pregação do evangelho por parte de outro homem: “Irmãos, eu declaro a vocês: o Evangelho por mim anunciado não é invenção humana. E, além disso, não o recebi nem aprendi através de um homem, mas por revelação de Jesus Cristo”. (Gl 1,11-12).

O próprio Ananias, indicado por Jesus para socorrer Paulo, ficou temeroso quando Deus lhe enviou a orar por aquele que era conhecido como o grande perseguidor da Igreja: “Ananias respondeu: “Senhor, já ouvi muita gente falar desse homem e do mal que ele fez aos teus fiéis em Jerusalém. E aqui em Damasco ele tem plenos poderes que recebeu dos chefes dos sacerdotes, para prender todos os que invocam o teu nome”. (At 9,10 ss).

Paulo foi ousado demais e, depois de convertido, passou a falar de Jesus por onde passasse.

A ousadia com que Paulo passou a anunciar Jesus acabou por incomodar muita gente. Em Damasco o perseguidor começa a ser perseguido. Os cristãos não o aceitavam porque tinham medo dele (At 9,19-22). Os judeus, inconformados pela conversão de Paulo, combinaram em matá-lo (At 9,23-25).

Nem os seguidores de Jesus que estão em Jerusalém acreditam em Paulo, exceto Barnabé, homem iluminado, que tenta aproximar Paulo dos demais apóstolos (9,26).

Saulo tentou se aproximar dos discípulos de Jesus, mas tinham medo dele (At 9,28). Saulo discutia com os helenistas (gregos), e estes projetaram matá-lo (At 9,29). A partir daí, Saulo desaparece por um tempo de cena, só aparecendo, novamente, de At 11,25 em diante.

Nesse período, possivelmente, Saulo esteve por cinco anos de silêncio em Tarso, e, durante esse período de tempo (três anos?) em retiro no deserto (na Arábia, cf Gl 1,17).

A conversão tirou Saulo de uma posição na sociedade e o colocou em outra bem inferior. Ao invés de empregador, dono de uma oficina de confecção de tendas, com seus empregados e escravos, acabou, sendo ele mesmo, um empregado, um trabalhador assalariado com aspecto de escravo: “Por causa dele perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo, e estar com ele.”. (Fl 3,8-9). Mal e mal ganhava o suficiente para poder sobreviver: “E quando passei necessidade entre vocês, não fui pesado a ninguém... Em tudo evitei ser pesado a vocês e continuarei a evitá-lo”. (2Cor 11,9). 

A conversão para Cristo criou para Paulo uma situação nova, imprevista. De um lado, cortado da comunidade judaica, perdeu o círculo de amizades que tinha. Deve ter perdido, também, a clientela entre os judeus, pois eles passaram a odiá-lo a ponto de querer matá-lo.  (At 9,23). 

Por outro lado, enviado para a missão pela comunidade de Antioquia (At 13,2-3), levou vida errante, durante mais de doze anos, sem domicílio, sem oficina e sem a possibilidade de montar uma clientela fixa. Essa nova situação o obrigou a buscar uma nova maneira de sobreviver.

O nome “Saulo” permanece até At 13,9: “Então Saulo, que também se chamava Paulo...”.

Fora da Palestina, Paulo começa a tentar evangelizar os judeus que “encheram-se de inveja e com blasfêmia contradiziam o que Paulo falava”. (At 13,45). Paulo, então, voltou-se para os gentios, os povos não judeus. “Então, com mais coragem ainda, Paulo e Barnabé declararam: ‘Era preciso anunciar a palavra de Deus, em primeiro lugar para vocês, que são judeus. Porém, como vocês a rejeitam, e não se julgam dignos da vida eterna, saibam que nós vamos dedicar-nos aos pagãos. Porque esta é a ordem que o Senhor nos deu: Eu coloquei você como luz para as nações, para que leve a salvação até aos extremos da terra”. (At 13,46-47). “Então o Senhor me disse: ‘Vá! É para longe, é para os pagãos que eu vou enviar você’”. (At 22,21). 

