NATAL DE JESUS – ANO “C”
Cor: Branca – Leituras: Is 52,7-10; Sl 97; Hb 1,1-6; Jo,1-18
“E MARIA DEU À LUZ O SEU FILHO PRIMOGÊNITO” (Lc 2,7)
Diácono
Milton Restivo
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“Estando José e Maria ali (em Belém),
completaram-se os dias do seu parto, e Maria deu à luz seu filho primogênito, e
envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura por não haver lugar para eles na
estalagem.” (Lc 2,6-7).
O Anjo Gabriel
havia visitado Maria em sua pequena e pobre casa de Nazaré e lhe anunciara que
ela fora escolhida pelo Senhor para ser a Mãe do Salvador. Nove meses depois da
visita do Anjo, Jesus nasce na gruta de Belém.
Para relembrar
esse maravilhoso acontecimento, em todos os fins de ano o povo faz festas bonitas,
presépios de todos os tamanhos e formas. E isso é bom. Isso é ótimo. Quando
fazemos isso é porque queremos festejar a data natalícia de Jesus, o Filho de
Maria.
Mas, quando
essa data acontecer, convém que saibamos que o presépio real onde Jesus nasceu
não era nem um pouquinho bonito.
O local onde
Maria deu à luz a Jesus era pobre, paupérrimo e chocante, sem conforto e sem
condições de recepcionar qualquer ser humano que estivesse nascendo, muito
menos o Filho de Deus que se fazia homem, “a
Palavra que se fez homem e veio habitar entre nós”. (Jo 1,14).
Porque Maria
teve que se submeter a tanta humilhação, tanto sofrimento, e Jesus teve de
nascer ali, entre animais, e ser colocado num cocho de animais que lhe serviu
de primeiro berço?
Você, mulher,
que é mãe e que preparou da melhor forma possível o enxoval de seu pequenino
filho, e que lhe deu à luz num quarto de hospital, atendida por médicos e
enfermeiras, tendo ao seu lado e lhe dando todo apoio necessário os seus
familiares, como você se sentiria se tivesse de dar á luz ao seu filho ou filha
nas condições que Maria deu à luz a Jesus? E, principalmente, pela ingratidão
do ser humano? Você já parou para pensar nisso?
E você, que é
pai, se você estivesse no lugar de José, ver a sua esposa dar à luz num curral
de animais, sem assistência, sem higiene, cheirando a urina e estrume de
animais e sem segurança?
E qual foi a
água usada para que Maria higienasse o recém-nascido e lhe desse o primeiro
banho nas condições em que ele nasceu se não fosse a água contida no cocho onde
os animais saciavam a sua sede, ou numa possível poça de chuva que tivesse
caído durante a madrugada?
Mas, porque
Jesus teve de nascer ali, nessas condições?
A ordem do
imperador, vinda lá de Roma, era clara. Para saber quantos súditos o imperador
tinha, ele obrigou a todos os povos que estavam sob seu domínio se inscreverem
na cidade onde cada um havia nascido; e a família de José era a de Davi, de
Belém, e, por isso não teve outro jeito: José teve de sair da cidade de Nazaré,
aproximadamente cento e trinta quilômetros de distância, e levando sua esposa,
Maria grávida de mais de oito meses, e se dirigir até a cidade de Belém para
ser recadastrado (cf. Lc 2,1-3).
Será que temos
condições de imaginar como foi incômoda, para Maria, essa viagem?
Era o jeito que
o imperador de Roma tinha para saber e para satisfazer o seu desejo de poder,
quantas pessoas existiam na Judéia naquele tempo. Por isso José viajou para
Belém, terra natal de Davi, de sua família, pois ele pertencia à família de rei
Davi, levando consigo Maria, sua esposa, grávida de mais de oito meses (cf Lc
2,4).
Viagem longa,
de mais de centro e trinta quilômetros, e as estradas (se é que existiam) por
onde deveriam passar eram perigosas, no deserto, cheias de ladrões e animais peçonhentos
e selvagens. E nos contam as Sagradas Escrituras que, quando José e Maria
chegaram à cidade de Belém, Maria, praticamente, já estava em trabalho de
parto, e não encontraram lugar para se hospedarem nos hotéis, ou pensões,
porque esses lugares estavam reservados para quem pudesse pagar a estadia. Também
não encontraram lugar em casas de família (Lc 2,7), porque, afinal de contas,
não passavam de dois andarilhos, mal trajados que, possivelmente não inspiravam
confiança, e quem abriria as portas para receber um casal nessas condições?
