quarta-feira, 26 de maio de 2021

 

SÃO FILIPE NÉRI - 1515-1595

 

Fundou a Congregação dos Padres do Oratório. "Contanto que os meninos não pratiquem o mal, eu ficaria contente até se eles me quebrassem paus na cabeça."

Há maior boa vontade em colocar no caminho correto as crianças abandonadas do que nessa disposição? A frase bem-humorada é de Filipe Néri, que assim respondia quando reclamavam do barulho que seus pequenos abandonados faziam, enquanto aprendiam com ele ensinamentos religiosos e sociais.

Nascido em Florença, Itália, em 21 de julho de 1515, Filipe Rômolo Néri pertencia a uma família rica: o pai, Francisco, era tabelião e a mãe, Lucrécia, morreu cedo. Junto com a irmã Elisabete, foi educado pela madrasta.

Filipe, na infância, surpreendia pela alegria, bondade, lealdade e inteligência, virtudes que ele soube cultivar até o fim da vida. Cresceu na sua terra natal, estudando e trabalhando com o pai, sem demonstrar uma vocação maior, mesmo freqüentando regularmente a igreja. Aos dezoito anos foi para São Germano, trabalhar com um tio comerciante, mas não se adaptou.

Em 1535, aceitou o convite para ser o tutor dos filhos de uma nobre e rica família, estabelecida em Roma. Nessa cidade foi estudar com os agostinianos, filosofia e teologia, diplomando-se em ambas com louvor. No tempo livre praticava a caridade junto aos pobres e necessitados, atividade que exercia com muito entusiasmo e alegria, principalmente com os pequenos órfãos de filiação ou de moral.

Filipe começou a chamar a atenção do seu confessor, que lhe pediu ajuda para fundar a Confraternidade da Santíssima Trindade, para assistir os pobres e peregrinos doentes. Três anos depois, aos trinta e seis anos de idade, ele se consagrou sacerdote, sendo designado para a igreja de São Jerônimo da Caridade.

Tão grande era a sua consciência dos problemas da comunidade que formou um grupo de religiosos e leigos para discutir os problemas, rezar, cantar e estudar o Evangelho.

A iniciativa deu tão certo que depois o grupo, de tão numeroso, passou à Congregação de Padres do Oratório, uma ordem secular sem vínculos de votos.

Filipe se preocupou somente com a integração das minorias e a educação dos meninos de rua. Tudo o que fez no seu apostolado foi nessa direção, até mesmo utilizar sua vasta e sólida cultura para promover o estudo eclesiástico.

Com seu exemplo e orientação, encaminhou e orientou vários sacerdotes que se destacaram na história da Igreja e depois foram inscritos no livro dos santos.

Mas somente quando completou setenta e cinco anos passou a dedicar-se totalmente ao ministério do confessionário e à direção espiritual.

Viveu assim até morrer, no dia 26 de maio de 1595.

São Filipe Néri é chamado, até hoje, de "santo da alegria e da caridade".

São Comemorados também neste dia: Nossa Senhora de Carravaggio, Santo Alfeu (irmão de São Tiago, citado em Mt 10,3), São Berengário de São Papoul (monge), São Eleotério (papa e mártir), Santa Eva de Liége, Santa Maria Ana de Jesus Paredes, Santos Felicíssimo, Heráclio e Paulino (mártires de Todi).

terça-feira, 25 de maio de 2021

 

REZAR O TERÇO TODOS OS DIAS

           

Uma das mais belas orações, senão a mais bela das orações que podemos e devemos recitar para a nossa querida Mãe do Deus, é a reza do terço, a oração do rosário. É a oração que mais agrada a Virgem Mãe de Deus e nossa.

A reza do terço deveria acontecer todos os dias  em todas as casas dos que dizem devotos e filhos de Maria. Quando gostamos de alguém, procuramos fazer as coisas  que esse alguém gosta; se gostamos realmente de Maria, se amamos Maria, deveríamos fazer a coisa que ela mais gosta, que é a reza do terço.          

Através da reza do terço meditamos as principais passagens evangélicas que falam da nossa redenção, da nossa salvação, do grande amor que Deus Pai tem por nós, seus filhos.

Nós meditamos a presença do Espírito Santo que encarna no seio puríssimo da Virgem Maria o Deus Filho que se fez homem e que veio a este  mundo para reerguer o homem caído  no lodo do pecado e transformá-lo em filho de Deus.

Todos os cristãos que dizem amar Maria ou que se socorre a ela em seus momentos de dificuldades, para agradá-la, deveriam rezar o terço todos os dias.

Cada conta do terço que passamos entre os dedos e rezamos uma Ave Maria, é um passo a mais que damos em direção à Maria. A reza do terço tem que ser uma necessidade para o cristão, principalmente para aquele cristão que diz amar Maria e que sempre corre até ela quando está em dificuldades.

Maria, identificada como Nossa Senhora de Fátima, recomendava aos pastorzinhos que rezassem o terço todos os dias, e não somente fez essa recomendação como ensinou os pastorzinhos a rezar o terço, e mais do que isso, rezou o terço com eles.

Maria, identificada como Nossa Senhora de Lourdes, rezou o terço com a sua vidente, Bernadete. Não podemos entender uma pessoa cristã que diz que ama Maria e que não faz aquilo que Maria mais gosta e mais pede que é a reza do terço.

O terço, na nossa vida, na nossa alma, deve ser tão importante e necessário como o alimento é importante e necessário para o nosso corpo, para a nossa saúde, como o ar é necessário para a nossa sobrevivência.

São Bernardo dizia que “jamais se ouviu dizer que alguém tivesse recorrido  à proteção da Santíssima Virgem Maria com confiança e perseverança e tivesse sido por ela desamparado.”, e a melhor maneira de demonstrarmos o nosso amor e a nossa confiança em Maria é através da reza do terço. Cada conta do terço que passa entre os nossos dedos indicando que se deve rezar mais uma Ave Maria, é mais um passo largo que damos em direção à Maria para nos jogarmos no seu colo.

E como é gostoso a gente correr para os braços da mãe; e porque é que nós não corremos, então ao encontro da nossa boa Mãe do Céu rezando todos os dias o terço, que é a devoção que mais agrada a Maria? Se amamos de verdade Maria não podemos deixar de rezar o terço, não somente no mês de maio ou de outubro, mas todos os dias de nossa vida.

Não é necessário se ter um horário especial para se rezar o terço; qualquer hora é hora. Quando estamos caminhando na rua, quando estamos dirigindo o carro, a moto, quando estamos no nosso trabalho, quando a dona de casa está passando roupa, escolhendo arroz, fazendo café, arrumando a cama, não importa o que se está fazendo, pode rezar o terço e transformar o seu serviço em oração juntamente com o terço, e não se perde tempo.

