segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

 

SANTA LUZIA OU LÚCIA – Século IV

 

Somente em 1894 o martírio da jovem Luzia, também chamada Lúcia, foi devidamente confirmado, quando se descobriu uma inscrição escrita em grego antigo sobre o seu sepulcro, em Siracusa, Nápoles.

A inscrição trazia o nome da mártir e confirmava a tradição oral cristã sobre sua morte no início do século IV. Mas a devoção à santa, cujo próprio nome está ligado à visão ("Luzia" deriva de "luz"), já era exaltada desde o século V.

Além disso, o papa Gregório Magno, passado mais um século, a incluiu com todo respeito para ser citada no cânone da missa. Os milagres atribuídos à sua intercessão a transformaram numa das santas auxiliadoras da população, que a invocam, principalmente, nas orações para obter cura nas doenças dos olhos ou da cegueira.

Diz a antiga tradição oral que essa proteção, pedida a santa Luzia, se deve ao fato de que ela teria arrancado os próprios olhos, entregando-os ao carrasco, preferindo isso a renegar a fé em Cristo. A arte perpetuou seu ato extremo de fidelidade cristã através da pintura e da literatura.

Foi enaltecida pelo magnífico escritor Dante Alighieri, na obra "A Divina Comédia", que atribuiu a santa Luzia a função da graça iluminadora. Assim, essa tradição se espalhou através dos séculos, ganhando o mundo inteiro, permanecendo até hoje.

Luzia pertencia a uma rica família napolitana de Siracusa. Sua mãe, Eutíquia, ao ficar viúva, prometeu dar a filha como esposa a um jovem da Corte local. Mas a moça havia feito voto de virgindade eterna e pediu que o matrimônio fosse adiado. Isso aconteceu porque uma terrível doença acometeu sua mãe. Luzia, então, conseguiu convencer Eutíquia a seguí-la em peregrinação até o túmulo de santa Águeda ou Ágata. A mulher voltou curada da viagem e permitiu que a filha mantivesse sua castidade.

Além disso, também consentiu que dividisse seu dote milionário com os pobres, como era seu desejo. Entretanto quem não se conformou foi o ex-noivo. Cancelado o casamento, foi denunciar Luzia como cristã ao governador romano. Era o período da perseguição religiosa imposta pelo cruel imperador Diocleciano; assim, a jovem foi levada a julgamento.

Como dava extrema importância à virgindade, o governante mandou que a carregassem à força a um prostíbulo, para servir à prostituição. Conta a tradição que, embora Luzia não movesse um dedo, nem dez homens juntos conseguiram levantá-la do chão. Foi, então, condenada a morrer ali mesmo.

Os carrascos jogaram sobre seu corpo resina e azeite ferventes, mas ela continuava viva. Somente um golpe de espada em sua garganta conseguiu tirar-lhe a vida. Era o ano 304. Para proteger as relíquias de santa Luzia dos invasores árabes muçulmanos, em 1039, um general bizantino as enviou para Constantinopla, atual território da Turquia. Elas voltaram ao Ocidente por obra de um rico veneziano, seu devoto, que pagou aos soldados da cruzada de 1204 para trazerem sua urna funerária.

Santa Luzia é celebrada no dia 13 de dezembro e seu corpo está guardado na Catedral de Veneza, embora algumas pequenas relíquias tenham seguido para a igreja de Siracusa, que a venera no mês de maio também.

São comemorados, também, neste dia: Santa Otília, São Marimoni, Santo Alberto de Cambrai-Arras (bispo), Santo Antíoco de Suclcis (mártir), Santo Arsênio de Monte Latro (monge), São Columba de Terryglass (abade).

domingo, 12 de dezembro de 2021

 

NOSSA SENHORA DE GUADALUPE – PADROEIRA DA AMÉRICA LATINA

 

Como toda aparição de Nossa Senhora, a que é venerada hoje é emocionante também. Talvez esta seja uma das mais comoventes, pelo milagre operado no episódio e pela dúvida lançada por um bispo sobre sua aparição a um simples índio mexicano.

Tudo se passou em 1531, no México, quando os missionários espanhóis já haviam aprendido a língua dos indígenas. A fé se espalhava lentamente por essas terras mexicanas, cujos rituais astecas eram muito enraizados. O índio João Diogo havia se convertido e era devoto fervoroso da Virgem Maria.

Assim, foi o escolhido para ser o portador de sua mensagem às nações indígenas. Nossa Senhora apareceu a ele várias vezes. A primeira vez, quando o índio passava pela colina de Tepyac, próxima da Cidade do México, atual capital, a caminho da igreja. Maria lhe pediu que levasse uma mensagem ao bispo. Ela queria que naquele local fosse erguida uma capela em sua honra. Emocionado, o índio procurou o bispo, João de Zumárraga, e contou-lhe o ocorrido.

Mas o sacerdote não deu muito crédito à sua narração, não dando resposta se iria, ou não, iniciar a construção. Passados uns dias, Maria apareceu novamente a João Diogo, que desta vez procurou o bispo com lágrimas nos olhos, renovando o pedido. Nem as lágrimas comoveram o bispo, que exigiu do piedoso homem uma prova de que a ordem partia mesmo de Nossa Senhora. Deu-se, então, o milagre.

João Diogo caminhava em direção à capital por um caminho distante da colina onde, anteriormente, as duas visões aconteceram. O índio, aflito, ia à procura de um sacerdote que desse a unção dos enfermos a um tio seu, que agonizava.

De repente, Maria apareceu à sua frente, numa visão belíssima. Tranquilizou-o quanto à saúde do tio, pois avisou que naquele mesmo instante ele já estava curado. Quanto ao bispo, pediu a João Diogo que colhesse rosas no alto da colina e as entregasse ao religioso.

João ficou surpreso com o pedido, porque a região era inóspita e a terra estéril, além de o país atravessar um rigoroso inverno. Mas obedeceu e, novamente surpreso, encontrou muitas rosas, recém-desabrochadas. João colocou-as no seu manto e, como a Senhora ordenara, foi entregá-las ao bispo como prova de sua presença. E assim fez o fiel índio.

Ao abrir o manto cheio de rosas, o bispo viu formar-se, impressa, uma linda imagem da Virgem, tal qual o índio a descrevera antes, mestiça. Espantado, o bispo seguiu João até a casa do tio moribundo e este já estava de pé, forte e saudável.

Contou que Nossa Senhora "morena" lhe aparecera também, o teria curado e renovado o pedido. Queria um santuário na colina de Tepyac, onde sua imagem seria chamada de Santa Maria de Guadalupe. Mas não explicou o porquê do nome. A fama do milagre se espalhou. Enquanto o templo era construído, o manto com a imagem impressa ficou guardado na capela do paço episcopal. Várias construções se sucederam na colina, ampliando templo após templo, pois as romarias e peregrinações só aumentaram com o passar dos anos e dos séculos.

O local se tornou um enorme santuário, que abriga a imagem de Nossa Senhora na famosa colina, e ainda se discute o significado da palavra Guadalupe.

Nele, está guardado o manto de são João Diego, em perfeito estado, apesar de passados tantos séculos. Nossa Senhora de Guadalupe é a única a ser representada como mestiça, com o tom de pele semelhante ao das populações indígenas.