Será que nos nossos dias é diferente?
Diz o
evangelista que, ao chegarem na cidade de Belém, completaram-se o tempo de
Maria dar à luz (Lc 2,6-7), isto é, como já dissemos, Maria já estava em
trabalho de parto.
E, claro,
Maria não estava bem. José precisava encontrar, com urgência, um lugar para que
Maria pudesse descansar dos incômodos da viagem, principalmente por já ter
chegado ao final de sua gravidez. Na rua eles não poderiam ficar. Como não
acharam acomodações em um lugar decente, possivelmente José lembrou-se de um
abrigo de animal por que passara quando entrou na cidade, um pouco afastado do
centro de Belém, um lugar onde os animais passavam a noite.
E José não
pensou duas vezes, e para lá se dirigiram. E foi ali, daquele lugar, com falta
total de acomodações, de conforto e de higiene que Maria deu à luz; e foi ali
que Jesus nasceu: no estábulo somente José e Maria, e agora também... Jesus.
E hoje, nos
nossos dias, quantos meninos Jesus nascem nessas condições: debaixo das pontes,
dos viadutos, nas favelas, nas portas dos hospitais e prontos socorros, e
muitas vezes até nas escadarias das igrejas, porque não tem, para eles, lugar
nas estalagens, nas casas daqueles que se dizem cristãos... As portas continuam
sendo fechadas para eles... Para os Josés, para as Marias...
Hoje, quando,
uma moça vai ter o seu primeiro filho, sua mãe está ali do seu lado para
ajudá-la, para apoiá-la, para lhe dar o conforto tão necessário nesses primeiros
momentos de uma mãe que tem o seu primeiro filho.
Em Belém, com
Maria, quando nasceu o seu primeiro filho, o primeiro e único, com Maria estava
somente José e não mais ninguém; só os animais que ali pernoitavam. A família
de Maria estava longe, lá em Nazaré, a centro e trinta quilômetros de
distância.
O Menino que
nascera nesse ambiente e situação tão deprimente, foi enrolado em alguns panos
e colocado em um cocho, onde os animais comiam ração e, como colchão e
travesseiro, foi-lhe improvisado feixes de capim (Lc 2,7). Somente os pastores,
homens pobres e discriminados pela sociedade, vieram de longe lhe fazer a
primeira visita (Lc 2,8-12).
Não apareceu
nenhuma pessoa de importância do lugar: somente gente pobre mesmo. Só os pobres
pastores visitam o Menino Jesus pela primeira vez... Só os pobres; tudo pobre.
Os poderosos,
os governantes, os doutores da lei, os ricos, ninguém tomou conhecimento do
nascimento de Jesus.
Será que
caberia na cabeça dessa gente, que se julgava importante, que Jesus, o Filho de
Deus, o Messias prometido e esperado, o Rei dos Reis, teria nascido numa gruta
de Belém e estava deitado num cocho onde os animais comiam? Se alguém lhes
contasse isso, eles, os ricos e poderosos, poderiam julgar que não passava de
uma piada, e uma piada de muito mau gosto, e teriam rido muito dessa piada.
Será que os ricos e poderosos poderiam acreditar que o Senhor Nosso Deus teria
realizado a sua promessa de mandar o Salvador, por meio daquela pobre moça de
Nazaré, sem ter falado com eles, sem ter pedido a opinião deles, sem ter
consultado os doutores da Lei e que, aquele menino deitado no cocho de um
curral fosse realmente o Messias esperado há tanto tempo e que viera para salvar
o povo judeu da opressão dos estrangeiros, conforme acreditavam eles?
Os entendidos,
os poderosos, os ricos, os doutores da Lei, no seu orgulho e prepotência, jamais poderiam aceitar isso. Mas,
que absurdo isso acontecer. Somente os ignorantes, os pobres, os humildes, os
simples, os pequenos, os renegados pela sociedade conseguem levar a sério uma
notícia como essa e acreditar nela.
E tudo o que
estava acontecendo já havia sido profetizado, tudo estava contido nas Sagradas
Escrituras. Os doutores da Lei sabiam de tudo o que os profetas haviam
adiantado sobre a vinda do Messias, o nascimento do Salvador do gênero humano,
mas, onde já se viu: o Filho de Deus nascer de uma família pobre, no meio dos
pobres, escolher os pobres para visitá-lo no dia de seu nascimento, chamar os
ignorantes para anunciar que a salvação já havia chegado.