Nós gostamos de dizer, e dizemos que Maria é a Virgem do Silêncio. Onde quer que estejamos, não importa onde, às vezes na mais barulhenta das ruas,  basta que façamos silêncio no nosso coração e já está preparado o ambiente para se rezar o terço.

Ao invés de ligarmos o rádio para ouvirmos uma música, o que é muito bom e às vezes até necessário, deixemos o rádio ou a televisão desligados por alguns instantes e rezemos o terço.

Não são mais do que quinze ou vinte minutos, e o tempo é a gente quem escolhe.

Algumas pessoas dizem que não rezam o terço porque é muito cansativo, porque o terço é uma oração muito repetitiva e se fica repetindo um monte de Ave Marias sem cessar, mas eu pergunto: qual é a mãe que não gosta de ouvir dos lábios do seu filho cinco, dez, vinte, cincoenta centenas de vezes seguidas: “mamãe, eu te amo”? Qual é a esposa, ou  noiva, ou namorada  que não gosta de ouvir do seu amado, mil vezes, esta frase, “meu bem, eu te amo?”.

Então, a reza do terço é exatamente isso: cada Ave Maria que rezamos é como se disséssemos para Maria: “Minha mãe, eu te amo, e como te amo...”

Se não gostássemos de coisas repetitivas, então não almoçaríamos ou jantaríamos, porque, quantos garfos de alimentos nós colocamos na boca na hora da refeição?        E isso não é uma atitude repetitiva? Repetitiva, sim, mas muito necessário para a saúde do nosso corpo, assim como a reza do terço é necessária para a nossa vida espiritual, para a saúde da nossa alma.

Cada Ave Maria do terço que rezamos é mais uma pérola que colocamos no colar, que é o terço, e, no final, colocamos esse colar de pérolas preciosas no pescoço de Maria, como um presente que a mãe recebe de seu filho muito amado.

Rezar o terço é a melhor maneira de declararmos o nosso amor pela Virgem Santíssima que disse ser escrava de Deus para se tornar a Rainha de todos os homens. Outros dizem que preferem ler os Santos Evangelhos do que rezar o terço; isso é ótimo, sem dúvidas, precisamos realmente ler os Santos Evangelhos todos os dias, mas, o que é o terço senão a meditação pura e simples dos Santos Evangelhos?

Então, vamos ler o Evangelho, sim, mas sem deixar de rezar o terço. Cada mistério do terço é uma passagem do Evangelho; cada oração que se reza no terço é extraída do Evangelho.

O terço é o Evangelho vivido e meditado. Não tem desculpas; uma das melhores maneiras de meditarmos os Evangelhos e ao mesmo tempo agradarmos a Mãe de Deus e nossa é rezando e meditando o terço.

Maria Santíssima, em uma de suas aparições a São Domingos de Gusmão, disse: “Os que rezarem o meu rosário acharão, durante a vida e a morte, conforto e luz.”

Em Fátima, Nossa Senhora, a nossa Maria, disse aos três pastorzinhos: “Rezem o terço todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz no mundo e o fim da guerra, porque  só ela  poderá valer  e todos obterão as graças desejadas  se rezarem diariamente o terço.” São Francisco de Sales dizia que “O rosário é a melhor maneira de rezar.” Então, o que estamos esperando para começarmos a rezar o terço todos os dias, se ainda não o fazemos???

segunda-feira, 24 de maio de 2021

 

O QUE É UM DIÁCONO NA IGREJA?

 

Diácono Milton Restivo

 

Hoje, 24 de maio, faz quatorze anos que recebi o Sacramento da Ordem no grau do Diaconato Permanente da nossa Igreja. Foi o Cardeal D. Orani João Tempesta, na época bispo da Diocese de São José do Rio Preto, atendendo ao apelo e à necessidade da Igreja, quem introduziu o Diaconato Permanente na nossa Diocese. Quem ordenou a mim e ao Diácono Amâncio, hoje de saudosa memória, os dois primeiros Diáconos Permanentes ordenados na e da Diocese de São José do Rio Preto/SP, foi o nosso bispo da época, D. Paulo Mendes Peixoto, hoje Arcebispo de Uberaba/MG.

Nessa mesma data fui provisionado na Paróquia São Pedro e São Paulo, no Jardim Vitória Régia, São José do Rio Preto/SP, onde permaneço provisionado até a presente data.

O Diácono Permanente é o único cristão que recebe todos os sacramentos da Igreja porque, além do Sacramento da Ordem, como os Presbíteros e Bispos, recebe também o Sacramento do Matrimônio, Sacramento este que os Presbíteros e Bispos da Igreja não recebem.

Mas, o que é ser Diácono na e da Igreja?

Comecemos pela sua instituição administrativa contida no livro dos Atos dos Apóstolos: “o número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica. Os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário” (At 6,1).

Vemos que, em Jerusalém, não eram somente judeus que haviam se convertido para a Igreja do Caminho mas, também, fiéis de origem grega aderiram aos ensinamentos do Divino Mestre.

As pessoas carentes por parte dos judeus tinham atendimento preferencial por parte da comunidade, enquanto que os necessitados de origem grega e ou estrangeiros eram negligenciados e, por isso, reclamaram. Para serem encarregados dessa tarefa foram escolhidos sete homens, todos de origem grega, “de boa fama, repletos do Espírito e de sabedoria” (At 6,3).

Jamais poderíamos dizer com segurança que, ao serem encarregados esses sete homens para esse mistér, estava instituído na Igreja o ministério diaconal porque, em primeira instância, Jesus foi o primeiro diácono e o diácono por excelência: “quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês; e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se servo de vocês. Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (Mt 20,26-28).

Ninguém criou nada se já Jesus não tivesse sido ou dado o exemplo. O fato de os Apóstolos escolherem sete homens “de boa fama, repletos do Espírito e de sabedoria” no meio da comunidade é consequência daquilo que Jesus já fizera e dera o exemplo na última ceia quando lavou os pés dos seus discípulos e disse: “Vocês compreenderam o que eu acabei de fazer? Vocês dizem que eu sou o Mestre, o Senhor. E vocês têm razão; eu sou mesmo. Pois bem: eu que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz. Eu garanto a vocês: o servo não é maior que o seu senhor, nem o mensageiro é maior do que aquele que o enviou. Se vocês compreenderam isso, serão felizes se o puserem em prática”. (Jo 13,12-17).