Depois de sua conversão Paulo descobre que Jesus o amou antes até que ele próprio conhecesse Jesus, chegando ao cúmulo de Jesus dar a sua vida por ele: “E esta vida que agora vivo, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim (Gl 2,20b) e “...Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores.” (Rm 5,8b). 

Paulo joga para o alto tudo o que ele tinha vivido até então como fariseu, deixando bem claro isso na sua carta aos Filipenses: “Por causa de Cristo, porém, tudo o que eu considerava como lucro agora considero como perda. E mais ainda: considero tudo uma perda diante do bem superior que é o conhecimento do meu Senhor Jesus Cristo.  Por causa dele perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo, e estar com ele. (Fl 3,7-9a).

Paulo fez sua confissão sincera: “Eu também antes acreditava ser meu dever combater com todas as forças o nome de Jesus, o Nazareu. E foi isso que eu fiz em Jerusalém: prendi muitos cristãos com autorização dos chefes dos sacerdotes, e dei o meu voto para que fossem condenados à morte. Em todas as sinagogas eu procurava obrigá-los a blasfemar por meio de torturas e, no auge do furor, eu os caçava até em cidades estrangeiras”. (At 26,9-11).

Paulo tinha consciência de que Cristo era aquele que veio para a salvação da humanidade: Certamente vocês ouviram falar do que eu fazia quando estava no judaísmo. Sabem como eu perseguia com violência a Igreja de Deus e fazia de tudo para arrasá-la. Eu superava no judaísmo a maior parte dos compatriotas da minha idade, e procurava seguir com todo o zelo as tradições dos meus antepassados”.  (Gl 1,13-14).

Nos seus escritos Paulo se autodenomina Apóstolo: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por vontade e chamado de Deus...” (1Cor 1,1); “Por acaso não sou livre? Não sou apóstolo? Não vi nosso Senhor?”(1Cor 9, 1). “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por ordem de Deus nosso Salvador e de Jesus Cristo nossa esperança, a Timóteo, meu verdadeiro filho na fé; graça misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Jesus Cristo nosso Senhor”. (1 e 2Tm 1,1-2).

Porque “apóstolo”?

O Apóstolo era aquele que, conforme Pedro, quando se propuseram a substituir Judas, teria seguido Jesus desde o seu batismo até a ascensão aos Céus, conforme Pedro afirma em At 1,21-22: “Há outros homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor vivia no meio de nós, desde o batismo de João até o dia em que foi levado ao céu (ascensão do Senhor). Agora é preciso que um deles se junte a nós para testemunhar a ressurreição.”.

Paulo se enquadra nesse perfil? Não. Mas Paulo se justifica: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por vontade e chamado de Deus..”. (1Cor 1,1); “Por acaso não sou livre? Não sou apóstolo? Não vi nosso Senhor?” (1Cor 9, 1); “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por ordem de Deus nosso Salvador e de Jesus Cristo nossa esperança, a Timóteo, meu verdadeiro filho na fé; graça misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Jesus Cristo nosso Senhor”. (1 e 2Tm 1,1-2). “Não da parte dos homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai”. (Gl 1,1).

Paulo considera-se a si mesmo como apóstolo e testemunha, embora não tenha sido testemunha da ressurreição do Mestre: “Em último lugar apareceu a mim, que sou um aborto. De fato, eu sou o menor dos apóstolos e não mereço ser chamado apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus. Mas aquilo que sou, eu o devo à graça de Deus; e sua graça dada a mim não foi estéril. Ao contrário, trabalhei mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo. Portanto, ai está o que nós pregamos, tanto eu como eles; ai está aquilo no qual vocês acreditaram”. (1Cor 15,8-11); “Deus, porém, me escolheu antes de eu nascer e me chamou por sua graça”. (Gl 1,15). “Então o Senhor me disse: Vá! É para longe, é para os pagãos que eu vou enviar você”.  (At 22,21); “Pelo que vejo, Deus reservou o último lugar para nós que somos apóstolos, como se estivéssemos condenados à morte, porque nos tornamos espetáculo para o mundo, para os anjos e para os homens”. (1Cor 4,9).

