sábado, 20 de novembro de 2021

 

PERDÃO, INICIATIVA DE ALMA GENEROSA

 

O perdão é atitude e iniciativa de uma alma generosa.

Somente perdoa quem tem Deus consigo. Somente perdoa quem tem consciência que também erra, e todos os que erram necessitam do perdão do próximo e do perdão de Deus.

Todos os dias, quando recitamos a oração do Pai Nosso, dizemos: “Perdoa as nossas ofensas assim como nós também perdoamos a quem nos tem ofendido.” (Mt 6,12). Só recebe o perdão do Senhor quem perdoa o seu irmão.

Quantas vezes o Senhor Nosso Deus nos perdoa? Todas as vezes que, com sinceridade, lhe pedimos perdão. Quantas vezes devemos perdoar o nosso irmão?

Todas as vezes que ele nos ofender porque, se não perdoarmos aquele que nos tem ofendido, como podemos esperar de Deus o perdão dos nossos pecados.

Perdoar não é somente uma, duas vezes; perdoar é, como nos diz Jesus é setenta vezes sete, isto é, sempre, infinitamente, eternamente. Todas as vezes que perdoamos o nosso irmão adquirimos crédito junto ao Pai Nosso que está nos céus e podemos ter certeza que, quando errarmos e pedirmos perdão, ele nos atenderá e nos perdoará, e devemos considerar que os nossos pecados contra o Senhor são bem maiores que as ofensas que recebemos de nossos irmãos.

Não poderíamos jamais recitar a oração do Pai Nosso se guardamos algum rancor no coração contra qualquer irmão. Jesus insiste muito no perdão em seus ensinamentos: “Se irmão teu pecar, repreende-o e se ele se arrepender, perdoa-lhe. E caso ele pecar contra ti sete vezes por dia e sete vezes retornar, dizendo: Estou arrependido, tu lhe perdoarás.” (Lc 17,3-4).

Não pode rezar a oração do Pai nosso quem ofende e não pede perdão; não pode rezar a oração do Pai Nosso quem é ofendido e não perdoa, porque o Mestre também disse: “Portanto, se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta.” (Mt 5,23-24).

O Senhor Jesus levou tão a sério os seus ensinamentos sobre o perdão que antes de dar o último suspiro na cruz ainda teve forças para se dirigir ao Pai e, num último esforço, perdoou todos aqueles que tanto mal lhe haviam causado tirando-lhe até a própria vida e da maneira mais cruel possível: “Pai, perdoa-lhes; não sabem o que fazem.” (Lc 23,34).

O salmista assim ensina sobre o perdão, como evitar o mal e praticar o bem: “Filhos, vinte escutar-me, vou ensinar-vos o temor de Iahweh. Qual o homem que deseja a vida e quer longevidade para ver o bem? Preserva tua língua do mal e teus lábios de falarem falsamente. Evita o mal e pratica o bem, procura a paz e segue-a. Iahweh tem os olhos sobre os justos e os ouvidos atentos ao seu clamor. A face de Iahweh está contra os malfeitores, para da terra apagar a sua memória; eles gritam Iahweh escuta  e os liberta de suas angústias todas. Iahweh está perto dos corações  contritos, ele salva os espíritos abatidos. (Sl 34 (33),12-19).

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

 

“A PAZ ESTEJA CONVOSCO” (Jo 20, 21.26)

 

Às vezes, em muitas circunstâncias da vida, nos sentimos sozinhos, abandonados, isolados.

Nesse isolamento sentimos um vazio intenso e o silêncio grita alto dentro de nós todas aquelas coisas que gostaríamos que se tornassem conhecidas e aceitas para provar que somos humanos, que acertamos algumas vezes e erramos outras tantas; e o silêncio explode dentro de nosso cérebro, dentro do nosso peito, dentro do nosso coração, ressoando fortemente em nossa alma e, desesperadamente, buscamos paz, procuramos a paz, lutamos pela paz, desejamos ardentemente a paz... paz... paz... Como necessitamos de paz.

Como procuramos a paz, como desejamos a paz. Paz interior. Paz de espírito. Paz na alma. Paz onde vivemos. Paz onde trabalhamos.

Como procuramos a paz. Mas como a procuramos nos lugares mais equivocados, nos lugares onde, absolutamente, ela não está, não se encontra, e, nessa busca desenfreada pela paz mais nos confundimos, mais nos desesperamos, mais nos perdemos, mais nos equivocamos.

Mas, o que é paz? Se procurarmos no dicionário encontraremos que paz é ausência de guerra, é tranquilidade, serenidade, sossego, descanso, ausência de hostilidade, silêncio...

Mas a paz que o nosso espírito, o nosso coração, a nossa alma busca não é somente ausência de guerra, nem tranquilidade, nem o que tudo o mais que o dicionário pressupõe.

A paz que buscamos, a paz verdadeira é estarmos de bem conosco mesmos e com Deus, mesmo que à nossa volta haja confusão, guerra, incompreensão, agressões...

A paz verdadeira vem de Deus, somente de Deus; paz interior, paz de consciência, paz de espírito, paz na alma, paz no coração...

A paz que buscamos não é essa paz que é sinônimo de tranquilidade, mesmo contrariando a definição de paz que nos dão os dicionários da nossa língua portuguesa.

Realmente, a paz que vem de Deus não pode ser sinônimo de tranquilidade, porque, por um paradoxo, o Senhor Nosso Deus nos dá a sua paz exatamente para não nos deixar em paz, para não nos deixar tranquilos, porque, quem tem a paz que vem do Senhor não pode estar tranquilo ao conviver com tantas injustiças, tantas mentiras, agressões, infidelidades, falsidades, agressões, desumanidade, desamor, tantos interesses escusos que existem entre as pessoas, e o pior, pessoas que se dizem cristãs, e isso em quaisquer seguimentos cristãos e no mundo inteiro.

Quem tem a paz que vem do Senhor não pode se acomodar, não pode se tranquilizar, porque a paz que o Senhor nos dá não é a mesma paz que o mundo transmite: “A minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.” (Jo 14,27).

Quem tem a paz que vem do Senhor Nosso Deus não pode se omitir ao ver tantas e tantas faltas e falhas, tantos pecados imperarem nos locais que, por força das circunstâncias e princípios, deveriam ser santos; não podem concordar com aqueles que deveriam se postar em defesa dos oprimidos e dos injustiçados se calarem criminosa e covardemente; não pode ter repouso ao presenciar tantas agressões covardes contra aqueles que não podem e não sabem se defender, tanto física quanto moral, psicológica e até religiosamente.

Por isso, a paz não é e nem pode ser sinônimo de tranquilidade.

O Senhor nos dá a paz mas não nos deixa em paz...

A paz que vem do Senhor é aquela que deve nos desalojar do nosso comodismo da mesma maneira como aconteceu com Maria, a mãe de Jesus que, após receber em seu coração e no seu ventre a Paz personificada no Filho de Deus, não se acomodou e partiu para uma longa viagem ao tomar conhecimento, pela boca do Anjo que viera lhe trazer a Boa Nova da vinda do Messias, que a sua parenta Isabel, mulher já de idade avançada, necessitava de sua ajuda, de sua presença para auxiliá-la nos preparativos dos últimos dias de sua gravides temporã, conforme nos narra Lucas, 1,26-27.

Só os valentes tem essa paz verdadeira. Os valentes que assumem de corpo e alma os preceitos emanados das Sagradas Escrituras e ditados pelo Senhor Nosso Deus e que se sintonizam com a vontade divina para servirem de instrumentos nas mãos do Pai a fim de dar continuidade ao plano de salvação iniciado por Jesus Cristo e que se prolonga na luta do dia-a-dia de sua Igreja.

E o resultado dessa paz nem sempre é uma velhice tranquila ou uma aposentadoria sem lutas e abastada como todos desejariam que fossem.

O resultado dessa paz é, muitas vezes,  a incompreensão dos homens e do mundo, é uma coroa de espinhos, são flagelos, chacotas, indiferenças e dores que, muitas vezes, terminam ao se ver o mundo do alto, mas do alto de uma cruz, como aconteceu com o Senhor Jesus, e isso não é novidade pois que, o Senhor Jesus já nos alertava a respeito disso: “Não existe discípulo superior ao mestre, nem servo superior ao seu senhor. Basta que o discípulo se torne como o mestre e o servo como o seu senhor.” (Mt 10,24-25).

Essa paz que buscamos desesperadamente a encontramos gratuitamente e nos é transmitida, através dos apóstolos e discípulos, pelo Senhor Jesus: ”A paz esteja convosco. (Jo 20, 21.26), e “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá. Não se perturbe nem se intimide vosso coração.” (Jo 14,27). Por incrível que possa parecer, vemos que todos aqueles que receberam a paz diretamente do Senhor Jesus e, estando em pleno gozo dessa paz, foram perseguidos, caluniados, flagelados, assassinados, martirizados. E ai nos vem a pergunta: “Que tipo de paz é essa que, para gozá-la plenamente, passa-se por todas essas privações?”