Como poderia o
Filho de Deus nascer dessa maneira, sendo que ele, segundo o entendimento dos
ricos e poderosos, deveria ter nascido, ou no palácio do rei Herodes, ou no
palácio do governador de Jerusalém, ou em qualquer outro palácio que quisesse
nascer, rodeado de todas as honrarias, mordomias e conforto. Então porque o Rei
dos Reis escolheu nascer assim?
Isso jamais
coube na cabeça dos ricos, dos grandes, dos poderosos. Hoje até que eles
aceitam, porque é um fato consumado, mas continuam não entendendo o porque o
Senhor Nosso Deus preferiu os pobres para com eles conviver e chamá-los para o
seu Reino; porque Deus fez isso, se o poder terreno está totalmente nas mãos
dos ricos e poderosos?
Mas, voltemos
ao presépio, aos presépios que fazemos hoje para relembrar o nascimento de
Jesus. Na época em que festejamos o nascimento de Jesus, as igrejas costumam
montar os seus presépios e muitas casas particulares também montam os seus
presépios. Muitas famílias, de longa data têm esse costume, ou por devoção, ou
por promessa. Procuram retratar o nascimento de Jesus com imagens de gesso e
com brotos de arroz servindo de capim e serragem de madeira como se fosse o
chão e as estradas. Os presépios buscam nos levar de volta ao acontecimento
real, que é o nascimento de Jesus.
Um presépio,
por mais artístico que seja, por mais bem feito que seja, jamais nos retratará
com fidelidade tudo aquilo que realmente aconteceu naquela noite fria de
ausência total de amor humano na gruta de Belém. Os presépios dão-nos apenas
uma vaga idéia.
É melhor
termos o presépio para nos lembrar aquela noite do que nada ternos que nos
recorde a maior ingratidão do gênero humano: é melhor termos o presépio do que
nada termos e deixarmos que a nossa imaginação se perca e esqueçamos da noite
em que a humanidade ingrata recebe das mãos de Maria aquele que viera para
tirar o pecado do mundo.
Convenhamos, o
presépio é muito frio, é tudo gesso, pedra, pau, serragem, broto de arroz e
fantasia, e não nos dá aquele calor necessário para compartilharmos dos
sofrimentos do santo casal, José e Maria, para chegarem até ali e depois, da
alegria de ver nascido aquele que seria o Caminho que nos levaria à verdade, da
Verdade que nos daria a vida, e da Vida que jamais se extinguiria.
A melhor
maneira de entendermos bem um presépio, de partilharmos das alegrias e
tristezas de Maria e José, de ouvirmos realmente o choro do Menino Jesus que
estava envolto em paninhos e, principalmente, para vivermos realmente o
nascimento de Jesus e dele nos lembrarmos com vergonha de te-lo deixado nascer
como nasceu.
A melhor
maneira de entendermos bem o presépio é visitarmos uma favela, uma família
necessitada, uma família que mora num barraco, muitas vezes não muito longe de
nossa própria casa, e vermos que ainda hoje o drama de Belém continua
acontecendo: crianças, como Jesus, continuam nascendo em locais sem o mínimo
necessário de higiene e de conforto, de calor humano, de aconchego da família, sem
a atenção das autoridades civis e religiosas e sem o calor do amor dos que
festejam o natal voltados para o consumismo, presentes, bebidas, comidas,
esquecendo-se do que diria João Batista mais tarde no deserto: “Quem tiver
duas túnicas dê uma a quem não tem; e quem tiver comida faça o mesmo”. (Mc
3,11).
E essas
favelas, essas famílias necessitadas estão mais perto de nossas casas, mais
perto de nós do que podemos pensar. Quando acontece a noite de natal, todos nos
reunimos para festejar o nascimento do Menino Jesus. Nessa oportunidade sempre
colocamos a nossa melhor roupa, nos dirigimos até a igreja de carro ou de
ônibus, ou mesmo a pé, e sempre participamos da liturgia do nascimento de Jesus
numa igreja toda iluminada, toda enfeitada de flores, toda decorada, com a
apresentação de um coro de vozes maravilhosas e muitas vezes vestido a rigor e,
no presépio, na frente do altar, um Menino Jesus de gesso, com os olhos azuis,
com a pele clara como leite, com os cabelinhos encaracolados e loirinhos,
apenas vestido com uma fraldinha, de braços abertos e a nos sorrir, numa
atitude acolhedora, como se essa fosse a realidade.
E, depois de
havermos participado dessa liturgia de natal, muitos de nós voltamos para casa,
participamos de uma ceia, de uma reunião familiar, reunião de amigos e, comendo
e bebendo, comemoramos o Cristo que nascera em Belém. Tudo isso
parece bom.