Os Apóstolos, ao designarem esses sete homens, apenas acordaram para a realidade de que a Igreja de Jesus Cristo é diaconal por excelência, nasceu diaconal e deixa de ser Igreja se não for diaconal. Ao designar esses homens para esse serviço, os Apóstolos estavam delegando a eles um serviço, que em primeiríssimo lugar, era deles próprios, os Apóstolos, conforme disse o teólogo Collins que, fazendo isso, os Apóstolos poderiam continuar com o seu ministério apostólico no Templo, entre os judeus, ministério esse que era uma diaconia, a de proclamar ali a Palavra. Isso deixa claro e é biblicamente correto que o ministério diaconal na Igreja foi instituído antes mesmo do ministério presbiteral. O presbítero que não tenha sido diácono, que não tenha vivido a sua diaconia intensamente e que não continue com seu ministério diaconal por toda a sua vida, não está exercendo o ministério a que fora chamado, mas se converteu em um profissional do altar, e como temos profissionais do altar.

A Igreja é, por excelência, diaconal, servidora, a exemplo de Cristo, que disse: “o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (Mt 20,28). Os sete homens escolhidos eram de origem grega e, portanto, eles deveriam desempenhar a sua diaconia entre os cristãos de origem grega, e isso quer dizer que, não somente suprir as necessidades materiais desse seguimento, mas de proclamar também a Palavra para eles.

Para ficar claro isso, nada melhor que buscar a opinião de um mestre em Teologia, Júlio César Bendineli, constante do seu livro “Diaconia da Palavra”, página 68: “É por isso que os Atos dos Apóstolos apresentam, na sequência, Estevão pregando em Jerusalém e, pouco depois, Filipe, como sendo o responsável pelo progresso da Palavra na Samaria (At 8,4ss), isto é, para além de Jerusalém e da Judéia. Mais adiante, o mesmo Filipe voltará à cena, quando será chamado, não por acaso de Evangelista (At 21,8). Sua missão o levaria até a Cesaréia, um porto usado para se viajar a Roma (At 8,4-14.26-40), objetivo final da trajetória da Palavra nos relatos lucanos”.

E continua Júlio César Bendineli no mesmo livro, página 69: “Os diáconos, assim como os Apóstolos, eram enviados com a função, principalmente, de anúncio do Evangelho, e mais tarde, na era patrística, sempre apareciam associados aos bispos e aos presbíteros no ministério da Palavra, especialmente no contexto catequético [...] Em resumo, a essência do ministério dos antigos diáconos era a mediação, o ofício de ser ponte ente a Igreja e o mundo, operado pela mensagem/palavra que transmitiam na condição de representantes de uma autoridade (bispo) em nome da qual exerciam funções caritativas ou de cuidado com o próximo, sempre conectadas com a pregação do Evangelho”.

O livro dos Atos dos Apóstolos se preocupa em colocar em relevo os dois dentre esses sete homens escolhidos pelos apóstolos que se distinguiram pela pregação da Palavra, aos quais, nesse livro, foi dado destaque especial: Estevão e Filipe. Estevão que, inclusive, foi martirizado a pedradas por proclamar e testemunhar a Palavra, conforme é narrado no livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo 7. Foi justamente pelo zelo da proclamação da Palavra que Estevão atraiu contra si feroz oposição por parte dos judeus. Uma de suas mensagens sobre o Reino de Deus acendeu a fúria dos ouvintes que confrontados no seu pecado resolveram matá-lo.

Em seu martírio, Estevão teve uma visão do céu aberto e Jesus de pé ao lado do Pai. O diácono morreu pedindo que Deus perdoasse os seus algozes, entre os quais estava Saulo de Tarso, que mais tarde se tornaria o mais célebre dos apóstolos.

O outro desses sete homens que se destacou pela proclamação da Palavra, foi Filipe (não o apóstolo). Felipe, não que não tenha se limitado às tarefas do dia-dia da igreja e do seu ministério, mas, homem consagrado a Deus, foi orientado pelo Espírito Santo a seguir pelo caminho que ligava Jerusalém a Gaza. Na estrada, aproximou-se correndo da caravana de um alto oficial etíope, eunuco, administrador dos bens de sua rainha. O oficial lia um trecho do livro do profeta Isaías, sobre Jesus. O etíope convidou Filipe a subir no carro e Felipe usando a palavra do profeta, pregou o Evangelho com tamanha unção que o oficial creu e quis ser batizado ali mesmo, à beira do caminho. Após batizar o oficial, Filipe foi arrebatado pelo espírito do Senhor, deixando o etíope maravilhado com o poder de Deus, conforme é narrado nos Atos dos Apóstolos, 8,26-40.

Jesus, que veio ao mundo “para servir e não ser servido”, deu o exemplo da diaconia na última ceia quando, “se levantou da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Colocou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando com a toalha que tinha na cintura. [...] Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto, sentou-se de novo, e perguntou: ‘Vocês compreenderam o que eu acabei de fazer? Vocês dizem que eu sou o Mestre, o Senhor. E vocês têm razão; eu sou mesmo. Pois bem: eu que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz. Eu garanto a vocês: o servo não é maior que o seu senhor, nem o mensageiro é maior do que aquele que o enviou. Se vocês compreenderam isso, serão felizes se o puserem em prática”. (Jo 13,4-5.12-17).

Isso é diaconia. Isso é ser diácono, imitando o exemplo do Mestre. Não se é papa, nem bispo e nem padre se não for diácono, tanto é que o primeiro degrau para o ministério ordenado é a ordenação à diaconia; mas esse período entre a diaconia e o presbiterato é tão curto que muitos presbíteros se esquecem que, antes de serem presbíteros, são diáconos e que deveriam continuar sendo, não importando o grau de ordenação que tenham recebido. Prova disso está quando o Papa Francisco em uma Quinta-feira Santa, quando da cerimônia do Lava-pés, colocou a sua estola na transversal, como a usa os diáconos, da direita para a esquerda, e lavou os pés dos seus fiéis.

A estola é o símbolo da dignidade e do compromisso do ministro ordenado, e a estola do diácono é na transversal, e isso lembra a toalha cingida na cintura por Jesus para lavar os pés dos seus discípulos. Pena que a memória da última ceia, quando Jesus lava os pés dos discípulos para dar o exemplo da diaconia a todos, acontece, na nossa Igreja, somente na cerimônia da Quinta-feira Santa que, em muitos lugares, é mais transformado em teatro do que em liturgia e memória.

Seria esse o objetivo de Jesus ao dizer: “Eu lhes dei o exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz. Eu garanto a vocês: o servo não é maior que o seu senhor, nem o mensageiro é maior do que aquele que o enviou. Se vocês compreenderam isso, serão felizes se o puserem em prática”. (Jo 13,15-17)? Acredito que não.

