segunda-feira, 7 de junho de 2021

 






VENHAM A MIM TODOS VOCÊS QUE ESTÃO CANSADOS

 

“Então levantou-se uma grande tormenta de vento, e as ondas lançavam-se sobre a barca, de sorte que ela se enchia. Jesus estava dormindo na popa, sobre um travesseiro; então eles acordaram-no e disseram-lhe: Mestre, não te dá que pereçamos? Ele levantando-se, ameaçou o vento e disse para o mar: Cala-te, emudece. O vento amainou e seguiu-se uma grande bonança” (Mc 4,37-39).

Assim é a nossa vida.  Nossa vida às vezes é calma como a brisa que sopra fresca pela manhã; é tranquila como as pequenas ondas refrescantes de um lago sereno que mansamente se desfazem na praia. Quando a nossa vida está assim tudo é normal, nem nos lembramos do Senhor Jesus, não o invocamos, não conversamos com ele e, por isso, o Senhor Jesus dorme tranquilo no fundo do nosso barco, descansa no vai-e-vem de nossa vida, embalado pela nossa frieza e pelo nosso  pouco caso às coisas do alto.

Afinal das contas, se a nossa vida está tranquila como um mar sereno, porque haveríamos de precisar do Senhor Jesus? Mas, para nos lembrarmos dele, haveria necessidade de isso acontecer só quando temos problemas? É somente para isso que ele serve?

O Senhor Jesus é amigo somente quando enfrentamos horas difíceis? O verdadeiro amigo é também para as horas difíceis mas seria muita ingratidão de nossa parte esquecê-lo nos momentos alegres, nos dias de festa, como costumeiramente fazemos.          

Nem sempre a nossa vida é só festa. De vez em quando o vento dos grandes problemas sopra forte e o mar da nossa vida começa a ficar violento e as ondas da desconfiança, da incompreensão, da falta de amor, do desespero, ameaçam acabar com tudo.

E o Senhor Jesus continua dormindo no fundo do nosso barco. Problemas de doença, problemas no trabalho, problemas familiares, problemas financeiros, e o vento começa a soprar forte e as águas da vida começam a erguer ondas violentas e ameaçadoras, e a tempestade surge, e, de repente, está violenta.

E nós, pela nossa falta de fé ficamos desesperados, fazemos de tudo para acertar as coisas mas a tempestade continua violenta e o Senhor Jesus, para desespero nosso, dorme tranquilamente, como um santo, como uma criança, no fundo do nosso barco; parece ausente de nossa vida...

Chega uma hora que não suportamos mais, parece que vamos submergir, que o nosso barco não vai suportar tanta violência que os problemas nos trazem e, a partir dai, mais por desespero do que por confiança notamos a presença do Senhor Jesus ali, bem perto de nós, ainda que dormindo, descansando no fundo do nosso barco.

Ai corremos até ele, mais com medo do que com fé, mais por desespero do que por esperança e lhe suplicamos, como fizeram os seus discípulos: “Senhor, ajude-me, eu não suporto mais...”.

E ai nos lembramos do que ele nos disse, cheio de ternura e disponibilidade: “Venham a mim todos vocês que estão cansados sob o peso de vosso fardo e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas, pois o meu jugo é suave e o meu peso é leve.” (Mt11,28-30).

Quando nos conscientizamos disso, o Senhor Jesus acorda, se levanta, encara o vento forte de nossas dificuldades, olha para as gigantescas ondas do mar dos problemas do nosso dia-a-dia  e ordena: “Cala-te, emudece.” (Mt 4,39), e tudo volta à sua normalidade.

O problema nosso é que deixamos o Senhor Jesus dormir demais  em nossas vidas...

Não podemos deixá-lo dormir. Devemos estar sempre conversando com ele, pedindo, agradecendo, orando, cobrando, para que ele se mantenha sempre acordado e assim, com certeza, o vento das contradições e o mar dos nossos problemas jamais ameaçarão afundar o nosso barco; mas, mesmo que isso possa acontecer, não tenhamos dúvidas, o Senhor Jesus estará acordado e, antes que lhe peçamos, tomará para si o leme do barco, empunhará os remos e “Nos conduzirá para as águas tranqüilas e restaurará as nossas forças; ele nos guiará por caminhos justos, por causa de seu nome. Ainda que caminhemos por um vale tenebroso, nenhum mal temeremos, pois ele estará junto a nós...” (Salmo 23 (22), 2-4). “Iahweh é meu pastor, nada me falta. em verdes pastagens me faz repousar. Para as águas tranquilas me conduz e restaura minhas forças; ele me guia por caminhos justos, por causa de seu nome. Ainda que eu caminhe por um vale tenebroso, nenhum mal temerei, pois estás junto a mim; teu bastão e teu cajado me deixam tranquilo. diante de mim preparas uma mesa, à frente dos meus opressores; unges minha cabeça com óleo, e minha taça transborda. Sim, felicidade e amor me seguirão todos os dias de minha vida; minha morada é a casa de Iahweh por dias sem fim.” (Sl 23 (22), 1-6).


domingo, 6 de junho de 2021

 

“QUEM BLASFEMAR CONTRA O ESPÍRITO SANTO NUNCA SERÁ PERDOADO”. (Mc 3,29).

X DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano – B; Cor – Verde; Leituras: Gn 3,9-15; Sl 129 (130); 2Cor 4,15 – 5,1; Mc 3,20-35.

 

Diácono Milton Restivo

 

Com a festa de Pentecostes, a Liturgia concluiu o tempo Pascal. Assim, na segunda-feira depois do Pentecostes, retomamos o Tempo Comum, interrompido com a Quaresma seguido da Páscoa. Agora terminamos o ciclo da Páscoa e retomamos o Tempo Comum dentro da liturgia da Igreja, que se encerra, neste ano, no último domingo de novembro, dia 25, com a festa de Cristo, Rei do Universo, dando início ali, ao Ciclo do Advento. 

Voltamos a caminhar com Jesus na sua jornada de evangelização. Na liturgia a Igreja volta a vestir-se de verde, a cor da esperança, da companhia de Jesus na nossa caminhada.

O Tempo Comum é um período do Ano Litúrgico de trinta e três ou trinta e quatro semanas nas quais são celebrados, na sua globalidade, os mistérios de Cristo.

