domingo, 12 de setembro de 2021

 

“QUEM DIZEM OS HOMENS QUE EU SOU? [...] E VOCÊ, QUEM DIZ QUE SOU?” [...]

“SE ALGUÉM QUER ME SEGUIR, RENUNCIE A SI MESMO, TOME A SUA CRUZ E ME SIGA”. (Mc 8,27B.29.34b).

 

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano – B; Cor – Verde; Leituras Is 50,5-9; Sl 114; Tg 2,14-18; Mc 8,27-35.

 

Diácono Milton Restivo

 

O texto do Evangelho deste domingo se divide em duas partes bem distintas.

Na primeira parte Jesus faz umas perguntas e Pedro fala em nome da comunidade dos discípulos e afirma que Jesus é o Messias libertador que Israel esperava.

Na segunda parte Jesus explica aos discípulos que a sua missão messiânica deve ser entendida à luz da cruz, isto é, como dom da vida aos homens, por amor, antecipando-se ao mandamento do amor do qual ele falaria no Evangelho de João:

·         “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês. Não existe amor maior do que dar a vida por seus amigos.” (Jo 15,12-13). 

A maneira como se desenrola o fato é interessante. A pedagogia do relato é única.

Primeiro Jesus faz uma pergunta bastante inocente, diríamos, inofensiva:

·         “quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8,27b).

As respostas aparecem até inconsequentes, pois esta pergunta, de tão inocente que é, não exige compromisso; afinal de contas, são os outros que devem achar: é o famoso “dizem que”. 

Mas a segunda pergunta é comprometedora:

·         “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mc 8,29).

Jesus dirige-se diretamente àqueles com quem estava conversando, aos que estavam ao seu redor, aos seus discípulos e aos mais próximos, os apóstolos.

Agora a resposta exige responsabilidade, compromisso e adesão, pois quem responde em nome pessoal e não em nome dos outros, se compromete!

A primeira parte (Mc 8,27-30) começa com Jesus questionando os discípulos, fazendo duas perguntas: o que é que os outros dizem dele e o que é que os mais próximos pensam dele.

Segundo os seus discípulos, os outros vêem Jesus em continuidade com o passado:

·         “Alguns dizem que tu és João Batista; outros que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas”. (Mc 8,28).

Pela resposta os homens não entenderam, ainda, a condição única de Jesus, a sua novidade, a sua originalidade.

Reconhecem apenas que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão, assim como os profetas do Antigo Testamento. Não vêem e nem vão, além disso.

Na perspectiva dos homens descompromissados Jesus é apenas um homem bom, justo, generoso, que escutou e atendeu aos apelos de Deus e que se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes dele, e como tantos outros que virão, depois dele.

Então Jesus parte para a segunda pergunta, e essa direcionada diretamente aos seus mais íntimos:

·         “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mc 8,29a).

Pedro não se faz de rogado e se faz porta-voz da comunidade dos discípulos e, como tantas outras vezes fizera, fala em nome de todos e resume o sentimento da comunidade do Reino dizendo:

·         “Tu és o Messias”. (Mc 8,29b).

Dizer que Jesus é o Messias, o Cristo, o Ungido, significa dizer que Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu povo e para lhe oferecer a salvação definitiva.

A resposta de Pedro ia de encontro com a verdade.

No entanto, podia dar entendimento a graves equívocos, numa situação em que o título de Messias, principalmente para o povo da época, estava conotado com esperanças político-nacionalistas.

Se se espalhasse que Jesus era o Messias como o povo entendia que fosse um libertador, que arregimentaria exércitos para tirar o povo da opressão dos povos que o dominava, na situação presente os romanos. Isso iria causar um grande alvoroço em todo o território.

Por isso, os discípulos recebem ordens taxativas e expressas de Jesus para não falarem disso a ninguém:

·         “E então Jesus proibiu severamente que eles falassem a alguém a respeito dele.” (Mc 8,30). 

Era preciso antes deixar claro, depurar e completar a catequese ensinada por Marcos em seu Evangelho sobre o Messias e a sua missão para evitar perigosos equívocos.

É isso que Jesus vai fazer, logo em seguida, na segunda parte do texto.

Ai entramos na segunda parte do texto, Mc 8,31-35, onde encontramos duas questões.

A primeira questão, Marcos 8,31-33, é a explicação dada pelo próprio Jesus de que o seu messianismo passa pela cruz; a segunda, Marcos 8,34-35, é uma instrução sobre o significado e as exigências de ser discípulo de Jesus.

Na primeira questão Jesus passa a explicar o que quer dizer ser o Messias:

·         “Em seguida, Jesus começou a ensinar os discípulos, dizendo: ‘O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar depois de três dias’. E Jesus dizia isso abertamente”. (Mc 8,31,32a).

Ser Messias não era ser glorioso, triunfante e poderoso conforme os critérios deste mundo.

Muito pelo contrário. Ser Messias era ser fiel à sua vocação como servo de Yahweh. Era ser preso, torturado e assassinado. Era dar a vida em favor de muitos.

Jesus usa o título messiânico “Filho do Homem” usado por Daniel:

·         “Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu vinha alguém como um filho de homem”. (Dn 7,13).

Jesus não veio ao mundo para cumprir uma missão de triunfos e de glórias humanas, mas para obedecer ao designo do Pai de salvação da humanidade e demonstrar o grande amor do Pai pelos homens e, por isso, Jesus vem oferecer a sua vida em dom de amor aos homens:

·         “Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por ele. Quem acredita nele, não está condenado; mas quem não acredita, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus”. (Jo 3,16-18).

O ponto alto da catequese de Marcos no seu Evangelho é a afirmativa do centurião romano junto da cruz:

·         “De fato, esse homem era mesmo Filho de Deus”. (Mc 15,39b).

Se se fosse perguntado ao centurião romano, para ele, quem era Jesus, com certeza, depois do que ele havia presenciado no Calvário, ele diria, sem medo de errar, que Jesus “era mesmo Filho de Deus” e ponto final.

Depois que Jesus passou a explicar o que quer dizer ser o Messias, Pedro se mostra indignado e em desacordo com este final, tendo a audácia de repreender o Mestre, e opõe-se, decididamente, a que Jesus caminhe em direção ao seu destino de cruz:

·         “Então Pedro levou Jesus para um lado e começou a repreendê-lo.” (Mc 8,32b).

A oposição de Pedro e, obviamente, dos discípulos, pois Pedro continua a ser o porta-voz da comunidade apostólica, considerando que ele falava em nome da comunidade dos discípulos, significa que a compreensão do mistério de Jesus por todos ainda é muito imperfeita.

Para Pedro e para a comunidade dos discípulos, a missão do “Messias, Filho de Deus” tinha que ser uma missão gloriosa e vencedora; e, na lógica de Pedro e de todos, que é a lógica do mundo, a vitória não pode estar na cruz que se concretiza no dom da vida, e sim na glória que o mundo oferece. Jesus dirige-se a Pedro, também com indignação e com muita dureza:

·         “Jesus virou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: ‘Fique longe de mim, satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens”. (Mc 8,33).

É preciso que os discípulos corrijam o que pensam de Jesus e do plano do Pai que Jesus vem realizar. O plano de Deus não passa por triunfos humanos, nem por esquemas de poder e de domínio. O plano do Pai passa pelo dom da vida e pelo amor até às últimas consequências:

“Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna”. (Jo 3,16),

Por essa razão a cruz é a expressão mais radical.

Ao pedir a Jesus que não embarque nos projetos do Pai, Pedro está repetindo as tentações que Jesus experimentou no início do seu ministério no deserto depois de seu batismo (cf. Mc 1,13).

É por isso que Jesus responde a Pedro:

·         “Fique longe de mim, satanás!”.