O “lavar os pés” uns dos outros não tem dia e nem horário marcado; a diaconia do povo de Deus deve acontecer quando o amor fala mais alto e nos arremete a entender e a atender a necessidade do próximo, e para isso não existe dia específico e nem precisamos procurar: ela vem ao nosso encontro.

Os diáconos, como os bispos e presbíteros, são pastores, apascentadores, são aqueles que cuidam, protegem e instruem o rebanho de Deus, tendo como modelo, o Senhor Jesus Cristo, o Sumo e Divino Pastor.

A função do diácono, assim como a do bispo e a do presbítero, é o de ensinar a sã doutrina, refutar a heresia, ensinar a Palavra de Deus e dirigir a igreja local de acordo com os preceitos bíblicos, morais e espirituais contidos na Palavra de Deus.

A recomendação de Paulo a Timóteo, contida na primeira carta a Timóteo, não devemos entendê-la dirigida apenas e somente aos diáconos, como muita gente entendida em teologia quer impor, mas essa recomendação foi, indistintamente, a todos os que “aspira cargo de direção” na Igreja, isto é, diáconos, presbíteros e epíscopos, a todos os que têm ministério ordenado dentro daquilo que lhe é próprio e no grau da ordem que lhes são conferido: “Seja irrepreensível, esposo de uma única mulher, ajuizado, equilibrado, educado, hospitaleiro, capaz de ensinar, não dado a bebida, nem briguento, mas indulgente, pacífico e sem interesse por dinheiro. Ele deve ser homem que saiba dirigir bem a própria casa, e cujos filhos lhe obedeçam e respeitem. Pois se alguém não sabe dirigir a própria casa, como poderá dirigir bem a Igreja de Deus?” (1Tm 2,2-5).

Não pode dirigir a Igreja de Deus quem não sabe dirigir a própria casa.

São os diáconos sozinhos que dirigem a Igreja de Deus? Não. São o papa, os bispos, os presbíteros e os diáconos, cada qual com suas responsabilidades específicas. Então a recomendação de Paulo foi para todos. Isso foi dito assim porque quando foi escrita essa recomendação não estava implantado ainda o celibato na Igreja: epíscopos e presbíteros, assim como os diáconos, eram todos casados ou, pelo menos podiam casar-se. Até o papa, como era o caso de Pedro, era casado.

A proclamação do Evangelho nas liturgias da Palavra e da Eucaristia por parte do diácono é um costume antiguíssimo da Igreja, uma vez que, dentre os seus serviços, a proclamação da Palavra, principalmente pelo anúncio, é atribuição inerente do seu ministério ordenado.

Como uma pessoa eclesial, o diácono tem de permanecer próximo da Palavra.

Os documentos de "Santo Domingo" nos dizem que o diácono permanente é o único a viver a dupla sacramentalidade, que nem o bispo e nem o presbítero vivem: - o sacramento da ordem e o sacramento do matrimônio -. Um não elimina o outro.

Tanto a vida do ministro ordenado como a de quem recebeu o sacramento do matrimonio é, portanto vivida em sua plenitude na pessoa do diácono permanente.

Em artigo difundido no portal da arquidiocese do Rio de Janeiro, o Cardeal Dom Orani considera que a retomada do ministério diaconal, “como uma vocação própria, é uma grande riqueza para nós. Tive a oportunidade de poder vivenciar várias experiências ligadas ao diaconato permanente, seja em minha paróquia, seja iniciando a escola diaconal em minha primeira diocese (São José do Rio Preto/SP) ou então continuando uma caminhada das mais antigas do Brasil, na arquidiocese anterior a que servi”, conta Dom Orani.

O arcebispo afirma que percebeu “a importância e o valor do diaconato permanente, tanto no campo social como na presença evangelizadora da Igreja nos diversos âmbitos e também nas comunidades. Posso testemunhar, por minhas experiências, a riqueza da vida, da missão e do trabalho diaconal o bem que se faz à Igreja”.

 

NOSSA SENHORA AUXILIADORA

 

À Nossa Senhora Auxiliadora, elevemos o nosso pensamento  e de coração digamos: Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, doçura da vida, esperança nossa, salve. A vós bradamos, os degredados, filhos de Eva. A vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas... A vós bradamos, a vós gritamos, a vós suplicamos, a vós nos dirigimos com o coração cheio de dor e mágoa, mas, acima de tudo, cheio de esperança, porque sabemos que em vós, Maria, em vós, doce Rainha e amada Mãe é que encontramos o lenitivo para as nossas dores.

Ate vós, doce Maria, elevamos as nossas vozes, como exilados e infelizes filhos de Eva; nós suspiramos, gememos e choramos neste vale de lágrimas.

Como esta linguagem  exprime bem os sentimentos de um coração que aspira o céu... De uma alma que se aterroriza ante a aspereza do caminho.

Como é suave vemos  elevados para os céus o olhar e as mãos dos pobres exilados e ouvir este brado de sua fé, que é, ao mesmo tempo, um suspiro de amor: a vós bradamos, os degredados, filhos de Eva.   

Depois de ver o céu entreabrir-se, depois de ter visto descer dele uma mãe, uma verdadeira mãe, cheia de ternura e amor, que vem consolar o seu filho, refrescar a sua fronte ardente, apertá-lo sobre o seu coração e encorajá-lo a terminar este curso terrestre, na esperança de um repouso eterno. Quem poderá avaliar a doçura deste título de Maria, “Consoladora dos Aflito” e “Nossa Senhora Auxiliadora”?

Se os males são intensos e numerosos,  muito mais intensas e numerosas são as consolações, que são sem limites, e como gostaríamos de sofrer mais apenas pela felicidade de sermos consolados por uma mãe tão maravilhosa como Maria. As lágrimas são doces e refrescantes quando são recolhidas pelas mãos virginais de Maria. Quem não gostaria de se aproveitar disso?

Quem não gostaria de sofrer mais ainda, se entendesse o que é ser consolado por Maria, e apenas para elevar até Maria o seu olhar e o seu coração... lançar-se nos seus braços, exprimindo a ternura e o amor de seu beijo e deliciar-se nesse êxtase de amor, ainda que fosse apenas por um segundo, entregue nas mãos e aos cuidados da Consoladora dos Aflitos?

Vamos, pois, recorrer à Maria sob o título de Nossa Senhora Auxiliadora, quando a dor nos oprimir, quando a inquietação nos agitar ou o terror nos perseguir. Vamos todos a Maria, choremos todos com ela, e com ela soframos... E nosso sofrimento... e nossas lágrimas vão se  tornar sementes de méritos e felicidades.

