domingo, 22 de novembro de 2015

JESUS CRISTO É REI.


CRISTO, REI DO UNIVERSO.
XXXIV OU ÚLTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM DO ANO B


“TU O DIZES, EU SOU REI...” (Jo 18, 37).


Jesus Cristo é Rei.
É ele mesmo quem se proclama rei: “Tu o dizes, eu sou rei.” (Jo 18,37).
Jesus foge quando o povo, num momento de glória, quis proclamá-lo rei e, por ironia, proclama-se rei no momento mais doloroso de sua vida. Quando Pilatos pergunta-lhe se ele era realmente “Rei dos Judeus”, havia uma ironia nessa pergunta; Pilatos não estava preocupado com a verdade; talvez até quisesse se divertir à custa daquele homem das dores em sua presença, já profetizado por Isaias: “Tão desfigurado estava o seu aspecto e a sua forma não parecia de um homem...” (Is 52,14).
Que ironia: um rei coroado com uma coroa de espinhos, tendo sobre os seus ombros um manto emprestado, como cetro, na mão, um pedaço ridículo de cana e como trono um tronco onde foi amarrado para ser açoitado...  
Um rei todo machucado, com a carne dilacerada, com os olhos inchados, com a aparência de um condenado, por isso “Nós o tínhamos como vítima do castigo, ferido por Deus e humilhado.” (Is, 53,4); “Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro conduzido ao matadouro.” (Is 53,7).
Um rei com o rosto coberto de escarros da soldadesca violenta, embriagada e nojenta, com os cabelos em desalinho, com as mãos amarradas, com a pele e a carne dilaceradas pela violência dos açoites, com os pés descalços. 
          Sua aparência era real e total de um condenado, traído e abandonado até pelos seus discípulos e pelos seus amigos escolhidos à dedo: os Apóstolos, aqueles mesmos que lhe afirmaram numa profissão de fé:. “Senhor, a quem iremos? Tens palavra de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o santo de Deus”. (Jo 6,68). 
Um rei traído por um de seus Apóstolos, Judas Escariotes, e negado pelo mesmo Pedro Apóstolo que dias antes lhe dissera: “Ainda que todos se escandalizassem por tua causa, eu jamais me escandalizarei.” (Mt 26,33). Jesus, conhecedor da fragilidade da natureza humana, faz uma terrível revelação para o pseudo valente e destemido Pedro: “Em verdade te digo que esta noite, antes que o galo cante, me negarás três vezes.” (Mt 26, 34). 
E Pedro, na sua pseuda coragem e bravatisse, levanta-se, bate no peito e afirma categoricamente: “Mesmo que tiver de morrer contigo, não te negarei.” (Mt 26, 35).
Pobre Pedro. Tristemente, Pedro é a imagem de tantos cristãos dos nossos dias, para não dizer de cada um de nós... E, durante o julgamento, Pedro lá estava, disfarçado, tremendo de medo, escondido em um canto para que não fosse reconhecido como um “seguidor do condenado”.
Reconhecido por uma criada, antes que o galo cantasse, Pedro nega Jesus por três vezes, como Jesus lhe havia profetizado: “Não conheço esse homem.” (Mt 26,69.74).  
Mas o olhar de Jesus, apesar do sofrimento e da desilusão de se ver negado pelo Apóstolo que jurara de pés juntos que “mesmo que tiver de morrer contigo, não te negarei.” (Mt 26,35), aquele mesmo olhar permanecia tranquilo, como tranquilo foi o olhar de Jesus dirigido a Pedro após a sua tríplice negação: “Imediatamente, enquanto ele (Pedro) ainda falava, o galo cantou, e o Senhor voltou-se, fixou o olhar em Pedro.” (Lc 22,60); um olhar tão tranquilo e cheio de paz que alcançava profundamente o íntimo de cada pessoa e “Pedro se lembrou da palavra que Jesus dissera: ‘Antes que o galo cante, três vezes me negarás.’ Saindo dali ele chorou amargamente.” (Mt 26,75).
Jesus, um rei que havia sido traído e negado por seus súditos. 
Um rei que havia sido açoitado.  Um rei que havia servido de gozação por parte da soldadesca embriagada que escarnecia dele, dizendo: “Salve rei dos judeus.” (Mt 27,29).