Essa é a paz verdadeira que vem do Senhor Nosso Deus nos dando plena segurança de que vale à pena ser perseguido pelo mundo e incompreendido pelos homens e até por aqueles que amamos de verdade; vale à pena, desde que permaneçamos fieis às observâncias dos preceitos evangélicos transmitidos por Jesus Cristo e consolados por sua exortação: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós.” (Mt 5,10-12).

A paz que recebemos do Senhor Nosso Deus nos traz alegria interior.

A paz que o mundo nos oferece se transforma em remorso.

O Senhor faz bem-aventurados todos aqueles que vivem na sua paz e a sua paz e as bem-aventuranças evangélicas são o conforto que o Senhor dá aos que vivem na sua paz: “Bem aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. Bem-aventurados os que tem fome e sede de justiça,  porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós.” (Mt 5,3-12).

Bem-aventurados os que buscam a paz no Senhor, os que vivem plenamente essa paz e que a transmite a todos os que o cercam. Precisamos dessa paz, buscamos essa paz e somente essa paz porá fim ao silêncio gritante que ecoa em nossos corações pelas indecisões que a vida nos traz...

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

 

SÃO ROQUE GONZALES DE SANTA CRUZ, SANTO AFONSO RODRIGUES E SÃO JOÃO DEL CASTILHO.

 

Roque Gonzales de Santa Cruz, SJ ou Roque Gonzales, SJ, (Assunção, 1576 — Caibaté, 15 de novembro de 1628) foi um religioso natural do Paraguai que entrou na história do Brasil meridional ao tentar disseminar a religião católica entre os povos originais das terras do oeste do Rio Grande do Sul.

Juntamente aos padres Afonso Rodrigues e João de Castiho (ou Juan del Castillo na sua forma castelhana original), Roque Gonzales foi um dos primeiros evangelizadores nas terras do Sul do Brasil, isto é, no território atualmente pertencente ao Rio Grande do Sul.

Ele foi um homem dedicado à ordem dos Jesuítas e exerceu seu trabalho missionário junto aos povos Guaranis, no noroeste daquele estado brasileiro. Roque Gonzales era filho de um pai espanhol de família nobre e cresceu em uma família de alta posição social de Assunção, no Paraguai, interagindo desde a infância com pessoas de origem e falas nativas (principalmente guarani). Ali ele onde estudou e foi ordenado sacerdote no ano de 1599.

Mais tarde ele se deslocou ao Rio Grande do Sul, em 1619, e logo cativou a simpatia dos habitantes da terra, muito provavelmente e em boa parte por causa de suas habilidades lingüísticas. Segundo o escritor Nelson Hoffmann, autor de Terra de Nheçu, somente depois de sete anos de negociações com o chefe Nheçu que lhe foi permitido estabelecer a redução de São Nicolau, precisamente em três de maio de 1626, sendo esta a primeiríssima comunidade colonizadora ao leste do rio Uruguai no atual território rio-grandense.

Mais tarde o padre Roque Gonzales fundou numerosas comunidades cristãs, chamadas Missões ou Reduções, entre elas as aldeias de São Nicolau, Assunção e Todos os Santos do Caaró. Depois de dois anos e meio de intenso trabalho missionário, os padres Roque Gonzales e Afonso Rodrigues foram mortos em Caaró por um grupo de nativos contrários à evangelização cristã, liderados pelo pajé cacique Nheçu, um líder guarani que possuia autoridade máxima na região do atual município de Roque Gonçales, Rio Grande do Sul, e redondezas.

Diz-se que os indígenas que o interceptaram teriam descarregado na cabeça de padre Roque Gonzales uma pancada com um machado de pedra que o deixara morto. Em seguida, eles teriam matado o padre Afonso Rodrigues, queimando os cadáveres.

Dois dias depois, o teria chegado a vez do padre João de Castilho em uma aldeia vizinha, onde morreu após terríveis torturas. Um homem nativo, ainda catecúmeno, que se encontrava presente e que se opôs aos assassinatos, também foi trucidado junto aos missionários em Caaró. Ele é conhecido como o Cacique Adauto.

Existem pessoas que acreditam que ele também, futuramente, poderia ter seu nome acrescentado aos nomes dos três mártires canonizados, porém, não exitem quaisquer indicadores ou mesmo probabilidades para que isso venha a ocorrer um dia, dadas as extensivas complexas forças e tradições envolvidas.

Em Caaró, município de Caibaté, se encontra o principal santuário de veneração dos Santos Mártires (como ficaram conhecidos), visitado permanentemente por caravanas de romeiros. Ali se realiza cada ano uma grande romaria, no terceiro domingo de novembro.

Aos 28 de janeiro de 1934, o Papa Pio XI beatificou os missionários mártires e, aos 16 de maio de 1988 em visita a Assunção, no Paraguai, o Papa João Paulo II os declarou santos.

São comemorados também neste dia: Santo Abdias (profeta bíblico do Antigo Testamento), Santo Aza e seus 150 companheiros, soldados (mártires em Isaurie) e São Rafael de São José.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

 

PADRE VICTOR, FILHO DE ESCRAVOS

PADRE VICTOR SE TORNOU O PRIMEIRO BEATO NEGRO, AFRODESCENDENTE DO BRASIL

 

A Igreja de Três Pontas, no sul de Minas Gerais, está em festa. Em 14 de novembro de 2018, após dois anos de espera, foi beatificado o Padre Francisco de Paula Victor, filho de escravos.

Padre Victor, como é chamado, se tornará assim o primeiro beato afrodescendente do Brasil. 

O Papa Francisco havia autorizado a Congregação das Causas dos Santos em 5 de junho passado a promulgar o Decreto concernente ao milagre atribuído à intercessão de Francisco de Paula Victor. Francisco de Paula Victor, nasceu em 12 de abril de 1827 na Vila da Campanha da Princesa (MG). Filho da escrava Lourença Justiniana de Jesus, teve como madrinha de batismo a própria patroa, Marianna de Santa Bárbara Ferreira.

Mesmo tendo começado o trabalho de alfaiate, o sonho de Victor era ser sacerdote, um sonho proibido para ele, a ponto de se dizer que caso se tornasse sacerdote “às galinhas cresceria os dentes”. Eram os duros e trágicos tempos do regime escravocrata e aos escravos não era somente proibido acesso a qualquer cargo público civil, mas também eclesiástico.

Aos escravos era até mesmo proibido estudar. A aspiração de Victor encontrou uma inesperada reviravolta, com a ajuda da madrinha-patroa e na determinação de Dom Antonio Vicoso, Bispo de Mariana, abolicionista convicto, que apoiou o jovem de forma irrestrita.

 

Biografia

Pe. Victor, o padre negro, é chamado “O Anjo Tutelar de Três Pontas”, Minas Gerais. Nasceu em Campanha, MG, filho da escrava Lourença Maria de Jesus,em 12 de abril de 1827 e foi batizado aos 20 de abril do mesmo ano, pelo padre Antônio Manoel Teixeira.

Dentro do regime de escravidão, então vigente no Brasil, filho de escrava era também escravo. Pouco se sabe de sua infância, apenas que era uma criança forte, robusta e saudável. Conhecemos os nomes de seus padrinhos: Mariana Barbosa Ferreira e Feliciano Antônio de Castro.

 Possivelmente, em virtude de alguma proteção de pessoa caridosa, pôde ser afastado dos trabalhos pesados que eram reservados aos escravos, ficando destinado a aprender o ofício de alfaiate. Seu mestre alfaiate, o senhor Inácio Barbudo, a quem confidenciou o desejo de ser padre, disse-lhe: “Já se viu negro ser Padre?”.

O Venerável Dom Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana, MG, visitou Campanha em 1848. O alfaiate Victor o procurou manifestando-lhe o desejo de ser sacerdote. Este o recebeu com muita alegria. Dom Viçoso era um santo bispo, e encaminhou-o para o estudo de latim e música. Teve ajuda de sua madrinha, Mariana.

Em 1849, o jovem Victor dirigiu-se a cavalo para o Seminário de Mariana. Devido à escravidão, havia o preconceito racial até na Igreja. Seus colegas de seminário fizeram com que passasse pelas maiores humilhações, críticas, zombarias e exclusão. Com grande humildade  e espírito de serviço, aos poucos foi ganhando a simpatia e o respeito de seus companheiros.

O bispo D. Viçoso o estimava e sempre apoiava, chegando a proclamar suas virtudes.  Recebeu as ordens menores  a 20 de fevereiro de 1850 e Dom Viçoso dispensou-o de possíveis impedimentos canônicos, inclusive até, por ser negro. Ordenado sacerdote em 14 de junho de 1851, permaneceu em Campanha, MG, como coadjutor, de 1851 a 1852, indo para Três Pontas, MG, em 14 de junho do mesmo ano, como Vigário Encomendado.