Jesus já havia tido em sua vida um satanás que, no deserto, tentou induzi-lo a ignorar os planos do Pai; não podia suportar um segundo satanás que tentava afastá-lo do que o Pai havia determinado.

As palavras de Pedro têm por objetivo desviar Jesus do cumprimento dos planos do Pai; e Jesus não está disposto a transigir com qualquer proposta que o impeça de concretizar, com amor e fidelidade, os projetos de Deus.

Depois de anunciar a sua missão, que será cumprida em obediência ao plano do Pai no dom da própria vida em favor dos homens, Jesus convida seus discípulos a seguir um percurso semelhante:

·         “Então Jesus chamo a multidão e os discípulos. E disse: ‘Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e da Boa Notícia, vai salvá-la. Com efeito, o que adianta o homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua própria vida? Que é que um homem poderia dar em troca da própria vida?” (Mc 8,34-37). 

Quem quiser ser discípulo de Jesus, tem de “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” e seguir Jesus no caminho do amor, da entrega e do dom da vida.

O que significa, exatamente, renunciar a si mesmo? É não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a autossuficiência dominem a vida.

O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às necessidades dos irmãos, alheio às lutas e reivindicações dos outros homens, mas vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos. Significa renunciar ao seu egoísmo e autossuficiência, para fazer da vida um dom a Deus e aos outros.

O cristão não pode viver preocupado apenas em concretizar os seus sonhos pessoais, os seus projetos de riqueza, de segurança, de bem estar, de domínio, de êxito, de triunfo.

A cruz é a expressão de um amor total, radical, que se dá até à morte; “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” significa a entrega total da própria vida por amor. “Tomar a cruz” é ser capaz de gastar a vida de forma total e completa por amor a Deus e para que os irmãos sejam mais felizes.

No final desta instrução Jesus explica aos discípulos as razões pelas quais eles devem abraçar a lógica da cruz. Convida-os a entender que oferecer a vida por amor não é perdê-la, mas ganhá-la:

·         “Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e da Boa Notícia, vai salvá-la. Com efeito, o que adianta o homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua própria vida? Que é que um homem poderia dar em troca da própria vida?” (Mc 8,35-37).

Quem é capaz de dar a vida a Deus e aos irmãos, não fracassou; mas ganhou a vida em plenitude, a vida verdadeira que Deus oferece a quem vive de acordo com as suas propostas, e por isso Jesus disse para que veio:

·         “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” (Jo 10,10).

O que é “tomar a cruz”? É amar até às últimas consequências, até à morte. Por isso, o cristão não deve ter medo de lutar contra a injustiça, a exploração, a miséria, o pecado.

Todos os evangelistas, nos seus respectivos Evangelhos, retratam o que ele, evangelista, e a sua comunidade, atestam quem seja Jesus.

Marcos diz logo no início quem é Jesus para ele e para a sua comunidade:

·         “Começo da Boa Notícia de Jesus, o Messias, o Filho de Deus”. (Mc 1,1).

No Evangelho de Mateus, Jesus aparece como o Senhor glorificado e celebrado na sua comunidade. Jesus é o

·         “Deus conosco”, o “Emanuel”. (Mt 1,23).

Lucas não conheceu pessoalmente Jesus. Apresenta-o como o Senhor glorificado. Lucas é o único que chama a Jesus o Senhor, quando fala dele. Fala mais vezes de Jesus como rei.

João diz que Jesus é;

·         “o bom pastor... que dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11);

·         “o pão da vida…” (Jo 6,48);

·         “a ressurreição e a vida”. (Jo 11,25);

·         “a luz do mundo…” (Jo 8,12);

·         “o caminho, e a verdade, e a vida”. (Jo 14,6).

E muito mais.

Nos Evangelhos os evangelistas, por várias pessoas, dão vários testemunhos sobre quem é Jesus. O velho Simão, quando a apresentação do menino Jesus no templo, agradece:

·         “Simeão tomou o menino nos braços e louvou a Deus, dizendo: ‘Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória de teu povo Israel’.” (Lc 2,28-30).

João Batista se humilha ao falar de Jesus porque sabe de quem está falando: 

·         “Depois de mim vai chegar alguém mais forte do que eu. E eu não sou digno sequer de me abaixar para desamarrar as suas sandálias. Eu batizei vocês com água, mas ele batizará vocês com o Espírito Santo”. (Mc 1,7), e

·         “convém que ele cresça e que eu diminua!” (Jo 3,30).

Marta, por ocasião da ressurreição de seu irmão, Lázaro:

·         “Sim, Senhor. Eu acredito de que tu és o Messias, o Filho de Deus que devia vir a este mundo.” (Jo 11,27).

Pedro, falando por todos os discípulos e apóstolos:

·         “Não existe salvação em nenhum outro, pois debaixo do céu não existe outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos.” (At 4,12), e

·         “A quem iremos Senhor? Tu tens palavra de vida eterna. Agora nós acreditamos e sabemos que tu és o santo de Deus.” (Jo 6,68).

Jesus também tinha um testemunho a dar de si mesmo. Ele mesmo disse:

·         “Embora eu dê testemunho de mim mesmo, o meu testemunho é válido, porque eu sei de onde venho e para onde vou. [...] Eu dou testemunho de mim mesmo, e o Pai que me enviou dá testemunho de mim.” (Jo 8,14.18);

·         “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e acredita em mim, não morrerá para sempre.” (Jo 11,25-26);

·         “Eu sou o pão da vida…” (Jo 6,48); “Eu sou a luz do mundo…” (Jo 8,12);

·         “Eu sou o bom pastor… que dá a vida pelas suas ovelhas…” (Jo 10,11);

·         “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo 14,6).

·         “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mt 16,15);

·         “Você diz isso de você mesmo ou foram os outros que disseram isso de mim?” (Jo 18,34).

Ou como seria dizer: A opinião é sua, ou é de alguém que você tenha ouvido? 

Qual é o testemunho que hoje damos de Jesus? Não há necessidade de responder com palavras bonitas: o importante é refletir no coração e o que for dito deve corresponder à verdade e reproduzir a sinceridade do coração!

Para você, quem é Jesus?

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

 

SÃO FREDERICO OZANAM - 1813-1853

 

Fundou a Sociedade de São Vicente de Paulo.

Nascido na Itália, em 23 de abril de 1813, Antonio Frederico Ozanam viveu na França. Muito de sua vida de caridade e serviço aos pobres deve-se, particularmente, ao pai, João Antônio, um exemplo de caridade cristã, que era médico oficial do exército napoleônico e cuidava gratuitamente de pessoas humildes que não tinham como pagar pelos cuidados médicos. Frederico foi estudar direito e letras na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde depois foi professor, mas a sua paixão era o estudo de religião comparada, nas horas vagas.

Nessa época, havia se hospedado na casa de André-Marie Ampère, o famoso estudioso da eletrodinâmica. Contagiado pela fé do amigo e orientado pelo seu confessor, o abade Noirot, envolveu-se com jovens intelectuais cristãos numa época onde o clericalismo ortodoxo estava sendo duramente combatido em toda a Europa.

Defensor da fé, empolgante orador, excelente escritor e precioso professor, Frederico não estava satisfeito em apenas praticar o cristianismo intelectual. Entendia que era necessário fundamentar essa fé no exercício de uma obra de caridade, pois assim ela se justificaria.

Então, voltou-se para os pobres e norteou a sua vida no sentido de servi-los, a exemplo de seu pai e dos ensinamentos de Jesus Cristo. Junto de outros jovens cristãos com o mesmo objetivo, fundou a Sociedade de São Vicente de Paulo, em 1833, uma instituição católica, mas de leigos, direcionada para dar abrigo e assistência aos pobres e aos excluídos.

Entretanto pensou não apenas no objetivo social, mas também no religioso para os integrantes da Sociedade, que, além de proporcionar o bem-estar aos pobres, trilhariam o caminho da santificação, no seguimento de Cristo.