Comemora-se o próprio mistério de Cristo em sua plenitude, principalmente aos domingos.

O Tempo Comum convida-nos a descobrir, nas pequenas coisas do dia-a-dia, aparentemente comuns, a sua ligação com Jesus Cristo: a oração, o trabalho, as obras de misericórdia, a ação social. De segunda a sábado devemos estar atentos para percebermos os grandes dons de Deus em nossas vidas. Se agirmos assim, os domingos do Tempo Comum se tornarão momentos fortes em nossa vida de fé.

O Tempo Comum, portanto, é um período de vigilância e de esperança; daí a escolha da cor litúrgica: verde.

Nesse retorno ao Tempo Comum a liturgia remete-nos ao primeiro livro das Sagradas Escrituras, o Gênesis, e fala-nos sobre o primeiro deslize do homem e da mulher que, pela primeira vez, desobedeceram ao seu Criador, originando assim o distanciamento da criatura com o seu Criador. Quando o homem (e mulher) está em estado de amizade com Deus, em estado de graça, não se envergonha de permanecer na presença do Senhor, mas quando comete uma desobediência, um pecado, além de afastar-se de Deus, sente vergonha de estar na sua presença, porque se sente nu, nu das vestimentas da graça de Deus, nu das vestes da santidade:

·         “Ouvi a tua voz no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi.” (Gn 3,10).

Não foi isso que o primeiro homem disse ao seu Criador depois de te-lo desobedecido?

Quando nos escondemos de Deus, queremos ficar longe de sua visão, é porque temos consciência de que cometemos algum deslize, alguma desobediência, algum pecado, porque o pecado é exatamente dizer “não” ao plano de salvação de Deus, é dizer não ao próprio Senhor.

Mas, quando cometemos um pecado, uma desobediência, a culpa nunca é nossa; alguém foi o culpado, colocamos a culpa em alguém. Não foi o que aconteceu com o primeiro homem em relação à mulher?

·         “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu o fruto da árvore, e eu comi.” (Gn 3,12).

Também foi o que aconteceu com a mulher em relação à serpente, quando Deus lhe perguntou por que fizera aquilo, e a mulher respondeu:

·         “A serpente enganou-me, e eu comi.” (Gn 3,13).

Modificou alguma coisa desde a criação do mundo até os dias de hoje?  

Tudo aquilo que origina pecado ou incentiva desobediência ao Criador, merece castigo e é amaldiçoado pelo próprio Criador, e foi o que Deus fez com quem quis fazer o homem igual a Deus:

·         “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e todos os animais selvagens! Rastejarás sobre o ventre e comerás pó todos os dias da tua vida!” (Gn 3,14).

Não é isso que acontece com todos aqueles que se afastam de Deus por aderir ao pecado? Rasteja como cobra sobre o próprio ventre e come o pó da terra, isto é, coloca-se rente ao chão, no lugar mais distante do Criador, e isso Jesus explicita bem na parábola do Pai Misericordioso (filho pródigo), onde o filho que abandonara a casa do pai passa a viver na miséria e até a comer comida dos porcos que cuidava (cf Lc 15,11-31).

A primeira mulher, Eva, desnudou-se e desnudou a humanidade da graça de Deus, e fez com que a humanidade sentisse vergonha de sua nudez diante do Criador.

Maria, a mãe de Jesus revestiu a humanidade da roupa da graça e através do fruto do seu ventre, toda a humanidade revestiu-se novamente da graça de Deus.

Assim fala a respeito disso São Luiz Maria Grignion de Montfort no seu livro “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”:

·         “O que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria ganhou por humildade. O que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência. Eva, obedecendo a serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e os entregou ao poder infernal; Maria, por sua perfeita fidelidade a Deus, salvou consigo todos os seus filhos e servos e os consagrou a Deus.”

Assim como a árvore do Éden possuiu o fruto do pecado e da desobediência, Maria é a árvore que dá o fruto da vida, conforme diz o mesmo santo no mesmo livro:

·         “Jesus é em toda parte e sempre o fruto e o Filho de Maria; e Maria é em toda parte a verdadeira árvore que dá o fruto da vida, e a verdadeira mãe que o produz.”

E o Criador complementa, dizendo à serpente:

·         “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Ela te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gn 3,15).

Ainda diz São Luiz Grignion de Montfort no seu livro em relação a Maria:

·         “Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável , que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos  da Santíssima Virgem  e os filhos sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio.”

Será lido ou cantado, nesta liturgia o Salmo 129 (130).

Segundo o frei Carlos Mesters,

·         “este Salmo  tem duas partes. A primeira (versículos 1 a 4) traz uma prece em forma de grito que sai do fundo da alma do ser humano. Uma prece que revela uma nova experiência de Deus. Ele é graça e perdão. A segunda parte (versículos 5 a 8) traz o resultado dessa prece, a saber, uma nova atitude de vida, que nasce da experiência de Deus. Essa nova atitude, aqui no salmo, se traduz em esperança e paz, tanto em nível pessoal como em nível de povo.” Este Salmo é um grito de socorro de quem está em desespero por estar acometido de um grande mal, ou do corpo ou da alma: “Das profundezas eu clamo para ti, Yahweh: Senhor, ouve o meu grito. Que os teus ouvidos estejam atentos ao meu pedido por graça! Yahweh, se levas em conta as culpas, quem poderá resistir? Mas de ti vem o perdão, e assim infundes respeito”. (Sl 129 (130),1-4).

A passagem do Evangelho dissertada nesta liturgia traz muitas informações: Diz que

·         “Jesus voltou para casa” (Mc 3,20).

Essa casa para a qual Jesus retorna ficava na cidade de Cafarnaum, para onde ele se mudara ao iniciar a sua vida pública:

·         “Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galiléia...” (Mt 4,13; 9,1)

Deixando claro que Jesus ensinava na sinagoga na cidade de Cafarnaum (cf Mc 1,21ss).

Pedro e seu irmão André também moravam em Cafarnaum (Mc 1,29; Mt 8,14-15; Lc 4,38-39). Moraria Jesus com Pedro e André? Os evangelhos não deixam isso claro.

O assédio das pessoas que buscavam conforto, principalmente físico e material, era tanto que

·         “reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer.” (Mc 3,20).