Por isso o povo a chama, carinhosamente, de "La Morenita", quando a celebra no dia 12 de dezembro, data da última aparição. Foi declarada padroeira das Américas, em 1945, pelo papa Pio XII. Em 1979, como extremado devoto mariano, o papa João Paulo II visitou o santuário e consagrou, solenemente, toda a América Latina a Nossa Senhora de Guadalupe.

sábado, 11 de dezembro de 2021

 

“UMA VIRGEM CONCEBERÁ...” (Is 7,14)

 

Antes de sua vida pública, conforme nos narram os Evangelistas, o Senhor Jesus se manifestou , de uma maneira especial e maravilhosa, por três vezes e em situações diferentes. A sua primeira manifestação foi na noite do seu nascimento, quando aconteceram coisas maravilhosas e que, anteriormente, já haviam sido anunciadas  pelos Profetas do Antigo Testamento.

O Profeta Isaias, setecentos anos antes do nascimento de Jesus Cristo, já profetizava: “Levanta-te, recebe a luz, Jerusalém, porque chegou a tua luz e a glória do Senhor nasceu sobre ti. Porque eis que as trevas cobrirão a terra, e a escuridão os povos; mas sobre ti nascerá o Senhor, e a sua glória se verá em ti. As nações caminharão à tua luz, e os reis, ao resplendor da tua aurora.” (Is 60,1-3). Não somente isso; o Profeta Isaias ainda adianta o nome e o que seria o Salvador no nosso meio: “Emanuel”, nome simbólico dado ao Senhor Jesus e que significa “Deus Conosco”, e quem foi Jesus no nosso meio senão “Deus Conosco”???

Assim se expressa Isaias: “Pois por isso o mesmo Senhor vos dará este sinal: Uma virgem conceberá e dará à luz um filho e seu nome será Emanuel.” (Is 7,14).

Lucas, o mais detalhista dentre os quatro Evangelistas a respeito do nascimento de Jesus, narra com pormenores esse acontecimento a começar pela Anunciação desse maravilhoso fato à jovem e virgem Maria citada por Isaias: “...uma virgem conceberá...” (Is 7,14), e o Mensageiro do Senhor para essa Boa Nova não foi outro senão o Anjo Gabriel.

Assim Lucas narra como aconteceu: “No sexto mês o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi, o nome da Virgem era Maria. Entrando onde ela estava, disse-lhe: “Deus te salve, cheia de graça; o Senhor é contigo.”  Ela ao ouvir essas palavras perturbou-se e descorria pensativa que saudação seria esta.  O Anjo disse-lhe: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus.  Este será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim.”  Maria disse ao Anjo: “Como se fará isso, pois eu não conheço varão?” Respondendo o Anjo, disse-lhe: “O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso mesmo o Santo que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1,26-35).

O Profeta Isaias, referindo-se à divindade e majestade do filho que nasceria da virgem, assim diz: “Porquanto um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado e foi posto o principado sobre o seu ombro; e será chamado Admirável, Conselheiro, Deus forte, Pai do século futuro, Príncipe da paz. O seu império se estenderá cada vez mais e a paz não terá fim; sentar-se-á sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o firmar e fortalecer pelo direito e pela justiça, desde agora e para sempre; fará isso o zelo do Senhor dos exércitos” (Is 9,6-7).             

Mas, em que lugar nasceria essa maravilha? E é o Profeta Miquéias quem nos responde: “E tu, Belém, Éfrata, tu és pequenina entre os milhares de Judá; mas de ti é que me há de sair aquele que há de reinar em Israel, e cuja geração é desde o princípio, desde os dias da eternidade.” (Mq 5,1-2).

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

 

ELES NÃO TÊM MAIS VINHO

 

Em certas ocasiões dos Evangelhos não é tão importante o que está escrito, mas o que está contido nas entrelinhas. Imaginemos a situação no casamento de Caná, na Galiléia, onde Jesus e sua mãe Maria estavam presentes.

Com que confiança, amor e carinho Maria se aproxima de seu Filho para pedir, na certeza que seria atendida, e, com que olhar de amor, carinho e respeito Jesus dirigiu à sua mãe chamando-lhe à realidade que ainda não havia chegado a sua hora, mas, na certeza de que atenderia sua mãe, qualquer que fosse o pedido que ela lhe fizesse, seguro de que ela não pedia para si e sim para alguém em dificuldades, ele anteciparia a sua hora por um pedido de sua mãe.

O momento do Filho Único de Deus se manifestar com toda a sua glória, o momento de Jesus mostrar a que veio, de derramar a misericórdia e os poderes de Deus a todos os necessitados ainda não havia chegado, e assim, taxativamente, ele se expressa: “Minha hora ainda não chegou.” (Jo 2,4), e, essa hora,  não era outra, senão a hora da cruz.

Mas aquele era um momento especial; era a sua mãe que estava pedindo. Era aquela a quem ele, o Filho Único de Deus, havia escolhido por mãe desde a queda do homem, desde o primeiro pecado, “E o Senhor disse à serpente: “...Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar.” (Gn 3,14-15), e Jesus, pelo grande amor que dedicava à sua mãe, não resistiu aquele pedido e antecipou a sua hora...

Jesus não precisou dizer nada para sua mãe; entre os dois não havia necessidade de palavras; bastava apenas um olhar, e Maria entendeu que ele atendera à sua súplica, e Jesus, a uma mediação de sua mãe antecipa a sua hora e “Sua mãe disse aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser.” (Jo 2,5). 

Maria, através dos tempos, continua dizendo a todos os cristãos, a todos os discípulos, apóstolos e seguidores de seu Divino Filho: “Fazei tudo o que ele vos disser.” (Jo 2,5).

Naquele casamento, “havia seis talhas de pedra para a purificação dos judeus, cada uma contendo de duas a três medidas. (correspondente a cerca de quarenta litros). Jesus lhes disse: Enchei as talhas de água.” Eles as encheram até a borda. Então lhes disse: “Tirai agora e levai ao mestre sala.” Eles levaram. Quando o mestre-sala provou a  água transformada em vinho - ele não sabia de onde vinha, mas o sabiam os serventes que haviam retirado a água - chamou o noivo e lhe disse: “Todo homem serve primeiro o vinho bom e, quando os convidados já estão embriagados, serve o inferior. Tu guardaste o vinho bom até agora.” (Jo 2,6-10).

O mestre-sala, o organizador da festa do casamento não sabia que o vinho havia acabado e desconhecia o milagre realizado por Jesus e, ao provar do vinho, ficou admirado, pois era costume nas festas servir primeiro o melhor vinho para, depois, “...quando os convidados já estão embriagados, serve o inferior” e, por isso, chama a atenção do noivo.

Essa foi a participação de Jesus num casamento. Não somente ele, mas sua mãe, Maria, que teve uma participação fundamental e salvadora para os noivos.

Jesus marcou presença, e deixou registrado ali, naquela festa, naquele cerimônia nupcial, o seu primeiro milagre, antecipado e realizado a pedido de sua mãe, Maria.