Vocês entendem agora porque amo Maria? Como poderia eu, portanto, deixar de amar Maria? Como poderia eu  não amar com todo o fervor da minha alma aquela que é o meu socorro em minhas necessidades, meu apoio nas minhas fraquezas, e minha consolação nas minhas aflições? Ò Maria, sejam o meu último suspiro e a  minha última respiração um ato de amor para vós e por vós e de confiança em vossa proteção. (do livro - Porque amo Maria - Padre Júlio Maria - pg 309 a 311)

E, por isso, Senhora, repetimos, sem cessar: Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, Doçura da vida, esperança nossa salve. A vós bradamos, os degredados, filhos de Eva. A vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas. Eia após, Advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos, a nós volvei. E depois deste desterro, mostrai-nos a Jesus, bendito fruto do vosso ventre, ò clemente, ò piedosa, ò doce, sempre Virgem Maria. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

domingo, 23 de maio de 2021

 

PENTECOSTES

 

RECEBEI O ESPÍRITO SANTO”.  (Jo 20,22).

 

Ano – B; Cor – Vermelho. Leituras: Missa da Vigília: Gn 11,1-9; Sl 103 (104); Rm 8,22-27; Jo 7,37-39. Missa do Dia: At 2,1-11; Sl 103 (104); 1Cor 12,3-7.12-13; Jo 20,19-23.

 

Diácono Milton Restivo

 

A liturgia das festividades do Pentecostes, a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja de Jesus Cristo, acontece em duas etapas: na Santa Missa do sábado a noite é celebrada a Missa da Vigília do Pentecostes e, no domingo, a Missa própria do dia de Pentecostes.

Na primeira leitura da Missa da Vigília, no sábado, é lido o acontecimento da torre de Babel, onde toda a humanidade falava a mesma língua e se entendia, mas, a partir do momento em que os homens tiveram por objetivo igualar-se a Deus tentando chegar ao céu através de uma torre para angariar fama e poder:

·         “... façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja o céu. Assim ficaremos famosos...” (Gn 11,4).

Isso atraiu sobre si a ira de Deus que os dispersou por toda a terra considerando que começaram a falar línguas diferentes e não mais se entendiam.

A ânsia da fama e do poder faz com que os homens falem línguas diferentes da língua de Deus, e passam a não se entender. Vem o Espírito Santo no Pentecostes e ensina à humanidade a falar a língua do amor e da fraternidade, e os homens passam a entender-se novamente.

O Salmo é o mesmo para ambas as liturgias, o 103 (104) que enaltece o poder de Yahweh:

·         “Tu fazes brotar relva para o rebanho, e plantas úteis para o homem. Dos campos ele tira o pão, e o vinho que alegra o seu coração; o azeite que dá brilho ao seu rosto, e o alimento que lhe dá forças. [...] Como são numerosas as tuas obras, Yahweh! A todas fizestes com sabedoria. A terra está repleta das tuas criaturas. [...] Escondes tua face e eles se apavoram, retiras deles a respiração, e expiram, voltando a ser pó. Envias o teu sopro e eles são criados, e assim renovas a face da terra. Que a glória de Yahweh seja para sempre; que ele se alegre com suas obras. [...] Bendiga a Yahweh ó minha alma.” (Sl 103 (104),14-15.24.29-31.35b).

Na segunda leitura da Missa da Vigília, no sábado, Paulo é categórico quando fala do socorro que o Espírito de Deus presta à sua Igreja:

·         “Também o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis. E aquele que penetra o íntimo dos corações sabe qual é a intenção do Espírito. Pois é sempre segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos santos” (Rm 8,26-27).

No Evangelho desta liturgia Jesus compara o Espírito de Deus como um rio de água viva que jorrará do coração de quem estiver aderido à sua mensagem e aberto as portas do seu coração ao Espírito do Pai, porque:

·         “Jesus falava do Espírito que deviam receber os que tivessem fé nele.” (Jo 7,39).

Ai chegamos à Santa Missa do dia de Pentecostes.

A palavra grega “Pentecostes” significa que a festa celebrada nesta oportunidade tem lugar cinquenta dias depois da Páscoa da Ressurreição.

No domingo passado celebramos a ascensão de Jesus aos céus, quarenta dias depois da sua ressurreição.

O Pentecostes cristão é a efusão escatológica do Espírito Santo; é a coroação da Páscoa de Jesus Cristo. Foi pelo Espírito Santo que Jesus se encarnou no seio de Maria, a Palavra de Deus que se fez homem e veio habitar entre nós (cf Jo 1,14) para nossa salvação:

·         “Maria perguntou ao anjo: ‘Como vai acontecer isso, se não vivo com nenhum homem?’ o anjo respondeu: ‘O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra. Por isso, o Santo que nascer de você será chamado Filho de Deus’.” (Lc 1,34-35).

Segundo a catequese primitiva o Cristo morto, ressuscitado e assentado à direita de Deus Pai, complementa totalmente sua obra derramando o Espírito sobre a comunidade apostólica, conforme Pedro esclarece no seu discurso em praça pública depois de receber o Santo Espírito:

·         “Deus ressuscitou a este Jesus. E nós todos somos testemunhas disso. Ele foi exaltado à direita de Deus, recebeu do Pai o Espírito e o derramou: é o que vocês estando vendo e ouvindo”. (At 2,32).

O Espírito é dado visando um testemunho a ser levado até as extremidades da terra, conforme disse Jesus por ocasião de sua ascensão aos céus, assim como vimos na primeira leitura do domingo passado:

·         “Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem minhas as testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os extremos da terra.” (At 1,8).

Jesus, pressentindo o início do fim, sentindo que o momento de seu sacrifício supremo chegava, percebendo que sua paixão e morte se avizinhavam, em todas as conversas que começara a ter com os Apóstolos tentava confirmá-los na fé e fazê-los entender que, muito embora tivesse de deixá-los, ele enviaria o Espírito Santo que daria testemunho dele e para que eles não ficassem sozinhos:

·         “O Advogado que eu mandarei para vocês de junto do Pai, é o Espírito da verdade que procede do Pai. Quando ele vier, dará testemunho de mim. Vocês também darão testemunho de mim, porque vocês estão comigo desde o começo” (Jo 15,26-27);

·         “Mas o Advogado, o Espírito Santo, que o Pai vai enviar em meu nome, ele ensinará vocês todas as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu lhes disse”. (Jo 14,26).

Jesus, realmente preocupado com a fragilidade e insegurança dos Apóstolos, os fortalecia, dizendo:

·         “Se vocês me amam, observarão meus mandamentos, e rogarei ao Pai e ele dará a vocês outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê nem o conhece.” (Jo 14,15-17).