Outra informação prestada neste Evangelho é que os parentes de Jesus, por suas atitudes e mudança quase que repentinas de vida, julgavam que ele estivesse fora de si e foram até Cafarnaum para, possivelmente, trazê-lo de volta a Nazaré (cf Mc 3,21.32).

Claro que isso é um assunto importante e requer uma meditação profunda e acurada.

Faremos isso numa próxima oportunidade.

E Jesus, sem sombra de dúvida, em sua casa, começou a atender as necessidades dos que o procuravam: confortou desesperados, curou doenças, expulsou demônios.

Por causa disso, principalmente por expulsar demônios, alguns mestres da Lei, também conhecidos e chamados de doutores da Lei ou escribas que eram todos aqueles que se diziam entendidos nas coisas da Lei de Moisés e que pretendiam ser os chefes espirituais do povo, saíram de Jerusalém para atestar e combater os ensinamentos de Jesus considerando que, por várias vezes Jesus os afrontou e os chamou “hipócritas”, conforme consta em Mateus 23,23-36, e onde Jesus diz, entre outras coisas:

·         “Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês fecham o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar aqueles que desejam. [...] Guias cegos! Vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas... [...] Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão. Assim também vocês: por fora parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e podridão. [...] Serpentes, raças de cobras venenosas! Como é que vocês poderiam escapar da condenação do inferno?” (Mt 23,13.24-25.27.33).

Quem são os fariseus e os doutores da Lei dos nossos dias? Claro que essa raça de gente queria surpreender a Jesus em qualquer que fosse o deslize que ele pudesse praticar contra a Lei de Moisés. E eles saíram de Jerusalém e foram até Cafarnaum para esse mistér, não se importando em caminhar por aproximadamente 120 milhas, ou 193 quilômetros, que era a distância entre Jerusalém e Cafarnaum para buscar êxito em sua empreitada.

Não somente isso: tiveram que se submeter a atravessar o território da Samaria, que ficava entre a Judéia e a Galiléia, considerando que os samaritanos eram inimigos dos judeus. Eles não podiam perder essa oportunidade. E então,

·         “os mestres da Lei, que tinham vindo de Jerusalém, dizendo que ele estava possuído por Belzebu e que pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios.” (Mc 3,22).

Não foi por acaso que Jesus os chamou à parte e falou-lhe em parábolas, considerando que Belzebu era, para os doutores da Lei, um vocábulo depreciativo e era tido como “o senhor do esterco”, ou seja, do sacrifício oferecido aos ídolos.

E Jesus lhes diz:

·         “Como é que satanás pode expulsar satanás? Se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se. Se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá manter-se. Assim, se satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído.” (Mc 3,23-26).

Os mestres da Lei não podiam permitir que a popularidade de Jesus tomasse vulto e, como não tinham argumentos para contrapor a isso, desesperadamente buscavam meios para denegrir sua imagem e seus maravilhosos poderes. Finalmente, decidiram alegar que ele expulsava demônios pelo poder do próprio satanás (Mt 12,22-32; Mc 3,22-30; Lc 11,14-23).

Jesus, porém, respondeu com três argumentos e uma advertência.

Primeiro argumento: satanás não atacaria a si mesmo, pois ninguém luta contra si mesmo.

Segundo argumento: satanás não poderia lutar contra o seu próprio reino, pois dividiria o seu reino e ele enfraqueceria e, terceiro argumento: para roubar a casa de um homem forte, tem-se primeiro que amarrá-lo. Expulsando demônios, Jesus estava amarrando satanás, de modo que poderia cumprir sua missão de resgatar àqueles que satanás mantinha cativos.

Por fim, Jesus faz uma séria advertência:

·         “Em verdade lhes digo: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados como qualquer blasfêmia que tiverem dito. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado; será culpado de um pecado eterno.” (Mc 3,28-29).

O que é blasfemar?  Blasfemar é insultar, afrontar, injuriar, difamar. Noutras palavras, blasfemar é uma ofensa extremamente grave.

A blasfêmia contra o Espírito Santo foi o mais terrível pecado do qual o incrédulo povo de Israel se fez culpado. Esse povo atribuiu a satanás o poder do Espírito Santo do qual Jesus estava revestido. Isto era extremamente grave e nem mesmo tinha sentido lógico.

Os adversários de Jesus, mestres da Lei, blasfemavam contra o próprio Jesus e contra o Espírito Santo, declarando consciente, proposital e seguidamente que Jesus operava milagres pelo poder de satanás, Belzebu, o chefe dos demônios (Mt 9,32-34; 12,22-24; Mc 3,22; Lc 11,14,15).

Com essa blasfêmia, eles estavam rejeitando, de modo deliberado, o Espírito Santo que operava em Jesus, o Messias (Mt 12,28; Lc 4,14-19; Jo 3,34; At 10,38).

Entenda-se a blasfêmia contra o Espírito Santo como a rejeição continuada e deliberada do testemunho que o Espírito Santo dá de Jesus Cristo, da sua Palavra e da sua obra de convencer o homem do pecado (cf. Jo 16,7-11).

Aquele que rejeita a voz do Espírito se opõe a ela, afasta de si mesmo o único recurso que pode levá-lo ao perdão – o Espírito Santo.

O pecado contra o Espírito Santo consiste na rejeição da graça de Deus; é a recusa da salvação. Implica numa rejeição completa à ação, ao convite e à advertência do Espírito Santo.

O Papa Pio X, 1903 a 1914, em seu Catecismo Maior, ensinou que são seis os pecados contra o Espírito Santo.

Primeiro: desesperar da salvação, ou seja, não acreditar que possa ser salvo, achando que tudo está perdido.

Segundo: Presunção da salvação, ou seja, a pessoa julgar que não importa que tipo de vida leve, boa ou má, já se considera salva. Devemos acreditar na misericórdia divina.

Terceiro: negar a verdade conhecida e transmitida por Jesus Cristo no seu Evangelho tendo a Igreja como depositária fiel.

Quarto: ter inveja da graça que Deus dá aos outros. A inveja é um sentimento que consiste em irritar-se porque o outro conseguiu algo de bom. É o ato de não querer o bem do semelhante.

Quinto: a obstinação no pecado é a vontade firme de permanecer no erro mesmo após a ação de convencimento do Espírito Santo. É não aceitar a ética cristã.