Os sofrimentos de Paulo não foram poucos e ele mesmo os narra para se defender dos ataques daqueles que diziam que ele era um impostor: “São ministros de Cristo? Falo como louco: eu o sou muito mais. Muito mais pelas fadigas; muito mais pelas prisões; infinitamente mais pelos açoites; freqüentemente em perigo de morte; dos judeus recebi cinco vezes os quarenta golpes menos um. Fui flagelado três vezes; uma vez fui apedrejado; três vezes naufraguei; passei um dia e uma noite em alto mar. Fiz muitas viagens. Sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladrões, perigos por parte de meus irmãos de raça, perigo por parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos par parte dos falsos irmãos. [...] Mais ainda: morto de cansaço, muitas noites sem dormir, fome e sede, muitos jejuns, com frio e sem agasalho. E isso para não contar o resto: a minha preocupação cotidiana, a atenção que tenho por todas as igrejas. Quem fraqueja, sem que eu também me sinta fraco? Quem cai, sem que eu me sinta com febre? Se é preciso gabar-me, é de minha fraqueza que vou me gabar. O Deus e Pai do Senhor Jesus, que é bendito para sempre, sabe que não minto”.   (2Cor 11,22-31).

Paulo teve muitos problemas nas comunidades que fundara trazidos pelos judeus convertidos ao cristianismo, conhecidos como “judaizantes”.

Os judaizantes: quem eram? “Chegaram alguns homens da Judéia (fariseus que haviam se convertidos para o cristianismo) e doutrinavam os irmãos de Antioquia, dizendo: “Se não forem circuncidados, como ordena a Lei de Moisés, vocês não poderão salvar-se” Isso provocou uma grande discussão entre Paulo e Barnabé. Então ficou decidido que Paulo e Barnabé e mais alguns iriam a Jerusalém  para tratar dessa questão com os Apóstolos (Pedro, Tiago e João) e anciãos. (Em Jerusalém) alguns daqueles que haviam pertencido ao partido dos fariseus e que haviam abraçado a fé intervieram, declarando que era preciso circuncidar os pagãos e mandar que eles observassem a Lei de Moisés.”  (At 15, 1-2.5)

Criou-se, ai, a necessidade uma reunião em Jerusalém, com Pedro Tiago e João e anciãos de Jerusalém para discutirem esse assunto, reunião essa que participaram Paulo e Barnabé (At 15,6-21) e que passou a ser conhecida como o primeiro concílio da Igreja.

Os cristãos de Antioquia tinham costumes diferentes dos cristãos de Jerusalém que eram todos judeus e por muito tempo agiram como judeus (At 21,17). Os Apóstolos e anciãos de Jerusalém se reuniram para tratar desse assunto. Pedro faz um discurso. (At 15,7-11). “Paulo e Barnabé contam a todos os sinais e prodígios que Deus havia realizado por meio deles entre os pagãos.” (At 15,12). Tiago faz um discurso. (At 15,13-21).

Dessa reunião em Jerusalém confeccionou-se a chamada carta conciliar (At 15,22-29), tendo se chegado às seguintes conclusões: Primeiro: Acolhida dos irmãos que vieram do paganismo. Segundo: Reprovação contra os judaizantes; Terceiro: Envio de Paulo, Barnabé, Judas, chamado Barsabás e Silas para transmitirem pessoalmente a decisão do Concílio; Quarto: Não colocar fardos sobre os neo-convertidos do paganismo ao cristianismo, que deveriam abster-se da carne sacrificada aos ídolos, do sangue das carnes sufocadas e das uniões ilícitas e ficando livre da observância da Lei de Moisés e da circuncisão.