A princípio a população ficou descontente por ter um padre negro como vigário, com seu aspecto rude, pois ‘não era bonito’. Mas a animosidade se transformou em admiração. Logo que assumiu seus trabalhos na Paróquia, visitava doentes, amparava inválidos, zelava pela infância desvalida, atendia a população em suas necessidades.

A sua dedicação, as suas virtudes o fizeram admirado por todos, ficando acima de todas as críticas. Procurou catequizar e instruir o seu povo.

No seu plano de evangelização e catequese, chegou a criar a escola “Sagrada Família”, mais tarde “Escola Coração de Jesus”, com uma organização perfeita. Nela recebia alunos de todo o sul de Minas, e até do Rio de Janeiro. Muitos alunos pobres eram admitidos, gratuitamente, mesmo internos. Por ela passaram brasileiros  de grande projeção social. Fez, de muitos filhos de famílias humildes, homens de cultura, que passaram a viver da inteligência, nas mais variadas profissões.

Padre Victor tinha grande devoção a Maria e ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Era admirado pelo trato e respeito religioso com que realizava as celebrações litúrgicas. Pregava pelo exemplo a fé, a esperança, a fortaleza, o temor a Deus e sobretudo a caridade.

Seus paroquianos podiam  contar com ele para sanar dificuldades, seja fome, desentendimentos familiares, falta de moradia ou trabalho.

Amava a Deus na pessoa de seu semelhante, de modo especial os mais pobres. Muito enérgico e exigente nas atitudes de respeito para com Deus, no entanto não deixava de ser carinhoso e meigo com os pequenos. Jovial, gostava de festas, chegando a ceder salões da “Sagrada Família” para festas e bailes familiares, sempre terminando às 24h.

Como escravo que fora, protegia os negros maltratados e se insurgia contra os fazendeiros maldosos. Certa vez enfrentou um bando armado de fazendeiros na entrada da cidade, com um crucifixo na mão, que queria atear fogo na casa do Presidente da Junta Abolicionista da cidade, que refugiava dois de seus escravos. Dizia: “Entrem! Entrem!...mas passem por cima do cadáver do vigário!” O bando se desfez diante dessa muralha moral que era o padre Victor, um simples sacerdote negro, revestido da graça de Cristo!

Padre Victor vivia de esmolas e dava esmolas. Grande era a sua liberalidade, a tal ponto que passava necessidades. Praticava tanto o desapego dos bens materiais, que quando recebia alguma doação, a dava ao primeiro pobre que encontrasse, sem ao menos ver que quantia era.

Certa vez um pobre retornou dizendo que a quantia era muito alta, mas ele respondeu somente: “Já lhe dei; são seus”. Minado por uma lesão cardíaca e hepatite, sua saúde foi definhando, mesmo sem deixar suas atividades pastorais, que exerceu até os últimos dias de sua vida. Paroquiou Três Pontas, por cinquenta e três anos. Faleceu no dia 23 de setembro de 1905.

A notícia de seu falecimento abalou a cidade e toda a região que já o venerava.

Ficou insepulto três dias, pois todos o queriam visitar, mas mesmo, assim, de seu corpo exalava suave perfume. Em vista do grande número de pessoas foi necessário fazer uma procissão pelas ruas da cidade, voltando novamente à Matriz, por ele construída e onde foi enterrado.

As graças e os milagres que a população diz receber por intercessão de padre Victor são inúmeras. De ano para ano aumenta o número de fiéis de toda a região e até de outros estados que visitam Três Pontas no dia 23 de setembro, agradecendo graças recebidas ou implorando preces pela intercessão de Pe. Victor, e muitos fazem essa romaria a pé.

 

Oração para a Canonização

Ó Pai, que concedestes a vosso Servo, o Bem-aventurado Padre Victor ser amigo dos pobres, dos humildes e dos simples, e lhe deste a graça de ser vosso fiel servidor na busca do Reino dos céus, nós vos pedimos que a Igreja possa reconhecer oficialmente as suas virtudes e o proponha como modelo e protetor nosso. Por ter sido exemplo de pobreza, de simplicidade, de caridade para com os mais pobres e de serviço dedicado à Igreja, nós vos pedimos que, pela sua valiosa intercessão, obtenhamos a graça de que mais temos necessidade (...). Concedei-nos também que, a seu exemplo,

tenhamos no coração um ardente amor a Vós e ao próximo. Isso Vo-lo pedimos por meio de Jesus Cristo, vosso Filho, em união com o Espírito Santo. Amém.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

 

AMAMOS JESUS AMANDO MARIA

 

Se amamos de verdade Maria Jesus está contente conosco porque, antes de nós, ele a amou primeiro e com muito mais ardor, com muito mais veneração, com muito mais carinho, porque Maria foi a mulher escolhida como mãe por Jesus desde toda a eternidade.

Jesus foi exigente na escolha de sua mãe, e este foi um privilégio que só ele teve e que ele reservou somente para si: o de escolher a sua própria mãe, porque nenhum de nós, meros mortais, tivemos a oportunidade e o direito, ou a liberdade de escolher a nossa mãe, embora devemos estar contentes com a mãe que temos e que o Senhor nos reservou.

Na exigência da escolha  de sua mãe, Jesus escolheu a mais bela, a mais pura, a mais santa, a mais generosa, a mais virgem das mulheres que jamais existiu sobre a terra.

Maria é a obra prima de Deus.       Se amamos Maria estamos seguindo o exemplo e cumprindo a vontade de Jesus, porque, antes de nós, ele a amou primeiro.

Se amamos de verdade Jesus estamos seguindo o conselho de Maria, mesmo porque, antes de nos aconselhar, ela o amou primeiro e o amou como Deus que realmente era e é, e como homem que nunca deixou de ser desde o seu nascimento. Se estamos perto de Maria jamais poderemos estar longe de Jesus.

A melhor maneira de chegarmos a Jesus é por meio de Maria. Maria nos leva até Jesus, assim como foi ela quem trouxe Jesus até nós; foi Maria quem o apresentou aos pastores quando do seu nascimento (Lc 2,16); foi Maria quem o apresentou ao velho Simeão e à profetiza Ana nos portais do templo (Lc 2,24-38); foi Maria quem apresentou Jesus aos sacerdotes, no templo, para cumprir a lei de Moisés (Lc 2,22); foi  Maria quem apresentou Jesus aos Magos que vieram do Oriente para adorarem  “o Rei dos Judeus recém-nascido” (Mt 2,1-12). Foi Maria quem intercedeu  a Jesus para que ele realizasse o seu primeiro milagre (Jo 2,1-12) e, nessa oportunidade foi Maria quem determinou para toda a humanidade: “Fazei tudo o que ele vos disser.” (Jo 2,5).

Que dúvidas poderíamos ter mais sobre a ligação estreitíssima entre Jesus e Maria? Maria, no casamento de Canaã, na Galiléia, nos dá a primeira prova de que, por sua intercessão, Jesus atende a qualquer pedido, ainda que não tenha chegada a hora: “Minha hora ainda não chegou.” (Jo 2,4).

Num momento de extasiante amor, São Bernardo, que dedicou sua vida para mostrar ao mundo a importância de Maria nos planos de Salvação, nos transmitiu essa afirmativa em oração:  “Jamais se ouviu dizer que algum daqueles que tenha recorrido à proteção de Maria, implorado o seu socorro  e invocado o seu auxílio, tivesse sido desamparado.”

Desde que o Anjo do Senhor foi enviado a Nazaré e mantido aquele diálogo de esperança e salvação com a Virgem, convidando-a para ser a mãe do Filho de Deus, todos os que se aproximam ou se aproximaram de Maria se sentiram e se sentem reconfortados e mais perto de Deus. Gabriel, o Mensageiro do Senhor, ao se aproximar de Maria lhe diz: “Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo.” (Lc 1,28). Foi o próprio mensageiro do Senhor quem disse que Maria é “cheia de graça” e que o Senhor Nosso Deus estava com ela, e onde quer que Maria estivesse, tenha estado ou passado ou esteja, o Senhor está com ela, e ela se faz sinal de Deus.

Quem está com Maria, não está longe de Deus.

sábado, 13 de novembro de 2021

 

MARIA, A ESCOLHIDA POR DEUS.

 

“A origem de JESUS CRISTO foi assim: Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes de coabitarem, achou-se grávida pelo Espírito Santo.” (Mt 1,18). Assim o Evangelista Mateus começa a narrativa  sobre a origem de Jesus Cristo.

No tempo de Maria, como hoje, deveriam existir mulheres que se destacavam na sociedade, na política, no poder, na riqueza.