E, sexto: a impenitência final é o resultado de toda uma vida de rejeição a Deus: o indivíduo persiste no erro até o final, recusando arrepender-se e penitenciar-se, recusando a salvação até o fim. Consagra-se ao adversário de Cristo. Nem mesmo na hora da morte tenta aproximar-se do Pai, manifestando humildade e compaixão. Não se abre ao convite do Espírito Santo definitivamente.

Esse é a blasfêmia conta o Espírito Santo.

O pecado contra o Espírito Santo consiste na rejeição da graça de Deus; é a recusa da salvação. Implica numa rejeição completa à ação, ao convite e à advertência do Espírito Santo.

·         “Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro”. (Mt. 12,32).

·         Vocês então podem imaginar o castigo bem mais severo, que merecerá aquele que pisou o Filho de Deus, que profanou o sangue da aliança, pelo qual foi santificado, e que insultou o Espírito da graça.” (Hb 10,29).

sábado, 5 de junho de 2021

 

“TENHAM CONFIANÇA, SOU EU, NÃO TENHAM MEDO.”

 

Na nossa vida, às vezes, parece que estamos num mar de rosas; tudo é realização, tudo é maravilhoso, tudo dá certo, tudo vai bem como sempre desejaríamos que fosse, mas,  no nosso cancioneiro de música popular existe uma música com o verso seguinte: “Tristeza não tem fim, felicidade sim...” e, bem por isso, de repente, como num estalar de dedos, parece tudo ao contrário; nos sentimos mergulhados  numa depressão, numa tristeza, numa angustia que parece não ter fim; dá-nos a impressão que estamos caminhando sobre as águas e sentimos que, num relance, nos falta a força, coragem, confiança, apoio e... estamos sozinhos, dando-nos a sensação que vamos submergir, sem chances de nos afirmarmos ou ter alguém que nos socorra.

Quantas vezes nos falta confiança em tudo e em todos; dá-nos a impressão que ninguém, mas ninguém mesmo nos compreende e que todos nos viraram as costas, deixando-nos entregues à nossa própria sorte.  

E, nessas condições, nos desesperamos, deixamos de acreditar em tudo e em todos e, nessa descrença, chegamos ao cúmulo de perguntar: “Onde está Deus???”

Reportemo-nos às Sagradas Escrituras: “Imediatamente Jesus obrigou os seus discípulos a subir para a barca e a passarem antes dele à outra margem do lago, enquanto ele despedia as turbas. Despedidas as turbas, subiu só a um monte para orar. Quando chegou a noite, achava-se ali só. Entretanto, a barca achava-se a muitos estádios da terra e era batida pelas ondas, porque o vento era contrário.  Porém, na quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando sobre o mar.  E os discípulos, quando o viram andar sobre o mar, turbaram-se, dizendo: É um fantasma. E, com medo, começaram a gritar. Mas Jesus falou-lhes imediatamente, dizendo: “tenham confiança, sou eu, não tenham medo.”  Respondendo Pedro, disse: “Senhor, se és tu, manda-me até onde estás por sobre as águas.” Ele disse: “Vem.” Descendo Pedro da barca, caminhava sobre a água para ir a Jesus. Vendo, porém, que o vento era forte, temeu, e, começando a submergir-se, gritou, dizendo: “Senhor, salva-me.” Imediatamente Jesus estendendo a mão o tomou e lhe disse; “Homem de pouca fé, porque você duvidou?” Depois que subiram para a barca, o vento cessou. Os que estavam na barca aproximaram-se dele e o adoraram , dizendo: “Verdadeiramente tu és o Filho de Deus.” (Mt 14,22-33).

Quantas vezes o barco de nossa vida se encontra na escuridão da noite no meio do lago, sendo jogado de um lado para o outro por fortes ondas dos contratempos, das ansiedades e de tudo o mais que vem conturbar a nossa paz, o sossego que gostaríamos  de jamais ter perdido.

E, nessas confusões da vida, julgamos sempre que estamos sozinhos, que o nosso barco vai soçobrar, que as ondas fatalmente  o despedaçarão e o engolirão; e, numa situação dessa nos assustamos sobremaneira até com a presença amiga e salvadora de Jesus Cristo que vem ao nosso socorro e, no desespero de sairmos dessa tempestade confundimos o Senhor Jesus com os fantasmas que nós mesmos criamos.

Mas, buscando nas Sagradas Escrituras encontramos respostas a todos os nossos anseios, encontramos apoio a todas as nossas dificuldades, encontramos respostas a todas as nossas indagações e vemos que, ainda que todos nos abandonem nos momentos mais difíceis de nossa vida, o Senhor Jesus nos estende a mão e nos tira das situações mais críticas, mais incômodas, mais embaraçosas, mais constrangedoras, mais tristes. Nos momentos mais angustiantes e mais difíceis de nossa vida encontramos sempre o Senhor Jesus nos estendendo a mão.

Foi assim que, nessa situação dramática, quando Pedro sentia que estava começando submergir, gritou: “Senhor, salva-me.  Imediatamente Jesus estendeu a mão , o tomou...” (Mt 14,30-31).

E quando a sogra de Simão Pedro se encontrava acamada com uma forte febre, “Jesus aproximou-se, tomou-a pela mão e levantou-a; imediatamente a deixou a febre e ela pôs-se a servi-los.” (Mc 1,31). E quantos mais lugares dos Santos Evangelhos vemos Jesus estender a mão para salvar, para curar, para amenizar sofrimentos, para consolar.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

 

POR QUE (E COMO) DEVEMOS FAZER O SINAL DA CRUZ ANTES DO EVANGELHO NA MISSA?

 

Muito mais que um mero gesto, uma verdadeira oração!

Para os católicos romanos, há um gesto rápido que geralmente passa despercebido antes da leitura do Evangelho na Missa. É um “desenho” rápido da cruz, que contém muito simbolismo.

O gesto é uma imitação do que o diácono (ou sacerdote) faz antes de recitar as palavras do santo Evangelho. O Missal Romano estipula: “[depois de] ter anunciado o título do livro evangélico que será lido, o sacerdote ou o diácono traça, com o polegar direito o sinal da cruz sobre o livro e três [cruzes] sobre si (sobre a fronte, a boca e o peito).”