·         “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar. Quando vier o Espírito da Verdade, ele encaminhará vocês para toda a verdade, porque o Espírito não falará em seu próprio nome, mas dirá o que escutou e anunciará para vocês as coisas que vão acontecer”. (Jo 16,12-13).

O Espírito de Deus não veio para fazer novas revelações e nem para falar por si e nem de si próprio; veio para confirmar as coisas que Jesus já havia ensinado:

·         “O Espírito da Verdade manifestará a minha glória, porque ele vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês. Tudo o que pertence ao Pai, é meu também. Por isso é que eu disse: o Espírito vai receber daquilo que é meu, e o interpretará para vocês”. (Jo 16,14-15).

Repetindo o que Jesus disse:

·         “Quando vier o Espírito da Verdade, ele encaminhará vocês para toda a verdade”. (Jo 16,13).

Paulo, na sua carta aos efésios lida na segunda leitura, incentiva, fortalece os fieis e pede ao Pai que dê a todos eles o Espírito de sabedoria:

·         “Que o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória, lhes dê um espírito de sabedoria que lhes revele Deus, e faça que vocês o conheçam profundamente.” (Ef 1,17).

Mesmo com essas palavras de coragem, ânimo e fortalecimento, após a morte de Jesus, os apóstolos, amedrontados, se escondiam, não andavam nas ruas por medo de serem reconhecidos como discípulos e seguidores daquele que fora condenado e morto em uma cruz, e não tinham a coragem de abrir a porta da casa onde estavam com medo de que os judeus os pudessem prendê-los e até matá-los por serem eles amigos de Jesus:

·         “Ao anoitecer daquele dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus...” (Jo 20,19). 

Eles nem sequer ousavam pronunciar em voz alta o nome de Jesus. 

Parecia que tudo havia terminado com a morte de Jesus; tudo tinha sido maravilhoso, tudo tinha sido bom, as mensagens, os milagres, as multiplicações de pão, os mandamentos que Jesus lhes havia ensinado eram dignos der serem seguidos, mas... Jesus morreu e o que restava fazer agora seria cada um voltar para sua casa, para os seus afazeres e recordar com saudades aquele tempo em que viveram com Jesus, aquele que se dizia “o Cristo”.      

Momentos antes de sua Ascensão aos Céus, Jesus reafirmou a promessa de ânimo, encorajamento e fortalecimento na fé, ordenando aos Apóstolos que permanecessem em Jerusalém para que recebessem o Espírito Santo:

·         “Agora eu lhes enviarei aquele que meu Pai prometeu. Por isso, fiquem esperando na cidade, até que vocês sejam revestidos da força do alto”. (Lc 24,49).

De fato, dez dias após da Ascensão de Jesus, o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos e todos os que com eles estavam reunidos em Jerusalém, “... entre as quais Maria, a Mãe de Jesus...” (At 1, 14), foram confirmados na fé, fazendo-os lembrar tudo aquilo que o Divino Mestre lhes havia dito e ensinado, e esse fato aconteceu da seguinte maneira:

·         “Tendo-se completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído como o agitar-se de um vendaval impetuoso, que encheu toda a casa onde se encontravam. Apareceram-lhes, então, línguas como de fogo, que se repartiam e que pousaram sobre cada um deles. E todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia se exprimissem.” (Atos, 2, 1-4).

Tomemos por base Pedro em relação ao seu encontro com Jesus.

Antes de conhecer Jesus, Pedro era um pescador, trabalhador, honesto, autoconfiante e, pelo que o conhecemos através dos Evangelhos, de pouca educação, ou melhor, pouca instrução.

Quando conheceu Jesus e começou a andar com Jesus, mostrou-se um aprendiz atento, autoconfiante, muitas vezes contestador, mas muito voltado para as coisas do mundo.

Quando Jesus foi preso faltou-lhe a coragem e negou Jesus por três vezes antes que o galo cantasse uma vez (cf Mt 26,69-75).

 Quando Jesus foi morto, Pedro ficou desapontado, medroso, abatido, temeroso, aturdido, perdendo toda a esperança e confiança, trancando-se com os demais em casa com medo das autoridades civis e religiosas dos judeus.

Mas, no Pentecostes, depois de receber o Espírito Santo, tornou-se extremamente confiante em Deus, destemido, confrontando as autoridades religiosas judaicas e dando a sua própria vida para testemunhar o que aprendera do Mestre.

A partir do momento em que os discípulos de Jesus receberam o Espírito Santo, tudo se transformou, tudo se renovou e os Apóstolos encheram-se de confiança e coragem  e um amor violento tomou conta de seus corações, e eles foram impelidos a abrirem as portas de seu esconderijo e dos seus corações e saírem em praça pública proclamando a todos que Jesus, aqueles que eles tinham matado pregando em uma cruz, era e é e sempre será o Filho de Deus feito homem, o Salvador do mundo, testemunhando que Deus o havia ressuscitado:

·         “Deus ressuscitou a este Jesus. e nós todos somos testemunhas disso. Ele foi exaltado à direita de Deus, recebeu do Pai o Espírito prometido e o derramou: é o que vocês estão vendo e ouvindo.” (At 2,32-33).

Pedro, aquele mesmo Pedro que abandonara Jesus no momento de sua prisão no Monte das Oliveiras, que negara Jesus por três vezes quando Jesus estava preso em casa de Pilatos, que vivia escondido e apavorado desde que Jesus Cristo havia sido preso, crucificado, morto e sepultado, esse mesmo Pedro, aparentemente, o mais covarde de todos, tomado de uma coragem sem precedentes e sem igual, juntamente com os dez, sai em praça pública, e, diante de uma multidão de pessoas de todas as partes do mundo, levanta a voz e proclama alto e em bom som para que todos ouvissem e não tivessem mais dúvidas a respeito de Jesus.

A partir daquele momento, nascia a Igreja de Jesus Cristo.

O Espírito Santo confirma a certidão de nascimento da Igreja Cristã que difundiria no mundo todo as mensagens do Filho de Deus feito homem; o dia de Pentecostes é o dia do nascimento, do aniversário da Igreja de Jesus Cristo...

A ação do Espírito Santo acontece no dia a dia do cristão, através de conversas francas e abertas para a construção da paz e da justiça, no extermínio da fome, da miséria, da ignorância, da violência e do desamor; na alegria das crianças através das quais Jesus deu exemplo de acolhimento:

“Deixem as crianças, e não lhes proíbam de vir a mim, porque o Reino do Céu pertence a elas” (Mt 19,14).

