domingo, 27 de março de 2016

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO

“DE FATO, ELES AINDA NÃO TINHAM COMPREENDIDO A ESCRITURA, SEGUNDO A QUAL ELE DEVIA RESSUSCITAR DOS MORTOS.” (Jo 20,9).


Diácono Milton Restivo

Páscoa, do hebreu Pessach, significa a passagem da escravidão para a liberdade.
É a maior festa do cristianismo e, naturalmente, de todos os cristãos, pois nela se comemora a Passagem de Cristo - "deste mundo para o Pai", da "morte para a vida", das "trevas para a luz".
“O tempo pascal compreende cinquenta dias (em grego = "pentecostes"), vividos e celebrados como um só dia: os cinquenta dias entre o domingo da Ressurreição até o domingo de Pentecostes devem ser celebrados com alegria e júbilo, como se se tratasse de um só e único dia festivo, como um grande domingo". (Normas Universais do Ano Litúrgico, n 22).
Os evangelhos são a proclamação de fé em Cristo Ressuscitado. A Igreja tem por missão fundamental viver e anunciar a Ressurreição de Jesus Cristo e fazer com que todos participem da sua Páscoa que começou a ganhar sentido a partir da libertação do povo de Deus que estava sendo escravizado no Egito: “Esse dia será para vocês um memorial, pois nele celebrarão uma festa de Yahweh. Vocês a celebrarão como um rito permanente, de geração em geração”. (Ex 12,14).
Jesus prolonga e dá sentido e forma definitivas a esse memorial transformando-o na Nova Aliança na instituição da Eucaristia, conforme narra Paulo: “Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, o partiu e disse: ‘Isso é meu corpo que é para vocês: façam isso em memória de mim. Do mesmo modo, após a Ceia, tomou também  o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue.; todas as vezes que vocês beberem dele, façam isso em memória de mim.” (1Cor 11,23-25). 
        Páscoa é libertação. Moisés, na primeira Páscoa do povo de Deus, liberta-o da escravidão que ele era submetido nas terras do Egito e Yahweh acompanha esse povo nessa libertação: “Yahweh ia à frente deles: de dia numa coluna de nuvem, para guiá-los; de noite numa coluna de fogo, para iluminá-los. Desse modo, podiam caminhar durante o dia e a noite. De dia a coluna de nuvem não se afastava do povo, nem de noite a coluna de fogo”. (Ex 13,21-22).
Através de sua ressurreição, Jesus não é simplesmente uma coluna de nuvem que nos guia durante o dia, ou uma coluna de fogo que nos orienta durante a noite: Jesus é o Homem-Deus ressuscitado que permanece conosco sem interrupção: “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo”. (Mt 28,20).
Cristo Ressuscitou verdadeiramente! Venceu a morte e despojou o império das trevas, sendo vitorioso e dando-nos também a vitória. Ele venceu e também somos vencedores com ele.
Jesus despojou o império das trevas. “Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.” (1Cor 15,57). Somos vitoriosos porque Deus nos deu a vitória em Jesus, seu Filho. Não pelos nossos méritos. E sim pela sua graça.
Por Cristo e em Cristo somos mais que vencedores porque, por ele, passamos do fracasso para a realização, da derrota para a fortaleza, da vitória para o triunfo. Da morte para a vida! Tudo isso Deus o fez por amor.
Pode Deus ficar em uma cruz? Sim, Ele morreu lá, por amor dos homens. Pode Deus permanecer em um túmulo? Não, Ele ressuscitou para que os homens fossem vitoriosos.
É a cruz e o túmulo vazio que nos santifica.
A ressurreição de Cristo Jesus é a prova evidente que a morte foi vencida e o pecado perdeu a sua força de condenação. A história da crucificação não termina com um funeral, mas com um festival de aleluia. O anjo anuncia às mulheres com júbilo: “Ele não está aqui; ressuscitou como tinha dito. Venham ver o lugar onde ele estava”. (Mt 28,6).
Mais tarde Pedro e João, quando pregavam a ressurreição de Jesus e estavam sendo ameaçados pelas autoridades judaicas, para que não pregassem a Jesus ressuscitado, disseram: “Não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos.” (At 4,20).
Só o milagre do túmulo vazio poderia encher o coração dos discípulos da certeza da salvação. A regeneração do homem pecador é um produto da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos. “Bendito seja o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo por sua grande misericórdia. Ressuscitando a Jesus Cristo dos mortos, ele nos fez renascer para uma esperança viva, para uma herança que não se corrompe, não se mancha e não murcha.” (1Pd 1,3-4).