Se um diácono vai proclamar o Evangelho, o sacerdote lhe dará uma bênção, em que deve recitar a seguinte oração:

“O Senhor esteja em teu coração e em teus lábios

para que tu anuncies dignamente o Seu Evangelho.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”

De maneira semelhante, quando o sacerdote é quem proclama o Evangelho, ele reza estas palavras silenciosamente:

“Limpai o meu coração e meus lábios, Deus onipotente,

para que eu possa proclamar dignamente o santo Evangelho.”

Os leigos que assistem à Missa são convidados a fazer uma oração e um gesto similar antes da leitura do Evangelho. Se quiserem, podem rezar, interiormente, esta breve oração:

“A Palavra do Senhor esteja na minha mente, nos meus lábios e no meu coração”.

É um gesto belíssimo e com profundas raízes bíblicas. Por exemplo: Deus disse ao povo de Israel que recitasse uma frase particular (“Ouve, ó Israel…”) diariamente. Mas também que colocasse algo “como uma marca à sua frente” (Deuteronômio, 6,8). Muitos judeus os assumiram literalmente, e colocavam um pequeno pergaminho na frente deles. Era uma lembrança visível para manter sempre em mente a Palavra de Deus.

Em segundo lugar, a oração recorda a passagem em que o profeta Isaías recebe uma visão, na qual o anjo purifica os lábios dele com carvão queimando. Esta conexão se mantém na Forma Extraordinária da Missa, em que o sacerdote recita a referida oração antes do Evangelho.

Por último, a oração faz referência às palavras da Carta aos Hebreus, onde o autor escreve:  “a palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4,12).

Portanto, quando fazemos esse gesto na Missa, fazemos verdadeiramente uma oração profunda, que nos abre às palavras de Jesus Cristo. Sempre que ouvimos o Evangelho, Jesus bate às portas do nosso coração, esperando para entrar. Temos só que abrir as portas para Ele.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

 

CORPUS CHRISTI - FESTA DO CORPO E SANGUE DE CRISTO

Leituras: Ex 24,3-8; Sl 115; Hb 9,11-15; Mc 14, 12-16.22-26.

 

Diácono Milton Restivo

 

Neste ano de 2021 a Igreja celebra, além da festa de Corpus Christi no dia 03 de junho, celebra, também, as festas do Sagrado Coração de Jesus no dia 11 e do Doce Coração de Maria no dia 12 de junho, dois grandes momentos de afirmativa do grande amor que o Pai tem por nós.

A festa de Corpus Christi é comemorada na quinta-feira seguinte à festa da Santíssima Trindade, que foi celebrada no último domingo.

Para testemunhar e confirmar a morte de Jesus na cruz,

·         “um soldado, lhe atravessou o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água.” (Jo 19,34).

O artigo 112 do Catecismo da Igreja Católica diz:

·         “Prestar muita atenção "ao conteúdo e à unidade da Escritura inteira". Pois, por mais diferentes que sejam os livros que a compõem, a Escritura é una em razão da unidade do projeto de Deus, do qual Cristo Jesus é o centro e o coração, aberto depois de sua Páscoa. O coração de Cristo designa a Sagrada Escritura, que dá a conhecer o coração de Cristo. O coração estava fechado antes da Paixão, pois a Escritura era obscura. Mas a Escritura foi aberta após a Paixão, pois os que a partir daí têm a compreensão dela consideram e discernem de que maneira as profecias devem ser interpretadas.”

Quando da apresentação de Jesus menino no Templo, o velho Simeão dirigiu-se à Maria, dizendo:

·         “Eis que este menino vai ser causa de queda e elevação de muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Quanto a você, uma espada há de atravessar-lhe o coração.” (Lc 2,34-35).

E Lucas, para demonstrar a profundidade de amor do coração de Maria, atesta:

·         “E sua mãe conservava no coração todas essas coisas.” (Lc 2,51).

São citações bíblicas que narram e profetizam momentos dolorosos que têm o coração como ponto central e de referência: no primeiro, o Coração de Jesus ferido pela lança como que fazendo uma abertura para nos acolher a todos no amor que ele nos dedica; no segundo, o alerta que o profeta e velho Simeão faz à Maria por tudo o que ela deveria passar pelo seu filho Jesus e pelos demais filhos que somos nós, que o levamos ao patíbulo da cruz.

Liturgicamente a festa de Corpus Christi acontece na quinta-feira posterior à festa da Santíssima Trindade. Porque quinta feira?  Como alusão à Quinta-feira Santa, quando se deu a instituição da Eucaristia durante a última ceia de Jesus com seus apóstolos.

Os Evangelistas Mateus 16,26-28, Marcos 14,22-24 e Lucas 22,19-20 narram a instituição da Eucaristia em poucas palavras:

·         “Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a benção, o partiu, distribuiu aos seus discípulos, e disse: ‘Tomam e comem, isto é meu corpo’. Em seguida tomou um cálice, agradeceu, e deu a eles, dizendo: ‘Bebam dele todos, pois isto é o meu sangue, o sangue da aliança que é derramado em favor de muitos, para a remissão dos pecados.” (Mt 16,26-28).

No Evangelho de João não encontramos a passagem da instituição da Eucaristia, mas é no seu capítulo 6, versículos de 30 a 59 que Jesus fala do

·         “verdadeiro pão que veio do céu. Porque o pão de Deus é o que desce do céu e dá vida ao mundo”. (Jô 6,32-33)

Nessa conversa de Jesus com a multidão, no evangelho de João, ele deixa claro a instituição da Eucaristia, e diz:

·         “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim nunca mais terá fome, e quem acredita em mim, nunca mais terá sede. [...] Eu sou o pão da vida. [...] Este é o pão que desceu do céu, para que não venha a morrer quem dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer desse pão viverá para sempre. E o pão que eu vou dar é a minha carne, para que o mundo tenha a vida. [...] Eu lhes garanto: se vocês não comem a carne do Filho do Homem e não bebem o seu sangue, não têm a vida em vocês. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu permaneço nele.  E como o Pai, que vive, me enviou, eu vivo pelo Pai, assim aquele que se alimentar de mim viverá por causa de mim. Esse é o pão que desceu do céu.. não é como o pão que os antepassados comeram e depois morreram,. Quem come este pão viverá para sempre.”  (Jo 6,35.48.50-51.53-58).