Mulheres que, sem sombra de dúvida, poderiam oferecer ao Filho de Deus um palácio, ao invés de uma gruta onde pernoitavam vacas, jumentos e ovelhas; poderiam oferecer  um berço digno de um recém-nascido ao invés de um cocho de animais; poderiam oferecer aquecedores de ar ao invés do respirar quente dos seres irracionais  que ali se encontravam.

Mulheres que poderiam providenciar e determinar para que as primeiras visitas ao Filho de Deus recém-nascido fossem os mais ricos e poderosos monarcas que existiam na época sobre a terra, ao invés dos pobres, simples, humildes e sofridos pastores.

A providência divina age diferentemente dos pensamentos humanos.

O Senhor Nosso Deus não quis um palácio para o seu Filho, já que o universo todo é seu. O Senhor não quis para o seu Filho um berço de ouro, já que tem a abóbada celeste para lhe servir de suporte dos pés.

O Senhor não quis para o seu Filho um aquecedor  de ambiente para aquecê-lo já que o vento que sopra dos quatro cantos da terra obedecem a sua voz.

O Senhor não quis para visitar seu Filho ricos monarcas e poderosos reis,  porque ele é o Rei dos Reis, e todos os reinos do mundo lhe pertence.

O Senhor Nosso Deus não quis, para mãe de seu Filho, uma mulher rica, poderosa, da sociedade, porque sabia que no coração dessas mulheres  não havia lugar para  “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6); no coração dessas mulheres não havia lugar para o “caminho” que devia ser trilhado, para a “verdade” que seria transmitida a toda a humanidade e para a “vida” que deveria ser vivida, pois os corações dessas mulheres estavam por demais encharcados das coisas da terra.

Para a mãe de seu filho o Senhor não procurou mulheres em palácios ou na sociedade, mas escolheu a mais pobre, a mais humilde, exatamente numa das mais pobres e humildes cidades da Galiléia e, exatamente, numa das casas mais pobres da mais pobre cidade da Galiléia.

Para a mãe de seu Filho o Senhor não escolheu a mulher mais rica da terra, a mais culta sobre as coisas terrenas, mas escolheu aquela que estava familiarizada com as coisas do céu:  escolheu uma mulher desapegada das coisas do mundo, possuidora de um coração desapegado, pobre, puro e humilde; um coração que o Senhor sabia que poderia não entender o que estava acontecendo com ele, mas que se submeteria dócil e livremente à vontade de Deus, se fazendo “a escrava do Senhor” (Lc 1,37), ainda que isso lhe custasse as mais cruciantes dores.

E foi pela pobreza e simplicidade de Maria que nos veio a maior riqueza imaginável: Jesus, aquele que também viveu a pobreza de Maria e com Maria no despojamento total das coisas do mundo. Jesus, com Maria, na pobreza da casa de Nazaré, viveu os momentos mais belos que livro algum deste mundo teve condições de nos narrar; nem os Santos Evangelhos fazem isso, a narração da vida vivida por Jesus e Maria na pobreza e simplicidade da casa de Nazaré.

Não houve quem tivesse condições de contar, de narrar, de transmitir, de escrever o que se passou na humilde casa de Nazaré onde viveram juntas as duas pessoas mais santas que já pisaram o nosso chão: Jesus e Maria.

E como Jesus deve ter amado Maria. Como Jesus deve ter falado, conversado com sua mãe, Maria. Se o próprio Senhor Jesus amou, e como amou Maria, porque não a amamos também, pelo menos para seguirmos o exemplo de Jesus?

Se, a exemplo de Jesus, amamos Maria de verdade, não tenhamos dúvidas, Jesus está contente conosco porque Maria é a mãe de Jesus, e qual é o filho que não gosta de ver sua mãe amada, venerada e respeitada por todos?

Quem ama Maria de verdade segue seus conselhos de mãe e qual foi o conselho que ela nos deu  quando participava, com seu Filho, de um casamento na cidade de Canaã, na Galiléia? É certo que ela se dirigia, na oportunidade, aos que serviam os convidados do casamento mas, naquele momento, os serventes representavam toda a humanidade. Disse Maria naquela ocasião: “Fazei tudo o que ele voz disser.” (Jo 2,5).

Maria, naquele momento, falava aos serventes do casamento mas, através do tempo e da história, ela continua a nos repetir, todos os dias, esse mesmo conselho.

E hoje, mais do que nunca, Maria continua a nos repetir essa frase, esse conselho que jamais envelhece e que jamais perde o seu significado, o seu sentido, a sua força, porque essa frase, esse conselho está inserido no Evangelho, e o Evangelho é eterno porque é a palavra do Senhor.         

A vontade de Maria é que cada um de nós, que nos dizemos cristãos, faça a vontade de Jesus.   Foi exatamente isso que Maria fez antes de tudo: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1,37).

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

 

FÁTIMA E A ORAÇÃO

 

A devoção e festa de Nossa Senhora de Fátima que iremos comemorar e que tem tanta repercussão no Brasil, teve origem na cidade de Fátima, uma cidade de Portugal, onde três crianças, Lúcia de Jesus Santos, com 10 anos, e seus primos Francisco Marto de 9 anos, e Jacinta Marto de 7 anos, tiveram uma revelação particular de Nossa Senhora. Aconteceu no ano de 1917.

Foram sete momentos de Nossa Senhora aos três meninos, normalmente no dia 13 de cada mês. A primeira foi no dia 13 de maio. Lúcia via e conversava com Nossa Senhora de Fátima.

Francisco só via e não ouvia os diálogos. Jacinta via e ouvia, mas não falou com Nossa Senhora de Fátima.

Eles a descreveram assim: Parecia ter uns 18 anos a Senhora, rodeada de claridade fulgurante, seu vestido era de uma alvura puríssima, assim como o manto ornado de ouro, que lhe cobria a cabeça e grande parte do corpo.

O rosto sobrenatural e divino estava sereno e grave, com uma sombra de tristeza.

Em suas mãos, uma cruz de ouro com um terço em contas que pareciam pérolas, e de seu corpo, especialmente do rosto, irradiavam feixes de luz, incomparavelmente superior a qualquer beleza humana.

No começo as crianças se assustaram, mas a “Senhora” as tranquilizou, dizendo para não terem medo, e que ela era do Céu. Nossa Senhora disse para rezarem o terço todos os dias para alcançarem a paz e o fim da guerra.

A mensagem de Fátima é uma mensagem de conversão e arrependimento.

Ninguém acreditava nas crianças. Na segunda aparição, somente 50 pessoas estavam presentes para tentar ver alguma coisa. Depois, as crianças sofreram grandes perseguições por parte dos poderes públicos.

Chegaram a ser até presas na delegacia de Fátima, mas nunca negaram as aparições.

 A oração:  “Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o Céu, e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem” foi ensinada por Maria aos pastorzinhos.

Em uma das aparições, Nossa Senhora ensinou esta oração às crianças, que foi acrescentada ao Rosário:  “Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o Céu, e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem”. (Nós costumamos rezá-la sempre ao final de cada mistério do terço).

Após a terceira aparição, o povo começou a acreditar, e cada vez mais se aglomeravam pessoas, chegando a mais de trinta mil na última aparição.

Na sexta aparição, Maria Santíssima disse a Lúcia que naquele local, com o dinheiro das doações, deveria ser construída uma capela com o nome de Nossa Senhora do Rosário.

E quando ela se levantava suavemente para ir embora, o sol apareceu entre as nuvens como um grande disco prateado, brilhando muito, mas sem cegar as pessoas.

Começou a girar vertiginosamente e suas bordas se tornaram avermelhadas, espalhando raios de fogo, de modo que sua luz refletia nas pessoas, nas árvores, e foi vista até quarenta quilômetros de distância do local das aparições.

Por três vezes o sol girou e se precipitou sobre a Terra, e todos com medo pediam perdão para Deus. O milagre durou cerca de dez minutos. A partir desses acontecimentos, a devoção a Nossa Senhora do Rosário de Fátima aumentou, se difundiu para o mundo todo, e hoje, em seu Santuário, todos os peregrinos vão fazer seus pedidos, agradecimentos e orações.

São muitos os testemunhos de pessoas que em Fátima encontram o seu caminho espiritual para Deus, e tantos outros que experimentam várias graças do Senhor em suas vidas. Sou testemunha, pelas vezes que lá pude estar, desse clima de oração, penitência, conversão!

Quanto ao Segredo de Fátima, vale esclarecer: somente os três pastorinhos tiveram contato com Fátima em suas aparições. E com a morte prematura de seus primos Jacinta e Francisco, ficou somente com Lúcia o tão famoso Segredo de Fátima.

As duas primeiras partes do segredo são conhecidas desde 1941 e constam de documentos oficiais da Igreja Católica.