Na primeira leitura, Pedro, cheio do Espírito Santo, se coloca na frente da multidão atônita por tanta coragem, e em alta voz, proclama o seu testemunho na ressurreição de Jesus Cristo: “E nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém. Eles o mataram, pregoando-o numa cruz. Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos.” (At 10,39-41).
O Salmo responsorial 117 (118) é um grito de alegria e agradecimento ao grande acontecimento que o Pai houve por bem que se realizasse para o cumprimento de todas as suas promessas de salvação: “A pedra que os pedreiros rejeitaram tornou-se agora a pedra angular. Pelo Senhor é que foi feito tudo isso: que maravilhas ele fez aos nossos olhos” e “Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos.”
O Evangelho de João nos relata que, depois de todos os acontecimentos que abalaram a comunidade apostólica, estando Jesus, supostamente, ainda depositado no sepulcro, as mulheres foram as únicas que não se acomodaram e nem se acovardaram, e “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro...” (Jo 20,1). Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do dia da Ressurreição, cada um de acordo com as suas tradições. João fala que foi apenas uma mulher no túmulo, e de madrugada: Maria Madalena ((Jo 20,1); Mateus fala de duas mulheres: “Maria Madalena e outra Maria foram ver a sepultura” (Mt 28,1); Marcos fala de três mulheres: “Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé...” (Mc 16,1), e Lucas fala de muitas mulheres, sem nominá-las: “As mulheres que tinham ido com Jesus desde a Galiléia, foram com José para ver o túmulo, e como o corpo de Jesus tinha sido colocado. [...] Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. Também as outras mulheres que estavam com elas contaram essas coisas aos apóstolos”. (Lc 23,55; 24,10).
Mas certos elementos são comuns a todos os evangelhos: Maria Madalena consta de todas as narrativas: a que mais ama é a que mais está presente.
Tiramos disso a conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até ao Calvário, até o escândalo da cruz e além dela! Contrariando todas as expectativas da época, em que o Rabi só podia ter discípulos homens, Jesus foi ousado e não teve somente discípulos homens; teve muitas discípulas mulheres, aliás, mais assíduas, mais fieis, mais corajosas do que os próprios homens e, ter discípulas mulheres era proibido aos mestres judeus. E as mulheres sempre se revelaram mais assíduas, mas amorosas, mais presentes, menos covardes. Jesus teve mulheres amigas muito queridas, como as irmãs Marta e Maria, e manifestou por elas amizade humana, intensa, profunda e publicamente (Lc 10,38-42; Jo 11,5.33; Jo 12,1-8). Jesus teve centenas de mulheres discípulas (Lc 8,1-3; cf Mc 15,40-41). 
Infelizmente, outras gerações, inclusive a nossa, nos nossos tempos, fizeram questão de diminuir a importância das discípulas de Jesus na tradição, e a Igreja sofre até hoje as consequências. As mulheres que foram ver o sepulcro onde Jesus havia sido sepultado saíram de lá ao romper da manhã, ainda que atônitas, com duas certezas: primeiro não havia cadáver no sepulcro. Segundo: que Jesus ressuscitara como dissera. A fé cristã começa no primeiro dia da semana, nas primeiras horas do dia, com uma certeza da vitória. A morte foi vencida e o Salvador não é um defunto. O túmulo vazio é uma realidade. A nossa fé está alicerçada num túmulo vazio.
Com certeza, ninguém esperava a Ressurreição, ninguém, em sã consciência, acreditava na ressurreição! Para os discípulos, a cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível.
Possivelmente, os discípulos colocavam toda a sua confiança no Mestre enquanto ele estava vivo; ele restauraria Israel. Mas, o fim foi trágico, e ele estava depositado num sepulcro. Restava, de imediato, fugir da fúria dos inimigos do Mestre, se escondendo a sete chaves e com as portas e janelas fechadas para não sofrerem represálias dos que julgavam ter vencido aquele que se dizia “Filho de Deus”: “Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam  os discípulos por medo das autoridades...”. (Jo 20,19).