João, na despedida de Jesus na última Ceia, depois do lava-pés é mais pródigo em discursos e recomendações por parte de Jesus aos seus apóstolos e termina com a oração sacerdotal.

Mas foi Paulo quem primeiro escreveu sobre a instituição da Eucaristia considerando que os seus escritos são bem anteriores aos Evangelhos e, na sua primeira carta aos corintios, nos narra esse acontecimento da seguinte maneira:

·         “De fato, eu recebi pessoalmente do Senhor aquilo que transmiti para vocês. Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, o partiu e disse: ‘Isto é o meu corpo que é para vocês; façam isso em memória de mim’. Do mesmo modo, após a ceia, tomou também o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que vocês beberem dele, façam isso em memória de mim’. Portanto, todas as vezes que vocês comem deste pão e bebem deste cálice, está anunciando a morte do Senhor, até que ele venha.” (1Cor 11,23-26).

O artigo 1357 do Catecismo da Igreja Católica diz que

·         “Cumprimos esta ordem do Senhor celebrando o memorial de seu sacrifício. Ao fazermos isto, oferecemos ao Pai o que ele mesmo nos deu: os dons de sua criação, o pão e o vinho, que pelo poder do Espírito Santo e pelas palavras de Cristo se tornaram o Corpo e o Sangue de Cristo, o qual, assim, se torna real e misteriosamente presente”.

O artigo 1374 diz que

·         O modo de presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz com que seja “como que o coroamento da vida espiritual e o fim ao qual tendem todos os sacramentos”. No santíssimo sacramento da Eucaristia estão “contidos verdadeiramente, realmente e substancialmente o Corpo e o Sangue juntamente com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo todo”. “Esta presença chama-se ‘real’ não por exclusão, como se as outras não fossem ‘reais’, mas por antonomásia, porque é substancial e porque por ela Cristo, Deus e homem, se toma presente completo.”

A Eucaristia, o Corpo e Sangue de Cristo, é o Sacramento por excelência e, conforme diz o Catecismo da Igreja Católica:

“A Eucaristia está acima de todos os sacramentos e faz com que seja “como que o coroamento da vida espiritual e o fim ao qual tendem todos os sacramentos”.

Isso confirma o dito no artigo 407 do mesmo Catecismo:

·         A Eucaristia é o coração e o ápice da vida da Igreja, pois nela Cristo associa sua Igreja e todos os seus membros a seu sacrifício de louvor e de ação de graças oferecido uma vez por todas na cruz a seu Pai; por seu sacrifício ele derrama as graças da salvação sobre o seu corpo, que é a Igreja.”

A festa de Corpus Christi é a comemoração, por excelência, e a festa da entrega total de Jesus no sacramento da Eucaristia como nosso alimento e fortalecimento na vida espiritual.

Desde o inicio da Igreja a Eucaristia é o ponto de união dos fieis, mas, já no tempo de Paulo, havia abusos e irresponsabilidades da recepção da Eucaristia, e Paulo não se cala:

·         “Antes de tudo, ouço dizer que, quando estão reunidos em assembléia há divisões entre vocês. [...] De fato, quando se reúnem, o que vocês fazem não é comer a Ceia do Senhor, porque cada um se apressa em comer a sua própria ceia. E, enquanto um passa fome, outro fica embriagado.” (1Cor 11,18.20-21).

E Paulo continua chamando os cristãos à responsabilidade:

·         “Por isso, todo aquele que comer do pão ou beber do cálice indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Portanto, cada um examine a si mesmo antes de comer deste pão e beber deste cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação.” (1Cor 26,27-29).

Jesus de Nazaré não está longe de nós. Antes de subir aos céus, após haver sido morto e ter ressuscitado, por ocasião de sua ascensão, disse aos apóstolos, discípulos, e a todos nós:

·         “Eu vou estar com vocês todos os dias, até o fim do mundo.” (Mt 28,20).

Jesus não poderia ter afirmado uma coisa que não seria verdade, porque ele é a verdade por excelência:

·         “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” (Jo 14,6).

Como acontece de Jesus estar conosco, todos os dias? Isso acontece de muitas maneiras, mas, de uma maneira especial, no Sacramento da Eucaristia.

Jesus permanece conosco através da sua Palavra: Pedro escreve em sua carta, confirmando isso:

·         “A palavra de Deus permanece eternamente, e esta palavra é a que foi anunciada para vocês pelo Evangelho.” (1Pd 1,25).

Jesus permanece conosco na sua Igreja, o seu Corpo Místico, como disse Paulo (1Cor 12,12-31):

“Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um, como parte desse corpo, é membro.” (1Cor 12,27).

E como ensina o Concílio Vaticano II através da Encíclica Lumem Gentium, 1:

·         “A Igreja é o Sacramento ou o sinal ou instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano.”

Jesus permanece conosco pela presença e atuação do Espírito Santo, conforme escreve Paulo:

·         “Deus manda aos seus corações o Espírito de seu Filho que clama “Abba”, que quer dizer “Pai””. (Gl 4, 6).

Jesus continua conosco através da tradição da Igreja.

Jesus está conosco através dos Sacramentos que nos conferem a graça, conforme disse o Papa Paulo VI na Encíclica “Mistérium Fidei, 38:

·         “E ninguém ignora serem os sacramentos ações de Cristo que os administra por meio dos homens. Por isso, são santos por si mesmos e, quando tocam nos corpos, infundem, por virtude de Cristo, a graça nas almas.”

E, sobretudo, Jesus permanece conosco no Sacramento da Eucaristia, que é o seu corpo, o seu sangue e o seu sacrifício presentes em todos nós.

Na cidade de Cafarnaum, depois da multiplicação dos pães, Jesus disse:

·         “O pão que hei de dar é minha carne para a salvação do mundo”. (Jo 6,51).

E mais:

·         “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.” (Jo 6,56).

A nossa Igreja sempre ensinou, acredita e vive que, assim quando se celebra a santa ceia a mandado de Jesus, presidida por um sacerdote, ali está presente o corpo e o sangue de Jesus, e ali se renova o seu sacrifício. E, na santa missa, o celebrante repete as palavras de Jesus, quando disse ao tomar o pão: “este é o meu corpo”, e ao tomar o cálice: “este é o meu sangue”, e complementa, dizendo: “eis o mistério da fé”, e todos respondemos: “celebramos, Senhor, a vossa morte e anunciamos a vossa ressurreição, enquanto esperamos a vossa vinda.”(cf 1Cor 11,23-30).