E Jesus, mais adiante, em seus ensinamentos, determina: “Não lestes que desde o princípio o Criador os fez homem e mulher? E que disse: “Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne?” PORTANTO, O  QUE  DEUS  UNIU, O  HOMEM NÃO   DEVE   SEPARAR.” (Mt 19,4-6).

  E depois, Jesus “acrescentou: “Nem todos são capazes de compreender essa palavra, mas só aqueles a quem foi concedido.” (Lc 18,18).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

 

SÃO JOÃO (JUAN) DIEGO CUAUHTLATOATZIN – 1473/1548

 

Os registros oficiais narram que Juan Diego, para nós João Diego, nasceu em 1474 na calpulli, ou melhor, no bairro de Tlayacac ao norte da atual Cidade do México. Era um índio nativo, que antes de ser batizado tinha o nome de Cuauhtlatoatzin, traduzido como "águia que fala" ou "aquele que fala como águia".

Era um índio pobre, pertencia à mais baixa casta do Império Azteca, sem ser, entretanto, um escravo. Dedicava-se ao difícil trabalho no campo e à fabricação de esteiras.

Possuía um pedaço de terra, onde vivia feliz com a esposa, numa pequena casa, mas não tinha filhos. Atraído pela doutrina dos padres franciscanos que chegaram ao México em 1524, se converteu e foi batizado, junto como sua esposa. Receberam o nome cristão de João Diego e Maria Lúcia, respectivamente.

Era um homem dedicado, religioso, que sempre se retirava para as orações contemplativas e penitências. Costumava caminhar de sua vila à Cidade do México, a quatorze milhas de distância, para aprender a Palavra de Cristo. Andava descalço e vestia, nas manhãs frias, uma roupa de tecido grosso de fibra de cactos como um manto, chamado tilma ou ayate, como todos de sua classe social.

A esposa, Maria Lúcia, ficou doente e faleceu em 1529.

Ele, então, foi morar com seu tio, diminuindo a distância da igreja para nove milhas. Fazia esse percurso todo sábado e domingo, saindo bem cedo, antes do amanhecer.

Durante uma de suas idas à igreja, no dia 9 de dezembro de 1531, por volta de três horas e meia, entre a vila e a montanha, ocorreu a primeira aparição de Nossa Senhora de Guadalupe, num lugar hoje chamado "Capela do Cerrinho", onde a Virgem Maria o chamou em sua língua nativa, nahuatl, dizendo: "Joãozinho, João Dieguito", "o mais humilde de meus filhos", "meu filho caçula", "meu queridinho".

A Virgem o encarregou de pedir ao bispo, o franciscano João de Zumárraga, para construir uma igreja no lugar da aparição. Como o bispo não se convenceu, ela sugeriu que João Diego insistisse. No dia seguinte, domingo, voltou a falar com o bispo, que pediu provas concretas sobre a aparição.

Na terça-feira, 12 de dezembro, João Diego estava indo à cidade quando a Virgem apareceu e o consolou. Em seguida, pediu que ele colhesse flores para ela no alto da colina de Tepeyac. Apesar do frio inverno, ele encontrou lindas flores, que colheu, colocou no seu manto e levou para Nossa Senhora. Ela disse que as entregasse ao bispo como prova da aparição.

Diante do bispo, João Diego abriu sua túnica, as flores caíram e no tecido apareceu impressa a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Tinha, então, cinqüenta e sete anos.

Após o milagre de Guadalupe, foi morar numa sala ao lado da capela que acolheu a sagrada imagem, depois de ter passado seus negócios e propriedades ao seu tio. Dedicou o resto de sua vida propagando as aparições aos seus conterrâneos nativos, que se convertiam.

Ele amou, profundamente, a santa eucaristia, e obteve uma especial permissão do bispo para receber a comunhão três vezes na semana, um acontecimento bastante raro naqueles dias. João Diego faleceu no dia 30 de maio de 1548, aos setenta e quatro anos, de morte natural.

O papa João Paulo II, durante sua canonização em 2002, designou a festa litúrgica para 9 de dezembro, dia da primeira aparição, e louvou são João Diego, pela sua simples fé nutrida pelo catecismo, como um modelo de humildade para todos nós.

Também são comemorados neste dia: São Pedro Fourier (presbítero fuindador), São Basiano, Santa Leocádia de Toledo (virgem e mártir), e Santa Gorgônia.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021








IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA - COMEMORAÇÃO FESTIVA

 

Hoje, não comemoramos a memória de um santo, mas a solenidade mais elevada, maior e mais preciosa da Igreja: a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria, a rainha de todos os santos, a Mãe de Deus.

O dogma da Imaculada Conceição de Maria é um dos dogmas mais queridos ao coração do povo cristão. Os dogmas da Igreja são as verdades que não mudam nunca, que fortalecem a fé que carregamos dentro de nós e que não renunciamos nunca.

A convicção da pureza completa da Mãe de Deus, Maria, ou seja, esse dogma, foi definida em 1854, pelo papa Pio IX, através da bula "Ineffabilis Deus", mas antes disso a devoção popular à Imaculada Conceição de Maria já era extensa. A festa já existia no Oriente e na Itália meridional, então dominada pelos bizantinos, desde o século VII. A festa não existia, oficialmente, no calendário da Igreja.

Os estudos e discussões teológicas avançaram através dos tempos sem um consenso positivo. Quem resolveu a questão foi um frade franciscano escocês e grande doutor em teologia chamado bem-aventurado João Duns Scoto, que morreu em 1308.

Na linha de pensamento de são Francisco de Assis, ele defendeu a Conceição Imaculada de Maria como início do projeto central de Deus: o nascimento do seu Filho feito homem para a redenção da humanidade. Transcorrido mais um longo tempo, a festa acabou sendo incluída no calendário romano em 1476. Em 1570, foi confirmada e formalizada pelo papa Pio V, na publicação do novo ofício, e, finalmente, no século XVIII, o papa Clemente XI tornou-a obrigatória a toda a cristandade. Quatro anos mais tarde, as aparições de Lourdes foram as prodigiosas confirmações dessa verdade, do dogma. De fato, Maria proclamou-se, explicitamente, com a prova de incontáveis milagres: "Eu sou a Imaculada Conceição". Deus quis preparar ao seu Filho uma digna habitação. No seu projeto de redenção da humanidade, manteve a Mãe de Deus, cheia de graça, ainda no ventre materno.

Assim, toda a obra veio da gratuidade de Deus misericordioso. Foi Deus que concedeu a ela o mérito de participar do seu projeto. Permitiu que nascesse de pais pecadores, mas, por preservação divina, permanecesse incontaminada. Maria, então, foi concebida sem a mancha do orgulho e do desamor, que é o pecado original. Em vista disso, a Imaculada Conceição foi a primeira a receber a plenitude da bênção de Deus, por mérito do seu Filho, e que se manifestou na morte e na Ressurreição de Cristo, para redenção da humanidade que crê e segue seus ensinamentos.

São comemorados no dia de hoje: Santa Ana (mãe do profeta Samuel, profetisa do Antigo Testamento), São Badilon de Leuze (abade), Santa Brígida da Turíngia (monja), São Eucário de Tréves (bispo), Bem-aventurado Luís (Alojzy) Liguda e companheiros, São Romário e Santa Lucila.