Para criar as comunidades, a estratégia pastoral de Paulo é bastante clara: privilegiava os grandes centros urbanos, fundando ai um núcleo cristão. Esse pequeno grupo, que se reunia nas casas, sentia, ao crescer em número, a necessidade de dar origem a outros grupos, na mesma cidade, ou nas cidades menores da periferia. Dessa forma, aos poucos, Paulo crê atingir as aldeias, numa evangelização que pode ser chamada “em rede”.

O relacionamento entre Paulo e Pedro nem sempre foi um mar de rosas.

Quando Pedro vai a Antioquia, Paulo lhe chama a atenção por dar mau exemplo: Paulo se opõe a Pedro, que se colocou do lado dos judaizantes da turma de Tiago, desmascarando-lhe a hipocrisia (2,11-14), por ocasião da visita de Pedro à comunidade de Antioquia:  “Mas quando Cefas (Pedro) veio a Antioquia, eu o enfrentei abertamente porque ele se tinha tornado digno de censura. Com efeito, antes de chegarem alguns vindos da parte de Tiago, ele comia com os gentios, mas quando chegaram, ele se subtraia e andava retraído, com medo dos circuncisos. Os outros judeus começaram, também , a fingir junto com ele, a tal ponto que até Barnabé se deixou levar por sua hipocrisia. Mas quando vi que não andavam retamente segundo a verdade do evangelho, eu disse a Pedro diante de todos: se tu sendo judeu, vives a maneira dos gentios e não dos judeus, porque forças os gentios a viverem como judeus?”(Gl 2,11-14).

A tradição nos diz que Pedro e Paulo morreram no mesmo dia, na cidade de Roma, sob o império de Nero, entre os anos 64-67, por ocasião do incêndio de Roma causado pelo imperador Nero. Paulo, como cidadão romano que era, foi morto pela espada.

Pedro, por sua vez, como era estrangeiro cuja terra era dominada pelos romanos, foi morto na cruz, que era o suplício dos inimigos dos romanos, marginais, terroristas, e todos os que contrariavam a lei romana.

 

sábado, 3 de julho de 2021

 

SÃO TOMÉ – O APÓSTOLO QUE QUER VER PARA CRER

 

Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, que quer dizer “Gêmeo” quando da manifestação de Jesus para os apóstolos, não estava com eles. Disseram-lhe os outros discípulos: “Vimos o Senhor”. Tomé, que no seguimento a Jesus, havia vivido tantos contratempos e acontecimentos que não entendera, já não era o mesmo Tomé crente, mas um Tomé receoso, cuidadoso, atento a todos os pormenores com a sua crítica exigente que tinha direito a resposta razoavel para todas as afirmativas que colocassem em dúvida a sua credibilidade.

Deixara de ser um homem pronto a crer e aceitar, e passou a se preocupar em não ser vítima da sua auto-ilusão, mas aquele que se recusava a crer até no que via.

Tomé aceitara o convite de Jesus  para seguí-lo, e tinha se proposto até ir com ele para Betânia e, se fosse necessário, morrer com Jesus; Tomé queria saber para onde Jesus dizia que iria para ele pudesse ir junto, não importando para onde fosse.

Mas tudo havia se tornado uma ilusão: o Mestre havia morrido, o sonho acabara. E agora vem os discípulos e lhe dizem: “Vimos o Senhor” exatamente no dia e hora em que Tomé estava ausente. Estariam os discípulos de Jesus querendo brincar com coisa tão importante e séria? Tomé já havia acreditado demais. Não queria sofrer uma nova desilusão.

Ao ouvir: “Vimos o Senhor”, Tomé responde prontamente e com convicção: “Se eu não vir o sinal dos cravos nas suas mãos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma acreditarei.” (Jo 20,25). Como pode ser interpretada esta atitude de Tomé? Indiferença? Descrença? Honestamente, qual teria sido a sua atitude numa situação dessa? Você acreditaria prontamente no que diziam, ou deixaria transparecer a sua dúvida, a sua incredulidade, a sua indiferença, a sua descrença? Indiferença não.