A Eucaristia é, antes de tudo, uma refeição comunitária. Sempre e em toda parte, a refeição foi e é um símbolo de união entre as pessoas que se conhecem, se estimam e se amam.

Eucaristia é, em primeiro plano, a refeição de irmãos que se amam, e mais do que isso, de irmãos que conhecem o Pai e são agradecidos por todos os benefícios que tem recebido e ainda receberão durante toda a sua vida do Pai. 

Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual Jesus, na última ceia, tenha mandado Judas embora e não tenha permitido que ele participasse da instituição da Eucaristia, pois aquilo que estava acontecendo era uma reunião de irmãos que se amavam e amavam o Pai presente na pessoa de Jesus e no coração de todos eles reinava o amor, menos no coração de Judas, onde já habitava o demônio.

Paulo preocupado com a indiferença e o pouco caso com que alguns primeiros cristãos estavam tendo na recepção da Eucaristia, chama a atenção deles, e chama a nossa atenção ainda hoje, escrevendo:

·         “Aquele que come e bebe indignamente o corpo e o sangue do Senhor, come e bebe a sua própria condenação.” (1Cor 11,29).

Jesus é o pão da vida, em primeiro lugar por causa de sua palavra que abre as portas da vida eterna a todos aqueles que crêem, e depois por sua carne e seu sangue que nos é dado a comer e a beber (cf Jo 6,26-58).

Se não nos alimentarmos primeiro com a palavra de Deus, jamais entenderemos o que seja a Eucaristia, e pouco proveito tiraremos dela, porque a Eucaristia, antes de tudo, deve ser o coroamento de uma vida autenticamente cristã, de uma vida inteiramente voltada para as coisas de Deus e dos irmãos.

Quando recebemos a Eucaristia estamos dando o nosso testemunho de autêntica vida cristã, de uma vida nos moldes do Evangelho, e de uma vida verdadeiramente voltada ao amor de Deus e ao próximo.

Se a Eucaristia é a refeição de irmãos que se amam, não podemos conceber em receber a Eucaristia estando em desarmonia com o irmão:

“Se você estiver diante do altar para oferecer o seu sacrifício e se lembrar que tem alguma desavença contra algum seu irmão, deixe ali a sua oferta e vai primeiro se reconciliar com o seu irmão, e depois volte e faça a sua oferta.” (Mt 5,23-24).

E quais são, então, as disposições para se aproximar da Eucaristia, para comungar?

1)     Apresentar-se dignamente vestido; é uma irreverência imperdoável ir comungar com vestes decotadas, indecentes ou indecorosas.

2)     Jejum eucarístico - respeito à Eucaristia - Alimentos sólidos uma hora antes da comunhão. As pessoas doentes e mulheres grávidas são isentas do jejum eucarístico, e podem tomar água ou remédios até momentos antes de receber a Eucaristia.

3)        Receber a partícula na mão com respeito e cuidado. 

quarta-feira, 2 de junho de 2021

 

“OLHAI  AS   AVES  DO  CÉU...”

 

            Não pode existir coisa mais bela, mais calma, mais tranquila e reconfortante do que um passeio pelos campos, pelos vales, pelas margens de rios e represas onde tudo nos fala de Deus e faz com que sintamos a sua presença.            

Ouvir o canto dos pássaros, o ruído dos grilos, o coaxar dos sapos e rãs nas lagoas,  o ciciar das folhas ao mais leve toque do vento; ver o esvoaçar dos insetos e o vôo tranqüilo dos pássaros e contemplar a variedade das flores, árvores  e plantas.

Não pode existir coisa mais reconfortante do que contemplar as águas do riacho correrem límpidas e frias entre pedras e juncos à busca do seu verdadeiro destino. Passaríamos horas e horas observando pássaros de todos os tipos, tamanhos  e cores da mais deslumbrante beleza esvoaçando de árvore em árvore, de galho em galho, buscando seus alimentos, cuidando de seus filhotes.

As formigas, ordeiras e disciplinadas, indo e voltando em fila indiana por entre matos, gravetos secos e gramas, num trabalho interminável, sem cansaço e sem descanso. E nenhuma dessas criaturas silvestres se preocupa com o que vai comer ou com o que vai se vestir; não se preocupa com o daqui-à-pouco,  e com o dia de amanhã. “Olhai as aves do céu, que não semeiam , nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e contudo vosso Pai Celeste as sustenta.” (Mt 6,26).       

Nenhum desses animais, aves ou insetos, se preocupa com o seu alimento ou seu vestuário.            Onde quer que eles andem, voem ou estejam, encontram o seu alimento e as suas vestimentas, diga-se, as mais belas que lhes são dadas pelo Senhor Deus Criador de todas as coisas.

Os animais, as aves, os insetos, não se preocupam com nada e nada lhes falta; têm o espaço para voarem, o chão para caminharem, as árvores para pousarem, as flores, frutos e folhas para se alimentarem, os galhos e folhas para se agasalharem, a água pura e limpa do riacho para lhes saciar a sede, enfim, o mundo é deles, o infinito lhes pertence.

E eles não se preocupam com o que vão se vestir ou comer  e nem fazem previsões ou ajuntam alimentos para o dia de amanhã, no entanto, o Pai Celeste jamais se esquece de um pássaro sequer, ou de uma formiga, ou de um pequenino inseto. “Portanto digo para vocês: não se preocupem, nem com a vida de vocês, acerca do que haverão de comer, nem com o corpo, acerca do que haverão de vestir.  Porventura não vale mais a vida do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido?” [...] “Porque vocês se inqueitam com o vestido? Considerem como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Digo a vocês, todavia, que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Se pois Deus veste assim uma erva do campo que hoje existe, e amanhã é lançada  no forno, quanto mais a vocês, homens de pouca fé.  Não se afligem pois, dizendo: “Que comeremos? que beberemos? Com que nos vestiremos?” Os gentios é que procuram todas essas coisas. O Pai de vocês  sabe se têm necessidade  de todas elas.” (Mt 6,25.28-32).