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

 

SANTO AMBRÓSIO DE MILÃO

 

Santo Ambrósio nasceu em Tréveros pelo ano 340, sua mãe era profundamente cristã, alma da educação do lar, Ambrósio é o escolhido do Espírito. Era ainda catecúmeno, quando por aclamação popular subiu à sede episcopal de Milão.

Tinha muito respeito pela religião cristã estava ainda por aprender quase tudo, e se dedicou sobretudo ao estudo da Sagrada Escritura com tanto empenho que logo a dominou.

A alma de seu apostolado a Escritura Sagrada, lida à luz dos Padres Gregos, principalmente de Orígenes, seu grandíssimo mentor. "Mitiga a tua sede no Antigo e no Novo Testamento; num e noutro estarás bebendo o Cristo".

A atividade diária de Ambrósio era dirigida antes de tudo à orientação da própria comunidade, e cumpria as suas tarefas pastorais dirigindo ao seu povo mais de uma homilia por semana. Santo Agostinho, que foi seu assíduo ouvinte, refere-nos em suas Confissões quão grande foi o prestígio da eloquência do bispo e Milão e quão eficaz o tom de voz deste apóstolo da amizade, se caracteriza pelo seu pastoreio, máxime no seu zelo pelos pobres.

A maioria de seus escritos nasce de sua alma de catequista. A catequese da iniciação cristã, da liturgia e dos sacramentos ocupa um papel preponderante em sua vida.

Jurista preciso e moralista severo, Ambrósio não se esquece do lado social político da fé, a usa com audácia os malefícios do dinheiro e os excessos da propriedade.

Afirma com coragem, se dirigindo aos ricos: "Não são teus os bens que distribuis ao pobre, são apenas os deles que lhes destinas. Pois o que fazes é usurpar só para teu uso o que é dado a todos e não aos ricos, porém, os que não usam propriedade são menos numerosos o que aqueles que a usam. Assim, de fato, o que fazes é pagar as tuas dívidas, e não, de forma alguma, distribuir larguezas gratuitamente" (Nobot 55).

Entre seus escritos que não têm relação direta com a sua pregação, recordamos o Deveres dos Ministros, porque enfatizando o conhecido texto ciceroniano e acolhendo todos os elementos, demonstra que o cristianismo pode assimilar sem perigo de alterar o significado da Boa Nova os valores morais naturais que o mundo pagão, o romano em particular, soube expressar.

Santo Ambrósio morreu em Milão no dia 04 de abril de 397. O Evangelho realizou milagres na vida deste Santo, transformando-o, de aristocrata romano, em pai dos pobres e servidor da Igreja. A fé o humanizou e a graça fez dele um pastor dos pequeninos.

São comemorados ainda hoje: Santa Maria Josefa Rossello (religiosa fundadora), Santo Agatão (soldado martirizado durante a perseguição de Décio), Santa Fará e São Eutiquiano.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

 

A SUA CRUZ É PESADA?

 

Geralmente achamos a nossa cruz pesada, e sempre reclamamos disso. E, bem a propósito, vale aqui registrar uma pequena estória.

Certo cidadão vivia reclamando dos seus problemas, da sua cruz. Achava que a sua cruz era pesada demais e que as dos outros sem se comparavam com a sua por considerá-las leves. Determinado dia ele foi reclamar com o próprio Senhor Jesus sobre o peso de sua cruz, e Jesus, em sua infinita misericórdia e paciência, o leva até um campo onde estavam depositadas milhares de cruzes, e diz ao reclamante que escolhesse uma para si. Ele se pôs a procurar uma bem leve, passando por entre gigantescas cruzes de todos os tamanhos e pesos, até encontrar uma bem pequenina que se encontrava num canto. Feliz da vida ele a pega diz para Jesus: “Senhor eu troco a minha cruz por essa.” Jesus, então, lhe diz: “Não há como trocar, meu filho, essa cruz é a sua mesmo, da qual você tanto reclama”. Veja como os teus irmãos tem cruzes muito mais pesadas que a sua, e nenhum deles vem aqui reclamar de seus pesos porque as aceitam com resignação e amor, e esses terão a sua recompensa no céu.         

Isso é apenas uma pequena ilustração, mas que serve para aqueles que só sabem reclamar dos seus problemas, ignorando os problemas dos irmãos, que resignadamente, aceitam as suas cruzes.

Repito: se quisermos seguir Jesus, devemos tomar a nossa cruz de cada dia.

Aceitar o dia como ele é.  Problemas, preocupações, desilusões, sempre as teremos.  Faz parte do nosso dia-a-dia. A nossa cruz de cada dia é a nossa própria vida vivida minuto a minuto, com todas as suas alegrias e tristezas, realizações e frustrações, saúde e doença, felicidade e desilusões, e tudo o mais o que a vida nos oferece a cada momento.

A nossa cruz  de cada dia se apresenta de muitas maneiras, de vários modos, tamanhos e lugares diversos; mas, qualquer que seja o seu tamanho e o seu peso, devemos tomá-la com amor, sem reclamar, assim como fez o próprio Jesus, e, como Jesus, devemos carregá-la rumo ao nosso Calvário, porque, se não passarmos pelo Calvário, jamais subiremos com Jesus no monte Tabor para a transfiguração e jamais chegaremos à glória da ressurreição.

Se quisermos nos livrar da cruz para termos uma vida mais cômoda, a nossa vida não terá nenhum valor; mas, se abraçarmos a nossa cruz e com isso deixarmos de viver as alegrias frívolas e futilidades que o mundo nos oferece, estamos salvando a nossa vida e reservando o nosso cantinho ao lado do Cristo Senhor na casa do Pai.

Pedro, Apóstolo, sem dúvida, estava inspirado pelo Espírito do Pai quando escreveu: “É louvável que alguém suporte aflições, sofrendo injustamente por amor de Deus. Mas que glória há de suportar com paciência, se vocês são bofeteados por terem errado? Ao contrário, se, fazendo o bem, vocês são pacientes no sofrimento, isso sim constitui uma ação louvável diante de Deus. Com efeito, para isto é que vocês foram chamados, pois que também Cristo sofreu por vocês, deixando para vocês um exemplo, a fim de que sigam os seus passos. Ele não cometeu nenhum pecado; mentira nenhuma foi achada em sua boca. Quando injuriado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava, antes, punha a sua causa nas mãos daquele que julga com justiça.  Sobre o madeiro, levou os nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os nossos pecados, vivêssemos para a justiça. Por suas feridas vocês foram curados, pois vocês estavam desgarrados como ovelhas, mas agora vocês retornaram ao Pastor e Supervisor de vossas almas.” (1Pd, 2,19-25).

domingo, 5 de dezembro de 2021

 

“ESTA É A VOZ DAQUELE QUE GRITA NO DESERTO...” (Lc 3,4).

 

SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO – ANO “C”.

Cor roxa – Leituras: Br 5,1-9; Sl 125; Fl 1,4-6.8-11; Lc 3,1-16

 

Diácono Milton Restivo

 

João Batista é um personagem presente no tempo litúrgico do Advento.