Talvez, o medo de se encontrar com Jesus depois de tudo que se passara. Tomé, que havia se declarado pronto a morrer pelo Mestre, que havia encorajado os outros apóstolos a seguí-lo, afinal, também, como os demais, havia fugido na hora de perigo em que o Mestre fora preso, julgado, condenado e crucificado.

Talvez o medo de sofrer uma nova desilusão. A convivência com Jesus havia levado Tomé a um mundo que não era o seu, e nesse momento, afastado do seu Mestre, voltara à sua antiga natureza materialista.

Assaltado pela tristeza, pela dúvida e pela desilusão, recusava-se a crer mesmo naquilo que visse, até que pudesse agarrar com as suas mãos e fazer como os cegos que por vezes se enganam menos que os que tem visão.

E acontece que, “oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa e Tomé estava com eles. Estando as portas fechadas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: ‘A paz esteja com vocês’.” (Jo 20,26). E acontece que Tomé estava presente. A voz calma de Jesus soa no ambiente com toda a nitidez: “A paz esteja com vocês”.

Era a mesma voz que Tomé tão bem conhecia e que durante três anos lhe falara da ressurreição que ele, agora, colocava obstáculo e se recusava em aceitar.

O Mestre voltara com a sua saudação tão conhecida.“A paz esteja com vocês”.

Era o mesmo Mestre; era o Mestre mesmo...

Era a mesma saudação de paz que Jesus dirigia nesse momento àqueles que dias antes o haviam abandonado e fugido, que haviam quebrado as suas promessas de morrer pela fé, que haviam voltado para os seus afazeres, os seus lares.

O Mestre não dirige a Tomé uma única palavra de censura, como também não faria a cada um de nós. Em vez disso, o Mestre voltara com a sua calma costumeira e serenidade para lhes dar a sua paz. Essa paz que excede todo o nosso entendimento.

O Mestre está mais pronto a conceder o seu perdão do que nós a recebê-lo. Jesus aproxima-se, olha para cada um dos apóstolos e fixa o seu olhar em Tomé. Desta vez Jesus viera propositadamente para Tomé.

Era o Bom Pastor que vinha buscar a ovelha perdida, o Mestre que vinha em auxílio do seu discípulo querido. Jesus dirige-se para Tomé e coloca-se na sua frente, e lhe diz: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não seja incrédulo mas fiel.” (Jo 20,27). Numa crise de fé, Tomé tem de decidir e agir. Ele sente uma nova, verdadeira e poderosa fé nascer no seu coração.

Aquele Mestre que ele tanto amara, aquele por quem estivera pronto a dar a sua vida, aquele em quem crera como homem, como Mestre, como amigo, aquele em quem crera sem esperança, estava na sua frente.

Cristo voltara de além-túmulo para lhe dizer que era mais do que um Mestre, mais do que um amigo, mais do que um profeta.

Cristo voltara para lhe lembrar as suas palavras: Não fique perturbado o coração de vocês; acreditem em Deus, acreditem também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu teria dito a vocês; vou prepara lugar para vocês. E, se eu for e preparar lugar para vocês, virei outra vez, e tomarei vocês para mim mesmo, para que onde eu estiver estejam vocês também. E para onde eu vou vocês conhecem o caminho.” (Jo 14,1-4).

Tomé, movido pela poderosa fé que sentia no seu coração, disse o que até aí não tinha descoberto: “Meu Senhor e meu Deus”. (Jo 20,28).

Tomé tornou-se o primeiro dos apóstolos a se dirigir a Jesus nestes termos, chamando-o de “Meu Deus”. Ninguém até aquele momento, nem mesmo Pedro, nem mesmo João, haviam pronunciado a palavra “Deus” dirigindo-se a Jesus.

Tomé não se limita a ter uma nova opinião sobre a ressurreição de Jesus.