Também colocariam em prática os princípios da verdadeira democracia social e dos direitos humanos dos indivíduos baseados na caridade cristã. Por essa visão humanitária e democrática cristã ele é considerado precursor da doutrina social da Igreja.

Frederico Ozanam casou-se em 1841. Teve uma filha. Mas continuou firme na Obra. Amigo da nobreza e da intelectualidade parisiense, viajou por toda a Europa difundindo as "Conferências de Caridade da Sociedade São Vicente de Paulo".

Porém, quando sentiu seu organismo ser tomado pela doença, preferiu ir viver numa das Casas da Sociedade São Vicente de Paulo, optando pela vida simples e humilde. Sua obra expandiu-se e seus integrantes tornaram-se numerosos, espalhando-se por todo o planeta. Morreu em 8 de setembro de 1853, em Marselha, França.

Em 1997, o papa João Paulo II, durante a solenidade de sua beatificação, na catedral de Notre Dame, em Paris, disse: "Frederico Ozanam é verdadeiramente um santo laico do nosso tempo". Sua festa litúrgica ocorre no dia de sua morte.

São comemorados também neste dia: Santo Abraão (patriarca do Antigo Testamento), Santos Andrôniço e Atanásia, sua esposa (monges do Egito), São Bernardo de Rodez (abade de Montsalvy), São Tibúrcio, São Cirano, São Pedro Claver.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

 

ANIVERSÁRIO DE MARIA, A MÃE DE JESUS

 

Hoje é dia 08 de setembro. Para todos nós que amamos Maria, e que dedicamos a ela uma devoção filial, hoje, 08 de setembro, é um dia muito especial, poderíamos até dizer que é um dia de festa, mas realmente é um dia de festa, de alegria.

A nossa Santa Igreja comemora hoje a festa da Natividade de Nossa Senhora, ou, traduzindo isso em miúdos, é o dia do aniversário natalício de Maria. Assim como a nossa Igreja está em festas, o céu também está em festa, porque comemoramos uma data muito especial, muito importante, que somente é lembrada por aqueles que amam de verdade Maria Santíssima. É o dia do aniversário natalício de Maria, é o dia do aniversário da Mãe de Deus e nossa Mãe.            

Hoje, 08 de setembro, é o dia em que comemoramos o nascimento daquela que o Senhor Nosso Deus reservou desde a queda do homem no paraíso terrestre para ser o canal da salvação,  a escada que ligaria a terra ao céu e pela qual nos viria a Salvação, e, desde o primeiro pecado do homem, Maria foi escolhida, reservada e preservada da mancha do pecado original e de qualquer mancha que pudesse ofuscar o brilho do Filho de Deus que se faria homem no ventre sacrossanto da nossa querida mãe que aniversaria hoje.

O Senhor Nosso Deus faz as suas maravilhas no silêncio, longe dos olhos dos homens, mesmo porque, quando faz suas maravilhas o Senhor não precisa dar satisfação a quem quer que seja.

O nascimento de Maria em nada foi diferente do nascimento de qualquer outra pessoa, de qualquer outra criatura, pelo menos aos olhos dos homens. Mas, não tenham dúvidas, nesse dia o céu inteiro esteve em festa e os infernos tremeram em suas bases, porque, nesse dia, o príncipe das trevas começou a pressentir o início da queda do seu reinado.     

Anos mais tarde Maria diria à sua prima Isabel: “Engrandece minha alma o Senhor, e rejubila meu espírito em Deus, meu Salvador, porque ele olhou a humildade de sua serva. Eis que de agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada,   porque fez em mim grandes coisas o Poderoso, Santo é o seu Nome.”  (Lc 1, 49).

E que maravilhas fez o Senhor nosso Deus nessa criança que acabara de nascer, privilegiada, isenta do pecado original e de qualquer mancha que pudesse macular aquela que seria o sacrossanto tabernáculo do filho de Deus que se faria homem para que todos os homens se tornassem filhos de Deus.

O Senhor realiza suas maravilhas no silêncio e através dos pobres, humildes e pequeninos, e por isso Maria, em sua oração de agradecimento ao Senhor, disse = ``Ostentou o poder de seu braço, e dispersou  os que se orgulham com os pensamentos de seu coração.  Derrubou os poderosos de seus tronos, e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos,  e os ricos despediu-os de mãos vazias``.  (Lc, 1, 51-53).

Os céus estão em festa, os corações dos filhos de Maria também devem estar em festa, porque hoje comemoramos o aniversário natalício de Maria, aquela que foi reservada desde todos os séculos para ser a mãe do filho de Deus,  a nossa mãe e a mãe da nossa igreja, da igreja  fundada por seu divino filho.

Para comemorar o aniversário da mãe, a nossa igreja nos convida para, em oração e no silêncio que nos conduz a Deus, nos alegrarmos com os anjos e santos do céu e da terra nessa data tão importante para todos nós.

Esta é a melhor maneira de comemorarmos o aniversário daquela em que, no silêncio, o Senhor fez maravilhas, e que também no silêncio, aceitou humildemente todos os planos  de Deus que se realizaria através dela para a salvação de todos os homens, quando disse = ``Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra.`` (Lc 1, 38).

Não podemos perder a oportunidade de conhecermos melhor e mais  essa nossa mãe que nasceu predestinada  pelo Senhor, não para ter uma vida de regalias e mordomias nesta terra, mas para ser o Sacrário vivo do filho de Deus, mas que  para ser desprezada pelos homens, como foi, quando procurou abrigo para dar à luz a um Deus que se fazia homem, e não encontrou aconchego em lugar algum e teve de se recolher em um curral de animais para dar à luz.

Para ser perseguida, como o foi, quando teve que fugir com seu esposo José para defender a vida de seu filho, levando seu filho divino nos braços rumo às distantes terras do Egito para fugir da fúria sanguinária do rei Herodes que queria matar o seu divino filho, a quem ele julgava que seria um rival para o seu trono.

Que teve de sofrer a dor da perda, quando, aos doze anos, seu filho desaparece por três dias e é encontrado no templo, discutindo as coisas de Deus com os doutores da lei.

Que, aos trinta anos de Jesus, teve de suportar a dor da separação, porque o seu filho partia para a sua vida pública, para dar cumprimento  à sua missão de salvar todos os homens.

Que teve de sentir nas costas as chibatadas que deram em seu filho e, juntamente com seu filho sentiu os espinhos da coroa a lhe rasgarem a cabeça e a fronte.

Que subiu ao Calvário ajudando o seu filho a levar sobre os ombros todos os pecados do mundo, e que foi crucificada com seu filho, e também com seu filho pedindo perdão a Deus pela ingratidão de todos os homens, repetindo as mesmas palavras que seu filho pronunciava no alto do madeiro – “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem.”, e que, apesar de tudo isso ainda aceitou a proposta de seu filho pendurado no madeiro para ser a nossa Mãe, a mãe de todos os homens, a mãe dos algozes de seu filho divino, a Mãe daqueles que prenderam, açoitaram, coroaram de espinhos, crucificaram e mataram seu divino filho.

Nesta terra, e no seu silêncio, Maria acompanhou todo o desenrolar da redenção do gênero humano, não somente acompanhou, mas viveu intensamente  todas as situações pelas quais passou seu divino filho. E é Maria que hoje comemora seu aniversário, e por isso repitamos como Maria, “O Senhor fez em mim maravilhas, Santo é o seu nome”.

É no silêncio que o Senhor faz maravilhas, e foi no silêncio que Maria guardava todas as coisas em seu coração, e deve ser no silêncio de nosso coração que devemos procurar mais e melhor conhecer a mãe de Deus e nossa...