A palavra de Deus foi dirigida no deserto a ele, João, filho do sacerdote Zacarias:

·         “Foi nesse tempo que Deus enviou a sua palavra a João, filho de Zacarias, no deserto.” (Lc 3,2).

 O Evangelho deste dia, bem como o do próximo domingo, apresenta-nos a figura impar de João Batista.

Em todo o tempo do Advento está implícita a presença de João Batista que, juntamente com o ladrão, crucificado à direita de Jesus no Calvário, é o único que foi santificado pelo próprio Jesus: o ladrão na cruz e João ainda no ventre de sua mãe.

Assim nos narra Lucas no seu Evangelho:

·         “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança se agitou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito exclamou: ‘Você é bendita entre as mulheres, e é bendito o fruto do seu ventre. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar? Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. Bem aventurada aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu.” (Lc 1,41-45).

Também é com Maria, a mãe de Jesus, o único santo que é celebrado no calendário litúrgico não só pelo seu martírio, decapitado que foi por Herodes (cf Mt 14,3-12), cuja festa é celebrada no dia 29 de Agosto, mas também pelo seu nascimento, 24 de Junho.

Entre todos os santos e santas, João Batista é o único do qual a Liturgia celebra o nascimento e a morte; dos demais celebra apenas o dia da morte.

Assim como Jesus, João teve o seu nascimento anunciado pelo Anjo Gabriel. Ambos vieram à luz graças a uma intervenção especial de Deus:  o primeiro nasce de uma Virgem, o segundo de uma mulher idosa e estéril. Desde o seio materno João prenuncia Aquele que revelará ao mundo a iniciativa de amor de Deus.

Pelas circunstâncias do seu nascimento João Batista poderia dizer como o salmista:

·         "Chamaste-me quando eu ainda estava no seio da minha mãe" (Sl 139,13-16).

Após o nascimento de João Batista o evangelho de Lucas narra o canto de Zacarias, louvando a Deus pelo nascimento de seu filho:

·         “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e resgatou o seu povo.” E mais adiante o mesmo Zacarias proclama: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo porque irás adiante da face do Senhor a preparar os seus caminhos.” (Lc 1,68.76).

O Evangelista Lucas é o único a nos transmitir como foi anunciado o nascimento de João Batista (Lc 1,5-25), quem eram seus pais (Lc 1,5) e os acontecimentos que precederam o seu nascimento (Lc 1,26-80). 

Nos quatro evangelhos várias passagens ressaltam a pessoa e a missão do Batista.

O evangelista João afirma que

·         “houve um homem enviado por Deus que se chamava João. Este veio para dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele”. (Jo 1,6).

Em outra passagem o mesmo evangelista João narra que, interrogado pelos judeus se ele era o Messias esperado, João Batista testemunhou:

·         “Eu não sou o Cristo. Eu batizo em água, mas no meio de vocês está quem vocês não conhecem. Este é o que há de vir depois de mim, ao qual eu não sou digno de desatar a correia das sandálias.” (Jo 1, 20. 26-27)

O Evangelista Marcos inicia seu evangelho apresentando João Batista que

·         “pregava o batismo de penitência para remissão dos pecados.” (Mc 1,4).

O evangelho de Mateus conta que João Batista começou a pregar no deserto da Judéia, dizendo:

·         “Arrependem-se, porque está próximo o reino dos céus. Porque este é aquele de quem falou o profeta Isaías quando disse: Voz do que clama no deserto. Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.” (Mt 3,2-3).

O próprio Jesus dá seu testemunho sobre a missão de João quando deseja ser por ele batizado:

·         “Jesus foi da Galiléia para o rio Jordão a fim de se encontrar com João, e ser batizado por ele. Mas João procurava impedi-lo, dizendo: ‘Sou eu que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim? ’ Jesus, porém, lhe respondeu: ‘por enquanto deixe como está! Porque devemos cumprir toda a justiça’. E João concordou”. (Mt 3,13-15).

Atentem para esta afirmativa de Jesus: “Porque devemos cumprir toda a justiça”. Jesus faz a afirmativa no plural: “devemos cumprir toda a justiça”. Isto quer dizer que esta também era a missão de João Batista: cumprir e fazer cumprir toda a justiça. Era a missão tanto de Jesus como de João Batista, como de todos os cristãos.

Em outra ocasião Jesus novamente destaca a missão de seu precursor, afirmando que ele é mais que um profeta, pois foi enviado para preparar o caminho do Messias. E complementa:

·         “Na verdade eu digo a vocês que entre os nascidos das mulheres não veio ao mundo outro maior que João Batista.” (Mt 11,11).

João Batista, homem de coragem, enfrentou as autoridades e os poderosos, denunciando seus erros e injustiças. Enfrentou o próprio rei Herodes (Lc 3,19-20), censurando-o por ter tomado como mulher a esposa de seu irmão: “Não te é lícito”, exclamava com firmeza e coragem, o que lhe custaria a prisão e a morte.

Deus manda João, o Batista, como arauto do novo tempo de graça e salvação. Deus não permite que a perversidade e a maldade tenham a palavra final na história da humanidade.

Isso posto, chegamos à conclusão de que João Batista era filho de sacerdote da tribo de Levi e descendente de Aarão, linhagem escolhida por Yahweh para exercer o sacerdócio em Israel.

Se João, o Batista, era filho de sacerdote, por hereditariedade ele era também sacerdote e deveria exercer o sacerdócio no Templo e no meio de seu povo.

Como sacerdote que era de fato, por lei e por direito, João deveria, como seu pai, estar servindo no Templo, mas vamos encontrá-lo no deserto onde

·         “percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados, conforme está escrito no livro do profeta Isaias: ‘Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação”. (Lc 2,3-6).

João deveria estar usufruindo das mordomias e confortos do Templo e respeito do povo, mas, ao contrário, encontramo-lo vivendo as agruras do deserto, fazendo alguma coisa que não competia ao sacerdote, a não ser que esse sacerdote fosse também profeta.

Como sacerdote, além de estar servindo no Templo e não vivendo no deserto, João deveria estar usando roupas finíssimas, caras e enfeitadas dos sacerdotes conforme o previsto em Ex 28,2:

·         “Mande fazer para seu irmão Aarão vestes sagradas, bem ricas e enfeitadas”, quando, na verdade, “João usava roupa feita de pelo de camelo, e cinto de couro na cintura”. (Mt 3,4).

Como sacerdote e se estivesse no Templo, João tinha o direito de comer das iguarias que fazia parte das ofertas que o povo fazia para serem oferecidas a Yahweh, mas “comia gafanhotos e mel silvestre”.

João Batista deveria, como sacerdote, alimentar-se da comida sacerdotal, da flor de farinha e da carne mais tenra e nobre dos novilhos ofertados a Yahweh pelo seu povo, quando, na realidade, João “comia gafanhotos e mel silvestre” (Mt 3,4), comida típica de quem rejeitara todo conforto e mordomia do Templo e da cidade para viver uma vida de severa penitência; este era o alimento dos penitentes do deserto, pois era a dieta dos ascetas ou anacoretas do deserto.