Ele toma uma decisão. “Meu Senhor”. Ele se arrepende e entrega-se incondicionalmente a Jesus aceitando-o como seu Salvador. “Meu Deus”. Já não era a mesma fé sem esperança, movida pela lealdade a um amigo.

Daí em diante, Tomé punha Jesus Cristo em igualdade com Deus Pai, acredita em Jesus Cristo como o Filho único de Deus. Por vezes uma fé forte cresce vagarosamente.

Após três anos de estudos e experiências, alegrias e desilusões, Tomé atingira a verdadeira maturidade da fé em Jesus Cristo como Deus onipotente. Tomé, o chamado de obstinado, descrente no testemunho até aí dado pelos apóstolos, passara a ser o mais convicto de todos, avançando logo do fato da ressurreição para o adorar como Senhor e como Deus. 

Quando da primeira vez Tomé se decidira a seguir a Cristo para morrer por ele, arrastara os outros apóstolos após si. Com esta nova experiência de Tomé e com a sua declaração de fé, a quantos crentes, através dos tempos, tem Tomé trazido aos caminhos do Senhor?

Podemos dizer que, Tomé duvidou para que nós pudéssemos crer. Quantos de nós queremos ver para crer. E Jesus admoesta a Tomé e a cada um de nós: “Você acreditou porque me viu? Bem-aventurados os que acreditaram sem terem visto.” (Jo 20, 29).

São lembrados também, neste dia: São Leão II (papa), Santo Anatólio, Santos Irineu e Mustíola (mártires), São Jacinto da Capadócia (mártir), Santos Júlio, Aarão e companheiros (mártires).

sexta-feira, 2 de julho de 2021

 

COM MARIA, QUANDO ÉRAMOS CRIANÇAS

 

Quando éramos pequenos, quando éramos crianças, quantos de nós aprendemos as primeiras orações no colo de nossas mães ou avós. Íamos ao catecismo, e a catequista, com muito amor, carinho e paciência, repetia conosco as orações do Pai Nosso, da Ave Maria e pegava em nossas mãos de crianças para nos ajudar a aprender e a fazer o Sinal da Cruz.

Quando éramos crianças rezávamos e tínhamos a certeza de que o Papai do Céu nos ouvia e nos atendia. Depois fomos crescendo, crescendo e passamos a achar que éramos auto-suficientes, que não precisaríamos mais de rezar, que poderíamos muito bem viver sem orações e sem Deus, que, afinal de contas, rezar era para crianças e mulheres que tinham que cuidar dos maridos e dos filhos. Fomos nos tornando pessoas adultas e maduras e começamos  a achar que poderíamos resolver os nossos próprios problemas e passamos a ficar descrentes no poder da oração.

Se fizermos uma retrospectiva na nossa vida, vamos notar que, a partir do momento em que deixamos de rezar, passamos a dar cabeçadas por esse mundo a fora. Deixando de rezar, começamos a nos afastar de Deus e da sua Igreja e, fazendo isso e olhando para traz, notamos quantas coisas que fizemos e não deveríamos ter feito e que não faríamos se ainda tivéssemos mantido o contato com Deus, ou ainda, quantas coisas que fizemos e que poderíamos tê-las feito melhor. Muitos de nós tivemos apenas uma iniciação na vida religiosa, na vida cristã, apenas uma iniciação na vida de oração, de conversa amigável e amorosa com Deus, nosso Pai.

Quando éramos crianças o nosso respeito, o nosso amor para com Deus, com sua Igreja, com os irmãos e com os mais velhos estavam sempre presentes em nossas vidas, em nossos atos e pensamentos. Crescemos, começamos a achar que rezar e ir à Igreja era perda de tempo, coisas de crianças e mulheres. Desaprendemos de rezar. Quando éramos crianças aprendemos a rezar orações decoradas e também orações espontâneas, numa conversa amigável com Deus com as nossas próprias palavras e sentimentos como se estivéssemos conversando com o nosso próprio pai ou mãe, e fazíamos isso com confiança total na bondade e misericórdia de Deus.