A primeira parte: Nossa Senhora fala dos castigos pelos nossos pecados. Nesta vida, aqui na Terra, haveria uma guerra horrível, precedida por uma luz desconhecida no meio da noite; haveria fome, perseguição religiosa, erros espalhados no mundo pela Rússia, e várias nações aniquiladas. A nós, pecadores, na outra vida, estariam reservados suplícios do inferno, dos quais os pastorinhos tiveram pavorosa visão.

A segunda parte do segredo revela os meios para evitar esses castigos: a devoção ao Imaculado Coração de Maria através da prática reparadora de rezar o terço, meditar nos mistérios do Rosário, confessar-se e receber a Sagrada Comunhão.

A última parte foi revelada em 2001. Fátima falou de um papa que sofreria um atentado. Os fatos parecem confirmar o mistério: em 1981, São João Paulo II foi baleado justamente num outro dia 13 de maio, dia da primeira aparição de Fátima.

No início deste mês tive oportunidade de presidir a grande celebração do “terço dos homens” em nosso Santuário Arquidiocesano Mariano, e vejo como hoje, de modo especial, o Senhor continua suscitando uma renovação em nós através da oração de contemplação, que é o Rosário.

Neste tempo de perseguições aos católicos, recordemos como essa oração ajudou a Igreja a passar por essas provações.

Também recordo que no ano de 2013, tive a graça de presidir a Festa de Nossa Senhora de Fátima no seu Santuário, em Portugal. Ao recordar este momento especial, quero me unir a todos os devotos de Nossa Senhora de Fátima, de Portugal e do Brasil, pedindo-lhes que, com novo empenho pastoral, façamos diariamente a reza do Santo Rosário. A teologia católica nos ensina que é rezando o rosário que iremos a Jesus, por Maria. Não tenhamos vergonha de rezar esta oração vocal importantíssima. Que a Virgem Maria nos anime na ação pastoral!

Rezemos: Santíssima Virgem, que nos montes de Fátima vos dignastes revelar a três humildes pastorinhos os tesouros de graça contidos na prática de vosso Rosário, incuti profundamente em nossa alma o apreço em que devemos ter com essa devoção, para Vós tão querida, a fim de que, meditando os mistérios da Vossa Redenção que nela se comemora, nos aproveitemos de vossos preciosos frutos, e alcancemos a graça que vos pedimos nesta oração,  se for para maior glória de Deus, honra vossa e proveito de nossas almas. Amém. Rainha do Santíssimo Rosário, rogai por nós!

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist. ´- Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021








SÃO MARTINHO DE TOURS - SÉCULOS IV E V

 

"Senhor, se o vosso povo precisa de mim, não vou fugir do trabalho. Seja feita a vossa vontade", dizia Martinho, bispo de Tours, aos oitenta e um anos de idade.

Ele despertou para a fé quando ainda menino e depois, mesmo soldado da cavalaria do exército romano, jamais abandonou os ensinamentos de Cristo. A sua vida foi uma verdadeira cruzada contra os pagãos e em favor do cristianismo.

Quatro mil igrejas dedicadas a ele na França, e o seu nome dado a milhares de localidades, povoados e vilas; como em toda a Europa, nas Américas.

Enfim, em todos os países do mundo. Martinho nasceu na Hungria, antiga Panônia, por volta do ano 316, e pertencia a uma família pagã. Seu pai era comandante do exército romano.

Por curiosidade começou a frequentar uma Igreja cristã, ainda criança, sendo instruído na doutrina cristã, porém sem receber o batismo. Ao atingir a adolescência, para tê-lo mais à sua volta, seu pai o alistou na cavalaria do exército imperial.

Mas se o intuito do pai era afastá-lo da Igreja, o resultado foi inverso, pois Martinho continuava praticando os ensinamentos cristãos, principalmente a caridade. Depois, foi destinado a prestar serviço na Gália, atual França. Foi nessa época que ocorreu o famoso episódio do manto.

Um dia, um mendigo que tiritava de frio pediu-lhe esmola e, como não tinha, o cavalariano cortou seu próprio manto com a espada, dando metade ao pedinte. Durante a noite, o próprio Jesus apareceu-lhe em sonho usando o pedaço de manta que dera ao mendigo e agradeceu a Martinho por tê-lo aquecido no frio.

Dessa noite em diante, ele decidiu que deixaria as fileiras militares para dedicar-se à religião. Com vinte e dois anos, já estava batizado, provavelmente pelo bispo de Amiens, afastado da vida da Corte e do exército. Tornou-se monge e discípulo do famoso bispo de Poitiers, santo Hilário, que o ordenou diácono.

Mais tarde, quando voltou do exílio, em 360, doou a Martinho um terreno em Ligugé, a doze quilômetros de Poitiers. Lá, Martinho fundou uma comunidade de monges. Mas logo eram tantos jovens religiosos que buscavam sua orientação que Martinho construiu o primeiro mosteiro da França e da Europa ocidental.

No Ocidente, ao contrário do Oriente, os monges podiam exercer o sacerdócio para que se tornassem apóstolos na evangelização. Martinho liderou, então, a conversão de muitos e muitos habitantes da região rural.

Com seus monges, ele visitava as aldeias pagãs, pregava o Evangelho, derrubava templos e ídolos e construía igrejas. Onde encontrava resistência, fundava um mosteiro. Com os monges evangelizando pelo exemplo da caridade cristã, logo todo o povo se convertia. Dizem os escritos que, nessa época, havia recebido dons místicos, operando muitos prodígios em beneficio dos pobres e doentes que tanto amparava. Quando ficou vaga a diocese de Tours, em 371, o povo aclamou-o, unanimemente, para ser o bispo.

Martinho aceitou, apesar de resistir no início. Mas não abandonou sua peregrinação apostólica: visitava todas as paróquias, zelava pelo culto e não desistiu de converter pagãos e exercer exemplarmente a caridade.

Nas proximidades da cidade, fundou outro mosteiro, chamado de Marmoutier. E sua influência não se limitou a Tours, tendo se expandido por toda a França, tornando-o querido e amado por todo o povo. Martinho exerceu o bispado por vinte e cinco anos.

Morreu, aos oitenta e um anos, na cidade de Candes, no dia 8 de novembro de 397. Sua festa é comemorada no dia 11, data em que foi sepultado na cidade de Tours.

Venerado como são Martinho de Tours, ele se tornou o primeiro santo não-mártir a receber culto oficial da Igreja e também um dos santos mais populares da Europa medieval.

São comemorados também neste dia: São Menos de Alexandria (mártir), São Menos de Santomena (eremita), São Teodoro, o Estudita (abade), Santos Valentim, Feliciano e Vitorino (mártires de Ravena), São Verano e Santa Mena.


quarta-feira, 10 de novembro de 2021

 

“TU ÉS O MEU FILHO DILETO...” (Lc 3,22).

 

Todos gostamos de festas.

Quando nasce um filho ficamos trasbordantes de alegria.

Quando alguém, em casa, faz aniversário, dificilmente falta um bolo nem que seja pequeno, mas significativo, e alguns refrigerantes.

Quando alguém passa de ano na escola, ou é bem sucedido no vestibular, ou termina um curso, promovendo-se na vida, todos fazemos festas e queremos partilhar da alegria de quem conseguiu êxito nos estudos. 

Em todos os casamentos fazemos festas e, quando somos convidados a participar desses eventos alegres, fazemos questão de estarmos presentes, levando o nosso presente.

Sentimos-nos muito bem num ambiente  de festa, de alegria, de confraternização. Com Jesus Cristo não foi diferente. Jesus é o Deus da alegria, o Deus da festa, o Deus da participação.

Em todas as suas manifestações a todos os homens houve festa, houve alegria, houve participação; muitas pessoas foram convidadas para essas manifestações de alegria e esperança.

Quando Jesus nasceu no curral à beira da estrada, na cidade de Belém, os Anjos vieram dos céus, porque os céus também estavam em festa, e a festa nos céus era tamanha que transbordou, derramou sobre a terra e os Anjos que participavam dessa festa nos céus, radiantes de alegria, desceram cantando, alegres e felizes, anunciando a Boa Nova que a humanidade esperava desde o início dos tempos: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade.” (Lc 2,14).

Depois houve a grande festa na visita dos magos, servindo-se, como guia desses homens sábios, uma reluzente estrela no firmamento  enviada pelo Senhor Nosso Deus para conduzi-los até onde estava o menino Jesus, e chegaram perguntando: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?  Porque nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.” (Mt 2,2).

E os magos manifestaram a sua alegria em presentes porque, quem ama dá presentes...

A Páscoa era e é uma das maiores festas, senão a maior festa do povo judeu e todo o povo participava dessa festa; os Santos Evangelhos nos narram que aos doze anos o Senhor Jesus e seus pais foram de Nazaré, onde residiam, até a cidade de Jerusalém para participarem, com todo o povo, dessa grande solenidade religiosa festiva do povo judeu. (Lc 2,41-50).