Um rei com uma grande coroa de espinhos na cabeça que lhe rasgava o couro cabeludo e penetrava profundamente nos ossos, na testa, nas frontes, na nuca, causando os mais terríveis sofrimentos e dores.
Aquele homem, naquele estado, antes de se dizer rei, devia pedir clemência, tinha de implorar misericórdia; mas não: ele se mantém digno, de pé, com uma postura e dignidade que somente um rei poderia ter: uma dignidade que perturbava a todos os seus acusadores e impressionava os seus julgadores que não tinham tanta certeza se deveriam condená-lo ou não.
Uma dignidade tal que somente um rei poderia ter, mas não um rei deste mundo, e sim um REI que tinha algo de sobrenatural, uma missão a cumprir e, aquelas cenas, aquele sofrimento, aquele julgamento estavam enquadrados nos planos de sua missão.
Pilatos, na sua prepotência e gozação, não perde a oportunidade e pergunta: “Então, tu és rei?” (Jo 18,37). Mas a resposta que Jesus lhe dá não é a mesma que ele esperava e o surpreende; e Jesus responde: “Tu o dizes, eu sou rei.” (Jo 18,37), e continua, afirmando: “Para isso nasci e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz.” (Jo 18,37). E afirma categoricamente: “Meu reino não é deste mundo...” (Jo 18,36).
Pilatos deve ter se impressionado com essas respostas, mas ainda surpreso, mas não convencido das grandes verdades ditas por Jesus quanto ao verdadeiro reino que ele veio trazer ao mundo para os homens e, possivelmente para atingir com sua “gozação” também os fariseus, escribas, sacerdotes e chefes do povo judeu, manda fazer uma tabuleta para colocar na cruz onde Jesus seria crucificado com a seguinte inscrição: “Este é Jesus, o rei dos Judeus.” (Mt 27,37), assinando, assim a sua condenação e assumindo a culpa de estar compartilhando, pelas suas atitudes dúbias, com a morte do REI DO UNIVERSO.
Pilatos e o povo judeu não esperavam jamais que aquele que fora escarnecido, julgado, condenado, açoitado cruelmente e crucificado como marginal e elemento nocivo à sociedade, à religião e ao governo, três dias depois ressuscitaria dos mortos e estabeleceria o seu Reino que não é deste mundo, mas o Reino dos Céus, o Reino de Deus... 
E um dia todos “verão o Filho do Homem vindo entre as nuvens com grande poder e glória.” (Mt 13,26), e, “quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os anjos com ele, ele se assentará no trono de sua glória. E serão reunidas em sua presença todas as nações. E ele separará os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e porá as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.” (Mt 25,31-33).
E, naquele dia todos verão o poder e a majestade do Senhor Jesus.
E não somente naquele dia, mas, nós, que aderimos à verdade, que somos da verdade, que ouvimos a verdade e que vivemos a verdade e sabemos que a verdade suprema é Jesus Cristo, o Messias: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” (Jo 14,6) compartilhamos deste poder e nos inclinamos, em adoração, diante da majestade infinita de Jesus Cristo, O Rei dos Reis, o Rei do Universo.
Hoje e todos os dias de nossa vida temos por Rei e Mestre somente Jesus, e é por meio desse Rei que nos tornamos herdeiros do Reino dos Céus e chegamos ao Senhor Nosso Deus e Pai: “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim.” (Jo 14,6).
Se quisermos com Jesus reinar, devemos também, como ele, passar pelas incompreensões, humilhações que o mundo lhe proporcionou e nos proporciona; não estamos isentos do sofrimento pela nossa total adesão ao Cristo; se quisermos com ele sermos transfigurados como ele o foi no monte Tabor (Mt 17,1-8; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36), devemos também, com ele, passar pelo Getsamani (Mt 26,36-46; Mc 14,32-42; Lc 22,40-46; Jo 18,1) e subir com ele ao Calvário para, com ele, sermos crucificados (Jo 19,17-37; Mt 27,31.33.37-38; Mc 15,20.22.25-27; Lc 23,33.38).