Quando a criança deixa de ser criança e passa a se julgar adulto, proclama a sua independência de tudo e de todos, inclusive de Deus e se esquece de quem Jesus amava de verdade era das crianças, perde o contato com a família do Pai Nosso.

Ser criança, no Evangelho, não é pertencer a uma determinada faixa etária; ser criança, para Jesus, é um estado de espírito e se não voltarmos a ser crianças e a nos tornarmos crianças, não alcançaremos o Reino do Céu: “Eu lhes garanto: se vocês não se converterem e não se tornarem como crianças, vocês nunca entrarão no Reino do Céu”. (Mt 18,3). Eram as crianças que Jesus queria perto de si para abraçá-las e abençoar: “Deixem as crianças e não lhes proíbam de vir a mim, porque o Reino do Céu pertence a elas”. (Mt 19,14).

O Reino do Céu foi feito para as crianças, não importa a idade que elas tenham: de um a cem anos. Nós envelhecemos quando queremos, quando deixamos de ser crianças, quando nos julgamos auto-suficientes e não necessitamos de mais ninguém, nem de Deus.

Se quisermos, seremos sempre crianças e o Reino do Céu não fugirá de nós, será sempre nosso, das crianças. Enquanto confiarmos em Deus e colocarmos em suas mãos a nossa vida, os nossos anseios, as nossas realizações, o nosso presente, o nosso futuro, acreditando que Deus só quer o nosso bem, ai somos ou voltamos a ser crianças. Caso contrário, se passarmos a querer resolver os nossos problemas sozinhos e nos negarmos ao amor do Pai, deixamos de ser crianças e nos afastamos da possibilidade de termos o Reino do Céu. 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

 

O SIGNIFICADO DOS 7 DONS DO ESPÍRITO SANTO

 

Qual é a diferença entre sabedoria, entendimento e ciência? E por que o “temor de Deus” é diferente do medo?

 

FORTALEZA

Com o dom da fortaleza, Deus nos dá a coragem necessária para enfrentarmos as circunstâncias desafiadoras da vida e a firmeza de caráter para suportarmos as perseguições e tribulações decorrentes do nosso testemunho cristão, rejeitado e combatido pelo mundo. Foi graças ao dom da fortaleza que os santos recusaram as falsas promessas e enfrentaram as ameaças da mundanidade, muitos com o sacrifício da própria vida.

 

SABEDORIA

O dom da sabedoria nos leva a distinguir entre o que é essencial e o que não é; entre o que realmente importa e o que é meramente secundário. Ser sábio é saber escolher e apreciar o bem em meio às muitas alternativas sedutoras que se colocam diante do nosso livre arbítrio, confundindo o nosso julgamento com aparências que precisam ser desmascaradas. A sabedoria não necessariamente envolve inteligência, cultura e entendimento: é outro tipo de conhecimento; é a capacidade singela de enxergar ou intuir o bom, o belo e o verdadeiro a partir da referência do Absoluto, não do relativo. É o dom de “saber viver” em Deus, na bondade, na verdade e na beleza, ainda que não se entendam muitas coisas no sentido intelectual do termo “entender” – aliás, o entendimento é outro dom divino, que veremos em seguida.