Mas, nessa
oportunidade, em que está acontecendo tudo isso, nessa mesma noite, quantos
Meninos Jesus que nasceram e estão nascendo nas favelas, nos barracos, debaixo
das pontes, rejeitados pela sociedade como foi o próprio Jesus que comemoramos
o seu nascimento com tanta fé, ou com tanta... Gula... Quantos Meninos Jesus
nasceram e nascem no exato momento em que comemoramos, na igreja enfeitada e
iluminada, o nascimento de Jesus, não como ele realmente nascera, porque, hoje,
nós o fazemos nascer em igrejas iluminadas e enfeitadas; mas sabemos que não
foi bem assim. Quantos Meninos Jesus, brancos e pretos nasceram e nascem no
exato momento em que cantamos o Glória e, em que distorcidamente comemorávamos
o nascimento do Senhor.
Meninos Jesus
brancos e negros que nasceram e nascem nas favelas, nos barracos, debaixo das
pontes, sem assistência médica, nas portas dos hospitais e pronto-socorros, sem
higiene, sem calor humano, assim como nasceu o Menino Jesus no curral de Belém.
Os Meninos
Jesus dos nossos dias, que não tem a pele clarinha nem os olhos azuis e nem os
cabelos tão loiros como o Menino Jesus dos nossos presépios, mas tem a pele
morena ou preta, os olhos negros e os cabelos pretos e encaracolados. Esses
Meninos Jesus que continuam nascendo nas favelas, nos barracos, debaixo das
pontes, sem qualquer assistência fraterna, médica, humana ou governamental, da
mesma forma que nasceu Jesus, o filho de Maria.
Podem crer: no
dia do nascimento de Jesus os palácios de Belém e Jerusalém e as casas dos
ricos e poderosos daquelas cidades também deveriam estar todos iluminados e
promovendo festas, e Jesus, o filho de Maria nascia rejeitado por tudo e por
todos num abrigo de animais, sendo colocado num cocho de animais, porque não
havia para ele sequer um berço decente.
Os nossos
natais não são diferentes da noite do nascimento de Jesus; na nossa ânsia de
comemorar festivamente o nascimento de Jesus, ignoramos os pequeninos Jesus que
nascem hoje da mesma forma que nasceu Jesus a dois mil anos atrás.
A humanidade,
de lá para cá, não modificou quase nada.
As nossas
casas, no natal, estão iluminadas, com luzes que ascendem e apagam nos
alpendres e nas árvores, veneramos um Menino Jesus de gesso no presépio e
ignoramos e rejeitamos os Meninos Jesus que nascem, hoje, nas favelas, nos
barracos e debaixo das pontes.
Participamos das
liturgias do natal em igrejas extremamente lotadas, iluminadas, enfeitadas e
decoradas, enquanto que, na escuridão da noite, às vezes até nas escadarias das
igrejas, continuam nascendo, das pobres e sofridas Marias, sob a proteção dos
cansados e desiludidos Josés, os Meninos Jesus brancos e negros, que também, como
Jesus de Nazaré, são colocados, por falta de berço, no chão, porque o egoísmo
do mundo, a opressão dos homens e a falsa fé e destorcida crença de muitos não
lhes deram a oportunidade de ter sequer um berço onde possa repousar sua cabeça
no primeiro dia em que participam da vida neste vale de lagrimas.
É claro, é
necessário participar de tudo o que a nossa igreja nos oferece, nos sugere e
nos incentiva, mas não podemos ficar só nisso; Jesus continua nascendo nos
arredores da nossa cidade, na vizinhança de nossas casas, nas escadarias das
nossas igrejas, nas portas dos hospitais e pronto-socorros como nasceu nos arredores de Belém.
Se quisermos entender
o que seja o natal verdadeiro, é o próprio Senhor Jesus quem nos diz: “O que você fizer a um desses pequeninos é a
mim que você está fazendo”.
O verdadeiro
natal, o natal verdadeiramente cristão é aquele em que vamos ao encontro de
Jesus na pessoa do pobre e do necessitado.
O Natal chegou.
Será que não
seria interessante, começarmos, desde agora a preparar o nosso natal, não
deixando, a partir de hoje, que o Menino Jesus, na pessoa do pobre e
desamparado, continue nascendo sem assistência médica, sem higiene e sem calor
humano? Ou vamos continuar nos enfeitando, bebendo e comendo no natal, e que os
Meninos Jesus dos nossos dias continuem nascendo da forma que o verdadeiro
Menino Jesus nasceu... ... ...
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