Através de João Batista Deus dava início a uma nova chamada de atenção porque o sistema religioso de Jerusalém já havia se corrompido há muito tempo e o início da consumação dos tempos havia chegado.

Através de João Batista Deus rompe com a Lei mal interpretada pelos dirigentes políticos e religiosos do povo judeu, e estava se iniciando algo totalmente novo.

João conclama o povo à conversão. Israel havia se afastado de Yahweh, havia deixado de obedecer as Leis do Senhor e a corrupção era patente e generalizada.

É nessa situação que João Batista surge pregando a penitência e o arrependimento.  É o início da Nova Aliança que Deus vai fazer com o seu povo, mas, para isso, o sacrifício deveria ser a imolação do

·         “Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”. (Jo 1,29).

João Batista dá início ao plano de salvação de Deus preparando a Nova Aliança, pregando com determinação e insistência, em primeiro lugar, a conversão e o arrependimento. 

Para a nova realidade que surgia, era indispensável a reformulação de vida, um arrependimento sincero, um novo modo de pensar, um novo modo de viver, e João exortava: “Convertam-se, porque o Reino do Deu está próximo”. (Mt 3,2).

Isso seria repetido e seguido por Jesus quando do início de sua vida publica e da sua pregação:

·         “Daí em diante Jesus começou a pregar, dizendo: ‘Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo’”. (Mt 4,17).

João Batista é, antes de tudo, modelo de fé. Seguindo o exemplo do grande profeta Elias, para ouvir melhor a Palavra do único Senhor da sua vida, João deixa tudo e retira-se para o deserto, de onde fará ressoar o convite para aplanar os caminhos do Senhor (cf. Mt 3,3ss).

João Batista é modelo de humildade, porque responde a todos os que vão até ele não só julgando que ele fosse um profeta, mas até acreditando que ele seria o Messias:

·         “O povo estava esperando o Messias. E todos perguntavam a si mesmos se João não seria o Messias”. (Lc 3,15).

Dentro de sua humildade e honestidade, João diz:

·         “Eu não sou o Messias” (Jo 1,20).

O Apostolo Paulo, mais tarde na sua pregação, lembra-se também de João:

·         “Estando para terminar a sua missão, João declarou: ‘Não sou aquele que vocês pensam que eu seja! Vejam: depois de mim é que vem aquele do qual eu não mereço nem sequer desamarrar as sandálias!”  (At 13,25).

João Batista é modelo de coerência e de coragem quando defende a verdade, pela qual está disposto a pagar pessoalmente, com sua prisão e morte.

João, como disse seu pai Zacarias (Lc 1,76), é o “profeta do Altíssimo” e seu modo de viver lembra Elias, o profeta que vivia no deserto, impelido pelo Espírito.

Aliás, no evangelho de Lucas, o anjo anuncia que João andará no espírito de Elias, o príncipe dos profetas e o mais típico “homem de Deus” do Antigo Testamento:

·         “Ele reconduzirá muitos do povo de Israel ao Senhor seu Deus. Caminhará à frente deles, com o espírito e o poder de Elias. A fim de converter os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, preparando para o Senhor um povo bem disposto”. (Lc 1,16-17).

É muito significativo o elogio que Jesus faz a João Batista após ter respondido à pergunta que o próprio João mandara seus discípulos fazer a Jesus:

·         “O que vocês foram ver, então? Um profeta? Sim, eu digo a vocês, e mais do que um profeta [...]. Em verdade eu digo a vocês que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior do que João, o Batista, e, no entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele. Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e violentos se apoderam dele. Porque todos os profetas bem como a Lei profetizaram, até João. E, se vocês quiserem dar crédito, ele é o Elias que deve vir. Que tem ouvidos, ouça!” (Mt 11, 9-15).

·         “João percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados, conforme está escrito no livro do profeta Isaias: ‘Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação”. (Lc 2,3-6).

Sem dúvida, podemos entender este trecho num sentido metafórico, como descrição duma mudança radical no estilo de vida de quem quer aceitar o convite à penitência e ao arrependimento.

Os vales a serem aterrados, as montanhas e colinas a serem aplainadas, os caminhos esburacados a serem nivelados, simbolizam os empecilhos em nossas vidas a um seguimento mais radical e coerente de Jesus.

Quem aceita a sua mensagem terá que mudar radicalmente, isso é: na raiz, a sua vida.

Advento, embora não seja tempo de penitência no sentido que a Quaresma se propõe, torna-se tempo oportuno para uma revisão de vida, para descobrir quais são as curvas, montanhas, e pedras que são empecilhos na nossa caminhada para a justiça e a verdade e que teremos de tirar para que o Senhor realmente possa habitar nos nossos corações. João Batista é realmente especial.

Vida de contradição. Filho de um casal de velhos que, humanamente, passaram da época de gerar filhos; nem seu pai quis acreditar que era possível ser pai e ficou mudo para aprender que

·         “para Deus nada é impossível” (Lc 1,37).

Pregador no deserto vestia pele de camelo e comia gafanhotos e mel silvestre. Batizador às margens do Rio Jordão, mandava preparar os "caminhos do Senhor".

Assustava os fariseus, chamando-os de "raças de víboras".

Ameaçava o rei. Resultado: teve a cabeça cortada e servida em uma bandeja a Herodes, o rei (Mt 14,1-12). Chegamos à conclusão que João Batista foi um homem sem papas na língua e que deveria servir de exemplo de coerência, coragem e justiça para os cristãos de todos os tempos, principalmente dos nossos dias. 

sábado, 4 de dezembro de 2021

 

A EXPECTATIVA DE MARIA, A MÃE DE JESUS.

 

Durante nove meses a Santíssima Virgem Maria trouxe consigo, dentro de seu ventre, o Filho de Deus que se fazia homem. Durante nove meses a Santíssima Virgem Maria foi o sacrário vivo  da Majestade Infinita. O Filho de Deus se fez homem no seio da Virgem, e por isso, o Filho de Deus é também o Filho da Virgem Maria.

O Filho de Deus formou-se no seio de Maria como qualquer ser humano forma-se no seio de sua mãe. O Filho de Deus alimentou-se do sangue da Virgem Maria, formou sua carne no ventre de Maria e fez com que a Virgem tivesse as indisposições normais de uma gravides normal; pulou no ventre da Virgem como qualquer criança sadia pula no ventre de sua mãe, fez com que o corpo da Virgem sofresse as alterações normais do corpo de uma mulher quando está grávida: o ventre cresceu, as pernas, em determinados períodos se incharam , o andar da Virgem durante a gravides foi cuidadoso, a respiração ofegante, tendo sempre mal estar e precisando repousar com frequência, como qualquer mulher grávida.

Então nada foi diferente a gravides da Virgem com a gravides de qualquer mulher que espera seu filho. Durante nove meses a Virgem Maria viveu a expectativa do nascimento de seu Filho, que era também o Filho de Deus. Podemos imaginar os colóquios amorosos, as conversas carinhosas da Santíssima Virgem com o Tesouro que ela portava e trazia dentro de si. 