Se somamos a isso o fato que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do domingo, o “primeiro dia da semana”. Nesse meio chega Maria Madalena com a notícia de que o túmulo estava vazio - e ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado. Ressurreição: nem pensar: “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram”. (Jo 20,2). Pedro e o discípulo que não tem nome, identificado somente como “o outro discípulo” se assustaram com a notícia, e mais por curiosidade do que por coragem, saíram correndo em direção ao sepulcro.
O “outro discípulo”, possivelmente mais jovem que Pedro, chegou primeiro no túmulo. 
Chegou primeiro por que era mais jovem ou por que amava mais? Quem ama mais chega primeiro. Ao adentrarem ao sepulcro se depararam com uma cena entre constrangedora pela possibilidade de alguém ter roubado o corpo do Mestre ou de euforia por ter-se cumprido a promessa da ressurreição. O Evangelho de João diz que: ele viu e acreditou. “De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos”. (Jo 20,8-9). O evangelista Lucas é mais categórico: “Ele não está aqui! Ressuscitou!”. (Lc 24,6).
Jesus ressuscitou!  “Ressuscitou!”  Essa palavra ressoa poderosamente atravessando os séculos. Ela pode ter sido a palavra mais poderosa que jamais foi pronunciada.  Entre todas as grandes proclamações da história, nenhuma se compara em grandeza de significação a esta simples afirmação.  Esta declaração levou o espanto e a alegria aos seguidores de Jesus.  Ela se tornou o assunto central da pregação apostólica. 
De fato, cada ponto da Bíblia gira em volta desta ressurreição vitoriosa de Jesus Cristo, deixando a sepultura e o poder das trevas que essa sepultura representava.  Jesus ressuscitou!
Os evangelhos falam sempre da Ressurreição “ao terceiro dia”. Por quê? Porque foi quando os apóstolos fizeram a experiência Pascal! Depois, ao escreverem os evangelhos, vão colocar também nas palavras de Jesus a sua própria experiência. No entanto, estes “três dias” não são simplesmente contagem cronológica, como se Jesus estivesse a “passar tempo” entre a morte e a Ressurreição! Por isso, no evangelho de Lucas, Jesus diz ao ladrão arrependido: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso!” (Lc 23,43). Ou então, no evangelho de Mateus: “Quando Jesus morreu, os sepulcros começaram a abrir-se e os mortos começaram a ressuscitar!” (Mt 27,50-52)
E, no evangelho de João, é clara a linguagem usada para falar do acontecimento salvador da morte de Jesus: “inclinando a cabeça, Jesus ofereceu o Espírito!” (Jo 19,30).
Três dias em que a vida dos discípulos esteve encerrada num sepulcro. Não físico… Um sepulcro daqueles do coração, um sepulcro escuro por dentro, apertado em três paredes que eram a tristeza, a desilusão e o medo. Um sepulcro com estas três paredes frias e escuras tapado por uma grande pedra que era a morte de Jesus. Tirada esta pedra, seria possível saltar fora do sepulcro. Mas quem a poderia remover? Grande como era…
A morte de Jesus tinha-os mergulhado na mais profunda tristeza. Jesus tinha sido a pessoa mais fantástica que tinham conhecido. Por Jesus tinham abdicado de quase tudo, tinham corrido riscos e enfrentado dissabores. E Jesus morreu da pior maneira que pode morrer um amigo e um Mestre… A morte de Jesus tinha-os introduzido na maior desilusão das suas vidas, porque acabar numa cruz era a certeza de que ele, afinal, não era o Messias que eles julgavam! Era apenas mais um Mestre, um Profeta… Especial, sem dúvida, mas não o Messias…
A experiência Pascal dos discípulos “ao terceiro dia” é uma experiência comunitária da presença de Cristo vivo pela inspiração do Espírito Santo da qual brota a consciência da continuidade da sua Missão. “Ao terceiro dia” os discípulos saíram do sepulcro porque nos seus corações foi removida a pedra tumular que lá os encerrava. A morte de Jesus tinha sido Páscoa-Passagem, e não fim! “Ao terceiro dia”, vemo-los sem tristeza, nem desilusão nem medo! Anunciam a Ressurreição de Jesus com desassombro mesmo “debaixo das barbas” dos que o tinham mandado matar. Já não havia nada a temer, nem a chorar! O Evangelho da Vida tinha que ser anunciado. Eles sabiam que era o Evangelho da Vida, porque os tinha feito passar a eles próprios da morte à vida, do sepulcro à liberdade! Jesus era o Senhor da Vida e o Dador da Vida pelo Espírito! Era urgente anunciar e testemunhar a Vida Vivificante de Jesus Ressuscitado!

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