É o próprio Senhor Jesus quem nos chama a atenção para essas comparações da natureza e a despreocupação que devemos ter como as aves do céu sobre o que havemos de comer ou nos vestir, porque, para o Pai Celeste nós valemos muito mais do que qualquer animal ou ave ou inseto e, se o Pai os sustenta, será que nos abandonaria à nossa própria sorte? Se o Pai Celeste faz tudo isso para o menor dos menores e para o humilde dos mais humildes insetos, que não fará por nós que fomos criados por ele à sua própria imagem e semelhança?

E o Senhor Jesus continua a nos chamar a atenção sobre o grande amor que Deus Pai tem por todos e por cada um de nós em particular e nos dá a chave de como podemos abrir e sensibilizar o coração de Deus Pai e conseguirmos dele tudo o que necessitamos para uma vida feliz, nos dizendo: “Busquem, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo.” (Mt 6,33).

Se entendêssemos verdadeiramente isso todos seríamos mais felizes; os homens seriam mais felizes que as aves do céu e se vestiriam mais majestosamente que os lírios do campo que “...nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles.” (Mt 6,29). 


terça-feira, 1 de junho de 2021

 

MARIA DE MINHA INFÂNCIA

 

“Eu era pequeno, nem me lembro, só lembro que a noite, aos pés da cama, juntava as mäozinhas e rezava apressado, mas rezava como alguém que ama...”

Essa música, do Padre Zézinho, Maria da minha infância, retrata bem como foi o nosso relacionamento com Maria, na nossa infância e adolescência, e como está sendo o nosso relacionamento com Maria ainda hoje.

Com fé, amor e devoção, quando éramos crianças, juntávamos nossas mãos em oração e rezávamos, inocentemente a aprece da Ave Maria, repetindo palavras que nem sabíamos direito os seus significados, mas, com que confiança rezamos.

Que segurança sentíamos quando nos dirigíamos a Maria, repetindo as palavras de nossa  mãe ou avó, aquela oração  que fazia e faz de Maria a mais cheia de graça, a mais pura entre as mulheres. Mas isso, quando éramos pequenos. Quando éramos crianças.

Que confiança as crianças tem na maezinha do céu. E o Senhor Jesus também foi criança nos braços de Maria – Jesus se entrega confiantemente nos braços virginais de sua mãe, Maria, e sem dúvida, sentia ali confiança, apoio, segurança, carinho, e que grande amor.     

E quando Jesus era criança nos braços de Maria, ele se sentia no céu e, talvez, tenha sido por isso mesmo que, anos mais tarde, ele tenha dito aos seus apóstolos e discípulos, e nos diz ainda hoje – SE VOCÊS NÄO SE TORNAREM CRIANÇAS, VOCÊS NÃO ENTRARÃO NO REINO DOS CÉUS -. Isso, sem dúvida, ele aprendeu nos braços de Maria, isso ele experimentou nos braços maternais e virginais de Maria – se nos entregamos nos braços de Maria, como fez Jesus Menino, nós também nos sentiremos nos céus.         Como confiamos em nossa mãe quando somos crianças, quando somos pequenos.

Nos entregamos totalmente aos seus cuidados, e jamais duvidamos de qualquer palavra que ela diz – quando somos crianças, a palavra de nossa mãe é lei.           Confiamos em tudo o que ela diz e faz, e isso sem sombra de qualquer dúvida.

E foi nossa mãe quem nos ensinou amar Maria, foi nossa mãe quem nos ensinou confiar em Maria, foi nossa mãe que nos ensinou a oração da Ave Maria.      

Quando éramos crianças, dificilmente dormíamos sem antes recitarmos pelo menos uma Ave Maria, muitas vezes, como diz a música do Padre Zézinho, apressados, correndo, engolindo palavras, mas rezávamos.

Depois, fomos crescendo, fomos deixando de sermos crianças, e fomos achando que era cafona rezar, que rezar era coisa para beatos e beatas, e que as coisas do céu já eram, que as coisas do céu eram somente para crianças inocentes que não sabiam nada da vida, e a gente foi esquecendo aquela amizade pura, simples e santa, que sempre tivemos, quando crianças, com a Mãe de Deus.

Mas, quando um filho parte, a mãe fica sempre com o coração na mão e sempre na expectativa do seu regresso.

E, quando ele volta, a mãe, como o pai do filho pródigo, o recebe nos braços com festas e carinho. Assim é Maria para todos nós.

Quando éramos crianças nós a amamos muito, nós confiamos muito nela, mas, depois, fomos crescendo, fomos deixando de ser crianças, fomos deixando de confiar, enveredamos por outros caminhos e julgamos que, sendo grandes, já não precisaríamos mais dos cuidados da mãe, da mãe da terra e nem da Mãe do céu. 

E como nos enganamos.  Como nos iludimos. Quantos encontrões damos na vida por faltar ao nosso lado a presença amiga de nossa mãe, o apoio de nossa mãe, principalmente da nossa Mãe do Céu. É por isso que Jesus nos diz – SE VOCÊS NÃO SE TORNAREM CRIANÇAS, VOCÊS NÃO  ENTRARÃO NO REINO DOS CÉUS -.

É por isso que precisamos continuar sendo sempre crianças, porque, qualquer que seja a idade que tivermos, se continuarmos com a confiança e a inocência de uma criança, sempre teremos um espaço nos braços maternais de Maria, e ela jamais desampara quem se entrega de corpo e alma aos seus cuidados maternais. Jesus Cristo passou por essa experiência, e por isso que ele nos diz e repete – SE VOCÊ NÄO SE TORNAR COMO UMA CRIANÇA, VOCÊ NÃO ENTRARÁ  NO REINO DOS CÉUS -.

não permanecermos sempre crianças, sempre conversando com a nossa Mãe do céu, sempre confiando totalmente na sua guarda, jamais partilharemos do reino que Jesus veio  trazer para todos os homens de boa vontade, por meio de Maria.

Se já deixamos de ser crianças, é o momento de voltarmos a ser crianças e nos jogarmos nos braços maternais  de Maria, e confiar a ela todos os nossos problemas, nossas preocupações, nossas alegrias e tristezas, e ela, mais do que ninguém neste mundo, nos entenderia como mãe amorosa que é, jamais nos desamparará, e nos pegará no colo e nos levará na presença do Nosso Pai, por meio de Jesus Cristo.