Podemos imaginar os momentos de oração e êxtase que a Virgem Maria passava no seu silêncio, conversando com aquele que é Deus e se formava homem dentro de seu ventre; aquele que se humilhava  e tomava a natureza humana para que todos os humanos tomassem a filiação divina.

Podemos imaginar os cuidados  da Virgem nas suas longas viagens, primeiramente indo de Nazaré até a casa de Isabel, em uma cidade na região montanhosa de Judá, quando já estava grávida, depois, saindo de Nazaré e indo até Belém, e, desta feita, já no fim de sua gravides.  

Podemos imaginar a entrega total da Virgem nas mãos de Deus quando, em Belém, ela e José procuravam um lugar para descansar e já o Menino prestes a nascer, e não encontraram lugar nas casas de família, nos hotéis, nas hospedarias, e tiveram que recorrer a um curral de animais para passar a noite, e ali o Menino Jesus acaba nascendo.

Podemos imaginar quando a Virgem toma o Menino Jesus pela primeira vez nos braços, quando ela se sentiu recompensada por todos os sacrifícios, por todas as ingratidões dos homens, por todas as preocupações e por toda a indiferença que sofreu durante todo o tempo de espera do seu amado Filho.

Depois de nove meses de incompreensões, incompreensão até da parte de José, na época seu noivo e agora seu esposo; depois de um final de gravides agitado, tendo de fazer uma viagem de mais ou menos oitenta quilômetros e por caminhos perigosos, a Virgem se sente recompensada porque agora tem em seus braços aquele que o mundo esperava desde o início dos tempos, aquele que Deus Pai prometera  através dos santos e dos profetas do Antigo Testamento; aquele que era esperado por todo povo para ser a salvação de Israel, a glória de Judá e o Mediador entre Deus e os homens. Agora a Virgem Maria tem em seus braços o Filho de Deus que se fez homem para que todos os homens se tornassem filhos de Deus; o filho que ela tem em seus braços é também o Filho de Deus. Podemos imaginar como agora ela o aperta em seus seios, e ela o beija, consciente que está beijando o seu filho que é também o Filho de Deus, e que é, portanto, Deus, um Deus que é seu Filho. Se não fosse por Maria não teríamos Jesus, não teríamos a Salvação.

Se Maria não tivesse dito o seu “sim” não teríamos no nosso meio, como um de nós, o Filho de Deus. Se Maria não se fizesse “a escrava do Senhor”, a Salvação não nos teria chegado.

Como devemos amar Maria. Como devemos lhe agradecer o presente que ela deu à humanidade na noite do Natal. Devemos nos entregar nas mãos da Santíssima Virgem Maria assim como o Filho de Deus, que se fez homem, se entregou confiantemente.

Devemos nos alimentar da vida espiritual de Maria assim como o Filho de Deus se alimentou com o seu leite materno. O Filho de Deus confiou totalmente em Maria, e é esse o exemplo  que ele nos dá: como ele, devemos confiar totalmente e sem restrições em Maria.

O Filho de Deus veio até nós por meio de Maria, e todos nós devemos chegar ao Filho de Deus, ao próprio Deus, por meio de Maria.      

Vamos todos a Jesus, mas conduzidos pelas mãos virginais e maternais de Maria...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

 

JESUS GOSTAVA DE FESTAS. ESTEVE NO CASAMENTO DE CANÁ.

 

Com sua presença no casamento de Caná da Galiléia (Jo 2,1-12), Jesus quer mostrar que está sempre presente nos grandes momentos de nossa vida. Ele compartilha conosco de nossas alegrias e realizações. Jesus se faz presente quando o nosso coração transborda de alegria e está em festa.

Jesus é um Deus de alegria, da alegria; gosta de ver as pessoas que ama alcançando a felicidade almejada, realizando seus desejos, suas aspirações, e, para dois jovens que se amam, qual seria o maior desejo, felicidade e aspiração senão de se unirem em matrimônio?          

Jesus foi convidado para aquele casamento. Não somente ele, mas também sua mãe, Maria, e seus discípulos também: “No terceiro dia houve um casamento em Caná da Galiléia e a mãe de Jesus estava lá. Jesus foi convidado para o casamento e os seus discípulos também.” (Jo 2,1-2).

Jesus e sua mãe, Maria, foram convidados, e não se fizeram de rogados. Lá estava Jesus.  Lá estava a mãe de Jesus, Maria; e não somente Jesus e Maria, mas também os amigos mais íntimos de Jesus, os seus discípulos, que também haviam sido convidados para aquele casamento.     

Como em todos e em qualquer casamento, a alegria era geral. Os noivos recebiam cumprimentos e presentes de todos os convivas.

Jesus e Maria participavam efetivamente daquela alegria.

Maria, por sua vez, não se prendeu entre os convivas e, prestativa como sempre foi (Lc 1,39), colocou-se entre aqueles que serviam os convidados, sempre atenta aos acontecimentos, sempre preocupada para que nada empanasse a alegria dos noivos, de seus familiares e dos convidados.

Mas, de repente “...não havia mais vinho, pois o vinho do casamento tinha-se acabado.” (Jo 2,3), e, por isso, Maria observa que os rostos daqueles que serviam a festa começaram a ficar preocupados, tensos, e ao verificar qual o motivo, descobriu que o vinho da festa, que deveria durar por vários dias enquanto houvesse festa, havia se acabado e, com certeza, aquilo seria uma decepção muito grande para os convidados e uma infelicidade para os noivos e seus familiares.

Nem o mestre-sala, aquele que organizava a festa, nem os noivos sabiam disso, e Maria se preocupou para que eles não ficassem sabendo para não obscurecer a sua alegria.  

Maria sabia que naquela festa havia alguém que poderia resolver aquele problema.

Maria sabia que ali existia alguém que não iria permitir que os noivos passassem por aquele vexame; no momento em que a festa estava mais animada, acabara o vinho. Com todo amor que tinha em seu coração, com toda a confiança que tinha e tem em Deus e no seu Amado Filho, Filho também do Altíssimo, e com todo o desejo para que os noivos fossem realmente felizes desde os primeiros momentos de seu casamento e que nada turvasse aquela felicidade, Maria se aproxima de Jesus e lhe diz: “Eles não tem mais vinho.” (Jo 2,3).

Até aquela altura de sua vida Jesus ainda não tinha realizado nenhum milagre, nenhuma maravilha; Jesus ainda não havia se manifestado  com toda a sua misericórdia para atender as necessidades dos oprimidos de uma maneira mais clara e precisa e, na nossa sensibilidade, dá-nos a impressão que, à primeira vista, Jesus foi indelicado com sua mãe, e disse: “Que queres de mim, mulher? Minha hora ainda não chegou.” (Jo 2,4).

Essa expressão “mulher” dá a impressão de um distanciamento entre Jesus e Maria, mas, absolutamente, não é nada disso e, Paulo Apóstolo é de uma felicidade divina ao se referir a isso, quando diz: Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial.” (Gl 4,4-5).