A terceira manifestação pública do Senhor Jesus, antes de iniciar a sua evangelização, também foi uma grande festa, tão grande que o próprio Deus Pai se manifestou: “Ora, aconteceu que recebendo o batismo todo o povo, batizado também Jesus, e estando em oração, abriu-se o céu, e desceu sobre ele o Espírito Santo em forma corpórea como uma pomba; e ouviu-se do céu esta voz:” “tu és meu filho dileto; em ti pus as minhas compacências.” (Lc 3,21-22).

Segundo a tradição cristã o Senhor Jesus teria trinta anos quando se dirigiu às margens do rio Jordão ao encontro do João Batista para se deixar batizar.

E, nessa oportunidade, nova festa se realiza nos céus: o batismo do Senhor Jesus.

Novamente, nessa oportunidade, os céus se tornam pequenos demais para conter a Santíssima Trindade e, bem por isso, a Unidade Trina se manifesta nas margens do rio Jordão: o Pai Eterno falando das nuvens: “Tu és o meu filho dileto...” (Lc 3,22), referindo-se a Jesus Cristo que acabara de ser batizado por João Batista, e o Divino Espírito Santo se faz presente “...em forma corpórea como uma pomba...” (Lc 3,22), e paira sobre a cabeça do Senhor Jesus. Manifestou-se, assim, de forma admirável, visível e audível, pela primeira vez aos homens, a Santíssima Trindade: Deus Filho sendo batizado, o Espírito Santo como uma pomba, e o Pai Eterno fazendo-se ouvir do mais alto dos céus: era o Pai, O Filho e o Espírito Santo se manifestando e apresentando aos homens aquele que viera para a salvação de “...todos os homens de boa vontade.” (Lc 2,14).

As Sagradas Escrituras nos revelam que o povo do Antigo Testamento, antes da vinda do Senhor Jesus, desconheciam a Santíssima Trindade. Antes de Jesus o Senhor Nosso Deus era conhecido e chamado pelos judeus apenas de “YAHWEH”, que quer dizer, conforme o próprio Senhor revelou-se a Moisés: “EU SOU AQUELE QUE SOU”: “Moisés disse a Deus: Eis que eu irei aos filhos de Israel, e lhes direi: O Deus de vossos pais enviou-me a vós. Se eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes hei de responder? Deus disse a Moisés: EU SOU AQUELE QUE SOU. E disse: Assim dirás aos filhos de Israel: AQUELE QUE É enviou-me a vós... ... este é o meu nome por toda a eternidade, e com ele serei recordado de geração em geração.” (Ex 3,13-14.15).

terça-feira, 9 de novembro de 2021

 

“AMARÁS   O   SENHOR, TEU   DEUS...” (Lc 10,27).

 

Desde toda a eternidade o Senhor Nosso Deus amou o homem. Amou-o tanto que fez o homem à sua  imagem e semelhança: “Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança...” (Gn 1,26).

O Senhor criou o homem num estado de graça  de extrema perfeição que,  enquanto o homem permaneceu  no paraíso para ele feito por Deus, vivia a própria vida  de Deus, a vida de felicidade total. Mas o homem não soube se manter nesse estado de vida.

Preferiu seguir as suas próprias idéias, caprichos, inclinações, os seus próprios impulsos e cometeu o pecado da desobediência, da soberba, tentando ser igual a Deus, o seu Criador, deixando-se iludir  pelo demônio que, segundo as Sagradas Escrituras, investido na figura de uma serpente,  o tentou, através de sua companheira:  “A serpente então disse à mulher:  não, não morrereis!  Mas Deus sabe que no dia em que dele (o fruto) comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal.” (Gn 3,4-5).

O capítulo terceiro do livro do Gênesis narra a degradação e a expulsão do homem, como casal,  do paraíso, perdendo, com isso a participação da vida da graça, da felicidade plena, a participação da vida divina: “E Iahweh Deus expulsou o homem do jardim do Éden para cultivar o solo de onde fora tirado.  Ele baniu o homem e colocou, diante do jardim do Éden, os Querubins e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da árvore da vida.” (Gn 3, 23-24).

Apesar de toda a ingratidão por parte do homem em relação ao seu Criador, o Senhor jamais abandonou o homem. Mesmo tendo o homem, por sua livre e expontânea vontade, mergulhado no pecado, o Senhor continuou a acompanhá-lo através dos tempos e da história, sempre enviando ao povo homens justos e santos, profetas, que não deixavam o povo se esquecer de seu Deus, afastar-se do seu Senhor.

O Senhor sempre cuidou de seu povo, conforme Ele mesmo disse pela boca do profeta Isaias: “Mas, agora, diz Iahweh, aquele que te criou, ó Jacó, aquele que te modelou, ó Israel:  “Não temas porque eu te resgatei, chamei-te pelo nome, tu és meu. Quando passares pela água, estarei contigo quando passares  rios, eles não te submergirão. Quando andares pelo fogo, não te queimarás. A chama não te atingirá.  Com efeito, eu sou Iahweh, o teu Deus, o Santo de Israel, o teu  Salvador. Por teu resgate dei o Egito, Cuch e Sebá, dei-os em teu lugar. Pois que és precioso aos meus olhos, és honrado e eu te amo, entrego pessoas no teu lugar e povos pela tua vida.  Não temas porque eu estou contigo, do oriente trarei a tua raça, e do ocidente te congregarei.” (Is 43,1-5).

Por meio de Isaias, Deus continua dando prova do seu grande amor para cada um de nós: “Porventura pode uma mulher esquecer-se do seu filho que gerou, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu jamais me esquecerei de ti. Eis que nas palmas das minhas mãos eu gravei o teu nome”. (Is 49,15-16).

Moisés, o libertador do povo israelita da escravidão do Egito, foi uma figura de vital importância para o povo do Senhor e que o Senhor havia escolhido entre todos os povos para ser exclusivamente seu, somente seu povo.

Moisés livra o povo de Deus da escravidão imposta pelo Egito e o conduz através do deserto por quarenta anos; doutrinou e ensinou esse povo sobre as coisas de Deus e deixou claro , sem nenhuma sombra de dúvida, como o Senhor Deus amou e ama o seu povo.

O Senhor sempre amou  e ama os homens; por isso quer que todos tenham vida em abundância: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (Jo 10,10) e sejam plenamente felizes. 

Moisés é o portador da mensagem do Senhor para os homens de boa vontade, (cf Lc 2,14), séculos antes do nascimento de  Jesus Cristo  e, no deserto, como mensageiro de Deus, diz ao povo israelita: “Portanto, ó Israel, ouve e cuida de por em prática o que será bom para ti e te multiplicará muito, conforme te disse Iahweh, Deus dos teus pais, ao entregar-te uma terra onde mana leite e mel. Ouve, ó Israel:  Iahweh nosso Deus é o único Iahweh. Portanto, amarás a Iahweh, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força.  Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração.” (Dt 6,3-7).      A primeira lei que o Senhor deseja colocar no coração do homem é a lei do amor e, em primeiríssimo lugar,  o amor ao seu Deus e Senhor: “Assim diz Iahweh, o rei de Israel, Iahweh dos exércitos, o seu Redentor: “Eu sou o primeiro e o último, fora de mim não há Deus. quem é como eu?... (Is 44,6-7).

No que diz respeito ao amor o Senhor Nosso Deus é um Deus ciumento e não perdoa quem ama alguém ou alguma coisa mais que ao próprio Senhor Deus e, por isso, Ele nos chama a atenção: ”Não te prostrarás diante desses deuses, e não o servirás porque eu, Iahweh teu Deus,  sou um Deus ciumento, que puno a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam, mas que também ajo com amor até a milésima geração para aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Ex 20,5-6).    

O Senhor exige respeito a tudo aquilo que diz respeito ao seu Santíssimo Nome: Não pronunciarás em vão o nome de Iahweh teu Deus, porque Iahweh não deixará impune aquele que pronunciar em vão o seu nome.”  (Ex 20,7), e, “Guardareis os meus mandamentos e os praticareis.  Eu sou Iahweh.  Não profanareis o meu santo nome, a fim de que eu seja santificado no meio dos filhos de Israel, eu, Iahweh, que vos santifico.”  (Lv 22,31-32). “...Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento...” (Lc 10,27).  

Esse mandamento de amor foi ensinado ao povo judeu enquanto caminhava no deserto à busca da terra prometida.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

 

A CADA DIA BASTA O SEU CUIDADO.

 

O Senhor, pelo seu infinito amor por todos nós, antes que tomemos conhecimento dos nossos problemas, sabe muito bem  quais são as nossas necessidades e as provê antes mesmo que notemos sua existência ou lhe pedimos que nos ampare porque “Vosso Pai sabe que tendes necessidade de todas elas. Buscai pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dada por acréscimo. Não vos preocupeis pois, pelo dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.” (Mt 6,32-34).