São comemorados também, neste dia: Natividade de Nossa Senhora, Bem-aventurado Frederico de Ozanam, São Tomás de Vilanova, São Nestor Santa Adélia de Messines (viúva e monja), Santos Adriano e Natália (mártires), Santos Amon, Neotério de companheiros (mártires), São Corbiniano de Freising (bispo).

terça-feira, 7 de setembro de 2021

 

MARIA, CONSOLO DAS MÃES ATRIBULADAS

 

É muito comum ouvirmos mães reclamarem que seus filhos adolescentes em lhe trazendo desgostos, apreensão, contra tempos e muitas tristezas.

Dizem que seus filhos estão envolvidos com pessoas perigosas, participam de brigas, e muitas mães desconfiam que seus filhos adolescentes estejam fazendo uso de drogas. E essas mães, nesses desabafos, nessa angústia, perguntam o que poderia ser feito numa situação como essa.

Esse é um problema muito comum nas nossas famílias, hoje em dia. Jovens desajustados, carentes de compreensão, de afeto, do diálogo familiar e, por isso, partem para novas aventuras, procurando fora o que não encontram dentro de suas casas, com os pais, com  os irmãos.

Um jovem que em casa não encontra a compreensão dos pais para ajudá-lo a superar e solucionar os seus problemas, que para ele não são poucos, não tem o afeto e o apoio da família quando enfrentam contra tempos, não tem diálogo em casa para, numa conversa franca e leal expor os seus problemas, as suas dúvidas, os seus receios, as suas amarguras, as suas desilusões, esse jovem logicamente tem necessidade de alguém que lhe dê atenção, que lhe ouça, de alguém que o compreende, de alguém que o apoie, e quando não encontra isso dentro de sua própria casa, com sua família, com seus pais, ele procura fora de casa, longe da família, pessoa ou pessoas que perdem um tempinho para ouvi-lo.

Mas, infelizmente, essas pessoas geralmente não são bem intencionadas, não são as mais recomendadas para servirem de conselheira para esse jovem necessitado. São pessoas que, a princípio, ouve o jovem com carinho e atenção, mas depois pervertem a sua personalidade, os seus costumes, e o introduz numa vida diferente e perigosa.

Mas, mesmo assim o jovem se sente bem, porque está encontrando naquela pessoa, ou naquele grupo de pessoas o que a família não lhe dá, o que ele não encontra no seio de sua família, o que os pais lhe negam: o diálogo, a atenção, a compreensão.

Na maioria das vezes a família dá tudo para o jovem: dá comida, dá roupas, dá clubes, dá piscina, dá motos, mas não dá o essencial, não dá aquilo que o jovem na sua idade, necessita: não lhe dá amor, atenção, diálogo. 

Os pais, muitas vezes, dão tudo para o jovem mais para se ver livre dele, para que ele não perturbe, e para que ele viva a sua própria vida, e, a partir daí  vemos tantos jovens em suas motos pondo em risco a sua vida e a vida dos outros, fazendo rachas nas avenidas, e, de vem em quando, tristemente, o rádio, o jornal noticiam a morte de um ou outro que, no desespero, procuram encontrar na velocidade e no ronco de sua moto o amor, o carinho, o afeto que seus pais não lhe dão. Essas mães que reclamam de seus filhos e que põe em evidência os defeitos e o mau caminho escolhido por seu filho,  talvez ainda não teve tempo de sentar e procurar ver qual foi sua parcela de culpa no desencaminhamento de seu filho.

Os pais geralmente criticam as atitudes de seus filhos, briga, gritam, e, muitas vezes até agridem o jovem, mas não tem a coragem de entrar dentro de si próprios para ver até onde a culpa é sua. Todos temos culpas no desencaminhamento de um jovem, de uma jovem.

E, geralmente, a culpa está dentro do próprio lar do jovem, que, no momento em  que eles mais precisam de amor, de afeto, de compreensão, de carinho e de diálogo, os pais lhe negam isso porque, dizem, tem coisas mais importantes para fazer.

É o momento de nós, pais, pararmos um pouquinho para verificar como está o nosso relacionamento com nossos filhos dentro de nossas casas.           

E se tiver alguma coisa que está deixando os nossos filhos jovens e adolescentes com algum grilo, como eles mesmo dizem, é o momento do diálogo, da atenção, da conversa franca e sincera. Nunca podemos nos esquecer que  nós pais já tivemos a idade que os nossos filhos tem hoje, e por isso nós temos e devemos ter condições de nos abaixarmos até eles, mas eles nunca tiveram a idade que temos agora, e eles jamais poderão estar na altura e compreensão que gostaríamos que eles estivessem.

Pai, mãe, querem evitar que seus filhos tenham grilos? Conversem  constantemente com eles; conversem muito com eles, e o que é o mais importante: procure ouvir mais do que falar...


segunda-feira, 6 de setembro de 2021

 

SANTA REGINA - 238-251

 

Regina ou Reine, seu nome no idioma natal, viveu no século III, em Alise, antiga Gália, França. Seu nascimento foi marcado por uma tragédia familiar, especialmente para ela, porque sua mãe morreu durante o parto.

Por essa razão a criança precisou de uma ama de leite, no caso uma cristã. Foi ela que a inspirou nos caminhos da verdadeira fé e da virtude. Na adolescência, a própria Regina pediu para ser batizada no cristianismo, embora o ambiente em sua casa fosse pagão. 

A cada dia, tornava-se mais piedosa e tinha a convicção de que queria ser esposa de Cristo. Nunca aceitava o cortejo dos rapazes que queriam desposá-la, tanto por sua beleza física como por suas virtudes e atitudes, que sempre eram exemplares.

Ela simplesmente se afastava de todos, preferindo passar a maior parte do seu tempo reclusa em seu quarto, em oração e penitência. Entretanto o real martírio de Regina começou muito cedo, e em sua própria casa.

O seu pai, um servidor do Império Romano chamado Olíbrio, passou a insistir para que ela aprendesse a reverenciar os deuses. Até que um dia recebeu a denuncia de que Regina era uma cristã. No início não acreditou, mas decidiu que iria averiguar bem o assunto. 

Quando Olíbrio percebeu que era verdade, denunciou a própria filha ao imperador Décio, que seduziu-a com promessas vantajosas caso renegasse Cristo.

Ao perceber que nada conseguiria com a bela jovem, muito menos demovê-la de sua fé, ele friamente a mandou para o suplício.

Regina sofreu todos os tipos de torturas e foi decapitada. O culto a santa Regina difundiu-se por todo o mundo cristão, sendo que suas relíquias foram várias vezes transladadas para várias igrejas. Até que, no local onde foi encontrada a sua sepultura, foi construída uma capela, que atraiu grande número de fiéis que pediam por sua intercessão na cura e proteção.

Logo em seguida surgiu a construção de um mosteiro e, ao longo do tempo, grande número de casas. Foi assim que nasceu a charmosa vila Sainte-Reine, isto é, Santa Rainha, na França. 

Esta festa secular ocorre, tradicionalmente, em todo o mundo cristão, no dia 7 de setembro.

São lembrados também, neste dia: Santa Eugênia Picco, São Clodoaldo, São José de Nicomédia, São Grato de Aosta (bispo), Santa Grimônia de Picardy (virgem e mártir), São Garibaldi de Dickelvenne (bispo), São Gilberto de Hexham (monge e bispo).

domingo, 5 de setembro de 2021

 

“JESUS FAZ BEM TODAS AS COISAS. FAZ OS SURDOS OUVIR E OS MUDOS FALAR”. (Mc 7,37b).

 

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano – B; Cor – Verde; Leituras: Is 35,4-7; Sl 145; Tg 2,1-5; Mc 7,31-37.