 

ENTENDIMENTO

Este dom torna a nossa inteligência capaz de compreender e assimilar os conteúdos das verdades reveladas, auxiliando-se também da ciência, que ilumina a razão a fim de conhecermos melhor a criação e chegarmos assim ao Criador. Pode parecer um tanto confuso, à primeira vista, distinguir entre a sabedoria, o entendimento e a ciência. De fato, são dons complementares entre si, mas há distinção entre eles. Expliquemos dando um exemplo: há pessoas simples que, mesmo sem entenderem o vasto significado da liturgia, dos dogmas e das orações, sabem apreciar o sabor das coisas de Deus e dão testemunho de intensa devoção e piedade, sendo capazes de inspirar e ajudar os outros a viverem uma vida espiritual mais profunda, ainda que esses outros tenham maiores talentos intelectuais. Essas pessoas simples possuem o dom da sabedoria, mas lhes falta o entendimento – que é o dom de compreender o sentido das coisas de Deus. Com o dom do entendimento, o cristão contempla com mais lucidez e consciência o mistério da Santíssima Trindade, o amor de Cristo pela humanidade, o significado da Sagrada Eucaristia, dos sacramentos, dos ritos litúrgicos, da moral católica etc. E onde é que entra o dom da ciência? A ciência nos ajuda nessa compreensão fornecendo-nos um tesouro crescente de informações sobre a criação como precisamente isso: criação, obra do Criador.

 

CIÊNCIA

É o dom divino que aperfeiçoa as nossas faculdades intelectivas e nos ajuda a compreender a realidade como obra do Criador, iluminados, simultânea e harmoniosamente, pela fé e pela razão – “as duas asas que elevam o espírito humano à contemplação da Verdade”, conforme a bela descrição apresentada pela encíclica “Fides et Ratio”, do Papa São João Paulo II. O dom da ciência, portanto, nos abre à contemplação do Criador mediante o conhecimento da criação. É importante observar que se trata do dom da ciência de Deus, não da ciência das coisas do mundo; ele envolve o reconhecimento da criação como meio para a contemplação de Deus. Graças ao dom da ciência, os santos, por exemplo, souberam ver Deus atrás das criaturas como que através de um espelho. São Francisco de Assis compôs o “cântico das criaturas” ao Senhor porque todos os seres criados, desde as flores até as aves, desde a água até o fogo e o sol, lhe eram ocasião para contemplar e amar a Deus, Criador de tudo o que há. O dom da verdadeira ciência nos leva, mediante o reto conhecimento e reconhecimento das criaturas como criaturas, a vislumbrar o Criador. Entre as criaturas não se incluem apenas os demais seres tangíveis, mas também as próprias ações e comportamentos humanos, que fazem parte do mundo criado: o dom da ciência, portanto, nos ajuda ainda a saber como agir – e, neste sentido, evoca o dom do conselho.

 

CONSELHO

É o dom que permite à alma o reto discernimento sobre como responder às circunstâncias da existência, tanto no tocante às próprias decisões quanto na hora de orientar os irmãos a trilharem o caminho do bem.

 

PIEDADE

É a graça de Deus na alma que proporciona o relacionamento filial e profundo com Deus, mediante a oração e as práticas piedosas ensinadas pela Igreja. É o dom da devoção, do fervor, da experiência de viver em comunhão permanente com Deus.

 

TEMOR DE DEUS

O nome deste dom pode causar estranheza e confusão, pois muitos o entendem em sentido negativo, como se devêssemos ter medo de Deus. Na verdade, trata-se do dom divino que nos leva a “temer” por Deus no sentido de não querer que Ele seja desprezado e deixado de lado, nem pelos outros, nem por nós mesmos. É o santo temor de que Deus seja ofendido; ao mesmo tempo, é o sadio temor das consequências do afastamento de Deus – consequências que não consistem num castigo imposto por Deus, mas sim na decorrência natural da nossa própria possibilidade de optar por viver longe d’Ele: Deus respeita a nossa liberdade a tal ponto que não nos impede de odiá-lo se assim escolhermos; por isso mesmo, Ele tampouco impede as consequências desse ódio voluntário, que se resumem no afastamento eterno de Deus decretado por nós próprios com a nossa liberdade e arbítrio. O dom do santo temor de Deus nos ajuda, assim, a evitar tudo o que nos afasta d’Ele – ou seja, o pecado; e não por medo de castigo, mas pela justa consciência de que, ao nos afastarmos d’Ele, nós próprios O perdemos voluntariamente.