Amemos o Senhor e o resto acontecerá normalmente; o demais virá por acréscimo.

O primeiro grande mandamento é amar o Senhor Nosso Deus; o segundo é amar o próximo, e nisso não existe uma divisão de amor, existe uma multiplicação, existe o primeiro e o segundo totalizando o amor em plenitude, sem deixar de existir uma escalada hierárquica: partindo desse princípio o Senhor não é “ciumento”.

O Senhor é ciumento no que diz respeito às coisas do mundo que quer dominar o coração do homem, quer competir com o amor de Deus e, bem por isso, Jesus nos alerta: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou há de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.” (Mt 6,24).

É até um absurdo  dizer que o amor ao dinheiro, às riquezas, pode sobrepujar  o amor a Deus, mas é uma realidade, uma realidade que foi focalizada  pelo próprio Senhor Jesus.

O dinheiro competindo no coração do homem com Deus, e quantas vezes leva vantagem, e, bem por isso, Paulo Apóstolo adverte Timóteo em sua carta: “Ora, os que querem se enriquecer caem em tentação e cilada, e em muitos desejos insensatos e perniciosos, que mergulham o homem na ruína e na perdição. Porque a raiz de todos os males e o amor ao dinheiro, por cujo desenfreado desejo alguns se afastaram da fé, e a sim mesmo se afligem com múltiplos tormentos.” (1Tm6,9-10). E isso o Senhor Jesus quer deixar claro: a amizade do mundo é incompatível com a amizade com Deus.

O apóstolo Tiago entendeu bem essa mensagem de Jesus e nos faz essa grave advertência: “Adúlteros, não sabeis que a amizade deste mundo é inimiga de Deus? Portanto, todo aquele que quiser ser amigo deste século, constitui-se inimigo de Deus. Porventura imaginais que a Escritura diz em vão: “O Espírito que habita em vós ama-vos com ciúme?” Pelo contrário, dá maior graça. Por isso a Escritura diz: “Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes.” Sede pois, sujeitos a Deus e resisti ao demônio, e ele fugirá de vós. Aproximai-vos de Deus e ele se aproximará de vós.” (Tg 4,4-8).

O Apóstolo amado, João, também nos adverte sobre o mesmo assunto: “Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo não há nele o amor do Pai, porque tudo o que há no mundo é concupiscência dos olhos e soberba da vida, e isto não vem do Pai, mas do mundo. Ora o mundo passa e a sua concupiscência com ele, mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente.”. (1Jo 2,15-17).

O mínimo que podemos fazer é amar ao Senhor Nosso Deus, pelo menos porque ele nos amou primeiro: “O amor consiste nisso: em não termos sido nós que amamos a Deus, mas em que ele foi o primeiro que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de propiciação pelos nossos pecados. Caríssimos, se Deus nos amou assim, devemos nós também amar-nos uns aos outros.” (1Jo 2,10-11).

E Jesus nos amou e ama tanto que não nos quer deixar sozinhos e, antes de voltar para o Pai nos deixa esta promessa reconfortadora: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt 28, 20).

Não estamos sozinhos nessa caminhada do amor. Jesus Cristo permanece conosco; nós o vemos a cada instante. Vemos o Cristo e bebemos do seu amor quando contemplamos os olhos inocentes de uma criança.

Sentimos a presença de Cristo quando atendemos a necessidade de um irmão, quando confortamos um irmão. Nos transformamos em outro Cristo quando nos doamos, quando nos amamos mutuamente da mesma forma que o Senhor Jesus nos amou e continua nos amando, agora e para todo o sempre...

domingo, 7 de novembro de 2021

 

“VENHAM BENDITOS DE MEU PAI! RECEBAM COMO HERANÇA O REINO QUE MEU PAI PREPAROU PARA VOCÊS DESDE A CRIAÇÃO DO MUNDO”. (Mt 25,34).

 

TODOS OS SANTOS

Ano – B; - Cor: branca – Leituras: Apo 7,2-4.14; Sl 23,1-4b.5-6; 1Jo 3,1-3; Mt 5,1-12a.

 

Diácono Milton Restivo

 

O dia de Todos os Santos é comemorado no primeiro dia de novembro, que antigamente também era feriado, mas, como deixou de ser feriado, a Igreja transfere esta comemoração de Todos os Santos para o primeiro domingo do mês de novembro.

O dia de Todos os Santos, como sugere a comemoração, é dedicado a todos os santos e santas existentes; aos santos e santas que conhecemos e aos santos e santas que não conhecemos; aos santos e santas que sabemos o nome e a sua história, e aos santos e santas que não sabemos o nome nem a história de sua vida e que jamais ouvimos falar ou ouviremos falar; aos santos e santas que conviveram conosco e nos anteciparam na casa do Pai e lá estão nos aguardando.

Esta data é dedicada a todos os santos e santas que todos conhecem o seu nome e às santas e santos anônimos.

A festa de Todos os Santos é uma das comemorações mais antiga e mais importante do calendário litúrgico; é a festa da família de Deus, da família da Igreja de Jesus Cristo.

A fé apresenta-nos as santas e os santos todos como nossos irmãos e irmãs que viveram em épocas e lugares diferentes. A fé apresenta-nos os santos e santas como membros da mesma família, da família a qual todos pertencemos através do batismo.

Como membros dessa família, devemos encher-nos de alegria e congratularmos-nos com os nossos irmãos e irmãs que já venceram o mundo, a carne e os contratempos e se acham, agora, num lugar onde não há mais lágrimas, sofrimento, tristeza ou dor.

A Igreja apresenta os santos e santas como modelos de vida cristã e nos orientam na penosa viagem para a casa do Pai; eles já passaram pelo que estamos passando, viveram os problemas que estamos vivendo e, por isso, indicam-nos os meios que devemos aplicar para chegarmos ao porto da salvação. E esses meios que eles usaram e nos ensinam, é a observação dos mandamentos, da Lei de Deus, a observação do amor, da caridade e da partilha ao próximo, os mandamentos da lei da Igreja, trabalho, oração, mortificação, e aceitação dos sofrimentos que não podemos evitar.

A festa de Todos os Santos é, para nós que ainda caminhamos neste vale de lágrimas, um dia de alegria, de consolo e de animação: eles foram como nós e conseguiram, nós também somos como eles e podemos e devemos conseguir.

Os santos e santas foram o que somos hoje: homens e mulheres lutadores e, muitos dentre eles, grandes pecadores que reconheceram em Jesus a salvação e a ele aderiram incondicionalmente. Os santos e santas foram o que nós somos hoje, e nós seremos o que eles são: “Benditos do Pai”. Temos dentro de nós a semente da esperança do céu.

Quem tem esperança, santifica-se. Cremos na vida eterna.

Na luta, na dor, no desânimo e nas tribulações, lembremos-nos da glória que nos espera. Daqui a pouco tudo estará acabado e podemos, nós mesmos, se seguirmos os ensinamentos de Jesus Cristo e os exemplos dos santos e santas, experimentar e nos deliciar com as maravilhas celestes antecipadas por Paulo Apóstolo:

·         “Olho algum viu, ouvido nenhum ,ouviu, nem jamais veio à mente do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam.” 1Cor, 2, 9).

Santos e santas não são somente os que gozam da veneração da família cristã.

Todos os que estão na casa do Pai, gozando da eterna bem-aventurança da presença de Deus são os nossos santos e santas, saibamos ou não os seus nomes, as suas histórias, os seus sacrifícios, os seus martírios. Os nossos parentes, amigos, benfeitores, os nossos antepassados que já passaram por esta vida, por este vale de lágrimas, e que agora gozam da eterna bem-aventurança, são os santos e santas que comemoramos no dia de Todos os Santos; são os santos e santas anônimos da nossa festa.

Quantos conhecidos nossos e que conviveram conosco lá estão e são comemorados no dia de hoje. Com quantos santos convivemos e que hoje, na glória eterna, eles rezam por nós, velam por nós. Se estão na glória de Deus Pai são santos e santas e simplesmente, para serem santos e santas, não há a necessidade de terem sidos canonizados e frequentarem o ensejo da veneração do povo.

Nesta festa de Todos os Santos somos convidados a lançar um olhar nas magníficas habitações celestes e contemplar as multidões de santos e santas, aqueles benditos do Pai que se acham no reino que lhes foi preparado desde o princípio dos tempos:

·         “Venham vocês, que são abençoados pelo meu Pai. Recebam como herança ao Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo”. (cf Mt 25,34).

Não há espetáculo aqui na terra, por mais belo e atraente que seja que possa ser comparado com a grandiosidade do céu que hoje abre-se à nossa vista, por isso repito os dizeres de Paulo:

·         “Olho algum viu, ouvido nenhum ouviu, nem jamais veio à mente do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam.” 1Cor, 2, 9).