 

Diácono Milton Restivo

 

Quando lemos os Evangelhos, notamos que o povo judeu, do tempo de Jesus, acreditava que os males corporais que afetavam o ser humano (cegueira, mudez, surdez, paralisias e ou quaisquer tipos de doenças corporais) ou eram consequência de interferência de maus espíritos ou demônios (cf Mt 9,32-33; Lc 11,3) ou estavam pagando por pecados cometidos anteriormente pelo próprio doente ou por seus próprios pais, conforme vemos no Evangelho segundo João, quando os apóstolos perguntaram a Jesus a respeito de um cego de nascença:

·         “Mestre, quem pecou: este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?” (Jo 9,2).

Acreditava-se que até no ventre da mãe a pessoa cometia pecado e, por isso, pagaria durante toda a sua vida com um mal físico.

Mateus, no seu Evangelho, compactua com essa mentalidade de que muitas doenças corporais eram causadas por possessão demoníaca:

·         “Quando já tinham saído os dois cegos, levaram a Jesus um mudo que estava possuído pelo demônio. Quando o demônio foi expulso, o mudo falou, e as multidões ficaram admiradas e diziam: ‘Nunca se viu uma coisa assim em Israel’.” (Mt 9,32-33).

O Evangelista Lucas é reconhecido por muitos como médico, e Paulo, na carta aos Colossenses, testemunha isso:

·         “Lucas, o médico querido...”. (Cl 4,14).

No seu Evangelho Lucas narra:

·         “Havia ai uma mulher que, fazia dezoito anos, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e incapaz de se endireitar.” (Lc 13,11).

O próprio Lucas, como pessoa bem informada e instruída que era por ser médico, e entenda-se que devia ter conhecimentos superiores sobre enfermidades mais do que qualquer pessoa do povo pelos estudos que fizera em medicina da época, reconhece que a doença da mulher é originada pela possessão de um espírito.

Mas Lucas continua na sua narrativa:

·         Vendo-a, Jesus dirigiu-se a ela, e disse: ‘Mulher, você está livre de sua doença’. Jesus colocou a mão sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou, e começou a louvar a Deus.” (Lc 13,12-13). 

Por sua vez, Jesus não fala em pecado e nem em possessão de demônio ou de espírito; Jesus fala apenas da enfermidade:

·         “você está livre de sua doença”.

No judaísmo o destino das pessoas que tinham qualquer deficiência física era permanecer isoladas e pedir esmolas para conseguir sobreviver.

Os cegos, surdos, mudos, os amputados, os paralíticos pelas mais variadas causas, acabavam abandonados pela família e pela comunidade e expostos sem assistência de qualquer natureza pelos caminhos, ruas, logradouros e praças públicas e, prova disso, está na parábola da grande festa narrada por Lucas:

·         “Vá depressa pelas ruas e pelos becos da cidade e traga os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos.” (Lc 14,21).

Marcos, no seu Evangelho, atesta:

·         Então chegaram a Jericó. Quando Jesus e seus discípulos, juntamente com uma grande multidão, estavam saindo da cidade, o filho de Timeu, Bartimeu, que era cego, estava sentado à beira do caminho pedindo esmolas.” (Mc 10,46).

A proclamação das testemunhas que se admiraram da maravilha realizada por Jesus:

·         “Estavam muito impressionados e diziam: ‘Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar”. (Mc 7,37b),

Essa afirmativa realiza a profecia de Isaias que é lida na primeira leitura e que diz:

·         “Então, os olhos dos cegos vão se abrir, e se abrirão também os ouvidos dos surdos; os aleijados saltarão como cervo, e a língua do mudo cantará, porque jorrarão água no deserto e rios na terra seca.” (Is 35,5-6).

O uso aqui desta profecia indica que o futuro glorioso do novo Israel já está presente no ministério de Jesus.

O Evangelho de hoje Marcos nos diz:

·         E trouxeram-lhe um surdo, que falava dificilmente; e rogaram-lhe que pusesse a mão sobre ele.” (Mc 7,32). 

Dos quatro evangelhos, somente Marcos menciona este acontecimento.

Geralmente quem não ouve direito não fala direito porque não consegue articular as palavras porque foram ouvidas com deficiência: ouve com deficiência, fala com deficiência.

Então, este homem tinha dois problemas que definiam sua falta de comunicação. Tem orelhas, mas não tem ouvidos.

Este homem além de surdo poderia não ser mudo, mas era gago, como diz o evangelista:

·         trouxeram-lhe um surdo, que falava dificilmente.”

A pessoa fala o que ouve. Pelo fato de não ouvir bem, não podia falar bem, não se comunicava bem. Sua língua estava amarrada.

Então o homem que levaram a Jesus era um surdo e gago”. Ignora-se o seu nome.

Mas o que ele representa para os cristãos de hoje? É um exemplo daqueles que

·         têm ouvidos e não ouvem(Sl 115,6).

Evidentemente, este versículo refere-se a uma condição espiritual. Descreve um estado de surdez espiritual, uma incapacidade de ouvir e compreender a verdade de Deus.

Este homem surdo e gago é como a maioria dos cristãos de hoje; não falam de Deus porque não têm tempo de ouvir sobre Deus. Muitos simplesmente não parecem ter a capacidade de ouvir e assimilar a Palavra de Deus, ou porque são omissos, ou porque são desleixados das coisas de Deus.

Depois de algumas pessoas terem trazidos o surdo até Jesus, na certeza de que Jesus poderia curá-lo, Jesus passa a ter interesse pelo surdo. Agora é a vez de Jesus fazer alguma coisa.

Jesus entra em ação.

Normalmente os milagres de Jesus aconteciam em público, mas, desta vez, ele inova, faz algo diferente. Este homem que foi apresentado a Jesus não ouvia, era surdo e, portanto, não adiantava Jesus falar: o surdo não haveria de entendê-lo. Jesus tinha que fazer.

Como a maneira desse homem se comunicar com o exterior era somente com os seus olhos, porque não ouvia e nem falava direito, Jesus usou de sua pedagogia divina: qualquer coisa poderia distrair o surdo se ele continuasse no meio da multidão.

E Jesus, pegando o surdo,

·         “tirando-o à parte, de entre a multidão, pôs-lhe os dedos nos ouvidos; e, cuspindo, tocou-lhe na língua. E, levantando os olhos ao céu, suspirou, e disse: Efatá; isto é, Abre-te. E logo se abriram os seus ouvidos, e a prisão da língua se desfez, e falava perfeitamente.” (Mc 7,33-35).

A multidão, na maioria das vezes, atrapalha a ação de Deus porque quer espetáculo, esquecendo-se que os grandes milagres acontecem no silêncio, na intimidade. Por isso Jesus “tirou-o à parte, do meio da multidão” para que nada pudesse prender a atenção do surdo e ele se voltasse totalmente para Jesus.

É muito importante o significado no grego desta palavra “à parte” (“tirou-o à parte”) que é ”katá” e significa ”partícula”. Jesus pode ver as multidões, mas, no meio dela, vê o cristão como indivíduo; uma pequena partícula onde ele chama à parte com dois propósitos: primeiro é ter intimidade pessoal, ou seja, relacionamento verdadeiro, ser mesmo amigo e companheiro e, segundo, abençoar suprindo suas necessidades.

Talvez Jesus tenha ensinado a todos os cristãos uma maneira de se voltar a Deus: ver somente a Deus para depois ouvi-lo com perfeição; tirar o cristão da multidão, do burburinho do mundo, de tudo que o possa distrair e se voltar totalmente para Deus.

Quando o cristão se interioriza, o milagre acontece: ele vê a Deus e ouve a Palavra de Deus.

Com o surdo não foi diferente: Jesus o tirou do meio da multidão. Não havia mais motivos para distrações, e os olhos daquele homem estavam somente em Jesus. A princípio, o surdo só via Jesus. Depois ele passou a ouvir, pela primeira vez em sua vida, e somente a Jesus, e Jesus

·         “pôs-lhe os dedos nos ouvidos; e, cuspindo, tocou-lhe na língua. E, levantando os olhos ao céu, suspirou, e disse: Efatá; isto é, Abre-te. E logo se abriram os seus ouvidos, e a prisão da língua se desfez, e falava perfeitamente.” (Mc 7,33-35).