Assim como a primeira “mulher”, Eva, foi causa de pecado e degradação do gênero humano (Gn 3, 1ss), a “mulher”, a que se refere Jesus, não é outra, senão Maria, que serviu de degrau para que a Salvação chegasse ao mundo e de porta para que a misericórdia divina se esparramasse sobre os homens: a primeira mulher,

Eva, a primeira mulher, foi causa de queda; a segunda mulher, Maria,  de soerguimento do gênero humano mergulhado no pecado e elo de ligação entre o Criador e as criaturas, entre o Pai e seus filhos. Maria foi a ponte sobre o abismo do pecado que separava Deus dos homens e sobre a qual passou e nos veio a salvação e a redenção na pessoa de Jesus Cristo!!!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

 

“PORTANTO, O QUE DEUS UNIU, O HOMEM NÃO DEVE SEPARAR.” (Mt 19,4-6).

 

“Iahweh Deus  modelou, então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu e as conduziu ao homem para ver como ele as chamaria: cada qual devia levar o nome que o homem lhe desse. O homem deu nome a todos os animais, às aves do céu e a todas as feras selvagens, mas, para o homem, não encontrou a auxiliar que lhe correspondesse.” (Gn 2,19-20).   

Interessante!!! Dentre todas as criaturas criadas, depois do homem, nenhuma se encaixou como “a auxiliar que lhe correspondesse.”            “Iahweh Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda.”... Então Iahweh Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou uma de suas costelas e fez crescer carne em seu lugar. Depois, da costela que tirara do homem, Iahweh Deus  modelou uma mulher e a trouxe ao homem. Então o homem exclamou: “Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela se chamará ‘mulher’, porque foi tirada do homem.” Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne.” (Gn 2, 18.21-24).

Na criação do homem Deus sentiu a necessidade de lhe fazer uma companheira que fosse superior a todas as demais criaturas já criadas, que se igualasse a ele em dignidade e que, com ele, fosse dividida a responsabilidade de zelar das coisas que o Senhor havia criado e lhe dado responsabilidade de delas cuidar. Primeiro “...modelou, então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu... ...mas, para o homem não encontrou a auxiliar que lhe correspondesse.” (Gn 2,19 e 20).

Em sua sabedoria infinita o Senhor chegou à conclusão que não poderia dar ao homem, como companheira, um ser inferior e irracional, por isso, tirou do próprio homem, do seu próprio corpo, mais precisamente de uma costela, do lado do seu coração, um pedaço para modelar a mulher, aquela que seria a sua companheira por toda a vida e, “Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne.” (Gn 2,24).

A união conjugal surgiu com a criação do primeiro casal como instituição necessária para a preservação do gênero humano.

No Antigo Testamento o casamento, muitas vezes, era uma imposição dos pais para os filhos, sendo que os jovens se casavam sem mesmo se conhecerem, como aconteceu com Isaac, conforme determinou Abraão “...ao servo mais velho de sua casa, que governava todos os seus bens: ...”Mas irás à minha terra, à minha parentela, e escolherás uma mulher para meu filho Isaac.” (Gn 24,2-4s); mas, também, havia casamento por amor, como aconteceu com Rute e Booz: “Assim Booz desposou Rute, que se tornou sua esposa. Uniu-se a ela, e Iahweh deu  a Rute a graça de conceber  e ela deu à luz um filho. (Rt 4,13).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

 

BEM-AVENTURADA MARIA CLEMENTINA ANUARITE NENGAPETA – 1939/1964

 

Anuarite Nengapeta era a quarta das seis filhas de Amisi e Isude. A família de pagãos africanos da etnia Wadubu vivia na periferia de Wamba, no Congo.

Ela nasceu no dia 29 de dezembro de 1939, como depois comprovou a Santa Sé. Ao ser batizada em 1943, acrescentaram-lhe o nome Afonsina. Na ocasião, também receberam esse sacramento sua mãe e quatro irmãs. A mais velha nunca acompanhou a doutrina cristã.

Seu pai, ao contrário, até começou a preparar-se para a conversão. Mas depois desistiu, pois formou outra família, enquanto trabalhava como soldado do exército congolês. A nova situação familiar refletiu pouco na formação de Anuarite, que teve uma infância e adolescência consideradas normais. Era vivaz e caridosa, de personalidade marcante e temperamento amistoso e generoso.

O nervosismo, porém, era o ponto fraco do seu caráter. Era muito sensível e instável, talvez por causa da separação de seus pais. Gostava de frequentar a igreja, ia à missa aos domingos, com a mãe e as irmãs. Em seguida, ficava estudando o catecismo para poder receber a primeira comunhão, que ocorreu em 1948. Iniciou os seus estudos e diplomou-se junto ao colégio das Irmãs do Menino Jesus de Nivelles, missionárias na África.

Em 1957 decidiu ingressar na Congregação da Sagrada Família. Foi aceita e, durante o noviciado, teve como orientador espiritual o bispo de Wamba.

Em 1959 diplomou-se professora, vestiu o hábito e emitiu os votos definitivos, tomando o nome de Maria Clementina. Desde então se dedicava e empenhava muito às funções destinadas: foi sacristã, auxiliar de cozinheira e professora de uma escola primária. Devota extremada de Maria e de Jesus, vivia feliz por ter-se consagrado ao seu serviço.

O Congo da época era governado pelos brancos. Em 1960, havia uma grande campanha contra esse domínio europeu. Fervilhava o ódio racial e não durou muito para traduzirem-se em barbárie os ideais políticos. A revolução dos Simbas explodiu no ano seguinte, iniciando um violento massacre para eliminar todos os europeus, seus amigos e colaboradores negros.

No Convento de Bafwabaka, tudo era calmo até 1964. Em agosto daquele ano, os rebeldes já tinham ocupado grande parte do país. A cada dia avançavam mais, saqueando e matando milhares de civis congoleses indefesos. Mais de cento e cinquenta missionários, entre sacerdotes, religiosos e irmãos já haviam morrido também.

Os rebeldes chegaram ao convento em 29 de novembro e levaram as trinta e seis integrantes da Sagrada Família, entre elas irmã Maria Clementina Anuarite, de caminhão, para Isiro. Na noite do dia primeiro de dezembro de 1964 o coronel Olombe tentou seduzi-la. Mas como ela se recusou a satisfazer seus desejos carnais, ele a esbofeteou e golpeou com a coronhada do fuzil, depois disparou, matando-a. Antes, porém, ela o perdoou e clamou ao Pai para que o perdoasse.

O papa João Paulo II, durante sua viagem ao Congo em 1985, beatificou Maria Clementina Anuarite Nengapeta. Tornou-se a primeira mulher "banto" a ser elevada aos altares da Igreja Católica, cuja festa deve ser no dia de sua morte.

Na solenidade de beatificação, o sumo pontífice definiu Anuarite como modelo de fidelidade para todos os católicos do mundo. Depois, enalteceu sua castidade, e a igualou a Santa Inês, mártir do início da cristandade, dizendo: "Anuarite é a Inês do continente africano".

Também são lembrados neste dia: Santo Elói (Elígio), Santa Cândida de Roma e Bem-aventurado Charles de Foucauld, São Candres de Maestricht (bispo), São Castriciano de Milão (bispo), São Constanciano de Javron (abade), Santos Edmundo Campion, Alexandre Briant e Rafael Sherwin (presbíteros).