A ação do Espírito Santo acontece na integração da adolescência e juventude no serviço da caridade e do amor; no afago carinhoso aos idosos que deram a sua vida para que fôssemos o que somos hoje; no carinho, consolo e conforto aos doentes que são os companheiros e participantes do sofrimento de Jesus na subida do Calvário; no amar o irmão como Jesus amou:

·         “Assim como meu Pai  me amou, eu também amei vocês: permaneçam no meu amor. [...] O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu amei vocês.” (Jo 15,9.12);

A ação do Espírito Santo acontece no dedicar sua vida pela sua fé e no servir o seu irmão:

·         “Não existe amor maior do que dar a vida por seus amigos.” (Jo 15,13).

A ação do Espírito Santo acontece no entregar-se à oração silenciosa, como diz Paulo na segunda leitura da Missa da Vigília do Pentecostes:

“O Espírito Santo vem em socorro de nossa fraqueza. Pois nós não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito Santo que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis E aquele que penetra o íntimo dos corações sabe qual é a intenção do Espírito. Pois é sempre segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos santos” (Rm 8,26-27).

 

sábado, 22 de maio de 2021

 

SANTA RITA DE CÁSSIA - 1381-1457

 

Rita nasceu no ano de 1381, na província de Umbria, Itália, exatamente na cidade de Cássia. Rita, ainda na infância, manifestou sua vocação religiosa.

Diferenciando-se das outras crianças, ao invés de brincar e aprontar as peraltices da idade, preferia ficar isolada em seu quarto, rezando.

Para atender aos desejos de seus pais já idosos, Rita casou-se com um homem de nome Paulo Ferdinando, que, a princípio, parecia ser bom e responsável. Mas, com o passar do tempo, mostrou um caráter rude, tornando-se violento e agressivo.

A tudo ela suportava com paciência e oração. Tinha certeza de que a penitência e a abnegação conseguiriam convertê-lo aos preceitos de amor a Cristo. Um dia, Paulo, finalmente, se converteu sinceramente, tornando-se bom marido e pai.

Entretanto suas atitudes passadas deixaram um rastro de inimizades, que culminaram com seu assassinato, trazendo grande dor e sofrimento ao coração de Rita.

Dedicou-se, então, aos dois filhos ainda pequenos, que na adolescência descobriram a verdadeira causa da morte do pai e resolveram vingá-lo, quando adultos. Rita tentou, em vão, impedir essa vingança. Desse modo, pediu a interferência de Deus para tirar tal idéia da cabeça dos filhos e que, se isso não fosse possível, os levasse para junto dele. Assim foi.

Em menos de um ano, os dois filhos de Rita morreram, sem concretizar a vingança. Rita ficou sozinha no mundo e decidiu dar um novo rumo à sua vida.

Determinada, resolveu seguir a vocação revelada ainda na infância: tornar-se monja agostiniana. As duas primeiras investidas para ingressar na Ordem foram mal-sucedidas.

Segundo a tradição, ela pediu de forma tão fervorosa a intervenção da graça divina que os seus santos de devoção, Agostinho, João Batista e Nicolau, apareceram e a conduziram para dentro dos portões do convento das monjas agostinianas. A partir desse milagre ela foi aceita.

Ela se entregou, completamente, a uma vida de orações e penitências, com humildade e obediência total às regras agostinianas. Sua fé era tão intensa que na sua testa apareceu um espinho da coroa de Cristo, estigma que a acompanhou durante quatorze anos, mantido até o fim da vida em silencioso sofrimento dedicado à salvação da humanidade.

Rita morreu em 1457, aos setenta e seis anos, em Cássia. Sua fama de santidade atravessou os muros do convento e muitos milagres foram atribuídos à sua intercessão.

Sua canonização foi assinada pelo papa Leão XIII em 1900.

A vida de santa Rita de Cássia foi uma das mais sofridas na história da Igreja católica, por esse motivo os fiéis a consideram a "santa das causas impossíveis".

O seu culto é celebrado em todo o mundo cristão, sendo festejada no dia 22 de maio, tanto na Igreja do Ocidente como na do Oriente.

Neste dia são lembrados, também: Santa Catarina de Gênova, Santa Quitéria, São Casto, Santa Júlia, Santa Helena de Carnarvon (esposa do imperador Magno Clemente Máximo), Santo Hemming da Finlândia (bispo e mártir).. 

 

SÓ OS VALENTES TEM PAZ VERDADEIRA

 

Paz.  Como necessitamos de paz. Como procuramos a paz. Como desejamos a paz. Paz interior. Paz de espírito. Paz na família. Mas como procuramos a paz nos locais mais errados, nos lugares onde ela não está.

E, nessa busca louca e desenfreada de paz, mais nos confundimos, mais nos desesperamos. A paz não é somente ausência de guerra.

Paz também não é sinônimo de tranquilidade. Paz é você estar de bem com você e com Deus, mesmo que tudo à sua volta seja guerra e confusão.

A paz verdadeira vem de Deus, aquela paz que vem de Jesus, o filho de Maria, quando ele mesmo disse aos seus apóstolos e discípulos: Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá. Não se perturbe nem se intimide vosso coração.” (Jo 14, 27).

A paz verdadeira vem de Deus, somente de Deus; paz interior, paz de consciência. Eu disse que paz não é sinônimo  de tranquilidade, mesmo contrariando a definição de paz que nos dão os dicionários da língua portuguesa.

Realmente, a paz que vem de Deus não pode ser sinônimo de tranquilidade porque, por um paradoxo, Deus nos dá a sua paz exatamente para não nos deixar tranquilos, porque, quem tem a paz que vem de Deus não pode ficar tranquilo ao ver tantas injustiças, tantas mentiras, tantas falsidades, tantos interesses escusos que existem entre as pessoas, entre as famílias, e isso no mundo todo.

Quem tem a paz que vem de Deus não pode se acomodar, não pode se tranquilizar, não pode se omitir ao ver a injustiça imperar nos lugares que deveriam ser santos, não pode concordar ao ver que aqueles que deveriam falar em defesa dos oprimidos se calarem covardemente; não pode ter repouso ao presenciar as agressões covardes contra aqueles que não podem se defender, isso tanto física, como moral e psicologicamente. Por isso que digo que paz não pode e nem deve ser sinônimo de tranquilidade. Deus nos dá a paz, mas não nos deixa em paz.      

A paz que vem de Deus nos desaloja do nosso comodismo, assim como aconteceu com Maria que após receber a paz personificada no Filho de Deus  em seu ventre não se acomodou e partiu para uma longa viagem ao saber que sua prima Isabel, já de idade avançada, necessitava de sua presença para a auxiliar nos últimos meses de sua gravides temporã.