O Padre Bantu Mendonça K. Sayla, na sua Homilia Diária, diz que interessante é notar que Jesus toca primeiro os ouvidos e depois a boca: a catequese é primeiramente escuta, assimilação e a seguir, e, como consequência, é anúncio.

Mas não são os gestos de Jesus que curam o surdo-mudo, e sim sua palavra. Depois que Jesus ordenou “Abre-te!” é que seus ouvidos se abriram e sua língua se soltou, e ele começou a falar sem dificuldade. Com isso Marcos, no seu evangelho, esclarece a ação de Jesus.

Jesus não é um mágico. Só sua palavra liberta e reintegra, e as pessoas não precisam de rituais ou de magia para abrir os ouvidos e anunciar que ele é o Messias.

Certamente todos já se perguntaram alguma vez qual o significado da saliva de Jesus quando são lidos os textos da cura do surdo ou do cego.

Parece um tanto agressivo e diríamos, até nojento, à mentalidade atual quando a Bíblia diz que Jesus cuspindo tocou a língua do mudo, ou cuspiu nos olhos do cego (Mc 8,23), ou ainda, que cuspiu no chão, fez barro para aplicar nos olhos do cego (Jo 9,6).

Seria a saliva de Jesus medicinal? Teria Jesus poderes divinos que eram transmitidos através da sua saliva?  Havia, de fato, no tempo de Jesus a crença de que a saliva tivesse propriedades terapêuticas.

Na antiguidade a saliva era considerada uma secreção com poderes mágicos ou sobrenaturais que cura ou corrompe, que une ou dissolve, que adula ou insulta, e Marcos e João fizeram de Jesus um homem de seu tempo, quando se acreditava que a saliva tinha poderes curativos.

Mas, o que os evangelistas deixam transparecer é que as curas de Jesus, por meio de saliva, têm mais um significado teológico do que uma simples cura de deficiência física.

Marcos nos diz que Jesus usou sua própria saliva para tocar a língua do mudo.

Em outra ocasião, em Marcos mesmo, Jesus também usou sua própria saliva para a cura de um cego: “Algumas pessoas levaram um cego e pediram que Jesus tocasse nele. Jesus pegou o cego pela mão, levou-o para fora do povoado, cuspiu nos olhos dele...”. (Mc 8,22-23) e, em João também isso se repete: “Jesus cuspiu no chão, fez barro com a saliva, e com o barro ungiu os olhos do cego.” (Jo 9,6). Jesus usou sua própria saliva para tocar a língua daquele homem.

Depois de tocar os ouvidos do surdo abrindo-os, Jesus solta a sua língua para que sua comunicação seja completa. 

Jesus suspirou e disse: “efatá”, palavra aramaica que quer dizer “abra-te”.

Encontramos o efeito da palavra efatá em várias situações nas Sagradas Escrituras, como no caso de Lídia:

·         “Lídia acreditava em Deus e escutava com atenção. O Senhor abrira o seu coração para que aderisse às palavras de Paulo”. (At 16,14b),

Também no Salmo:

·         Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor”. (Sl 51,17).

Interessante, ainda, é perceber que, antes de curar o surdo-mudo, Jesus “olha para o céu e suspira” (Mc 7,34).

No suspiro de Jesus há um gesto de indignação diante da situação em que se encontram tantas pessoas marginalizadas, sem voz e sem vez:

·         “Depois olhou para o céu, suspirou e disse: ‘Efatá’!, que quer dizer; ‘Abra-se’. Imediatamente os ouvidos do homem se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade.” (Mc 7,34-45).

Jesus falou ‘efatá’ em aramaico, sua língua materna.

Ao dizer “efatá” abriram-se os ouvidos do surdo e soltou-se-lhe o empecilho da sua língua. Jesus é aquele que abre os ouvidos e a boca das pessoas:

·         “Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar”. (Mc 7,37b),.

O surdo trata-se de pessoa incapaz de ouvir, de dar seu consentimento, de testemunhar. Jesus leva essa pessoa para fora da multidão.

Jesus cura o surdo-mudo longe da multidão para que este se sinta, depois, responsável pelo anúncio daquilo que Jesus lhe fez, tornando-se, por sua vez, evangelizador, isto é, portador da boa-nova de que

·         “verdadeiramente este homem é Filho de Deus” (Lc 23,47b).

Tocando Jesus o surdo-mudo, é o próprio Deus que se ocupa de quem não podia ouvir nem falar, ou seja, ele está reintegrando em sua dignidade e identidade alguém que fora privado da vida.

Isso está em íntima sintonia com a primeira leitura.

A multidão proclama que Jesus

·         “tem feito bem todas as coisas: aos surdos fez ouvir e aos mudos falar”. (Mc 7,37b).

Portanto, quem é Jesus? É aquele que cria o mundo novo. É aquele que, vindo de Deus, devolve vida e liberdade aos oprimidos e mutilados pela sociedade.

Pela palavra e pelo toque de Jesus o próprio surdo-mudo, depois de curado, torna-se evangelizador.

Este é grande desafio para o cristão que ouve a Palavra de Jesus e é tocado por ele e por isso crê que deve ser cristão maduro e comprometido.

 

 

sábado, 4 de setembro de 2021

 


 “ASSIM NOS DIZ O SENHOR...”

 

  Assim se dirige a você o nosso  Divino Mestre: No meu Evangelho eu disse para você: “Sem mim você não pode fazer nada.”  (Jo15,5). Não tente fazer nada sem mim...

Você está preocupado? Preocupações você sempre teve e sempre terá; elas são próprias da sua natureza humana, de suas limitações. Você é egoísta até no que se refere às suas preocupações; você não as quer dividir com ninguém, quer sofrer sozinho...

Tudo seria mais fácil se você soubesse dividir melhor tudo o que  tem: suas alegrias, seus momentos felizes, suas tristezas, e até as suas preocupações com alguém.

Dividir preocupações não significa que você vá transferi-las para alguém, mas a confiança que você demonstra a alguém que lhe respeita e lhe aceita como é, além de  aliviar a sua tensão, permite que esse alguém, estando com a mente mais descansada e tranqüila, poderá lhe ajudar a achar uma solução fácil para aquilo que você julga tão difícil e aparentemente sem solução.        Procura, filho,   expressar os seus sentimentos com palavras e o ideal é que você tenha uma pessoa que lhe respeite, que lhe ame e que lhe compreenda para que possa ser seu confidente; que possa lhe apoiar e com quem você possa partilhar suas tribulações; mas procure expressar com honestidade os seus reais sentimentos.

Não se deixe inibir por um sentimento de falso orgulho, querendo mostrar falsamente a aparência de que você seja uma pessoa inabalável, inatingível diante da adversidade.

Filho, compreenda isso: somente quando você se abrir para alguém compreensivo é que esse confidente  poderá começar a entender a sua ansiedade, a sua melancolia, a sua solidão, as suas preocupações.         É preciso, filho, e é muito doce e confortante ter um amigo confidente que fala de modo direto e que lhe ajuda a situar as coisas nas suas devidas proporções e perspectivas. Isso vai lhe ajudar a focalizar apenas um problema de cada vez.

Você tem que entender que o início do combate a qualquer mal, em primeiro lugar exige que você admita que você é falho, que comete erros, que grande parte dos seus problemas são causados  pelas suas próprias deficiências; e para que você tenha consciência disso, busque nas Sagradas Escrituras o que eu já disse para o mundo, mas para você, que me é muito querido, de uma maneira especial: “Peça, e lhe será dado; busca, e você achará; bata, e a porta será aberta. Porque todo o que pede, recebe; o que busca, encontra, e quem bate, terá a porta aberta.” (Mt 7,7-8).