Todos sabemos e temos conhecimento, principalmente através das folhinhas e dos calendários que a nossa Santa Igreja, em cada dia do ano nos propõe a veneração, a memória e a lembrança de um ou mais santos e santas, de um ou mais bem-aventurados que foram modelos de perfeição cristã como a nos estimular na prática da virtude que nos leva ao nosso destino eterno, a verdadeira imortalidade para a qual foram criados todos os homens.

Todos os dias veneramos um ou mais santos.

Todos os dias é dia de algum santo, conhecido ou não.

Mas, mesmo nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, mesmo que veneremos centenas de santos por dia, jamais veneraríamos todos os santos que estão na casa do Pai.

Claro, não os conhecemos a todos; são centenas de milhares, canonizados ou não, que são venerados ou não. E é por isso que a nossa Santa Igreja, na sabedoria que lhe transmite o Espírito Santo, instituiu o dia de Todos os Santos, para que nenhum santo ou santa ficasse no esquecimento, seja ela ou ele conhecido ou não.

No dia de Todos os Santos veneramos os nossos irmãos e irmãs que se encontram na glória eterna gozando das bem-aventuranças eternas.

Não é necessário ser canonizado para ser santo.

A Igreja simplesmente canoniza alguns para que sirvam de modelo de vida cristã a todos os demais que caminham neste vale de lágrimas, mas, em comparação às centenas de milhares de santos que se encontram na casa do Pai, os canonizados são poucos, pouquíssimos mesmo.

Todos os que estão no céu, gozando da presença beatífica de Deus, são santos e santas.

Todos os que viveram em plenitude as bem-aventuranças pregadas por Jesus Cristo e que foram perseguidos por amor da justiça e do nome do Senhor, são santos e santas. E é por isso que a Igreja, na comemoração do dia de Todos os Santos, através dos Santos Evangelhos, lembra a todos as bem-aventuranças pregadas por Jesus a todo o povo, do alto de uma montanha.

Quem levou e leva a serio essas bem-aventuranças e, quem é injuriado, perseguido, caluniado e maltratado por segui à risca as bem-aventuranças pregadas, ensinadas e vividas por Jesus, já é santo e santa nesta terra e, quando partir para a casa do Pai, será recebido com festas na morada eterna que Deus Pai preparou para todos.

Santos e santas não são somente aqueles que já gozam da presença eterna de Deus Pai.

Temos muitos santos e santas que hoje estão caminhando conosco, ao nosso lado, vivendo conosco no nosso dia-a-dia, padecendo conosco as agruras da vida, rindo conosco nas mesmas alegrias e chorando nas mesmas lágrimas as nossas tristezas e procurando viver as bem-aventuranças pregadas, ensinadas e vividas por Jesus Cristo.

Santos somos todos nós que vivemos a vida da graça, que vivemos a vida de Deus.

·         “A terra está cheia de santos. São os pobres e os aflitos, gente que chora porque foi privada das coisas mais necessárias para sobreviver ou porque foram atingidas injustamente naquilo que existe de mais sagrado. Santos são os mansos deste mundo, os que não tem forças para se defender, os que não podem levantar a voz para reclamar os seus direitos. Santos são os que tem fome e sede de justiça, que não se conformam com este mundo violento... Santos são os misericordiosos que aprenderam com Jesus Cristo a lei do perdão e do amor. Santos são os puros de coração que nunca se deixaram levar pela corrupção... Santos são os que promovem a paz, fonte de todos os bens, princípio da alegria...” (Padre Virgílio, 07.11.82). 

Santos somos todos que caminhamos seguindo as pegadas de Jesus Cristo neste vale de lágrimas. E hoje comemoramos os nossos falecidos, os que nos anteciparam na casa do Pai.

Todos nós, sempre e de um modo especial, nos lembramos dos nossos falecidos.

Todos temos, dentro de nós, uma lembrança, um vazio deixado por alguém a quem amamos e que partiu para a vida que não se acaba mais. Todos, de uma maneira ou de outra, conhecemos a dor do luto, lamentamos o lugar que ficou vazio na mesa, no sofá da sala, reclamamos a voz que se calou, sentimos a falta da presença que se tornou ausência.

Em muitos lares, senão em quase todos, já passou a figura tenebrosa e indesejável da morte, e a morte já levou muitos dos nossos entes queridos.

Se não conhecêssemos Cristo e a sua mensagem, talvez não houvesse esperanças em nossos corações e nossa vida seria uma fuga eterna da morte, uma fuga de uma realidade que nenhum ser vivente sobre esta terra poderá se livrar; o que nos conforta, quando pensamos sobre a morte ou somos atingidos por ela através de um ente querido são as palavras de Jesus Cristo:

·         “Em verdade, em verdade eu lhes digo: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte.” (Jo, 8,51).

Até Jesus e a sua Mãe, Maria, conheceram a morte e passaram por ela; passaram, mas venceram a morte, dando-nos a esperança e a certeza de uma vida plena depois desta vida, a vida que não se acaba, a vida eterna, a vida que o Senhor Jesus veio nos trazer em abundância, Jesus afirma isso no seu Evangelho quando conversava com as irmãs de Lázaro, Marta e Maria:

·         “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre.” (Jo, 11, 15-26).

A morte é, para o cristão, apenas a passagem que une o nosso tempo à eternidade; a morte é a porta que se abre para que possamos entrar na vida que Jesus Cristo preparou para todos,

·         “e não nos devemos admirar porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que fizeram o bem, sairão para a ressurreição da vida, e os que fizeram o mal, para a ressurreição do juízo.” (Jo, 5,28-29).

 Quando morre alguém da nossa família, do nosso círculo de amizade, choramos, e às vezes choramos muito. É bom chorar, é necessário que se chore porque as lágrimas sinceras são as provas mais evidentes do amor que tínhamos por aquela pessoa que se foi; as lágrimas são a demonstração e a exteriorização dos nossos sentimentos mais sinceros e mais íntimos. Todo cristão chora quando um ente querido parte para a vida eterna. Mas o cristão não chora de desespero nem de revolta.

O cristão chora, sim, mas de saudade.

Sentimos saudade do ente querido que se foi, mas temos confiança nos ensinamentos evangélicos de Jesus, acreditamos na sua mensagem e temos a certeza evangélica de que os nossos entes queridos que conviveram longo tempo conosco neste vale de lagrimas e que ouviram a voz do Bom Pastor e fizeram parte do seu rebanho, agora, depois de sua morte, estão na glória de Deus Pai, na casa do Pai onde, segundo uma das promessas de Jesus, existem muitas moradas:

·         “Não se perturbe o seu coração; creia em Deus, creia também em mim. Na casa do meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse eu não teria dito isso para vocês, porque eu vou preparar um lugar para vocês. Quando eu tiver ido e tiver preparado um lugar para vocês, de novo voltarei e tomarei vocês comigo, para onde eu estiver estejam  também vocês.” (Jo 14,1-3).  

Paulo, na sua carta aos Romanos, escreveu, para nos confortar, a respeito da morte:

·         “Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Pelo batismo fomos sepultados com ele na morte, para que assim, como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da glória do Pai, assim nós também possamos caminhar numa vida nova. [...] Mas, se estamos mortos com Cristo, acreditamos que também vivemos com ele, pois sabemos que Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais: a morte não tem poder sobre ele. (Rm 6,3-4.8-9).

Paulo, através dessa carta nos dá a certeza que a vida eterna já começou aqui e agora em nós pelo batismo e pela fé no Senhor Jesus.

João Evangelista, com sua mensagem de fé e amor, também nos conforta a todos e nos dá a certeza de que, um dia, após a nossa morte, veremos realmente a Deus tal qual ele é.

Na sua primeira carta, João escreve:

·         “Filhinhos, vejam como é grande o amor que o Pai tem por nós! Seu amor para conosco é tão grande que ele nos deu a graça de sermos chamados “Filhos de Deus”, e o somos de fato. O mundo não nos conhece, porque não conhece a Deus. Meus queridos amigos, já somos filhos de Deus aqui e agora, embora, externamente ainda não apareça o que vamos ser. Mas sabemos, com certeza, que, quando aparecer, seremos semelhantes a ele porque o veremos como ele realmente é. Todo aquele que tem essa esperança nele se torna puro, como também ele é puro.” (1Jo 3,1-3).

O que nos conforta sobre os pensamentos que temos sobre os nossos falecidos são as palavras de Jesus:

·         “Deus, não é Deus dos mortos, e sim dos vivos, porque para ele todos vivem.” (Lc 20,38).

Tudo isso revigora a nossa certeza de que os nossos mortos, os nossos entes queridos por quem a gente derramou copiosas lágrimas de dor e saudade, todos eles estão na casa do Pai.