Só os valentes tem essa paz verdadeira; os valentes que assumem de corpo e alma os preceitos de Deus e se sintonizam com a vontade divina para servirem de instrumentos  nas mãos do Pai, para dar continuidade ao plano de salvação iniciado por Jesus Cristo,  e que se prolonga na luta do dia a dia  da sua Igreja.

E o resultado dessa paz nem sempre é uma velhice tranquila ou uma aposentadoria calma e abastada; o resultado dessa paz é, muitas vezes, a incompreensão do mundo, é uma coroa de espinhos, são flagelos, chacotas que muitas vezes terminam por se ver o mundo do alto, mas do alto de um cruz.

Não foi assim que aconteceu com o filho de Maria? E a prova disso vemos na paz que Jesus Cristo transmitiu aos seus apóstolos, quando disse: “Eu vos dou a minha paz, eu vos deixo a minha paz.” (Jo 14,27).

Jesus deu a paz, transmitiu a sua paz aos seus discípulos e apóstolos, e, todos os apóstolos, em gozo pleno dessa paz, foram perseguidos, caluniados, flagelados, assassinados, martirizados, mortos em nome da fé e da paz.

Mas, que tipo de paz é essa que, para gozá-la plenamente temos de passar por todas essas privações? É a paz que vem de Deus que nos dá plena segurança de que vale a pena ser perseguido pelo mundo, ser incompreendido pelos homens desde que permaneçamos fieis à observância das mensagens evangélicas de Jesus Cristo.

A paz que vem de Deus traz alegria interior. A paz que o mundo oferece, transforma-se em remorso.

O Senhor fez bem-aventurados todos aqueles que vivem na sua paz e, as bem-aventuranças evangélicas nada mais são do que o conforto que Deus dá aos que vivem na sua paz e, bem por isso, são: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino de Deus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os artífices da paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que padecem perseguição pela justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados serão vocês, quando forem insultados e perseguidos, e com mentira falarem contra vocês todo gênero de mal por minha causa. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande será a sua recompensa.” (Mt, 5, 3-12).

sexta-feira, 21 de maio de 2021

 

A VÓS BRADAMOS, OS DEGREDADOS...

 

Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, doçura da vida, esperança nossa, salve. A vós bradamos, os degredados filhos de Eva.

A vós bradamos, Rainha, Mãe de Misericórdia, a vós gritamos neste vale de lágrimas, onde o pecado nos afasta de Deus, onde a opressão nos torna distante dos irmãos, onde a fome e a sede de se ter mais nos transformam em seres estranhos.

A vós suplicamos, Rainha, porque, quando o homem se esquece que somente encontra Deus quando um irmão socorre o outro irmão, quando um irmão enxuga as lágrimas do irmão necessitado e quando vivem a mesma fraternidade, o mesmo amor, o mesmo ideal em Jesus Cristo. Nós, Senhora, somos os degredados, os exilados, os desterrados do paraíso e filhos de Eva, que nos contaminamos com as coisas que nos afastaram de Deus.

E, por isso, a vós bradamos, a vós gritamos, a vós suplicamos, com todas as forças de nossas almas, porque sabemos que só vós, Senhora, pode atender as nossas súplicas, só vós, que sois Rainha, a Mãe de Misericórdia, a doçura da nossa vida, a esperança da vida eterna.

Gritamos a vós, Senhora, como um condenado grita pela vida, como um náufrago suplica por uma tábua de salvação, como um doente anseia por um remédio que lhe possa aliviar os sofrimentos e acalmar as suas dores.

Bradamos a vós, Senhora, porque sabemos que somente vós podeis nos estender a mão e nos tirar deste vale de lágrimas em que o pecado, o egoísmo e o desamor nos colocou.

A vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas.

Neste mesmo vale de lágrimas, Senhora, onde vós, por ter dito o vosso ``sim``, fostes perseguida e tivestes que fugir com o vosso adorável filho em seus braços, para que a força do poder e a agonia da opressão não acabassem com uma realidade que acabara de nascer.                

Nós estamos neste mesmo vale de lágrimas, Senhora, onde vosso Filho, quando tentou dizer a todos que o Reino de Deus estava dentro de cada homem,. Foi perseguido, caluniado, açoitado, coroado de espinhos, crucificado e morto.       

Não estamos pedindo, Senhora, que nos livreis das dores, porque o vosso Filho também passou pelas dores, ainda que tivesse pedido ao Pai, no Getsamani que as livrasse delas e isso não foi possível  porque senão não se concretizaria a redenção do gênero humano, e por isso ele as teve de passar, e é somente pelas dores que chegaremos à perfeição, considerando que foi esse o caminho que vosso Filho nos indicou para sermos perfeitos como o Pai do céu é perfeito. Estamos pedindo, Senhora, estamos bradando, estamos gritando para que a Senhora esteja  conosco em nossas dores, nos dê forças e amor para suportá-las, e, acima de tudo,. que nos façais sentir a vossa presença em todos os momentos de nossa vida, porque, somente com a vossa presença é que poderemos superar tudo aquilo que o mundo nos oferece que contraria a vontade do Pai, e, somente com a vossa presença é que nos serão enxugadas as lágrimas doloridas das ingratidöes que nós, vossos filhos, fazemos uns contra os outros.           Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, doçura da vida, esperança nossa, salve.  A vós bradamos os degredados, filhos de Eva.           A vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas.

A vós bradamos Senhora, a vós suspiramos, vós que sois a Consoladora dos Aflitos.          

Vós que sois o Auxílio dos Cristãos.               

E é por isso que a chamamos de Rainha, de Mãe de Misericórdia, de doçura da nossa vida, de esperança nossa. Porque confiamos em vós e sabemos que se o Cristo, vosso Filho passou o que passou neste mundo, nós, os seus seguidores não podemos ser diferentes, porque não pode o discípulo ser mais que o mestre, mas vós, Senhora, estivestes com ele o tempo todo, desde o seu nascimento, na gruta de Belém, até a sua morte dolorosa de cruz no monte Calvário. E é isso que vos pedimos, Senhora, que estejais conosco todos os dias de nossa vida, agora, e na hora de nossa morte.            E por isso, Senhora, repetimos, sem cessar - Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, doçura da vida, esperança nossa, Salve. A vós bradamos, os degredados, filhos de Eva. A vós suplicamos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas. Eia após, esses vossos olhos, misericordiosos, a nós volvei. E depois deste desterro, nos mostrai a Jesus, bendito fruto de vosso ventre, ò Clemente, ó doce sempre Virgem Maria...