Procure se conhecer a cada dia que passa mais e melhor, e procure valorizar o seu real valor. Você é muito importante para mim; você vale muito diante de Deus Pai. Esteja sempre disposto a perdoar, a esquecer...

Você poderá dizer: “esquecer não é tão fácil assim”. É verdade,  mas é melhor você procurar esquecer do que destruir o resto de sua vida relembrando passagens que já se foram e não tem mais jeito de consertá-las...

Você também se esquece do que eu lhe disse no Meu Evangelho: “Venham para mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso.  Tomem sobre os vossos ombros o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mt 11,28-30).

Não se preocupe com o dia de amanhã; eu estou sempre com você, se você quiser; eu lhe ajudarei, se você quiser...

Venha até mim; traga-me suas preocupações, suas tristezas, suas dúvidas, suas angústias, venha e me conte tudo o que lhe magoa, o que lhe oprime, e eu lhe aliviarei e colocarei também, na boca de seu confidente palavras que lhe ajudarão a superar o momento difícil por que você passa.   Se o meu Pai que está nos céus olha até pelas aves que voam e pelas flores do campo não deixando que nada lhes falte, o que não faria por você, filho, que é tão querido por Deus e vale muito mais que as aves e as flores?

Abre o seu coração para a minha voz, para o meu apelo. Junte as suas preocupações, as mais terríveis preocupações e coloque-as sobre o altar das oferendas.

Eu não as tomarei todas para mim porque é através delas que você deve se aperfeiçoar, e se você não passar com dignidade por essas provações, você não será digno de mim, você não chegará até mim; você deve beber do cálice que eu bebi para se tornar merecedor da casa que eu lhe preparei no reino de meu Pai.

Filho, tenha confiança, acredite, ajudarei você superar esse momento com dignidade e amor.

O seu mal é julgar que suas preocupações são as maiores do mundo e que ninguém pode lhe ajudar; o seu grande mal é julgar que ninguém vai lhe entender, que ninguém pode lhe ajudar e você alimenta esse falso orgulho de querer guardá-las só para você; que não existe ninguém de confiança que você possa se desabafar.

Para você ver  como existem pessoas com mais problemas que você, sugiro para você, filho, que, quando se sentir triste e deprimido, preocupado, acabrunhado, saia de dentro de você mesmo, visite um hospital onde existem irmãos sofrendo em seus leitos de dores e mortes; visite um asilo onde você vai encontrar velhos desamparados pela sociedade e até por seus familiares e que ali encontram amparo e leito para passarem os tristes últimos dias de suas vidas; visite uma creche, onde crianças desamparadas, que não pediram para nascer, tristemente desconhecem o amor de mãe e tem futuros incertos...     

Filho, saia de dentro de você mesmo, deixe de ser egoísta, deixe de ser orgulhoso, procure o seu próximo e você vai ver  que as suas preocupações são nada diante das injustiças do mundo que você vive...  assinado: JESUS CRISTO. 


sexta-feira, 3 de setembro de 2021

 

MINHA ALMA ENGRANDECE AO SENHOR

 

Maria era uma pessoa da amizade de Deus. Era uma pessoa íntima do Senhor e isso nós vemos pela maneira com que o Anjo a cumprimentou com muita intimidade, quando disse: “Ave Martia, cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1,28).

E nós, todas as vezes que repetimos a oração da Ave Maria, cumprimentamos Maria com uma saudação toda especial vinda do céu, da parte do Senhor Nosso Deus.

Todas as vezes que repetimos: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo”, dizemos: “eu te saúdo, Maria, porque és a criatura preferida de Deus que te encheu de presentes, graça e santidade, e, por isso, mereceste ser escolhida a mãe do Salvador, a mãe do Filho de Deus, a mãe de Deus, e Deus está por todo o sempre contigo.”

Assim como Jesus Cristo, o Filho de Deus, Deus portanto, é filho de Maria, nós também  deveríamos  nos esforçar para sermos também filhos de Maria, irmãos de Jesus Cristo.

Assim como Jesus, como filho, amou Maria como mãe, nós também, a exemplo de Jesus deveríamos amar Maria;  será que Jesus, como filho legítimo de Maria que é, não ficaria contente e feliz por ver sua mãe amada por todos aqueles que dizem que o amam também???

Mas o amor, a devoção que consagramos à Maria é fraca, escassa, mesquinha, deturpada pela nossa ignorância religiosa que muitas vezes chega às raias da heresia.

Como gostaria de mostrar a todos os cristãos, adoradores de Jesus Cristo Deus, como Maria realmente foi: sem tronos e sem coroas, sem mantos, apenas uma mulher simples, uma simples dona de casa, de avental, cabelos em desalinho pelo trabalho doméstico e quotidiano e olhos lacrimejantes pela fumaça ardida da lenha que arde no fogão.

Gostaria de mostrar uma Maria tão pequena e humilde que todos os que chegássemos a ela, sentíssemo-nos à vontade junto dela. Infelizmente a nossa ignorância tira de Maria todo o esplendor de sua humildade.

E é por essa razão que Jesus Cristo não é tão amado como deveria ser: é por não amarmos Maria como deveríamos amá-la que os homens não se convertem; por não conhecer Maria como ela foi na realidade de sua pobreza na pobre casa de Nazaré, e de sua humildade suprema, fazendo-se  “...escrava do Senhor” (Lc 1,38).

Enfeitamos demais a figura de Maria quando, na realidade, ela quer ser somente o caminho mais curto que nos leva até Jesus, seu Filho.

O Senhor Nosso Deus a escolheu pobre e humilde e, dentro de sua pobreza e humildade ela não se engrandeceu por ter sido escolhida a mãe do Filho de Deus, muito pelo contrário, se autoproclamou  “...escrava do Senhor”. (Lc 1,38).

E, consciente da sua responsabilidade perante o universo, Maria eleva ao Senhor um dos mais belos cânticos já feito, em forma de oração e agradecimento ao Senhor, quando diz: Minha alma glorifica o senhor, e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador. Porque lançou os olhos para a humildade de sua serva; portanto, eis que de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Todo Poderoso fez em mim grandes coisas, o seu nome é santo. E sua glória perdura de geração em geração, para aqueles que o temem. Agiu com a força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso, depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou, cumulou de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias, socorreu Israel, seu servo, lembrando de sua misericórdia, - conforme prometera a nossos pais -  em favor de Abrahão e de sua descendência para sempre”. (Lc 1,46-55).

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

 

MUDANÇA DE VIDA E MENTALIDADE

 

Quando Jesus se deparava com pessoas que viviam vida pouco digna, que se intitulavam santos e exploravam o povo, que viviam mergulhados no pecado, na injustiça e que não tinham qualquer intenção ou interesse de mudarem o seu modo de vida e mentalidade, Jesus era duro, chamando-os de geração adúltera, raça de víboras, sepulcros caiados: “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas, porque vocês bloqueam o Reino dos Céus diante dos homens! Pois vocês mesmos não entram, nem deixam entrar os que querem fazê-lo.” (Mt 23,13-14), e, na sequência, Jesus profere outras seis maldições contra os escribas e fariseus e, dentre estas está esta terrível, que suscita em cada um de nós motivo de reflexão: (Mt 23,27-28). “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Vocês são semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão. Assim também vocês: por fora parecem justos aos homens, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e iniquidade.”

Aos que se apresentavam arrependidos, procurando mudar de vida e de mentalidade, Jesus os recebia com carinho e amor paternal; mas, pelo contrário, os que viviam uma vida pecaminosa e, apesar dos ensinamentos do Divino Mestre, se mantinham na sua trilha de pecado e iniquidade, para esses Jesus tinha palavras duras e mostrava qual seria o destino deles se continuassem na trilha do desrespeito aos mandamentos do Senhor.