O reino de Jesus não é deste mundo e é bem por isso que o mundo não o reconhece como Rei e Senhor. Um dia todos dobrarão os joelhos em sua presença “... ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos seres celestes, dos terrestres e dos que vivem sob a terra, e, para a glória de Deus Pai, toda língua confesse: Jesus é o Senhor.” (Fl 2,10-11), porque: “A ele foi outorgado o império, a honra e o reino, e todos os povos, nações e línguas o servirão.  Seu império é um império eterno que jamais passará e seu reino jamais será destruído.” (Dn 7,14).
Todos os cristãos, que quiserem assumir realmente o seu batismo, que quiserem assumir o seu cristianismo têm que reconhecer que Jesus Cristo é Rei.
O cristão deve ter o coração puro porque é num coração puro que Jesus Cristo, Rei, estabelece o seu trono e é através dali que ele reina no mundo e nos leva ao Pai: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”. (Mt 5,8).
Todos os cristãos, quando batizados, tornam-se reis com e em Jesus Cristo.
Jesus Cristo é rei porque “... veio a este mundo para dar testemunho da verdade, e quem é da verdade escuta a sua voz.” (Jo 18,37), e nós, cristãos, a exemplo de Jesus Cristo, somos reis na medida em que estamos neste mundo dando o testemunho da verdade, ouvindo a verdade, vivendo a verdade, levando a verdade a todos os irmãos.
Nós somos reis na medida em que vivemos a vida ensinada por Jesus Cristo. E sabemos pelas Sagradas Escrituras e dos escritos dos Apóstolos que não é fácil seguir as pegadas do Divino Mestre. Todos os Apóstolos seguiram as pegadas do Divino Mestre e foram escarnecidos como o Mestre, humilhados como o Mestre e acabaram suas vidas como o Mestre: perseguidos e mortos violentamente por pregarem a verdade e assumirem a sua fé.
Ai está o problema: se quisermos ser reis com Jesus Cristo, participar do Reino de Deus como o Mestre ensinou, temos que, como ele, abraçar a nossa cruz e seguí-lo por onde quer que ele vá ou nos leve: “quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16,24), e “quem põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.” (Lc 9,62).
Se quisermos chegar até Deus Pai e reinar com Jesus Cristo, assumamos a nossa vida de verdadeiros cristãos com todas as suas consequências, com todas as suas alegrias e espinhos.
A vida do cristão tem muitas vezes a alegria da transfiguração do Monte Tabor (Mt 17,1-13), mas sempre vai ter a dolorida subida ao Monte Calvário com a inevitável crucificação (Jo 19,17-37). A vida do cristão tem as alegrias do nascimento de Jesus em Belém (Lc 2,1-20), mas tem também as apreensões, os horrores e as tristezas da matança dos inocentes pelo sanguinário Herodes e a fuga para o Egito (Mt 1,13-18). 
A vida do cristão tem a entrada triunfal em Jerusalém, (Mt 21,1-11) mas também tem o sofrimento da flagelação e da coroação de espinhos (Mt 27,28-31).
Apesar de tudo isso, não podemos nos esquecer que, depois da morte de cruz vem a ressurreição e é através da ressurreição que o Senhor Jesus faz cumprir todas as profecias de se tornar e ser o REI DO UNIVERSO.
É através da nossa ressurreição de todos os dias e de cada dia, do nosso cair-e-levantar que nos tornamos herdeiros do Reino dos Céus onde Jesus Cristo reina por todo o sempre, como vemos na segunda leitura desta nossa liturgia: “Jesus Cristo é a testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o soberano dos reis da terra. A Jesus que nos ama, que por seu sangue nos libertou dos nossos pecados e que fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai, a ele a glória e o poder, em eternidade. Amém. Olhai! Ele vem com as nuvens e todos os olhos o verão, também aqueles que o traspassaram. Todas as tribos da terra baterão no peito por causa dele. Sim. Amém! ‘Eu sou o alfa e o ômega’, diz o Senhor Deus ‘aquele que é, que era e que vem, o TODO PODEROSO”. (Apo 1,5-8).

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