Quando Jesus disse que os publicanos e prostitutas chegariam aos céus primeiro ou precederiam muita gente no reino dos céus, até hoje, muita gente que não vive o espírito de Jesus Cristo e nem assume a sua mensagem evangélica, se escandaliza, desconhecendo o sentido verdadeiro dessa afirmativa do Divino Mestre.

Os ladrões e prostitutas que tiveram uma vida de pecado mas que se arrependeram, esclarecidos que foram  pela luz e força do espírito do Evangelho, esses precederão no Reino dos Céus a muitos que se julgaram e se julgam santos.     

O Reino dos Céus é para todos os que tem o coração puro: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.” (Mt 5,8).

Assim o salmista define os que herdarão o Reino dos Céus: “Quem pode subir a montanha de Iahweh? Quem pode ficar de pé no seu lugar santo? Quem tem mãos inocentes e coração puro, e não se entrega à falsidade, nem faz juramentos para enganar” (Sl 24 (23),3-4).

O Reino dos Céus foi feito para os mansos e humildes de coração, para os que tem mãos inocentes e coração puro, não se entrega à falsidade e nem faz juramentos para enganar; para os que oram, reconhecendo a grandeza e misericórdia de Deus Pai, para os que sabem que são pecadores mas fazem penitência e se arrependem verdadeiramente de seus pecados.

Mas os que estão no pecado e continuam  na sua vida irregular, pecaminosa, a esses Jesus  tem palavras duras e promessas pouco animadoras para a vida futura.

É por isso que Paulo escreve a Timóteo, chamando-lhe a atenção de como deve viver o cristão que está preocupado com a vida eterna e lutando para herdar o Reino de Deus: “Tu,, porém, ó homem de Deus, foge dessas coisas. Segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna,, para a qual foste chamado, como o reconheceste numa bela profissão de fé diante de muitas testemunhas.” (1Tm 6,11-12).

Assim João escreve na sua primeira carta: “Todo o que crê que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus, e todos o que ama ao que gerou ama também o que dele nasceu. Nisso reconhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Pois este é o amor de Deus; observar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, pois todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que venceu o mundo: A NOSSA FÉ” (1Jo 5,1-4).

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

 

A FORÇA DO CRISTÃO ESTÁ NA CARIDADE, NA HUMILDADE.

 

É no trabalho e no serviço aos irmãos que o cristão encontra sentido para a vida.

Quantas pessoas caminham pela vida desiludidas, descrentes e sem motivações alguma para continuar a sua jornada; pessoas que se preocupam somente consigo mesmas; pessoas que têm dó de si mesmas e vivem reclamando por não terem uma vida que julgam seria melhor, a vida que elas gostariam de ter.

Pessoas egoístas que se trancam dentro de si próprias e não têm tempo para olhar à sua volta para socorrer as necessidades do irmão mais carente que elas, e só se preocupam em cuidar das coisas que apenas lhe trazem conforto e vantagens.

Pessoas orgulhosas como o pavão que, quando exibe sua plumagem enche-se de orgulho e vaidade, como se isso fosse a coisa mais bonita e importante do mundo mas que nada produzem de útil, esquecendo-se que quando levanta as penas deixa aparecer ridiculamente as horríveis pernas e pés; pessoas que só querem aparecer às custas e com o sacrifício das pessoas que as rodeiam.

O Reino de Deus não foi feito para essas pessoas.

O Reino de Deus não foi feito para os que querem ser os primeiros nas coisas do mundo, para os que querem se sobressair, ainda que, para isso, tenham que massacrar o irmão, levantar falsos testemunhos, fazer a sua própria verdade. Jesus chama a atenção a respeito disso.

Quem quiser ser o maior no reino dos Céus deve ser o primeiro a servir os irmãos, a valorizar os irmãos, a respeitar os irmãos, se colocar ao serviço dos irmãos, porque, no dizer de Jesus Cristo, “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos.” (Mc 9,35).

O mundo leva todos os homens a lutar por uma vida melhor, mais comodidade, mais dinheiro, mais conforto, mais estabilidade, mais segurança, porque, para o mundo, ser o primeiro significa ter muitos bens, dinheiro, diversão e a ânsia de ganhar mais, ter mais e viver de maneira estável, e isso aumenta a cada dia que passa e nunca será totalmente satisfeito, porque o mundo não satisfaz ninguém.

Os gananciosos nunca se contentam com o que tem; os poderosos chegam a roubar e matar, se for preciso, para satisfazerem seus caprichos de serem os primeiros, terem mais. O mundo jamais saciará aqueles que atendem o seu convite de serem importantes aos olhos dos homens.   

A doutrina de Jesus Cristo é exatamente ao contrário do que ensina o mundo.

O mundo diz: “Se você quer ser o primeiro não se preocupe em espezinhar o outro, a mentir, a levantar falso testemunho, a ser infiel, não dê chances às pessoas que você não gosta e que você julga ser seu inimigo; não se preocupe com a opinião dos outros, o importante é você ser o primeiro em tudo a qualquer custo.”

Jesus Cristo diz: “...se quiser ser o primeiro, seja o último e o servo de todos.” (Mc 9,35). “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo  amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.” (Mt 5,43-44). “Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos difamam. A quem te ferir numa face, oferece a outra...” (Lc 6,27-29). “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros.” (Jo 13,34-35).

O mundo diz: “Seja sempre o primeiro, lute sempre para enriquecer cada vez mais, goze a vida, mesmo que seja às custas das lágrimas dos outros.”            

Jesus Cristo diz: “...vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois vem e segue-me.” (Mt 19,21); “Bem-aventurados os pobres em espírito,, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mt 5,3); “Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não fiquem velhas, um tesouro inesgotável nos céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Pois onde está teu tesouro, ai estará também o vosso coração.” (Lc 12,33-34).

O mundo leva o homem à competição com os demais a ter uma casa melhor, carro, e tudo o mais que faz com que o homem se acomoda, se fecha dentro de si próprio e se isola, esquecendo-se dos irmãos.

Jesus Cristo, ao contrário, ensina que o cristão deve se esquecer de si próprio para se preocupar com o irmão: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos.” (Jo 15,13); “Não desprezeis nenhum desses pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus vêem  continuadamente a face de meu Pai que está nos céus.” (Mt 18,10); “... cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos  mais pequeninos, a mim o fizestes.” (Mt 25,40); “E quem der, nem que seja um copo d’água fria a um desses pequeninos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo que não perderá sua recompensa.” (Mt 10,42).

Jesus Cristo veio chamar os humildes e pequeninos para pertencerem ao reino dos Céus, e declara isso agradecendo em oração ao Pai: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas  aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos.” (Mt 11,25).

Jesus Cristo veio chamar os puros de coração “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.” (Mt 5,8), e os homens continuam a ignorar a pureza do coração e dos costumes, se entregando a toda natureza de torpeza.

Jesus Cristo veio para perdoar os pecados dos corações arrependidos:  ”Por essa razão, eu te digo, seus numerosos pecados lhe estão perdoados, porque demonstrou muito amor... Teus pecados estão perdoados... Tua fé te salvou; vai em paz.” (LC 7,47-50); “Ninguém te condenou?” Disse ela: “Ninguém, Senhor.” Disse, então, Jesus: “Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais.” (Jo 8,10-11), e os homens só pensam em julgar, criticar e condenar o irmão.     

Jesus Cristo veio tratar dos doentes, socorrer desamparados e confortar os aflitos: “Não são os que tem saúde  que precisam de médico, mas sim os doentes... Com efeito, eu não vim chamar justos, mas pecadores.” (Mt 9,12-13); “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.” (Mt 5,5), e os homens continuam com a sua pouca disponibilidade, só pensando em si mesmos.

Se quisermos ser o primeiro no Reino de Deus, sejamos o último e o servo de todos...